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Algumas notas sobre a visualização do corpo pandêmico

Algumas notas sobre a visualização do corpo pandêmico

By admin in Novidades on maio 21, 2020

Texto original de Jeremy Stolow para Religious Matters

Tradução: Giovanna Paccillo

Nos últimos anos, tornou-se comum nos estudos acadêmicos e na cultura popular tratar o corpo humano como uma reunião complexa de forças e interações. Indiscutivelmente, essa visão do corpo pertence a uma sensibilidade maior que desfrutou de uma ascensão notável nos últimos anos (pelo menos no que diz respeito às sociedades ocidentais supostamente seculares), segundo as quais todo o cosmos é entendido como infinitamente plural, em incansável transformação, e infinitamente envolvente e desdobrável. Seja no caso das bilhões de bactérias que habitam nosso trato digestivo ou das mais recentes tecnologias que nos permitem estabelecer nossa presença nos confins do ciberespaço, todos nós passamos a apreciar as várias maneiras pelas quais nossa existência corporeificada nem começa nem termina na superfície de nossas peles. Os processos de inspiração e expiração, ou de ingestão, digestão e excreção, apontam apenas para alguns dos casos mais óbvios em que os limites que supostamente dividem interiores, superfícies e ambientes externos do corpo são de fato porosos e lábeis. E assim, o que, de uma perspectiva muito distante, parece uma entidade única e unitária, invariavelmente, em uma inspeção mais detalhada, compreende uma infinidade de coabitações e interações em rede. O universo, e a vida biológica em particular, como nos é dada a entender, existe em um estado constante de absorção e erupção. Toda coisa sólida não passa de um enxame de forças ocultas. Todo ser vivo irradia. Todas as superfícies vazam, vazam ou sangram.

A atual pandemia global causada pela disseminação do vírus SARS-CoV-2 não apenas corroborou essa sabedoria; ela reformulou nossa compreensão do corpo poroso, plural (e vulnerável) de maneiras notáveis. Atividades diárias, como trafegar em uma rua da cidade ou nos corredores de um supermercado, exigiram que redesenhássemos os limites que separam o privado do espaço público. Adicione dois metros ao seu corpo em movimento e criará não apenas um novo habitat, mas também um novo corpo. Em uma escala macrossocial mais ampla, podemos observar como toda uma nova série de terminologias, preceitos e aparelhos especializados entrou no nosso léxico cotidiano quando se trata de gerenciamento e cuidado de corpos individuais e coletivos: distanciamento físico, o 2- ( ou regra de 1,5-) metros, vetores de transmissão, patógenos em aerossol, mutações genéticas, respiradores, máscaras faciais. A linguagem rarefeita da microbiologia e da epidemiologia agora permeia as reportagens diárias, as previsões econômicas, as decisões de políticas públicas, o humor, a arte e, principalmente, o discurso e a prática religiosa. As então estáveis relações de conhecimento, hábito, técnica e orientação ética que governam nosso cuidado e coordenam nossos corpos, estão sendo conjugadas de forma dramática na esteira da chegada repentina desse vírus. Embora dificilmente única ou sem precedentes, a pandemia atual realmente produziu uma situação estranha, desorientadora e aterrorizante para a vida humana corporeificada, exercida em escala global. Como tal, exige uma reflexão crítica, mesmo com o risco de as análises atuais serem apressadamente compostas, antes que possamos ver até onde esse drama nos levará.

