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Crença e negacionismo científico nos tempos da COVID-19

Crença e negacionismo científico nos tempos da COVID-19

By admin in Novidades on setembro 21, 2020

Por Nicolas Viotti para DIVERSA

Tradução por Florencia Chapini 

Além das máscaras, da distância social e dos níveis de pobreza inéditos, a crise da COVID 19 nos deixou um novo cenário: a desconfiança nas certezas científicas. As manifestações no obelisco [1] mostram que grupos de pessoas desconfiam das recomendações médicas, que o Sars-CoV-2 não existe, que existe mas é uma invenção de laboratório, afirmam que existe um plano de Bill Gates e Georges Soros para acabar com o terceiro mundo, que o governo chinês “inventou” a pandemia para impor 5G, que as mortes são falsificadas, exageradas, mal contadas. Nas redes sociais publicações sistemáticas compartilham vídeos de “médicos pela verdade”, fala da “falsa pandemia”, imagens e textos com frases como “não seja cego, eu abri meus olhos” ou “não vamos ser cobaias para a vacina”.

Um público ouve, olha e lê com admiração. Se diz que são perigosos, que são ignorantes, que fazem parte do neoliberalismo, da irracionalidade, que são anti-vacinas, que o mundo foi para o inferno. Também é dito que devemos afirmar os valores da ciência, da racionalidade, que este não é o momento de ser isentos e que tudo isso é culpa do pós-modernismo, do relativismo, da direita paranóica, da esquerda conspiratória.

Como o ceticismo científico chegou tão longe? O que as ciências sociais podem dizer sobre isso, sobretudo a área das ciências sociais preocupada com a diversidade de racionalidades ou o que geralmente se identifica com os estudos sociais de crença?

Antropologia, crenças e diversidade

Falemos desde o início. A ciência moderna foi construída com base em critérios de evidência específicos, nem universais nem definitivos, sem dúvida históricos, mas que estabeleceram mal ou bem as bases de um modelo civilizador que tem oscilado entre duas posições: a da anulação da diferença e a da articulação criativa. A aplanação da diversidade e a afirmação unidimensional do modelo científico é uma possível deriva, que faz da ciência e da tecnologia um modelo unilinear e homogêneo, que anula a possibilidade de proliferação de outros mundos que não são apoiados por seus princípios. Por outro lado, outra deriva, talvez mais subterrânea, tem sido a reivindicação da diversidade de modos de evidência, racionalidade e vida, sua complementaridade e articulação, o que constitui uma vertente emancipatória do projeto moderno.

Esta última posição tem permitido que as racionalidades não científicas sobrevivam e se adaptem às sociedades modernas, mediadas por contextos nacionais específicos, relações complexas entre classes sociais, etnia e gênero. Diversas práticas como o culto aos santos, o curanderismo, o cristianismo pentecostal, a espiritualidade do estilo New Age, as terapias alternativas e as sócio-cosmologias afro e indígena formam um horizonte heterogêneo onde os modos de vida podem ser encontrados onde a relação humana e mais do que humano é central.  Em uma sociedade verdadeiramente democrática, todos esses outros mundos crescem e se reproduzem ao lado e em uma “conexão parcial” com o conhecimento científico, fazendo da multiplicidade, a diversidade e a complementaridade um fato recorrente.

As ciências sociais, e sobretudo a antropologia, têm desempenhado um papel central neste movimento. Armada de ferramentas como a ideia de diversidade, o relativismo cultural e a defesa das minorias, a antropologia foi tanto uma ferramenta de conhecimento dessas “outras racionalidades” quanto uma fábrica epistemológica de argumentos para fazer desse conhecimento a base da ação política pela diferença, a singularidade e minoridade.  Insistamos nisto, não é verdade que o recurso do relativismo como veículo de conhecimento esteja fora das mãos de um relativismo moral e político, mas o oposto é verdadeiro. Ao longo do século XX, muitos dos movimentos pela reivindicação de morais e políticas alternativas foram inspirados por alguma parte desse conhecimento de “alteridade”.

