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Quando o religioso e o político se encontram: a espiritualidade na mobilização de práticas político-pastorais

Quando o religioso e o político se encontram: a espiritualidade na mobilização de práticas político-pastorais

By admin in Publicações on junho 1, 2021

Por Anna Paula Pedra 

 

Há um mês defendi minha dissertação de mestrado intitulada “Cultivando a espiritualidade: o religioso na prática política dos agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Campos dos Goytacazes/RJ”, no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF, sob orientação do professor Fábio Py.  A banca avaliativa foi composta por Carlos Alberto Steil (UFRGS), Ana Costa (UFF) e Rodrigo Caetano (UENF), cujos comentários colocados se apresentaram enquanto uma grande aula para mim. A pesquisa, que comecei a desenvolver em 2019, procurou discutir sobre o lugar ocupado pelo religioso nos contextos de experiência e ação dos agentes membros da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na cidade de Campos dos Goytacazes, localizada na região Norte-Fluminense do estado do Rio de Janeiro. Procurei identificar quais são os elementos que estão relacionados e inseridos sob a categoria “religião” na prática dos agentes. Nesta busca, a “espiritualidade” se mostrou como o termo mais adequado e utilizado no contexto para designar a prática e experiência do sagrado na CPT. Desta forma, a partir da relação que esses agentes estabelecem com a religião, tanto em suas trajetórias individuais de fé como na luta institucional pela terra, procurei compreender suas práticas políticas pelos direitos sociais da população rural da cidade de Campos.

Para realização da pesquisa foram entrevistados um total de sete agentes, dentre esses, dois são ex-agentes que fizeram parte da equipe CPT/Campos até o ano de 2012. Três dessas entrevistas foram realizadas presencialmente em 2019, as outras quatro foram realizadas remotamente devido ao advento da pandemia em 2020. O trabalho de campo, com o objetivo de acompanhar a rotina de alguns agentes em seus campos de atuação, contou com idas constantes ao Assentamento Zumbi dos Palmares entre setembro de 2019 e fevereiro de 2020. Nesse processo pude constatar que na CPT, o religioso e o político integram um único espaço. Os agentes da pastoral da terra cumprem uma função político-pastoral cotidiana apresentando-se dentro e fora do assentamento como companhia ativa na luta pela Reforma Agrária Popular na região. Para elaboração das atividades, a CPT parte do princípio de ouvir as comunidades e suas demandas. Atualmente as atividades consistem na organização da feirinha da roça (que acontece em diferentes locais ao longo dos anos), nos grupos de saúde para elaboração de produtos fitoterápicos, no trabalho de artesanato com as mulheres dos assentamentos por meio da utilização de produtos locais, e na Escolinha de Agroecologia que tem seu funcionamento no Assentamento Zumbi dos Palmares e na Comunidade Quilombola de Cafuringa.

Uma das propostas da pesquisa foi chamar a atenção para uma forma de cristianismo vivida por esses agentes que inscrevem diferenças e singularidades importantes em meio ao conjunto de conceitos e práticas já estabelecidas nesta religião. Ao partir de uma primeira hipótese de que esses atores pertenciam a alguma vertente do cristianismo – por pressupor que a CPT é uma organização católica, mesmo que ecumênica – fui surpreendida. Atentei-me para a presença e frequência da palavra espiritualidade entre os agentes, e como ela articulava e mobilizava sentidos religiosos e práticas políticas em suas experiências. A criação de uma pastoral popular como a CPT, a autonomia de cada grupo de agentes e o modo como esses pensam e agem nela, faz com que emerja um contexto de experiência singular da religião. A espiritualidade nesse contexto implica a redefinição da prática religiosa e a polissemia do seu significado.

Analisar esse movimento acrescenta mais evidência à crítica de Talal Asad (2010) sobre a impossibilidade de se trabalhar com uma definição universal da religião. Sua obra traz uma contribuição importante, pois nos apresenta mudanças que afetaram a própria natureza da religião a partir da forma que ela é vivida por um indivíduo, nos auxiliando, neste caso, a observar de que forma as agentes da CPT reconhecem sua experiência enquanto religiosa. A partir das narrativas identifica-se que o termo religião já não aparece mais enquanto definidor de uma identidade espiritual ou de ligação com um conjunto de práticas ligadas a um corpo doutrinário estabelecido. Mas se referem à espiritualidade para expressar a “não-definição” e a complexidade de suas experiências com o sagrado. A espiritualidade mobiliza o sentido religioso aberto e íntimo da promoção pela justiça social e pela luta do campo:

Eu fui migrando para a CPT porque eu estava com essa parte da espiritualidade muito trancada em mim. E todas as reuniões e espaços da CPT, a gente trata também essa questão da espiritualidade, de pensar um pouco em Deus. A gente tem a luta, mas também tem a esperança. A gente sabe que tem um Deus que está conosco independente de religião, se vai ser de matriz africana, católica ou evangélica. A gente comunga da mesma fé em um ser superior que vai nos dar forças para enfrentar essa conjuntura (AGENTE 1, 2020).

