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Yoga na Laje: a prática de meditação na Rocinha

Yoga na Laje: a prática de meditação na Rocinha

By admin in Dossiê Yoga e Meditação on julho 28, 2020

Dossiê Yoga e Meditação

Por Taís Dias Capelini

Tanto “meditação” quanto “yoga” são palavras que cabem a vários entendimentos, práticas e origens variadas. São termos polissêmicos e ambíguos, cujas tentativas de definições escapam das categorizações totalizantes. Se há algum tempo estiveram associados às tradições orientais e ao campo da Nova Era, hoje estão na moda, na mídia, nas grandes empresas e nas favelas. A permeabilidade característica dessas práticas – ou prática, no singular, considerando a meditação como sinônimo e extensão do yoga – foi justamente o que despertou em mim o interesse em desenvolver a pesquisa a intitulada “Yoga na Laje: Gangā deságua na Rocinha”(1). Trata-se de um projeto que nasceu na laje de uma das favelas mais emblemáticas do Rio de Janeiro, oferecendo práticas de yoga no local desde 2012. O exercício analítico proposto consistiu em deslocar a pergunta sobre o que é yoga para como se faz yoga. Mais especificamente: como se pratica yoga na Rocinha. Pensando o yoga enquanto uma instância interseccional(2), analiso a reinterpretação da tradição cultural relacionada ao yoga apontando os usos e efeitos desse conjunto de práticas, que percorrem fluxos, transcendem tempos, perpassam corpos e culturas.

A partir dos dados elaborados durante o trabalho de campo, constatei que o perfil dos praticantes é diverso e há uma multiplicidade de buscas e motivações que fazem com que as pessoas se aproximem e permaneçam no projeto. No entanto, foi possível perceber que grande parte das pessoas que compõem o Yoga na Laje são mulheres negras (3), na faixa dos 44 anos de idade, que buscam o yoga principalmente por questões ligadas à saúde. O projeto é valorizado como um espaço de cuidado e promoção de bem estar através do qual se tem acesso às práticas gratuitamente, caso contrário seria preciso “sair da Rocinha e pagar um custo alto”, pois “se a gente quer viver bem, comer bem, infelizmente tem que ter grana”, como destacou um das interlocutoras(4). A confirmação da associação do yoga como uma atividade terapêutica também acontece com a chegada de pessoas para as práticas por meio de indicações de profissionais de saúde(5), como médicos da Clínica da Família, terapeutas e psicólogos. 

Um dos desdobramentos desse encontro é que aos professores e professoras de yoga é atribuído – mesmo que não tenham a intenção ou vocação – um papel importante na escuta e aconselhamento. Muitas vezes, os relatos relacionados a dores ou doenças vem acompanhado de uma crítica às instituições e à racionalidade médica convencional, denunciando uma série de descasos e violências, enquanto os instrutores de yoga são vistos como um elo para que algum tipo de cuidado se efetue. Além disso, ainda que haja uma distância nas trajetórias e realidades entre alunas e professoras(6), existe uma solidariedade afetiva em “ser mulher” (7) pela qual outras dimensões de suas vidas são reveladas. É no contexto da prática que elas compartilham seus problemas, angústias, alegrias, confiam segredos, desabafos, pedem conselhos, enfim, adentram em um campo de afeições em que se sentem de modo similar e inscrevem nessa condição um viés também político quando questionam aspectos estruturantes do social, como o machismo por exemplo. Assim, na tessitura dessas relações, o Yoga na Laje se transforma em um espaço de apoio e pertencimento, que reconfigura as identidades(8), traçando outras formas de sociabilidades e ressignificando as diferentes redes que perpassam o projeto.

