Tag: COVID-19

Situando a pandemia no tempo: astrologia e Covid-19

Situando a pandemia no tempo: astrologia e Covid-19

By admin in Novidades on setembro 29, 2020

Texto de Omri Elisha para Immanent Frame

Tradução de María Luiza Assad

Muitos norte-americanos se voltaram para a astrologia, o estudo das correlações entre padrões celestes e acontecimentos temporais, para dar sentido a tempos tumultuosos. Apesar de relatos sobre astrólogos sendo repreendidos por não terem previsto a Covid-19, há uma elevada demanda por serviços astrológicos. De consultas privadas a previsões de horóscopos através de múltiplas mídias, as pessoas estão ávidas por saber quando a pandemia vai acabar e como ela afetará suas vidas no longo prazo. 

Mas a astrologia ocidental é mais do que o uso de técnicas oraculares para responder a necessidades imediatas e pessoais. É um campo de práticas interpretativas enraizado em afirmações metafísicas a respeito de como arquétipos universais estruturam a passagem do tempo e dão vida às metanarrativas que reconhecemos como história. Para os astrólogos modernos, a pandemia e suas vastas implicações transpessoais e histórico-mundiais são expressões de temáticas recorrentes, cujas repetições trazem provações e transições a serem suportadas e lições existenciais a serem aprendidas. Analisar essa perspectiva cosmológica como uma forma de consciência histórica, em vez de apenas como uma função da superstição ocultista ou da “adivinhação”, é um passo importante em direção a um melhor entendimento sobre como as pessoas que praticam e se envolvem com a astrologia percebem as valências morais do tempo. Isso também destaca modelos de futuridade que não estão vinculados a teleologias estritamente seculares ou religiosas, mas que se encontram em algum lugar entre o fluxo progressivo de um tempo vazio e homogêneo, e uma temporalidade que é policíclica e pré-ordenada, em que tudo que vai, volta. 

Embora poucos astrólogos profissionais tenham previsto especificamente que um coronavírus traria o mundo a uma pausa em 2020 – e os sistemas globais à beira do colapso –, o tempo e a severidade da pandemia não foram uma surpresa para eles. O ano de 2020 era tópico de ansiosa especulação na comunidade astrológica bem antes que a Covid-19 se tornasse uma palavra familiar. A razão era uma incomum série intensa de trânsitos planetários. Isso começou em janeiro, com uma rara “conjunção” entre Plutão, símbolo de morte, poder e mudança inexorável (e ainda um “planeta” em termos astrológicos), e Saturno, o planeta das estruturas, autoridades e fronteiras, no signo zodiacal de Capricórnio. Em dezembro, o ano terminará com um encontro semelhante entre Saturno e Júpiter em Aquário. Astrólogos leram esses e outros desenvolvimentos celestes como indicadores simbólicos de trauma e transformação, um período de acerto de contas terrestre perfeitamente sincronizado aos ritmos do cosmos.

Para explorar a natureza de tais suposições, é de grande ajuda deixar de lado as críticas familiares sobre a astrologia, baseadas em acusações de superstição, pseudociência, ignorância e engano. O que não é tarefa fácil, dada a indignação e suspeita pública de longa data mesmo entre acadêmicos. Nos anos 1950, Theodor Adorno ridicularizou de modo notório a astrologia moderna acusando-a de ser um fetichismo retrógado, que deriva sua autoridade a partir de uma “fachada de pseudo-racionalidade” isenta de engajamento crítico. Adorno abominava colunas de horóscopos, que para ele representavam aquilo de pior que a indústria cultural moderna era capaz. Ele argumentou que, ao reificarem forças estruturais e motivações inconscientes como destino, e ao sugerirem que os processos sociais ligados à raiz dos problemas das pessoas de alguma forma “se resolveriam por si mesmos”, horóscopos promoviam padrões de pensamento autoritários, propícios à ascensão do fascismo, incluindo conformidade, irracionalidade e dependência voluntária de uma onisciência externa. 