As entrevistas me trouxeram as seguintes questões: a) A maioria dos agentes da CPT passaram em algum momento de suas trajetórias pela religião institucionalizada, a maioria deles pelo catolicismo. Nesse processo, b) também se desligaram dessas instituições religiosas, seja por conta de críticas teológicas ou políticas. c) Outros ainda passaram em suas experiências por um processo de ressignificação conceitual sobre a religião – não mais vista sob a ótica institucional dogmática – passando a ser vivenciada dentro de uma atitude mais ampla e holística da espiritualidade e sua inserção no cotidiano da luta social. Um dos agentes faz a seguinte afirmação:

Eu gosto de pensar na vivência da espiritualidade da CPT porque a religião em si não é muito a nossa preocupação, é mais a espiritualidade por conta dessa possibilidade da esperança. Aí, quando você cultiva a espiritualidade, parece que você consegue ir para a além das instituições porque as instituições engessam bastante. Em alguns momentos elas atrapalham muito (AGENTE 2, 2020).

Identifico que para esses atores, todo esse processo de repensar ou estruturar o que se entende por espiritualidade esteve intrinsecamente ligado à sua inserção na CPT. A Comissão Pastoral da Terra se constitui em suas experiências como o local de expressão, manutenção e prática dessa espiritualidade não só pela dimensão macroecumênica da CPT, mas porque essa espiritualidade está diretamente vinculada à ação política que adentra num respeito universal da diversidade de crença e sobre o direito humano a terra.

Sendo assim, os agentes que foram entrevistados nesta pesquisa apontaram a presença da espiritualidade enquanto anterior e até mesmo independente da religião, construindo assim uma espiritualidade instituída sobre a diversidade e a legitimidade de expressão de qualquer crença, mesmo sendo parte da ramificação do catolicismo institucional. O papel da mística na CPT, por exemplo, aproxima-se de alguns sentidos muito difundidos na categoria “espiritualidade” na modernidade, como uma experiência do sagrado livre da autoridade e dos espaços institucionais. Mesmo assim, a experiência religiosa destes agentes não se dá numa busca dentro de si, em um movimento de interiorização ou individualidade espiritual, mas na fronteira com o outro, no serviço prestado às comunidades e assentamentos aos quais acompanham. Logo, este é um caso oportuno para se pensar a intersecção entre espiritualidade e o engajamento político, tendo em vista que a espiritualidade para esses agentes se experimenta nas atividades correntes do mundo secular.

Rolemberg (2020) afirma que os agentes da CPT inovam em relação às categorias de pensamento e prática do cristianismo. Não privilegiam um anúncio explícito da palavra bíblica como antes era confeccionado, mas privilegiam um testemunho solidário por meio da ação e do serviço prestado a essas comunidades. Sendo assim, a centralidade da experiência religiosa desses agentes não está em uma relação íntima, solitária e contratual da crença, nem nas celebrações litúrgicas meramente confessionais – embora participem delas – mas na espiritualidade que envolve as questões cotidianas do direito a vida.

Ao propor a relação desta espiritualidade dos agentes da CPT/Campos com a promoção da Reforma Agrária Popular, procurei pensar o estabelecimento de uma noção de espiritualidade que parte de um engajamento político, ou seja, que estabelece uma relação com o espaço público a partir das ações que são promovidas por esses agentes nesta região. Essas ações têm a ver com uma espiritualidade vivida por meio da ação e do serviço na sociedade. Essa prática de inserção na formulação dos problemas públicos muitas vezes produzem imagens seculares, atrelando a pastoral em uma “sinuca de bico”: para os movimentos sociais a CPT é “religiosa” demais; e para a Igreja a CPT é política e secularizada e pouco pastoral. Posto isso, podemos obter uma melhor compreensão do fenômeno religioso em sua dinâmica conceitual, política e histórica, não só para a CPT enquanto organização, mas para a diversidade de atores e agentes que compõem a pastoral da terra. Como se dão as relações com a religião/espiritualidade e sua prática política na busca pelos direitos sociais dos assentados.