Até aqui é a história dos últimos 150 anos das sociedades ocidentais, onde à sombra dos modelos de homogeneização científica secular, coexistiram – muitas vezes perseguidas, estigmatizadas e ridicularizadas – práticas e modos de vida que não se sustentam na racionalidade da evidência científica oficial. No entanto, o cenário parece estar mudando. Nas últimas décadas, uma zona fundamentalista das sociedades ocidentais reagiu contra os processos de democratização mais geral da vida. A emergência de um processo de re-hierarquização social ocupa uma zona influente das elites econômicas, sociais e culturais como não acontecia há décadas, o que as leva a abandonar boa parte de seu projeto liberal e iluminado de democratização. Um projeto que, embora imperfeito, pelo menos permaneceu ideologicamente e discursivamente um ideal. Os exemplos das eleições democráticas de Trump, Bolsonaro e a exibição pública dos ultra-direitas europeus são apenas uma emergência de um “senso comum” que parece estar se aproximando cada vez mais do polo da afirmação sem vergonha do individualismo mais reacionário. O campo religioso não tem sido alheio a este processo, as chamadas religiões mundiais como o cristianismo católico e protestante, mas também o islamismo e o judaísmo, têm em suas fileiras movimentos fundamentalistas com novas intervenções no espaço público que reivindicam princípios de liberdade e autonomia apenas em uma retórica vitimizante, o que contrasta com as políticas de rejeição de qualquer incorporação de “diferença” que eles realmente apoiam.

Tanto as direitas políticas quanto os fundamentalismos religiosos, mas surpreendentemente também muitos discursos anti-sistema (incluindo práticas alternativas de formas de vida) exibem no espaço público uma desconfiança em relação às instituições que têm uma forte visibilidade. Recuperando a crítica contra-cultural da segunda parte do século XX, as novas posições anti-sistema apontam por direita e por esquerda para políticos e cientistas, que são o alvo por excelência do fracasso da tecno-política contemporânea.

Simultaneamente, o crescimento das mediações tecnológicas e a democratização da informação produziram modos de circulação de dados que des-hierarquizam a autoridade de instituições que até recentemente ainda eram legítimas, tais como a política, a ciência ou mesmo instituições religiosas. Hoje tudo está sendo posto em questão e é difícil fornecer uma base para evidências em um mar de dados que se movem a um tweet por segundo.

Esta implantação não é apenas ideológica, ou seja, não se afirma apenas em sistemas consistentes, mas é acima de tudo um campo de sentidos, de práticas e de critérios alternativos de evidência que se estendem sobre o senso comum. Durante a quarentena da COVID 19, conversas informais, comentários ao passar, postagens, e-mails e chats proliferam ao nosso redor que não são de ativistas convencidos, mas de um espaço social que passa por nós. Uma das mais marcantes é a desconfiança da ciência autorizada, que olha com receio para a OMS, para os médicos que recomendam a ASPO, para o uso de máscaras ou para os laboratórios que trabalham com a vacina. A desconfiança varia. Esses grupos podem suspeitar que o vírus é falso, assumir sua realidade mas afirmar que é exagerado, acusar Bill Gates ou “os políticos” de tudo, alegar que a cloroquina é o remédio e os laboratórios estão mantendo segredo para ganhar dinheiro, ou alegar que os testes de vacina serão um experimento prejudicial para os seres humanos. Tal desconfiança só raramente é inspirada por uma lógica estritamente religiosa, o que não quer dizer que não possa aparecer em algum tipo de ideia apocalíptica sobre a origem da pandemia ou em práticas mágicas sobre cura. A desconfiança na ciência oficial não é a vingança da religião, pelo contrário, é a crise das instituições incluindo a religião.

É possível que a desconfiança da ciência tenha algo a ver com diferentes dobras culturais, uma combinação de antigas racionalidades mágicas, em geral mais minoritárias, ou atualizadas por fenômenos mais massivos como o Pentecostalismo, o catolicismo carismático e, particularmente, os modos de vida holísticos. Da mesma forma, e acima de tudo, posições estritamente seculares, por vezes apenas semelhantes ao holismo contemporâneo, que reivindicam uma “ciência alternativa”, são centrais.

