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As yoguines brasileiras das décadas de 60 e 70:  Gênero e corporeidade na história do Yoga

As yoguines brasileiras das décadas de 60 e 70: Gênero e corporeidade na história do Yoga

By admin in Dossiê Yoga e Meditação on agosto 13, 2020

Dossiê Yoga e Meditação

Por Maria Lucia Abaurre Gnerre

A tradição do Hatha Yoga que se desenvolve no contexto das práticas tântricas da Índia medieval, teve uma feição originalmente masculina, relacionada a praticantes oriundos de seitas shivaistas como os Nath Sidhas do norte da Índia (WHITE, 1996). Essa prevalência de elementos masculinos no campo da prática fica evidente nos próprios textos clássicos do Hatha Yoga (produzidos, sobretudo, entre os séculos XI e XVII), nos quais encontramos descrições de posturas que citam o órgão genital masculino como referencial para determinadas posições de pernas ou pés. Desta forma, podemos inferir que, apesar desta prática ter se originado num contexto tântrico de adoração e empoderamento do princípio sagrado feminino (chamado de Shakti), o Hatha Yoga teria um caráter iminentemente masculino em sua origem indiana, o que se explica tanto pelo lugar que as mulheres efetivamente ocupavam na sociedade indiana, quanto pelo regime restrito de guru-discípulo no qual a prática era ensinada (GNERRE & BAEZ, 2019). 

Praticante do sexo feminino na postura de lótus (Padmasana). In: MARAN, 1977, P. 61

No entanto, com o processo de chegada do Yoga no Ocidente entre o fim do século XIX e início do século XX (processo este que historicamente coincide com a própria dominação britânica na Índia), ocorre um intenso processo de disseminação da prática entre mulheres nas décadas subsequentes. De forma análoga, também no Brasil se observa, sobretudo a partir da década de 1950, uma intensificação da participação feminina no campo do Yoga, com figuras icônicas como a célebre jornalista Glycia Modesta de Arroxellas Galvão, que, utilizando-se do pseudônimo Chiang Sing escrevia uma coluna na revista “O Cruzeiro” e lança em 1965 o livro Yoga para Mulheres. Este processo, segundo nossas pesquisas, trouxe uma série de resultados que podem ser associados às próprias lutas por transformação social e emancipação feminina nas décadas de sessenta e setenta. E, partir deste período histórico, o Hatha Yoga pode ser considerado como ferramenta de transformação na relação das praticantes do sexo feminino com sua própria corporeidade e consequentemente de transformação de sua relação com mundo. Trata-se de uma transformação subjetiva, difícil de ser historicamente documentada, mas que repercute de forma intensa em relações sociais e relações de gênero, num período de grande repressão nas esferas públicas e privadas da sociedade brasileira (GNERRE & BAEZ, 2019).

Praticante do sexo feminino nas posturas de Sarvangasana e Halasana. In: MARAN, 1977, P. 104

Esta sociedade dos anos 70 deve ser compreendida a partir de seus profundos paradoxos: trata-se de um período histórico no qual tivemos de um lado todo o aparato da repressão militar, e no qual tivemos por outro lado, o advento de uma série de novas espiritualidades chamadas de “alternativas” no contexto da “Nova Era”, que transformam definitivamente o perfil religioso de nossa sociedade (cf. GUERRIERO, 2006 e AMARAL, 2000). Neste cenário de transformações, diversos movimentos sociais ganham força, como o próprio feminismo, o movimento negro, movimentos de livre opção sexual dentre outros. E junto destes movimentos, emergem também, sobretudo entre jovens das classes médias urbanas, diversas práticas espirituais que se contrapõe aos paradigmas instituídos pelas tradições judaico-cristãs, e que se vinculam justamente às tradições orientais, as práticas exotéricas, e a toda uma série de vivências psico-espirituais de autoconhecimento. Nesse contexto de emergência tanto da nova Era quanto de lutas pela emancipação feminina que o Yoga toma força no Brasil, embora sua presença em território brasileiro seja anterior a este período (remetendo as primeiras décadas do século XX – cf. GNERRE & SANCHES, 2015). 

É importante observar ainda que há uma transformação sutil, no que diz respeito à participação das mulheres dentro da própria prática, sobretudo entre a década de sessenta e a década de setenta do século XX.  Uma pesquisa iconográfica de caráter preliminar, feita através de imagens de livros e capas de discos da época, nos mostra um trajeto que se inicia numa condição de iminente desigualdade social e inferioridade em relação a mestres masculinos poderosos (como podemos ver na capa do disco de Caio Miranda – figura 01) e que vai num crescente protagonismo feminino, no qual as praticantes passam por um processo de “empoderamento”, seja de forma individual, seja de forma coletiva, associadas ao Yoga nos anos setenta, que podemos ver nas imagens da obra do professor Julio Maran, de 1977, intitulada Filosofia do Yoga, e publicada pela editora Loyola. Nela temos um exemplo importante desta nova leva de publicações onde temos exclusivamente mulheres protagonizando as fotografias de Asanas (as posturas do Hatha Yoga), e uma maioria absoluta de mulheres registrada num congresso de 1975 (figuras 02, 03 e 04).