Partindo do princípio de Latour (2012) de que as coisas, grupos sociais ou as instituições não estão prontas ou feitas a priori, mas estão se fazendo, minha intenção não se deu na direção de definir o que era a espiritualidade para os agentes da CPT/Campos. A intenção foi trabalhar os processos de formulação e contradições, ou mesmo compreender de que forma a espiritualidade articula e mobiliza politicamente não como categoria, mas como um fenômeno dinâmico que sempre se renova. Posso dizer que os resultados desta pesquisa, longe de encerrar as discussões, apontam para outras indagações no que diz respeito a esse processo. Esses agentes estariam mesmo fazendo uma separação rígida entre espiritualidade e religião ou essa espiritualidade seria uma nova forma de institucionalização? Algumas falas apontam para a permanência desse caráter teológico-institucional, ao afirmarem, por exemplo, que “a CPT é uma igreja viva”, o que pode apontar tensões internas entre os agentes ou a própria Igreja: seria essa uma nova forma de espiritualidade que pluraliza o catolicismo? Em outras palavras, tendo em vista que a CPT segue sendo uma organização vinculada à igreja católica, esses agentes rompem com a instituição, ou há uma reconfiguração institucional a partir do que eles chamam de espiritualidade?

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Referências Bibliográficas:

ASAD, Talal. A construção da religião como uma categoria antropológica. Cadernos de Campo, São Paulo, n. 19, p. 263-284, 2010.

LATOUR, Bruno. Reagregando o Social: uma introdução à teoria Ator-Rede. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba); Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração (Edusc), 2012.

ROLEMBERG, Igor. Onde está o religioso? Mística e Espiritualidade no político, no público e no secular. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 40(3): 49-71, 2020.

Espiritualidades contemporâneas, um novo soft power? Ativismo espiritual, crise e a demanda por mudança social

By admin in Eventos on abril 27, 2021

Foi aprovado o projeto para realização de um workshop internacional sobre espiritualidade e política. Intitulado “Contemporary Spiritualities, a New Soft Power? Spiritual Activism, Crisis and the Demand Over Societal Change”, o evento é pensado e organizado por Alexandre Grandjean (Universidade de Lausanne), Christophe Monnot (Universidade de Estrasburgo), Géraldine Mossière (Universidade de Montreal), Rodrigo Toniol (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Abaixo reproduzimos o resumo do projeto traduzido:

  1. INTRODUÇÃO 

Ao longo do século 20, as paisagens sócio-religiosas globais passaram por transformações importantes e reconfigurações. Não só a religião foi transformada, mas a espiritualidade assumiu uma nova importância no discurso secular, bem como nas principais tradições religiosas (Ammerman 2013). Acima de tudo, essas novas expressões religiosas muitas vezes se cruzam com preocupações contemporâneas, como o ambientalismo e o perigo climático (ver Bloch 1998, Ivakhiv 2012), emancipação de gênero e difusão de novos papeis de gênero (ver Mahmood 2005, Fedele & Knibbe 2013), mobilidades transnacionais (ver Csordas 2009), questões de saúde global e alternativa (Ver Csordas 2002; Koch & Binder 2013), direitos dos nativos (Ver Johnson & Kraft 2018), nacionalismo (Ver Veer 2009; 2013), etc. Destas numerosas observações, uma série de emaranhados não-exaustivos emergem levantando novas questões: Será que os movimentos contemporâneos de espiritualidade, sob o pretexto de religiosidade individualizada e mais distanciada, também têm implicações políticas? Até que ponto essas transformações religiosas têm demandas públicas e políticas? Como isso foi afetado pela recente crise do covid-19? Como podem essas mudanças gerais – incluindo expressões religiosas, organizações e redes – afetar nossas abordagens teóricas à noção de espiritualidade em si? Como costumam aparecer como fenômenos globais, as especificidades locais são frequentemente negligenciadas. Clot-Garrel & Griera começaram recentemente a fazer este conjunto de questões na Catalunha (2019). No entanto, seus resultados até agora não foram colocados em perspectiva, nem – até onde sabemos – qualquer workshop ou publicação tentou conectar essas múltiplas percepções.

A organização de um Workshop SISR-ISSR sobre este tema permitirá a consolidação de uma forte rede de pesquisa intercontinental de pesquisadores que estudam empiricamente, bem como a confrontação das atuais teorias, sobre movimentos contemporâneos da espiritualidade. Jovens pesquisadores investigando campos tanto no Sul Global quanto no Norte Global serão convidados a participar. Da mesma forma, autores mais experientes serão convidados a discutir seus insights teóricos para benefício mútuo. O resultado do workshop será mais inovador na medida em que a dimensão política das espiritualidades contemporâneas será abordada a partir de três ângulos diferentes (ver 4), isso em confronto com as principais teorias da sociologia das religiões. Além das publicações inovadoras que este workshop irá produzir (ver 5.), o workshop fortemente promove e dá continuidade à orientação do Congresso ISSR de 2019 sobre a “Política da religião e espiritualidade”.