Por outro lado, ainda que grande parte das pessoas busque o yoga por questões de saúde, também vê essa prática como algo “espiritual”, que traz “energia positiva” e “paz de espírito”. A plasticidade em torno do yoga possibilita, portanto, que suas práticas sejam experimentadas por um viés dessacralizado, ao mesmo tempo em que podem ser vivenciadas enquanto um ritual(9) imbuído de aspectos que tangenciam o viés religioso, marcado por trajetórias e trânsitos distintos. Aqui ressalto a marcação da diferença com relação ao campo da Nova Era (10), cujas principais características não encontram ressonância no contexto do projeto. Um ponto que me parece fundamental é que, quanto aos praticantes da Rocinha, não há uma desvinculação das religiões ou doutrinas tradicionais. Ao contrário, é significativo que a maior parte das pessoas se insere no vasto campo do catolicismo e pentecostalismo brasileiro. Embora isso não seja um impeditivo para que os sujeitos possam vivenciar o yoga como uma prática complementar as suas crenças, como é o caso de uma evangélica que há anos vai escondida às práticas de yoga; do ex-mulçumano que hoje “crê em Deus como uma manifestação”; dos jovens sem religião que veem no yoga uma abertura para um novo sentido à vida, dentre tantas outras trajetórias que são cotidianamente contadas e reinventadas pelos praticantes.

É através de seus corpos que o yoga atravessa tempo e espaço num fluxo vivo e contínuo como Ganges, que nasce na Índia, chega ao Brasil formando uma ampla rede que tem como um dos pontos de referência o Rio de Janeiro até desembocar na Rocinha, onde há um reconhecimento: “isso aqui é que nem a Índia”, dizem. Nesse movimento, o yoga tece uma dimensão própria dos saberes transculturais e ao mesmo tempo interseccionais, operando através de forma ambígua e produtiva, permitindo a incorporação e recriação de uma tradição pulsante que é reinterpretada a cada prática. Nos entrecruzamentos elaborados a partir dos limites do corpo são construídas gramáticas e narrativas que se misturam e se refazem no e pelo yoga – este corpo de práticas e conhecimentos que invoca paradoxos e recria travessias, se inscrevendo sempre no campo das possibilidades. 

***

Taís Dias Capelini é graduada em comunicação social pela Unesp,  pós graduação em sociologia urbana e mestre em ciências sociais pelo PPCIS da UERJ.  

 

NOTAS

(1) Trabalho etnográfico realizado entre 2014 a 2017 em que analiso o projeto Yoga na Laje que acontece na Rocinha desde 2012. Um dos pontos que me chamou atenção foi o fato deste ter sido um projeto pioneiro em oferecer essas práticas em uma favela. Hoje já existem outros projetos consolidados nesses espaços como, por exemplo, Yoga na Maré (2015), Yoga no Alemão (2015), Yoga de Rua (2016). Vale ressaltar que o Yoga na Laje não faz parte de nenhuma ONG, ou qualquer organização mais formalizada. Trata-se de um coletivo de professores que atua em caráter autônomo e voluntário compartilhando práticas de yoga na Rocinha. 

(2) Ou seja, como um conjunto de práticas que perpassa e articula diferentes campos e domínios, como saúde, religião, ciência, sociabilidade, consumo, entre outros. Por mais que cada uma dessas áreas constitua repertórios e práticas particulares, meu interesse esteve voltado à porosidade dessas fronteiras, mantendo a atenção nas zonas de contato das redes por onde circulam saberes, práticas, pessoas e objetos. 

(3) Os homens também costumam praticar, mas são poucos: são apenas 8 do que total de 75 alunos. À época da pesquisa, a maior parte das pessoas participava do projeto há pelo menos um ano, 2 vezes por semana. Das pessoas com mais de 40 anos, muitas são oriundas da região nordeste que vieram para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades de trabalho. Um ponto que me surpreendeu foi perceber que existem pessoas que não são moradoras da Rocinha mas que se deslocam até lá para frequentar as aulas do Yoga na Laje, o que indica uma certa integração da favela a outros bairros que é estimulada pelo projeto. 

