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A divulgação da espiritualidade entre o público leigo

A divulgação da espiritualidade entre o público leigo

By admin in Publicações on julho 14, 2020

 Por Isabela Mayumi

Desde os anos 2000, manchetes sobre a relação entre espiritualidade e saúde vêm ilustrando capas de revistas e matérias de jornais brasileiros: com o passar dos anos, frases como “fé que faz bem à saúde”, “fé que pode curar”, “espiritualidade beneficia a saúde” se tornaram cada vez mais comuns. Minha pesquisa de iniciação científica, intitulada “Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro”, se propõe a analisar precisamente a popularização de textos com o eixo temático espiritualidade-saúde-ciência nos veículos de comunicação nacionais.

A coleta desse material empírico vem se realizando através do arquivo digital das diversas revistas brasileiras que possuem um público amplo, e de jornais tanto de abrangência nacional quanto os principais de cada estado brasileiro, visando não limitar a investigação apenas ao estado de São Paulo. Entre as publicações, destacam-se a grande quantidade de textos que divulgam informações e resultados de pesquisas realizadas, eventos ou congressos médicos que tratam da relação entre espiritualidade e saúde, entrevistas com especialistas da área e até “passo-a-passo de como meditar”. Ademais, com a chegada da pandemia do COVID-19 no país, foram publicados textos que tratam da contribuição de práticas alternativas – sobretudo yoga e meditação – no isolamento social, que passaram a compor o material empírico.

No trabalho realizado, as matérias que asseguram os benefícios físicos e emocionais da fé são postas em termos de “espiritualidade positiva”, ao passo que outras matérias, surgidas a partir de discussões dos malefícios e negligências à saúde baseado nas crenças religiosas e, no caso, espirituais, são enquadradas no termo de “espiritualidade negativa”. Outro aspecto a ser notado é que houve tanto a divulgação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), assim como a inclusão de novas PICs no Sistema Único de Saúde (SUS), como publicações que divulgaram o posicionamento crítico por outras entidades de saúde, como o Conselho Federal de Medicina. Entretanto, apesar da existência de ambas pautas, o que indica que esse terreno não é completamente homogêneo, é perceptível a prevalência da “espiritualidade positiva” na mídia.

Paralelamente à coleta do material empírico, procuramos dar atenção ao caráter de divulgação científica desses textos, bem como voltar o olhar ao próprio contexto que permite a difusão e popularização desse eixo temático no mercado editorial brasileiro. Ao vermos os dados gerais desse segmento, por exemplo, notamos que as as obras de literatura religiosa e de autoajuda são imensamente consumidas, sempre ocupando os postos de “livros mais vendidos”. A literatura de autoajuda, por sua vez, lança mão de argumentos científicos para embasar seu tom normativo, o que indica a autoridade da ciência na sociedade em que vivemos.

Todo esse cenário pode oferecer pistas para caracterizar e contextualizar o presente período. Além da autoridade da ciência, a sociedade contemporânea é fortemente marcada pela individualização dos sujeitos, que se tornam cada vez mais responsáveis por assegurar sua própria saúde e bem-estar, em uma espécie de “médicos de si mesmos”. Os livros mais vendidos no Brasil, a popularização da espiritualidade e, mais recentemente, o aumento da procura por práticas alternativas no contexto de isolamento social acarretado pela pandemia vão de encontro com essas características.

A perspectiva que os estudos sociais da ciência nos oferece é que “há algo por trás” de tudo o que é considerado “senso comum” ou “óbvio” nos dias atuais, e é a partir dessa perspectiva que os passos finais desta pesquisa tem desenrolado a questão da espiritualidade como uma pauta recorrente na mídia brasileira. Assim, outras questões surgiram: quais são os principais argumentos evocados nas publicações das revistas e jornais brasileiros que trazem o eixo temático espiritualidade-ciência-saúde? O que se perde, o que se ganha nessa difusão? O que há de divulgação científica nesse material, e o que há de autoajuda? É possível notar algum pressuposto ideológico por trás dessa popularização? 

Com tais questionamentos pretendemos refinar a contextualização do atual momento, reiterar a maneira como se legitima a espiritualidade entre o público leigo a partir dos argumentos evocados nas publicações em jornais e revistas brasileiro e tecer conclusões acerca do material empírico, indicando quais foram as permanências, tendências e mudanças da divulgação e popularização da espiritualidade entre o público leigo.

Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro

Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro

By admin in Crônicas de pesquisas on setembro 17, 2019

Por Isabela Mayumi

Em junho de 2001, a Revista Veja publicou a matéria “Em busca de Deus”, discorrendo acerca das tentativas dos cientistas de romper as barreiras entre a fé e a ciência. Em fevereiro de 2007, a Revista Galileu publicou “O monge cientista”, focalizando o interesse do 14º Dalai Lama pela ciência como um método complementar ao budismo na busca pela verdade. Anos depois, em novembro de 2013, a revista de curiosidades científicas SuperInteressante publicou “Fé faz bem” e, no mês seguinte, a Revista Saúde É Vital publicou “Fé pode (mesmo) curar”.

Essa sucessão de publicações em revistas de circulação nacional não são as únicas que trouxeram à tona o eixo temático “saúde-espiritualidade-ciência”, e podem ser compreendidas como desdobramentos de um movimento que vem se consolidando há algumas décadas, explorado nas pesquisas que compõem o projeto “Espiritualidade Institucionalizada”. Das pesquisas médico-científicas até a formulação de políticas públicas voltadas à saúde, perpassando a literatura médica e documentos oficiais, é notável um crescente reconhecimento da associação entre espiritualidade e saúde.

Dialogando com este contexto, minha pesquisa buscará analisar os textos de divulgação científica em revistas e jornais brasileiros que veiculam a espiritualidade como um fator positivo à saúde ao chamado “público leigo”. Essas publicações são dedicadas a, por um lado, difundir as pesquisas médico-científicas que dizem respeito aos benefícios da espiritualidade para a saúde e, por outro, positivar a fé no atual cenário brasileiro. Numa breve análise inicial, há uma certa demanda desses textos, algo que pode ser explicado pelo fato de que cada indivíduo pode constituir sua experiência espiritual ao passo do detrimento da adesão a uma prática religiosa institucionalizada.

Como o consumo por parte desse público pode, de alguma maneira, auxiliar na legitimação dos benefícios da espiritualidade à saúde? Quais são os recursos acionados na elaboração de tais textos, sobretudo no mercado editorial brasileiro? E, ademais, quais são as consequências da formulação da espiritualidade como uma questão de saúde? Qual é o trajeto de uma pesquisa, conduzida em uma universidade, até a produção de sua versão de popularização? Quais são os temas mais recorrentes nessas publicações? Quem e quais instituições estão por trás desse fenômeno de popularização? Como isso tem se estabelecido no mercado editorial brasileiro? É através destes questionamentos que pretendo desenvolver minha pesquisa.

Espiritualidade, ciência e saúde são temas-chave identificáveis em passagens de livros e outras mídias, porém as publicações em revistas e jornais no mercado editorial brasileiro se caracterizam, precisamente, pela sua natureza secular. É necessário que haja um especial cuidado para que essas publicações não se confundam com obras de literatura religiosa, bastante consumidas no Brasil, em que a cena religiosa é marcada pelo crescimento evangélico e por outras expressões de fé, embora a maioria da população seja católica. Assim, é preciso compreendermos os mecanismos de divulgação e transmissão de informações dessas publicações, num arranjo ainda provisório e em construção.