 

  1. NOVIDADE DO WORKSHOP: ESPIRITUALIDADES CONTEMPORÂNEAS E SOFT POWER

Nesta proposta de workshop, queremos abordar novos insights teóricos e empíricos que enfatizem as dimensões sociais e políticas das espiritualidades contemporâneas. Queremos especialmente vincular esta forma ao conceito de “soft power” (Nye 1995) e à ideia de uma era pós-secular (Habermas 2008), particularmente em uma escala global. Considerando que o estudo das “espiritualidades contemporâneas” tem que ser reavaliado à luz de suas reivindicações políticas ou subpolíticas, compromissos e promulgação, desejamos privilegiar estudiosos de cruzamentos geográficos e intergeracionais motivados por observações situadas diversamente em que a espiritualidade está se tornando uma categoria social emergente que importa (Chandler 2008; Huss 2014). A recente crise de covid-19 também pode reconfigurar a ligação entre espiritualidades e política (Foucault 1977). Além de contextos euro-americanos, estudos de caso profundamente informados da América e América do Sul (De la Torres e Zuñiga, 2011), África Ocidental (Louveau 2012) ou Sudeste Asiático (Veer 2013) em conjunto fornecem desafios empíricos e teóricos para o estudo científico das religiões, bem como para um de seu subcampo de crescente importância: espiritualidade (Streib & Hood 2011).

No entanto, esses diferentes casos também apresentam fortes semelhanças, principalmente devido a circulações de referências espirituais e imaginários sociais (Becci, Farahmand & Grandjean, no prelo). Quer os atores sociais pertençam a organizações religiosas estabelecidas ou não, o seu discurso enfatiza as “dimensões internas”, como a busca pela “autenticidade”, “naturalidade” e “autonomia”; o último pode ter sido modificado pelas experiências de confinamento físico e distanciamento social. Largamente vistos como formas narcisistas de religiosidade (Bellah & al. 1985), esses diferentes registros, excessivamente compartilhados, possuem reivindicações implícitas – ou mesmo explícitas – sobre mudanças públicas, políticas e sociais. Por exemplo, enquanto os atores sociais às vezes reivindicam a universalidade de suas preocupações, eles também valorizam sua práticas por seu poder de cura sobre o self, a natureza (a Terra), as relações sociais, a moralidade e a sociedade. Ao fazer isso, eles participam da transmissão ou formulação de pressupostos normativos para o público nas esferas local e global.

Afirmamos que as diferentes formas de espiritualidades contemporâneas, seja se elas explícita ou implicitamente tendem a se engajar em reivindicações de mudanças sociais, fazem parte de uma lógica de “soft power” como entendido por Nye (1995). Também, em diálogo com os esforços contemporâneos para reformular nossas perspectivas analíticas sobre a espiritualidade (Ver Bender & McRoberts 2012), pretendemos investigar os processos através dos quais os usos da categoria de “espiritualidade” assumiram seus valores atuais, como está alinhada com diferentes tipos de ação política, cultural e social, e como ela é articulada em ambientes públicos. Em alguma medida, assumir essa chave analítica é a própria condição para responder ao apelo de Peter van der Veer para “as políticas da espiritualidade” (2009, 2013), que considera a forma como esta categoria produz realidades, representa atores e mobiliza instituições.

 

  1. OS TRÊS EIXOS DA OFICINA 

Nesta proposta de oficina, estamos convencidos de que a espiritualidade está ganhando uma nova dimensão política em nossas sociedades globalizadas. A questão central em torno do workshop é: As espiritualidades contemporâneas sustentam um novo soft power? Este soft power supostamente vem do encontro entre ativismo secular e espiritual ao encontrar um terreno comum quando se trata de apelos sociais, morais e mudanças políticas. Nesse caso, discursos e práticas com estrutura espiritual podem ser usados ​​e combinados com outros registros seculares que se inscrevem nas chamadas agendas conservadoras ou progressistas. Em relação a esta situação de múltiplos encontros, o workshop será estruturado em torno de três eixos que abordam as seguintes subquestões:

 

1) As redes de espiritualidades contemporâneas e nexo de militância: este eixo irá interrogar o que está em jogo quando as redes de atores auto-descrevem situações, práticas e estilos de vida como “espirituais”. Quais são as várias demandas explícitas ou tácitas, tanto individuais quanto coletivas, por mudanças que podem ser cunhadas em várias formas de militância. Com este primeiro eixo, queremos melhor entender de quais amplos grupos de repertório de ação e discurso, bem como imaginários sociais e políticos, participam os movimentos de espiritualidade contemporânea. Ultimamente, essas dimensões obtiveram forte reconhecimento nos domínios públicos: por exemplo, em mobilizações pan-nativas em Standing Rock (Johnson & Kraft 2018), ecofeministas, ecopagãs e círculos de mulheres (Pike 2001, Longman 2018), ou em chamadas de “transição interna” no movimento de Transição mais amplo (Grandjean, Monnot e Becci 2018; Boudinot & LeVasseur 2016). Este eixo também explorará como o vírus do covid-19 fornece novos motivos para crenças e ação social, bem como interrogar amplamente as questões internas de relacionamento de poder em jogo dentro desses movimentos sociais (ver Wood 2009).