Como já é evidente em algumas das outras contribuições para esse dossiê, a reflexão crítica sobre o significado e as consequências da pandemia do coronavírus exige, em primeiro lugar, uma reflexão cuidadosa com relação ao status do conhecimento científico e a posição dos profissionais científicos nesse cenário em rápida evolução. O que essa pandemia pode nos ensinar sobre como o conhecimento científico é formado, comunicado e acionado, e como, por sua vez, essas observações podem desafiar as suposições existentes sobre as distinções entre ciência e não-ciência, de natureza e cultura? Não se trata apenas de uma questão sobre a relação entre o conhecimento autoritativo e “orientado por dados” produzido por profissionais biomédicos e a interpretação vulgar e aplicações práticas desse conhecimento quando ele chega às mãos de não especialistas. Não obstante os esforços dos teóricos da conspiração (que atribuem a culpa das origens do vírus ao avanço dos laboratórios secretos do “Deep State”, ou nas torres de telefonia 5G) ou por políticos embriagados pela ilusão de seus próprios conhecimentos (sintetizado pelas especulações selvagens do presidente Trump dos EUA sobre a etiologia do vírus e seus potenciais remédios), estamos testemunhando em uma escala verdadeiramente maciça um apelo urgente por pronunciamentos científicos cuidadosamente ponderados e credíveis sobre cada aspecto concebível dessa pandemia. Como Pamela Klassen e Janelle Taylor exploram em sua contribuição para esse dossiê, em muitos lugares as ameaças dramaticamente crescentes levadas pelo vírus elevaram os profissionais biomédicos a um novo posto de “santos de branco”, marchando junto com um vasto exército de médicos, enfermeiras e outros trabalhadores essenciais que, como bodhisattvas dos tempos modernos, arriscam heroicamente suas vidas por nós todos os dias. Tais performances de “fé na ciência” podem parecer contra-intuitivos, uma vez que não estão em conformidade com a premissa de que governos populistas são inerentemente hostis ao conhecimento científico profissional como um ‘privilégio da elite’. E continua sendo o caso, tragicamente e sem surpresa, que os esforços para conter a propagação do vírus estejam sendo contestados por manifestantes em muitos países que desrespeitam a autoridade de médicos especialistas e questionam a legitimidade dos bloqueios impostos pelo governo e das regras físicas de distanciamento. No entanto, mesmo nessas expressões de ressentimento e protesto contra a experiência biomédica, o que está em jogo não pode ser adequadamente explicado em termos de posições fixas da ciência ‘pró’ e ‘anti-‘. As respostas à pandemia não demonstram apenas o fato de que a ciência está sempre enredada em outras coisas, como cultura, política, religião ou até mesmo o “popular” (afinal, nunca houve um conhecimento científico “tão puro”). Em vez disso, eles revelam como a pandemia tece ciência e não-ciência de novas maneiras, produzindo uma situação que não pode ser contida dentro dos bem ordenados binários como fato versus valor, ontologia versus ética ou razão pura versus prática.

Por essas razões, sugiro que o Coronavírus pode ser frutiferamente definido como um tipo de objeto fronteira, no sentido definido por Geoffrey Bowker e Susan Leigh Star: “objetos que ao mesmo tempo habitam diversas comunidades de prática e satisfazem os requisitos de informação de cada uma delas” . Como um objeto fronteira, ele oferece uma possibilidade para repensar a relação entre os ditos modos científicos de conhecimento e prática, e outras formas de conhecer e fazer, incluindo àquelas que normalmente localizamos através da categoria “religião”. Em sua contribuição para esse dossiê, Birgit Meyer propõe igualmente que “o pensamento religioso e médico talvez possam compartilhar um profundo terreno comum. Esse terreno comum, que ainda está para ser traçado, poderia servir como um ponto de partida produtivo para nossas tentativas de reconfigurar nosso entendimento do social”. Contribuindo para este apelo a uma investigação mais aprofundada, apresento aqui alguns comentários sobre a figura do corpo que vemos em todos os lugares entrando em foco ao lado da propagação da pandemia, que para os fins desta discussão pode ser chamado de “corpo pandêmico” (Fig. 1).

COVID-19: Facts You Should Know About Coronavirus | Onco.com
Figura 1. Uma representação típica do serviço de saúde pública do corpo humano e seu ambiente respiratório, ilustrando a necessidade da ‘regra dos dois metros’.

O corpo pandêmico é uma criatura bastante expansiva. Ele compreende não só uma coabitação complexa de parasitas e hospedeiros dentro de uma estrutura a qual chamamos de “corpo humano”, mas também o microambiente individual único dentro do qual esse corpo está situado: um espaço aéreo envolvente, preenchido com gotículas aerossolizadas de saliva e transpiração, células mortas da pele , fungos, bactérias, vírus, partículas químicas e outras entidades microscópicas a que os cientistas agora se referem como nosso ‘microbioma‘ ou ‘exposoma‘. Onde quer que se queira traçar a linha que delimita um território chamado ‘indivíduo humano’, parece que não podemos desenredar esse corpo da névoa circundante de atividade microscópica (Fig. 2). A pandemia atual, ao mesmo tempo, aguçou e recalibrou nossa percepção desse território indefinido que liga corpo e meio ambiente. Hoje, estamos todos literalmente vivendo dentro dos contornos dos corpos pandêmicos e aprendendo a operá-los sob a cruel tutela do vírus. Nossas percepções cotidianas de onde uma presença corporal termina e onde outra começa agora são dominadas por um cálculo de risco e ameaça (no entanto, as exigências da coabitação tornam todas essas avaliações ambíguas, na melhor das hipóteses, ponto que é bem sublinhado pela falta de consenso entre regimes políticos sobre o que conta como distanciamento físico seguro, uma vez que esses podem promulgar regulamentos que variam de um a dois ou mais metros). Nossa percepção desse corpo pandêmico também é refletido na multiplicação e circulação generalizada de suas representações visuais, especialmente na forma de infográficos que visam ilustrar os limiares de risco e ameaça colocados por um corpo distante sobre o outro (como apresentado na Figura 1 e os inúmeros anúncios de saúde pública que se assemelham a esta imagem).