Sem dúvida estas configurações são exacerbadas por uma situação de crise, mas ao contrário da persistência da irracionalidade, as posições que parecem ser mais massivas (aquelas inspiradas por estilos de vida holísticos e aquelas que reivindicam uma “ciência alternativa”) são modos de intervenção que nos dizem algo sobre o secularismo avançado. Afinal, quando se faz uma pequena pesquisa sobre suas razões, há sempre alguma “evidência” de especialistas anti-sistema, “médicos nobres” ou “virologistas rejeitados pela OMS” que revelam a “verdade”, geralmente especialistas que pensam mais no fortalecimento do sistema imunológico do que em patógenos ou no ambiente ecológico de Gaia do que na OMS e em seu “sistema de vacinação indiscriminado”.

Em suas versões mais extremas, o que reúne estas posições, sejam elas religiosas no sentido estrito, holísticas ou estritamente seculares, é assumir teorias conspiratórias sobre agentes externos, planos maquiavélicos e populações enganadas que devem “acordar”, como descrito por exemplo por Luc Boltanski em seu livro Enigmas y Complots. Ao contrário das clássicas racionalidades complementares, que estavam parcialmente ligadas a uma pluralidade de racionalidades simultâneas, este tipo de intervenção faz da rejeição de provas oficiais uma marca de identidade e uma forma de se apresentar no espaço público.

Neste contexto, qual é o lugar das ciências sociais, especialmente aquelas que aderiram a um projeto preocupado com a pluralidade de racionalidades? Culpar-se a si mesmas por estarem associadas à cumplicidade com os novos fundamentalismos epistêmicos? Continuar insistindo cegamente em uma agenda de “boas” racionalidades e fechar os olhos para as derivas neoconservadoras contemporâneas? Renunciar a um princípio de simetria epistemológica geral e ser “críticas” àqueles de quem não gostamos?

Estudos sociais de crença e democracia

As ciências sociais que se preocupam desde o início com modos diferenciais de construção de crenças, alteridade e diversidade possuem ferramentas cruciais para a compreensão deste tipo de processos. Contra a ideia de que as ciências sociais não têm muito a dizer e que os recursos da antropologia são inúteis neste tipo de casos, pois seria apenas um relativismo ingênuo e, em sua pior versão, um relativismo moral perigoso, insistimos que a radicalização da lógica negacionista como uma lógica diferencial à nossa, nos permite reconhecer um processo que de outra forma se liberta para explicações como estupidez, irracionalidade ou fatores externos às próprias pessoas, sua função social, sua replicação de processos gerais como o neoliberalismo. Sem negar que eles podem ter funções específicas e que esses macro fenômenos existem, tentar entender os negacionismos em seus próprios termos deveria nos permitir conceber suas condições de proliferação, de eficácia social e, portanto, agir politicamente de forma menos ingênua e reativa, e mais de acordo com um Outro que deve ser interpelado. Os estudos sociais sobre crenças religiosas realizados por pesquisadores locais desde meados da década de 1980 têm muitas ferramentas para refletir sobre isso. Para quem não entra neste campo, talvez muito especifico, e prefere exemplos menos distantes de seu horizonte cultural secular, os trabalhos de Emilio de Ipola sobre o status de crença, especialmente seu ensaio O Câncer e a Crotoxina en Buenos Aires sobre o movimento de desconfiança na ciência oficial e o apoio ao tratamento alternativo do câncer nos anos 80, ainda são um paradigma que tem sido pouco explorado nas ciências sociais locais.

Entre o negacionismo científico e o cientificismo crescente, que exacerbado pela dureza biológica da pandemia da COVID 19, poderíamos insistir em alguns pontos que podem nos ajudar a insistir no lugar significativo que a abordagem da construção social de crenças tem hoje como um campo específico das ciências sociais.