 

2) Reivindicações de espiritualidade e engajamento político nas tradições religiosas: Este eixo irá discutir como os crentes religiosos das tradições principais misturam princípios religiosos com práticas espirituais (Howell 2013; Meyer 2007; Rudnyckyj 2009; Woodhead 2011) e como sua ética subjacente se desdobra em um quadro pós-secular. Este eixo irá explorar como os princípios das principais religiões são reinterpretados através de lentes originadas de outras tradições (Ioga cristã) ou de várias ferramentas de autodesenvolvimento (PNL, psicologia popular), assim construindo antropologias específicas do sujeito em relação ao seu social, moral e social meio ambiente (Rose 1989; Prades 2014). Como essas antropologias estimulam ações e discursos sobre valores éticos e bioéticos (reprodução assistida; acesso a cuidados médicos em tempos de pandemia, por exemplo), entendimentos de justiça social, projetos políticos dentro de uma nova era pós-secular que eles contribuem para enquadrar? Além do papel primordial de convertidos e pessoas reafiliadas nessas dinâmicas, o eixo discutirá a semântica da cura e da transformação que regem muitos discursos e ações que se relacionam com espiritualidade e política.

 

3) A instrumentalização da espiritualidade pela política: este último eixo explora os usos políticos da noção de espiritualidade. Embora a prática sociológica de longa data associe espiritualidade às experiências interiores, caráter anti-institucional e relações não mediadas com o sagrado, novas abordagens sobre este tema estão mostrando como a espiritualidade também desempenhou um papel importante em debates políticos (Toniol 2018; Giumbelli e Toniol 2017), bem como na secularização do instituições públicas. Agências globais (como a OMS, UNICEF) e os debates sobre o patrimônio estão cada vez mais enfatizando as “dimensões espirituais” como um argumento persuasivo para definir algumas áreas como Patrimônio Mundial; este último também pode ser usado para gerenciar a crise institucional nacional e internacional desencadeada pela pandemia. Da mesma forma, representações holísticas da saúde levaram a visão da espiritualidade à biomedicina, substituindo assim a nova profissão espiritual pela tradicional capelania religiosa (Becci 2018; Mossière submetido).

 

  1. SAÍDAS 

Além de networking e colaborações intergeracionais e interregionais sobre o conhecimento e projetos provisórios, o workshop também visa fornecer ao público em geral uma publicação que carece fortemente de literatura atual: “As políticas públicas de espiritualidades contemporâneas”. Uma edição especial e temática irá ser proposta para a revista “Política e Religião”. Uma publicação reunindo os textos revisados ​​por pares dos participantes do workshop serão submetidos à Routledge. A longo prazo, este workshop visa formar uma rede de pesquisadores que, sob o rótulo de “pesquisa em espiritualidades e política” continuará se encontrando e colaborando com frequência. O workshop também solicitará um painel específico para próximo congresso SISR em 2023, trazendo as dimensões seminais que os autores elaboraram no publicação que seria publicada naquela época.

5. BIBLIOGRAFIA

Ammerman, Nancy T. 2013. “Spiritual But Not Religious? Beyond Binary Choices in the Study of Religion.” Journal for the Scientific Study of Religion 52 (2): 258-278.
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Proteção sem punição: recorrendo aos deuses budistas durante a Covid-19

Proteção sem punição: recorrendo aos deuses budistas durante a Covid-19

By admin in Novidades, Publicações on outubro 15, 2020

Por Bryan Lowe para The Immanent Frame

Tradução por Luciana Cavalcanti

Para os líderes políticos de hoje, uma pandemia significa nunca ter que pedir desculpas. Nem sempre foi assim. Era uma vez, em uma época diferente, os governantes proclamavam publicamente suas deficiências, assumindo a responsabilidade moral por uma série de desastres, de secas a epidemias, que se pensava serem causados ​​pela falta de virtude de um soberano. Enquanto as pessoas ao redor do mundo hoje ainda clamam aos deuses por ajuda em resposta à Covid-19, as confissões públicas ritualizadas dos líderes políticos praticamente desapareceram. Quero considerar o caso do Japão, tanto na época contemporânea quanto na antiguidade, para pensar sobre mudanças na prática ritual, particularmente aquelas destinadas a obter ajuda divina e confessar transgressões. Estou interessado em como as pessoas se voltaram para os deuses historicamente, os modos discursivos permitidos para isso em 2020 e as implicações dessas mudanças.

