Tag: Institucionalização

Disciplinas sobre saúde e espiritualidade nos cursos de medicina em universidades brasileiras

Disciplinas sobre saúde e espiritualidade nos cursos de medicina em universidades brasileiras

By admin in Crônicas de pesquisas on janeiro 30, 2020

Por Florencia Chapini

Os estudos sobre o vínculo de espiritualidade e saúde cresceram e no caso do Brasil, intensificou-se nos anos 2000, com a consolidação de grupos e fóruns em diferentes universidades e organizações médicas. Esse fortalecimento levou a lecionar disciplinas dedicadas ao tema em cursos de medicina em universidades do Brasil. Onde em alguns casos misturam-se pesquisa e a prática clínica.

No 33° Congresso Brasileiro de Psiquiatria no ano 2015 o tema da espiritualidade esteve pressente em três atividades diferentes, a palestra “Pesquisas em espiritualidade e saúde”, o curso “A espiritualidade na prática clínica” e o “Encontro mundial espiritualidade e saúde mental” (Toniol, 2019). Um dos professores convidados nesse Congresso tem um grupo de estudo que além de oferecer disciplinas onde se trata o tema, tem um atendimento gratuito no Núcleo de estudos em saúde e espiritualidade (Nesme) na Universidade Federal Fluminense.

Por outro lado, na Universidade de São Paulo e na Universidade Juiz de Fora, começam a institucionalizar-se grupos de pesquisas dedicados ao tema, como o Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade da Faculdade de Medicina (ProSer) da USP ou o Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES) vinculado ao Programa de Pós-graduação de Medicina na UFJF. O primeiro desenvolve pesquisa dedicadas as possíveis relações entre espiritualidade e saúde; e o NUPES é um grupo coordenado pelo médico e psiquiatra Alexander Moreria de Almeida, quem também dirige as seções de espiritualidade e psiquiatria da Associação Mundial de Psiquiatria e da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Na Universidade Federal do Ceará a professora Eliane Oliveira é pioneira em o tratamento da relação de medicina e espiritualidade. Segundo o site, a UFC foi a primeira universidade em ditar uma disciplina optativa, a mesma coordenada por Oliveira. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul foi oferecida no ano 2016 pela primeira vez.

O objetivo desta pesquisa é analisar o desenvolvimento das disciplinas dedicadas à relação entre saúde e espiritualidade na graduação de medicina em universidades brasileiras fazendo foco nas mudanças ou novas modalidades na noção de pessoa. Para isso se propõe indagar o contexto de surgimento das disciplinas, a trajetória profissional no tema dos docentes responsáveis, e por fim o recebimento dessas disciplinas dos estudantes. Concebo as disciplinas como processos de aprendizagem que têm particularidades contextuais, mas que institucionalmente apontam para a crescente legitimação do tema da espiritualidade no âmbito da saúde. É ao ensino desse novo segmento médico de atenção à saúde que essa pesquisa se dirige. Ao fazê-lo também avanço sobre um melhor entendimento, a partir das ciências sociais, dos usos da noção de espiritualidade.

Entrelinhas: um mapeamento da atuação da Constelação Familiar Sistêmica em ambientes secularizados no Brasil

Entrelinhas: um mapeamento da atuação da Constelação Familiar Sistêmica em ambientes secularizados no Brasil

By admin in Crônicas de pesquisas on outubro 7, 2019

Por Greta Garcia

A Constelação Familiar Sistêmica, abordagem terapêutica não-convencional desenvolvida pelo filósofo e teólogo Bert Hellinger ao longo do século XX, pode ser apontada como própria dos campos do conhecimento como o holístico e o fenomenológico. A terapia propõe, via métodos metafísicos, a melhora ou até mesmo a cura de alguma questão que possa estar causando algum tipo de tormento ou bloqueio na vida do indivíduo que a experiencia. Em contrapartida às práticas médicas convencionais, a Constelação Familiar opera a partir do chamado Pensamento Sistêmico, teoria fundamentada na existência de um sistema de consciência coletiva ligado à sabedoria e proteção ancestral, que ramificam-se e atuam de forma ativa na vida de todos os indivíduos. 

A teoria busca, assim, acessar pontos ainda intocados do inconsciente para reconhecer a reprodução de padrões comportamentais que estruturam os êxitos e infortúnios de um determinado sistema familiar e, consequentemente, dos indivíduos que a ele pertencem. Diante disso, deparo-me com uma interessante questão: a aparente ligação da Constelação Familiar com o holístico não tem se apresentado como um fator de inibição para a sua presença e consolidação na esfera pública oficial; mas sim o oposto. É curioso observar como a Constelação conquista cada vez mais legitimação e espaço dentro de contextos institucionais, burocratizados e seculares de prestação de serviços públicos de atenção à saúde. 

Sobretudo na última década, o volume de pesquisas acadêmicas sobre o tema cresceu exponencialmente, convertendo-o num importante elemento de intersecção entre universos como o da psicologia, das ciências sociais, do direito, da educação e da saúde; Desta forma, os últimos (e próximos) anos representam um momento chave para a integração da prática da Constelação Familiar em ambientes oficiais, secularizados e gestados pelo Estado. Esta integração pode ser identificada como mais um sintoma de que, desde a segunda metade do século XX, a área da saúde vem dedicando maior atenção à dimensão espiritual dos indivíduos, assim como aos seus desdobramentos na sociedade. 

À vista disso, o que minha pesquisa propõe é traçar um mapeamento da introdução da Constelação Familiar a ambientes institucionalizados, utilizando como referência algumas questões fundamentais, como, o que o aumento urgente dos olhares sobre a Constelação, por parte da academia, tem a nos dizer sobre a especificidade desta prática? De que formas a Constelação Familiar tem se feito presente e estabelecida como técnica válida à dimensão da saúde, tendo em vista sua adesão às políticas públicas também nas áreas da educação, da psicologia e do direito? E até, de quais formas a Constelação passa a adquirir legitimidade em seus atuais universos de atuação e, qual o perfil de profissionais ali atuantes?

Atualmente a pesquisa encontra-se em seus primeiros momentos, o que costuma me levar a pensar que, a partir das investigações bibliográficas e de campo, as coisas possam tomar um rumo diferente que não imagino agora. Ainda que diante de dadas incertezas, é certo que compreender o processo de institucionalização da Constelação Familiar como política de atenção à saúde pode abrir novos cenários para reflexões sobre as relações estabelecidas entre práticas reconhecidas como holísticas e/ou espirituais, secularismo e espaço público, além dos seus movimentos de incorporação ao cotidiano das instituições.