Muito da crítica de Adorno às implicações sociopsicológicas da retórica dos horóscopos é tão mobilizadora quanto antipática. Mas a análise, baseada em três meses de conteúdo da coluna de horóscopos do Los Angeles Times, é demasiado restrita empiricamente para dar conta dos diversos usos e expressões do conhecimento astrológico. E, ao se basear de tal forma em imputações de má fé, paranoia, ego fraco e equívoco, seu tratado virtualmente não deixa espaço para qualquer outra conclusão senão a de que, formas culturais como a astrologia e o ocultismo em geral, invariavelmente distorcem as realidades sociais e mediam uma falsa consciência. 

Uma abordagem menos redutora poderia considerar como praticantes contextualizam conceitos e predições através de um espectro mais vasto de gêneros discursivos, para além de horóscopos de “prateleira de supermercado”. À medida que a astrologia ganhou popularidade em anos mais recentes, auxiliada por mídias digitais e sociais como canais no YouTube, podcasts, ensino online, softwares e diversos memes do Instagram, os estilos interpretativos se diversificaram e alguns dos aspectos mais técnicos e elaborados do campo cresceram em visibilidade. Áreas de conhecimento especializado e esotérico são mais acessíveis do que nunca, influenciando e amplificando percepções sociais até mesmo de entusiastas casuais, assim como de concepções populares sobre cosmos, espiritualidade e self.

Uma dessas áreas é a da “astrologia mundana”: técnicas e princípios específicos aos estudos de ciclos histórico-mundiais. Embora suas aplicações sejam orientadas para o futuro, a astrologia mundana, assim como outras formas de conhecimento antecipatório, lida com amplos quadros temporais. Para prever e especular sobre o futuro, os astrólogos mundanos geralmente buscam maximizar seu conhecimento sobre o passado. Se envolvem com um tipo de trabalho interpretativo que é pautado em expertise no que diz respeito a símbolos e cálculos astronômicos. Esse trabalho também se baseia no delineamento de comparações entre acontecimentos históricos de passados distantes e recentes, já que envolvem as mesmas marcas planetárias e se entende que eles instauram temas arquetípicos semelhantes.

Com a aproximação da recente conjunção Plutão-Saturno, astrólogos olharam para grandes eventos de ciclos sinódicos que tiveram início com sua última conjunção no início dos anos 1980, um tempo de recessão econômica e grande desemprego. Tensões da Guerra Fria, conflito exacerbado no Oriente Médio e o surgimento da crise da AIDS. O ciclo de quase quatro décadas envolveu uma “oposição” entre ambos os planetas, que foi associada aos ataques de 11 de setembro e à guerra contra o Terror empreendida pelos EUA, e um trânsito conhecido como quadratura (de uma distância de 90°) durante a crise econômica de 2008. Como a conjunção em janeiro marcou o culminar desse ciclo e o início de um novo, os astrólogos indicaram que, o que quer que aconteça em 2020, vai ecoar temas arquetípicos de todos aqueles eventos, ainda que sutil e indiretamente, e oferecer indicações sobre o que o novo ciclo nos reserva. Os astrólogos também levantaram ciclos Saturno-Plutão precedentes, como aqueles associados à I Guerra Mundial e à ascensão do Nazismo, além da peste bubônica. Alguns prestaram atenção especial à conjunção de 1518, a última vez que Saturno e Plutão se encontraram em Capricórnio, o que coincidiu com o início da Reforma Protestante, escalada no tráfico de escravos transatlântico e a “praga dançante” de Estrasburgo.

Os grandes fios que ligam essas e outras eras históricas na imaginação astrológica são paradigmáticas assim como sintagmáticas. Alguns astrólogos, como o estudioso-praticante Richard Tarnas, os contextualizam como “ciclos de crises e contrações”, períodos de extrema pressão social e lutas de poder, ascensão e queda de impérios, desastres naturais e intensificadas experiências coletivas de rupturas, abalos, dificuldades, opressão e eventual resolução. Sejam quais forem os desdobramentos finais, as dinâmicas Saturno-Plutão são os proverbiais choques no sistema, indicando mudanças tectônicas, resultando em colapso, renovação e/ou reconfiguração de estruturas e instituições de governo da vida. 