 

As instituições budistas em Nara, a capital do século VIII do Japão, estão entre as mais antigas do país. Esses templos promoveram práticas em resposta à Covid-19 que seriam familiares aos residentes da cidade na antiguidade, como a cópia do sutra, uma forma ritualizada de escrita. A ideia básica é que transcrever a escritura, como outros atos virtuosos, pode trazer benefícios deste mundo para o patrono ou copista, incluindo cura, bem como salvação post-mortem para o falecido. Yakushiji, um templo em Nara dedicado a uma divindade conhecida como “Buda Mestre da Medicina” e fundado para ajudar a curar a doença de um consorte imperial, tem promovido a cópia de sutras em casa como uma forma de orar pelo fim rápido da crise de Covid-19. Notícias de jornais sugerem que Yakushiji viu um aumento de três vezes nos pedidos para enviar materiais de cópia do sutra para transcrição em casa. Outros templos Nara proeminentes, como Kōfukuji e Tōdaiji, realizaram tanto antigos como novos rituais para conter a pandemia do coronavírus. Estas são apenas algumas das muitas respostas religiosas que testemunhamos à Covid-19 no Japão.

 

Buscar ajuda divina em momentos de angústia não é incomum. Estudiosos do Japão há muito apontam que as pessoas “se voltam para os deuses em tempos difíceis”. Essas tendências desafiam as percepções populares do Japão como uma sociedade secularizada, uma narrativa derivada, em parte, das baixas taxas de resposta a questões de pesquisa problemáticas com base em normas de contextos não japoneses, bem como de definições de religião e não religião que não estão de acordo com uso em inglês. Essas descobertas complicam os debates sobre se o Japão está realmente se secularizando ou se essas narrativas de declínio são apenas histórias recicladas que atendem aos interesses de pesquisadores e profissionais. Como os estudiosos da religião notaram de maneira mais geral, não devemos nos surpreender que o desencanto seja um mito que não está de acordo com a crença e a prática locais. A presença de espíritos persiste até na modernidade.

 

Parte do apelo – ouso dizer apelo atemporal – dos deuses é que eles podem cuidar de nós, embora o façam com um olhar ameaçadoramente vigilante. Embora Tōdaiji tenha restringido a visitação devido à Covid-19, ele abriu uma janela de visualização tipicamente fechada sobre a face do Grande Buda, seu famoso objeto de adoração de quinze metros de altura; o monge Morimoto Kōjō tuitou o lembrete de que não é para nós vermos o Buda, mas para o Buda nos observar e nos proteger.

 

A história do templo do século VIII que veio a ser chamado de Tōdaiji está intimamente ligada à proteção contra epidemias. Isso pode ser visto em relação a um surto de varíola na década de 730, que dizimou cerca de um terço da população japonesa. Esta crise gerou a criação de uma grande rede de mosteiros e conventos oficiais, um de cada por província. Tōdaiji era o centro administrativo desta rede de templos. Um édito do Imperador Shōmu de 24/03/741 anunciando a criação desses mosteiros e conventos provinciais explicou que os Quatro Reis Celestiais, divindades-chave no panteão budista, sempre virão e protegerão os reinos nos quais o Sutra da Luz Dourada foi promulgado. De fato, ele nomeou os mosteiros de Templos de Proteção do Estado pelos Quatro Reis Celestiais da Luz Dourada Radiante e fez com que cópias das escrituras fossem consagradas em cada templo para recrutar sua guarda.

 

Mas esses deuses não apenas protegiam. Eles também observavam e denunciavam transgressores, que por sua vez seriam punidos. O reino celestial era em si um estado de vigilância moral patrulhado pelos quatro reis celestiais. Isso é expresso na iconografia do Japão antigo, incluindo um conjunto de imagens consagradas no Salão da Plataforma de Preceito de Tōdaiji. Dois dos Quatro Reis Celestiais olham ao longe, vigiando as pessoas; um segura um pincel e um pergaminho para registrar os atos dos humanos e relatá-los na hierarquia celestial. Os outros dois carregam espadas e permanecem com olhos arregalados e ferozes. Eles vão proteger ou punir, dependendo de sua ação. Essa ideia também aparece em uma das histórias de origem do budismo japonês do templo Gangōji, que pode datar do período Heian (794–1185), em que a soberana Suiko ora para os quatro reis para proteger o reino, mas adverte que os futuros governantes serão visitados por “grande calamidade e grande vergonha” se eles falharem em promover o budismo.