(4) Além de apontar para as desigualdades sociais e de acesso aos serviços básicos de saúde, quando os sujeitos falam sobre a possibilidade de inserção em uma prática fundamentalmente associada às elites, levo em conta a associação do yoga a uma forma de inclusão pelo consumo. Algo que não deve ser considerado fútil ou banal, já que sendo usado como um instrumento de reversão ou amenização de certas representações estereotipadas a respeito da favela e seus moradores pode significar uma forma de exercer um tipo de micropolítica cotidiana. 

(5) Vale lembrar que o yoga se apresenta como uma prática recomendada pela Organização Mundial da Saúde a ser incluída nos sistemas nacionais de saúde de seus países membros, o que rendeu bases para a incorporação do yoga às políticas públicas de saúde no Brasil. Em 28 de março de 2017, a portaria nº 849 do Ministério da Saúde, publicada no Diário Oficial da União inclui na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) atividades como yoga, meditação, ayurveda, entre outras. Dados disponíveis em:  http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/prt_849_27_3_2017.pdf 

Três anos depois (precisamente no da 21 de maio de 2020), quando o mundo é assolado pela pandemia do coronavírus e o Brasil contabiliza mais de 20 mil mortes, o Conselho Nacional de Saúde recomenda ao Ministério da Saúde e aos conselhos estaduais e municipais “que procedam à ampla divulgação das evidências científicas referentes às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS)”, nas quais estão incluídas as práticas de meditação, yoga, ayurveda, entre outras. Disponível em: https://conselho.saude.gov.br/recomendacoes-cns/1192-recomendacao-n-041-de-21-de-maio-de-2020

(6) Até o final da pesquisa, dos vinte professores que passaram pelo projeto, a maioria (16) são mulheres na faixa dos 25 a 35 anos de idade, moradoras de bairros do centro e zona sul da cidade do Rio de Janeiro.

(7) Não há intenção de essencializar ou debater questões relacionadas à identidade de gênero. Uso este termo no sentido do que se poderia esperar no senso comum que sejam as atribuições e situações que envolvam o papel social das mulheres, como ser heterossexual, ter um companheiro, filhos, vivenciar situações sociais semelhantes, etc.  

(8) Como é o caso da aluna que vira professora, da professora que vira amiga e é tratada como “conselheira” ou ainda “como filha”, dentre outras particularidades. 

(9) Enquanto ritual é que a prática de yoga pode ser encarada como uma prática meditativa, mais propriamente dita. Nas fissuras dos dias, o momento da prática de yoga se revela como um tempo e espaço de suspensão, indicando uma contraposição à vida ordinária, uma vez que “é como se fosse um tempinho para cuidar” de si. Assim, as obrigações cotidianas são suspensas, abrindo espaço para um estado de contemplação e um comportamento diferenciado para lidar com as experiências. Os praticantes são constantemente estimulados pelos professores a desenvolver um olhar interiorizado para que percebam as sensações mais sutis que surgem em suas paisagens internas a fim de criarem uma intimidade com esse repertório, pois no instante em que são apropriados e colocados em evidência os pensamentos e emoções adquirem um papel central na compreensão de si.  

(10) Em linhas gerais, entendido como um fenômeno composto por sujeitos que incorporam um ethos, um estilo de vida, similar (com adesão do vegetarianismo, por exemplo) e que estão inseridos nas classes médias urbanas, com alto nível de escolaridade e acesso a bens de consumo, participando regularmente de cursos e workshops que, por sua vez, tornam-se espaços privilegiados de sociabilidade e de relação com o sagrado.

 

1 comment Read The Discussion

Renata
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Excelente texto sobre a interação que a prática do yoga trás para essas comunidades.
“Nesse movimento, o yoga tece uma dimensão própria dos saberes transculturais e ao mesmo tempo interseccionais, operando através de forma ambígua e produtiva, permitindo a incorporação e recriação de uma tradição pulsante que é reinterpretada a cada prática.”
Isso é realmente lindo!
Gratidão.

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