II Convenção Nacional de Professores de Yoga, com prevalência absoluta de mulheres (Curitiba, 1975). In: MARAN, 1977, p. 53

Podemos observar na publicação de 1977 (e também em outras publicações do período), a criação de uma narrativa visual a respeito do Yoga, na qual as mulheres passam a ser protagonistas, e seu corpo vai deixando ser representado como passivo e submisso, e passa a ser representado como um corpo vigoroso, capaz de executar posturas fortes e elaboradas. Estas transformações nas narrativas visuais do Yoga no Brasil refletem também transformações no próprio imaginário social da prática no ocidente, que vai deixando de ser associada a elementos exóticos, como os magros sadhus dos quais trata Singleton (2010), e passa a ser cada vez mais associada as mulheres em belas posturas com seus famosos collants dos anos setenta. Tais corpos femininos serviram de “embaixadores” da prática em território nacional nas obras de diversos autores e, junto com esta entrada “imagética”, algumas mulheres deixaram de apenas ilustrar posturas e tornaram-se também professoras, autoras de livros e organizadoras de eventos, como é o caso de Maria Celeste de Castilho e Maria Helena de Bastos Freire, entre tantas outras yoguines, que moldaram definitivamente a feição do Hatha Yoga difundido em território nacional (GNERRE & BAEZ, 2019). Por fim, devemos lembrar que processo de construção de uma corporeidade própria e vigorosa por parte das praticantes do Hatha Yoga estaria na verdade já previsto nos próprios textos clássicos da tradição, quando o sistema filosófico e prático do tantrismo passa a ocupar seu cerne conceitual, desenvolvendo toda uma gama de conhecimentos a respeito do corpo sutil, que Gavin Flood denomina “corpo tântrico” (cf. FLOOD, 2006) e instituindo a figura da Shakti, ou o grande princípio sagrado feminino como cerne de sua devoção. Assim, podemos dizer que, apesar do contexto histórico conturbado da década de setenta, há neste período um florescimento da Shakti no Brasil.  

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Maria Lucia Abaurre Gnerre possui mestrado (2001) e doutorado (2006) em História pela Unicamp, e realizou estágio de pós-doutorado na área de Ciência da Religião na UFJF (2013). É professora associada do Departamento de Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências das Religiões da mesma instituição. Atualmente desenvolve pesquisas a respeito da História do Hatha Yoga e História do Yoga no Brasil. 

Imagem destacada: Capa do disco “Laya Yoga: relax profundo”, de Caio Miranda. Aqui se observa a jovem deitada de forma totalmente entregue e relaxada aos pés do mestre. Fonte da imagem in: ZICA E GNERRE (2016). 

Referências:

AMARAL, Leila. Carnaval da alma: comunidade, essência e sincretismo na Nova Era. Petrópolis: Vozes, 2000.

FLOOD, Gavin. The Tantric Body. The Secret Tradition of Hindu Religion. New York: I.B. Tauris & Co. Ltd., 2006.

GUERRIERO, Silas. Novos Movimentos Religiosos: o quadro brasileiro. São Paulo: Paulinas, 2006.

GNERRE, Maria Lucia Abaurre; SANCHES, Raphael Lugo. As representações de Sevananda como pioneiro no campo do Yoga brasileiro. Revista Cultura Oriental,  v. 2, p. 59-70, 2015.

GNERRE, Maria Lucia Abaurre e; BAEZ, Gustavo César Ojeda. O caminho interior delas: Yoga, gênero e transformação social no Brasil. In: Revista Transversos, v. 2, p. 115-137, 2019.

MARAN, Júlio. Filosofia do Yoga. São Paulo, Ed. Loyola, 1977. 

SINGLETON, M. Yoga body: the origins of modern posture practice. Nova York: Oxford University Press, 2010.

WHITE, D. G. The alchemical body: Siddha traditions in medieval Índia. Chicago: University of Chicago Press, 1996.

ZICA, Matheus da Cruz e; GNERRE, Maria Lucia Abaurre. Índia Ocidental, China Tropical: uma “espiritualidade do corpo” como elemento propiciador de encontros culturais no Brasil. Horizonte: Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, v. 14, p. 789, 2016.