 

Neste imaginário budista, a virtude do governante é totalmente transparente. Se ocorrerem epidemias ou desastres, isso significa que o soberano é o culpado. Por esse motivo, os governantes da antiguidade lamentavam constantemente suas próprias deficiências. O imperador Shōmu respondeu a vários desastres, incluindo a epidemia de varíola mencionada acima, com repetidos decretos enfatizando que tais crises surgiram de sua falta de virtude e que “a culpa não é do povo“. Ele repetiu esse sentimento em seu voto de 741 mencionado acima para a rede de templos provinciais: “Eu, com pouca virtude, indignamente nasci com esta importante nomeação [como imperador]. Ainda tenho que espalhar governança e civilização. Ao acordar e dormir, estou cheio de vergonha. . . Recentemente, as safras do ano não estão prosperando e a peste se espalha repetidamente. Vergonha e medo se misturam, eu apenas me esforço e me culpo.”

 

Dessa forma, os governantes do Japão antigo, às vezes vistos como humanos e divinos, estavam sob vigilância celestial enquanto buscavam proteção divina. Sua legitimidade baseava-se em parte em como o mundo respondia à sua integridade moral ou à falta dela, conforme se pensava que a virtude de seus corpos se manifestava no mundo. Pecar trazia punição visível na forma de doença, bem como uma série de outras calamidades, desde a fome até a guerra. As divindades que o protegiam também o destruiriam. Os governantes precisavam proclamar constantemente suas inadequações por meio dessas proclamações e confissões ritualizadas. Penitência e proteção precisavam uma da outra.

 

Foi esse clima de crença que causou as constantes confissões e patrocínio de líderes políticos. E é essa noção de confissão pública de culpabilidade moral pelos líderes, para que o povo não enfrente o castigo divino, que se perdeu em grande parte nos últimos anos. Enquanto uma série de indivíduos, de filósofos morais a cidadãos comuns, interpretaram o Grande Terremoto Kantō de 1923 como punição de kami ou Buda pelo materialismo e individualismo do Japão, o desastre triplo de 11/03 de 2011 viu apenas algumas pessoas, principalmente o governador de Tóquio e um acadêmico conhecido, clamarem por retribuição divina. Por um lado, essa evidência mostra que as figuras públicas ainda ocasionalmente invocam esse discurso. Por outro lado, eles estavam claramente em minoria em 11/03 e amplamente condenados por insensibilidade para com as vítimas, fatos que sugerem que os estudiosos precisam de outras maneiras de estudar religião e desastres além da retórica da teodicéia. Ainda não ouvi falar de qualquer figura pública proeminente no Japão se referindo à Covid-19 como um castigo divino.

 

À medida que uma pandemia global se intensifica, talvez seja uma coincidência irônica que as estátuas dos Quatro Reis Celestiais da Plataforma de Preceito de Tōdaiji estejam sendo movidas do templo para um museu para facilitar os reparos necessários no salão. Os deuses não estão mais de serviço. Embora as pessoas no Japão ainda possam orar por proteção na era da Covid-19, os políticos, em sua maioria, não expressam medo da punição divina por sua imoralidade, nem proclamam suas deficiências morais como a causa da pandemia. Não estou sugerindo de forma alguma que o Japão ou qualquer outro país deva retornar a um mundo patrulhado por reis celestiais, particularmente porque os discursos de retribuição divina pelo pecado tendem a impor normas que visam comunidades e práticas marginalizadas.

 

Em vez disso, fico imaginando o que se perde quando não se espera mais que os líderes públicos cumpram regularmente penitências ou expressem publicamente suas falhas como antes, em resposta a epidemias. Essas confissões podem ser vistas pelos críticos como gestos vazios, talvez até egoístas. Mas os teóricos do ritual descobriram que o desempenho externo repetido, mesmo quando conduzido (pelo menos inicialmente) sem sinceridade, pode gerar mundos “como se” subjuntivos e dotar o self com novas, muitas vezes mais piedosas, qualidades. Quais são as implicações de uma época em que as orações por proteção contra doenças são feitas sem a ameaça de punição? Qual é o papel do pedido de desculpas pelos pecados da nação em um estado liberal e supostamente secular? Como seria o nosso mundo se nossos líderes praticassem regularmente a culpabilidade e a confissão?

 

Sou sinceramente grato pelo feedback perspicaz que recebi de Ann Gleig, Levi McLaughlin, Asuka Sango e Jolyon Thomas, que tornaram este artigo muito melhor em curto prazo, bem como o conselho editorial astuto de Mona Oraby.