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que existe um clima que desvaloriza o conhecimento das ciências sociais dedicadas à análise das crenças em todos os níveis, desde o operador de mídia até o tweeter que desacredita nos pesquisadores porque seus temas são “irrelevantes” para o bem comum, como demonstrado pelo questionamento do trabalho de Soledad Quereillhac sobre o esoterismo e o conhecimento científico entre um século e outro, mesmo o pesquisador formado nas ciências duras que não entende por que diabos os sociólogos, antropólogos e historiadores estudam os modos de produção, circulação e uso dos saberes, religiões ou crenças. Também não negligenciaria os próprios cientistas sociais que, diante da pandemia da COVID 19, parecem desconfiar mais do que nunca do clima “relativista” ou “construtivista” de uma série de estudos contemporâneos sobre o status da crença, a eficácia, a evidência e a confiança.

Em segundo lugar, devemos insistir que o relativismo epistemológico não é relativismo político. O exercício da simetria é um exercício cognitivo, não um que implique a simpatia ou a justificação moral do outro, seja ele qual for. A antropologia tem que romper com esta romantização do Outro, que muitas vezes é implícita, e em outros momentos explícita. Nossos compromissos políticos podem se distanciar do relativismo, se eles o fizeram em boa parte da defesa da diversidade, não precisam necessariamente continuar fazendo isso. Talvez possamos ser menos ingênuos nesta relação, mas isto não implica renunciar ao projeto de relativismo cognitivo, que é um veículo de conhecimento e não um compromisso exclusivamente ético com o Outro, como o antropólogo Talal Asad aponta de forma paradigmática para a disciplina em seu famoso ensaio O conceito de tradução cultural na antropologia social britânica. Uma antropologia de crenças, ou talvez de conhecimentos e modos de vida, daqueles de quem não gostamos é necessária, cada vez mais necessária. Talvez neste momento, a necessidade de um olhar próximo, detalhado e sincero sobre os princípios e modos de crença “não-empáticos” abra um novo dilema epistemológico que vem sendo discutido há décadas, mas que adquire agora uma relevância inusitada.

Finalmente, resta apenas mencionar algo em relação ao conceito de crença como um recurso analítico. É bom lembrar que toda a vida social contemporânea é construída sobre a “crença”. Crença no Estado, no dinheiro, no amor. A ideia é muito antiga, pelo menos desde o final do século XIX já se dizia que sem essas crenças não haveria sociedade. Se levarmos as críticas de crença ao máximo, devemos descartar, apenas para começar, todas as religiões, então seguir pelos sistemas de confiança monetária e, finalmente, pela mesma democracia participativa, a liberdade e o indivíduo. Todos esses sistemas são regimes de confiança. É necessário qualificar a crítica ingênua da chamada “pós-verdade” ou das “fake news” como se fossem uma espécie de manipulação de idiotas, pessoas ignorantes ou, como dizem alguns psicólogos e cientistas políticos, pessoas com “preconceitos cognitivos”. Em qualquer caso, a disputa não deveria basear-se apenas em negá-los (mesmo quando muitos deles se baseiam em ações deliberadas de má fé, seus efeitos sociais não podem ser reduzidos a isso), mas em mostrar suas condições de eficácia, e perguntar o que estamos fazendo de errado, que os modelos que esperamos que sejam social e coletivamente acordados como válidos não são. Isto poderia nos levar a justificar a ciência, mas de um lugar menos grandiloquente, mais humilde e cotidiano. Entender o funcionamento dos regimes de confiança, evidência e eficiência que geralmente são chamadas de crenças, depende não só da vida humana, mas também da possibilidade de construirmos outro tipo de sociedade democrática nos próximos anos.

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[1] Nota de tradução: o dia 17 de agosto, em diferentes pontos da Argentina, diferentes setores se manifestaram em contra da quarentena pela pandemia e em contra do governo nacional. 

Nicolas Viotti é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Sociólogo pela Facultad de Ciencias Sociales (Universidad de Buenos Aires) e pesquisador do CONICET.

As imagens são da publicação original