Figura 2. Representação visual de um corpo humano cercado por sua nuvem microbiana.

Mas o vírus SARS-Cov-2 não é o progenitor original desse corpo pandêmico. Por um lado, essa não é a primeira pandemia que impôs efeitos disciplinadores aos corpos que coabitam, inculcando grandes populações ao uso habitual de máscaras faciais ou regras físicas de distanciamento. Uma arqueologia mais completa da imagem do corpo pandêmico atenderia a esses precedentes históricos recentes mas também precisaria considerar relatos comparáveis ​​de territorialização corporal, como pode ser encontrado na história do discurso acadêmico sobre sociabilidade humana. A respeito disso, um caso tentador a se pensar, é o das proxemics, a ciência aplicada originalmente elaborada pelo antropólogo Edward T. Hall em seu estudo pioneiro (e deliciosamente intitulado) livro, The Hidden Dimension. Hall argumentou que, apesar de definido, percebido e experienciado de diferentes formas em diferentes culturas, todos os humanos distinguem as relações íntimas, pessoais, sociais e públicas com outros em termos espaciais, o que pode ser retratado como séries de círculos em expansão que designam a ‘distância apropriada’, e cujo cruzamento pode ser percebido para um indivíduo como invasivo (fig. 3). Mas para Hall, esse senso ampliado de si é um produto de nossas percepções psicológicas arraigadas, nossas respostas motoras e nosso condicionamento cultural. Sentir e negociar com a presença corporal de outra pessoa é em grande parte uma habilidade da pessoa de perceber e medir a distância, bem como os códigos culturalmente inscritos que dão sentido a essas percepções. O corpo pandêmico, por outro lado, não pode ser reduzido a diferenças de percepção ou códigos de conduta normativos. Não se trata apenas de redesenhar as linhas concêntricas que separam o espaço íntimo e pessoal do espaço social e público, uma vez que a dança do hospedeiro e do parasita não é exclusivamente uma construção cultural ou psicológica. Cultura e natureza, humanos e não humanos, corpo e meio ambiente são todos conjugados de maneira diferente dentro dos contornos do corpo pandêmico.

Figura 3. Uma representação gráfica da teoria de Hall de zonas proxêmicas.

Tampouco devemos ficar satisfeitos com a afirmação de que o corpo pandêmico é uma mera “descoberta” da investigação científica, um padrão natural de comportamento interespécies e condições ambientais que simplesmente estão sendo observadas e documentadas por meio de pesquisas em andamento. Embora certamente seja o caso de microbiologistas, virologistas, epidemiologistas e outros gerarem um vasto arquivo de conhecimento novo (e urgentemente necessário!) sobre os contornos e operações do que o que estou chamando aqui de corpo pandêmico, é surpreendente, contudo, que essa visualização preceda e vá ainda além de qualquer coisa que possamos chamar de “adequadamente científica”.

Por um lado, eu diria que as retratações do distanciamento físico e do corpo pandêmico que vemos hoje proliferar, se baseiam em uma iconografia visual que pode ser rastreada através de longas histórias de representação artística do corpo humano como envolto em nuvens, luzes radiantes, ou anéis de fogo, que podem ser encontrados em inúmeras representações de divindades, santos, imperadores adornados com uma auréola, uma coroa radiante, ou envoltos em auréolas ou nimbus. Da mesma forma, na história da ilustração médica, muito antes do advento do microscópio e da descoberta da vida microbiana, pode-se encontrar muitas representações do corpo vivo imerso em um oceano cósmico de caminhos ocultos que conectam o interior e o exterior. Tais visões do corpo são de fato surpreendentemente comuns em atlas anatômicos europeus pré-modernos (onde os corpos são colocados em um banho de vapores e humores, eflúvios e fluidos imponderáveis), bem como repositórios não europeus de conhecimento médico e espiritual, como como na Medicina Tradicional Chinesa ou Ayurveda, onde gráficos de acupuntura, diagramas de chakra e ilustrações relacionadas descrevem o ser vivo como um conjunto de energias sutis, mas vitais, que circulam dentro e além de sua massa física bruta. Outra iteração dessa imagem corporal pode ser encontrada na cultura visual daquele notável movimento médico-social-esotérico conhecido como Mesmerismo, que predominou no final do século XVIII e continua a fornecer suporte intelectual a uma série de práticas às vezes reunidas pelo termo “medicina alternativa” (fig. 4).