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O texto original foi publicado em The Immanent Frame: http://tif.ssrc.org/2020/06/25/protection-without-punishment/

A imagem destacada é a usada na publicação original, retirada de: https://www.flickr.com/photos/fhwrdh/5655036194/in/photostream/

Bryan D. Lowe é professor assistente do Departamento de Religião da Universidade de Princeton. Ele se especializou em budismo no Japão antigo (sétimo ao nono séculos) e tem interesses de pesquisa em rituais, estudos de manuscritos, historiografia, cânones e religião de não-elites. O primeiro livro de Lowe, Ritualized Writing: Buddhist Practice and Scriptural Cultures in Ancient Japan, recebeu o John Whitney Hall Book Prize da Association of Asian Studies. Seu próximo livro combina manuscritos e evidências arqueológicas para considerar o papel da pregação e do ritual na disseminação do budismo nas províncias japonesas. Você pode encontrá-lo no Twitter @bryandaniellowe.

A espiritualidade nas políticas públicas de saúde

A espiritualidade nas políticas públicas de saúde

By admin in Crônicas de pesquisas on março 1, 2019

Ana Beatriz Foster

Graduanda em Ciências Sociais – Unicamp

“Espiritualidade” é um termo que está se destacando cada vez mais, tornando-se foco em várias pesquisas de diversas áreas do conhecimento. O que chama atenção principalmente é a incorporação da categoria por instituições seculares e mobilização em contextos oficiais de atenção à saúde. É justamente esse o foco da pesquisa principal: investigar como e as crescentes formas com a qual a categoria espiritualidade tem sido incorporada e usada no âmbito da saúde no Brasil. Para isso, o interesse empírico está dirigido a três dimensões: como espiritualidade aparece nos usos clínicos; como ela é mobilizada no contexto das pesquisas médicos científicos; e, como ela se apresenta nas políticas públicas de saúde.

Gradativamente, a categoria “espiritualidade” tem sido empregada em documentos oficiais do ministério da saúde, sendo frequentes referências explícitas, em textos de políticas públicas, à “dimensão espiritual da saúde”, aos “valores espirituais” e aos “cuidados com a espiritualidade”. O interesse principal da pesquisa pela qual sou responsável é analisar a presença e os usos da noção de espiritualidade nas políticas públicas de saúde no Brasil. O objetivo principal é mapear o modo como “espiritualidade” tem sido incorporada nessas politicas, explorando suas variações e com isso, apontar as convergências e as tensões que marcam esse processo. Para isso buscarei fazer o levantamento de todas as políticas de saúde promulgadas pelo ministério da saúde, desde a criação do SUS, juntamente com políticas de saúde estaduais e municipais, etapa essa que já iniciei; ademais, será elaborado um banco de dados, em um software de análise qualitativa, com os textos das políticas de saúde selecionadas; a partir das ferramentas de análise disponíveis, buscarei identificar as formas regulares de estabelecimento da categoria espiritualidade nas políticas de saúde. O foco de interesse desta pesquisa são as ocorrências em que conceitos como “espiritualidade”, “religião”, “religiosidade”, “espiritual” aparecem nos textos de políticas públicas de saúde existentes no Brasil.

No momento, a pesquisa está no começo, apenas em seus primeiros passos, sendo possível que, a partir da leitura e das investigações, ela tome rumos pelos quais não imagino agora. Por enquanto, estou levantando as políticas públicas de saúde no Brasil e lendo a literatura necessária e participando de discussões sobre os temas relacionados. Mesmo que pouca coisa fora feita até agora, muitas reflexões me vieram à mente a partir disso. Alinhada com o projeto de pesquisa principal, não parto de uma definição ou entendimento prévio do que seja a espiritualidade, mas como, a partir de cada realidade, a espiritualidade é concebida, desenhada e assim, mobilizada de variadas maneiras. Diante disso, o que posso dizer é que, pelo que observei, a forma com a qual espiritualidade é manuseada nas políticas públicas difere das formas como é empregada em pesquisas médicas e científicas e no campo clínico. A impressão que tenho é que diferentemente do discurso médico, que opera por uma lógica entendimento de uma “dimensão espiritual” como fator de saúde humana, no campo das políticas públicas, a categoria espiritualidade está implicada em uma lógica de “direitos”, sendo uma forma de conciliar o direito de liberdade religiosa dentro dos hospitais com a manutenção de um Estado laico, separado da religião.

Como já dito, estou apenas no início da pesquisa, sendo que com seu aprofundando, ideias, hipóteses, impressões mudem e tomem rumos inimagináveis.