Figura 4. “Um jovem segurando a mão no coração, emanando transpiração insensível”. Ilustração do astrólogo e proto-mesmerista oculto, A chave da física e das ciências ocultas de Ebenezer Sibly (1794).

É importante acrescentar que esse tipo de visualização do corpo radiante está longe de ser obsoleto. De fato, continua a proliferar nas arenas contemporâneas da prática que se intersectam, mas que também competem diretamente com as visualizações biomédicas ortodoxas do corpo, como no contexto do chamado mercado da Nova Era de bens e serviços espirituais: uma arena dedicada à conceituação, gerenciamento, cuidado e cura de corpos humanos que, por sua vez, são entendidos como inextricavelmente localizados em uma rede de vibrações etéreas, fluidos imponderáveis, energias, aura e forças celestes de atração e repulsão que dizem governar nosso cosmos (Fig. 5).

Figura 5. Uma representação das múltiplas camadas dos ‘campos de energia sutis’ do corpo vivo, de um manual alternativo de saúde popular, O Corpo Sutil: uma enciclopédia de sua anatomia energética de Cyndi Dale (Boulder, CO: Sounds True, 2009), p.97.

O termo “Nova Era” é freqüentemente usado de maneira pejorativa para se referir a uma forma de pseudo-religião e pseudociência ocidental, predominantemente de classe média, consumista e hiperindividualista: um pastiche de tropos orientalistas ingênuos, apelos superficiais a teorias científicas de energia, matéria e vida, práticas médicas duvidosas e estética kitschy. Este não é o lugar para demonstrar as várias maneiras pelas quais essa caracterização falha em capturar o que realmente está se enraizando nos múltiplos campos de atividade, onde podem ser encontradas as chamadas idéias, práticas e agentes da Nova Era. Mas a facilidade com que muitos comentaristas consideram as representações do corpo da Nova Era meramente pseudocientíficas deve registrar alguma suspeita de nossa parte – entre os estudiosos da religião material. O que realmente devemos fazer dessa confluência marcante entre a imagem do corpo de aura, onipresente, encontrado na cultura visual da Nova Era e na imagem do corpo pandêmico? Seria um realidade e o outro meramente imaginário: uma ‘construção cultural’ que imita grosseiramente o que a ciência ‘verdadeiramente’ revela?

As respostas a essas perguntas devem ser analisadas com cuidado. Por um lado, está longe de ser evidente que as técnicas de observação sancionadas pela biomedicina ortodoxa moderna se saem drasticamente melhor quando se trata de observar nossos ‘verdadeiros’ selfs corporeificados. Como argumentado por um coro de historiadores e antropólogos, a penetração do corpo humano por instrumentos visuais diversos – como nas radiografias, endoscopias, e aparelhos de ressonância magnética – não procede de maneira linear em direção a um quadro cada vez mais completo. Em vez disso, diferentes tecnologias de imagem produzem visualizações divergentes, e por vezes contraditórias, que podem colidir e até mesmo competir umas com as outras. Em todos os casos, instrumentos e procedimentos técnicos sancionados para observar e visualizar o corpo são governados por suposições sobre “o que está ali”, sobre o que uma determinada tecnologia pode capturar, sobre o que conta como uma imagem bem-sucedida, ou como interpretar o poder referencial dessas imagens no que diz respeito às dimensões ocultas ou ilusórias da realidade, quer as chamemos de ‘consciência’, ‘dor’, ‘vitalidade’ ou ‘força espiritual’. Talvez se possa chegar ao ponto de sugerir que todo conhecimento visual sobre corpos em vida é de alguma forma indeterminado, por nenhuma outra razão senão por causa de uma condição fenomenológica fundamental a todas as imagens: toda revelação é sempre apenas uma revelação parcial, e todo ato de mostrar algo implica que outras coisas devem ser escondidas de vista.

Em termos mais gerais, o conhecimento biomédico ocidental moderno da anatomia e fisiologia humana – consolidado pela dissecação de cadáveres, pela observação microscópica e pela intervenção farmacológica – não representa uma chegada vitoriosa a uma imagem “verdadeira” do corpo, senão apenas uma entre sistemas de conhecimento historicamente localizado, cultural, institucional e tecnologicamente contingente. De fato, as ciências biomédicas ocidentais modernas ainda não chegaram a um quadro definitivo ou uma imagem final do dinamismo dos corpos em vida, e talvez nunca cheguem, assim como a ‘saúde’ e a eliminação de doenças do corpo continuam sendo objetivos frustrantemente evasivos: um ponto que a atual pandemia de Covid-19 deixou muito claro, não somente como um problema do conhecimento médico per se mas também em sua promulgação como uma política de saúde pública coerente. Em suma, não é óbvio que o conhecimento biomédico ortodoxo do corpo forneça um contraponto estável às várias representações “não científicas” – ou seja, “culturais” ou, a propósito, “religiosas” – do corpo com o qual aparentemente concorre. Como é de esperar que seja evidente a partir dos exemplos dispersos apresentados no decorrer do texto, as visualizações do corpo pandêmico emergem no contexto de uma iconografia muito maior e mais antiga dos corpos radiantes e esse depósito visual molda tanto as maneiras como os cientistas conceituam seus objetos de estudo, quanto a maneira como eles o comunicam com pessoas de fora.

Ao dizer isso, meu objetivo não é sugerir que construções biomédicas normativas são arbitrárias ou não-confiáveis, nem desejo sugerir que as múltiplas fontes de conhecimento visual produzidas e interpretadas por profissionais da medicina não possam ser concatenadas em uma totalidade única e coerente chamada ‘ o corpo’. No entanto, as chamadas técnicas ‘alternativas’ para gerar conhecimento sobre o corpo – embora frequentemente difamadas como “não científicas”, quando comparadas ao conhecimento produzido sob os auspícios do olhar biomédico ocidental moderno – não são menos (mas também não são mais!) metafóricas. Assim, por exemplo, como argumentado por Projit Mukharji em seu notável livro Doctoring Traditions, não é como se os praticantes da biomedicina não ocidental, como Ayurveda ou Medicina Tradicional Chinesa, de alguma forma deixassem de perceber ou entender as características anatômicas ou fisiológicas do corpo revelado pela ciência ocidental. Em vez disso, eles começam com diferentes ‘metáforas de raiz’ para responder perguntas fundamentais sobre a composição dos corpos e as condições sob as quais diferentes estados corporais podem ser observados. Além disso, a disponibilidade de diferentes metáforas não implica necessariamente que os sistemas médicos que elas engendram são mutuamente exclusivos. Em seu relato da história das interações entre as técnicas terapêuticas e observacionais médicas ayurvédicas e ocidentais, Mukharji ilustra esse ponto demonstrando em detalhes como, ao longo da história do Ayurveda, entendimentos e visualizações concorrentes do corpo, derivados da biomedicina ocidental e das tradições indianas, foram “entrelaçadas” epistemológica e pragmaticamente.

O conhecimento do corpo da Nova Era também é formado como uma espécie de trança, entrelaçada a partir de uma ampla variedade de linhas religiosas, científicas, artísticas, esotéricas e culturais do discurso e da prática. Embora alguns possam ver essa trança como uma corrupção ou contaminação da ‘ciência apropriada’ (ou, de fato, ‘religião apropriada’), também é possível tomá-lo como um terreno criativo e gerador sobre o qual emergem novas possibilidades de imaginar e performar a ciência e a religião. Por um lado, pode acontecer que imagem do corpo e sua aura circundante – tão predominante na cosmologia, na terapia e nas obras de arte infladas pela Nova Era – faça mais do que simplesmente (mal) traduzir vocabulários científicos e conhecimento visual em um popular (registro não científico). Se, na atual corrente de ressonância global de esforços para definir e gerenciar o corpo pandêmico, parece cada vez mais insustentável manter a visão “moderna ocidental” da vida humana como um sistema fechado de órgãos e tecidos, fluidos e bombas, baterias e fios, cabe-nos fazer uma pausa, ainda que brevemente, para considerar as maneiras notáveis ​​em que o discurso e a cultura visual da Nova Era já estão trabalhando, ampliando o raio da vida humana corporeificada e identificando seus múltiplos vetores de auto-expressão, de perigo e de ameaça. (Fig. 6).

Figura 6. “Arcanjo Miguel: proteja-se”. Cartão diário do Oracle Therapy do anjo, por Doreen Virtue.

 

Jeremy Stolow é professor associado em Comunication Studies da Universidade de Concordia, em Montréal, Canadá. Suas pesquisas e aulas tem a ver com a temática de religião e mídia, com um interesse particular nos mundos sobrepostos da religião e da tecnociência. Seu projeto atual de livro, Picturing Aura, trata da história dos esforços para fotografar a aura humana, um empreendimento que atravessa os mundos da ciência, religião, arte, entretenimento, esoterismo e cuidados de saúde alternativos.