A pandemia do novo Coronavirus, tendo vindo à luz, foi então prontamente interpretada entre os astrólogos como peça central de uma transição liminar de uma época histórico-astrológica para outra. Isolamento e instabilidade prolongados foram (e continuam a ser) construídos como o modo do universo para forçar as sociedades ao redor do mundo a desacelerarem, fazer um balanço de seus valores e recursos, e se prepararem para novas realidades, tanto catastróficas quanto auspiciosas, que estão surgindo no horizonte cósmico. Acadêmicos e críticos geralmente reduzem tais concepções a mecanismos psicológicos como viés de confirmação. Seja como for, o processo do astrólogo de ligar os pontos entre princípios arquetípicos e os acontecimentos reais-mundiais pode revelar o que pessoas que afirmam esses princípios acreditam que a humanidade está prestes a enfrentar e o que pensam que o futuro reserva num grande esquema das coisas.

Existem quase tantas opiniões quanto intérpretes acerca do que virá a seguir. Padrões celestes e paradigmas estão em fluxo constante e a comunidade astrológica é tão variada e contenciosa quanto qualquer campo que produza conhecimento. Como todos os preditores, as perspectivas dos astrólogos mudam e evoluem com os tempos. Na emergência dos protestos que seguiram o assassinato de George Floyd, muito da atenção se deslocou do confinamento pela Covid-19 para questões de justiça racial, igualdade e responsabilidade política, marcas características do idealismo humanitário radical de Aquário, signo da próxima “grande conjunção”. Se a pandemia foi o teste de realidade global, Vidas Negras Importam é o chamado cósmico para a ação. Tais visões são defendidas pela emergente vanguarda de astrólogos mais jovens, muitos dos quais são LGBTQ e  não brancos [1], ávidos por buscar novas integrações de práxis social, esotérica e espiritual.

No geral, porém, a astrologia moderna tende a ser menos sobre arquitetar mudança social e desmantelar estruturas de opressão do que um meio para afirmação, crescimento pessoal e espiritual, e para um aconselhamento prático personalizado. Astrólogos ocidentais encorajam seus leitores a confiarem na sabedoria dos ciclos e na ideia de que as coisas certamente ficarão piores antes de melhorarem, que mudanças de qualquer tipo sempre têm um propósito a longo prazo, devido à providência divina (definida de maneiras diversas). É uma perspectiva que não dispensa a agência humana, e muito raramente assume uma causalidade direta por parte dos corpos celestes, mas por vezes sugere um tipo de fatalismo e ahistoricismo que críticos como Adorno acham tão perturbador.

E, no entanto, é um erro assumir que “consciência cósmica” automaticamente impeça uma consciência histórica. A intenção de levar os discursos astrológicos a sério não diz respeito a avaliar a sua precisão ou presciência, mas reconhecer que são expressões de saber cultural – e mesmo de crítica –, que os praticantes cultivam ativamente para compreender melhor o presente à luz de passados reais e de futuros possíveis. São esforços para historicizar as condições de existência, que nesse momento impelem a cada um de nós a reconhecer o estado precário e volátil do mundo que nós fabricamos, uma situação difícil que não é sem precedentes ou aleatória. 

Quando se trata de previsões mundanas-históricas, astrólogos ocidentais não são alheios à hipérbole. Guerra, tumultos políticos, revoluções em tecnologia ou finanças, e outras mudanças sísmicas na cultura e na consciência estão quase sempre na mesa quando grandes transições planetárias estão envolvidas. Mas a despeito de circunstâncias, ou do quão vagas ou concretas as afirmações possam ser, a divinação astrológica é tão diagnóstica e prescritiva quanto é preditiva. Jamais apenas uma questão de mitigar incerteza, ela é para praticantes e entusiastas uma maneira de classificar momentos no tempo, pondo-os nos seus devidos lugares e contemplando o movimento adiante. Esses não são impulsos alheios às mentes de sujeitos modernos seculares, que narram a história em termos dialéticos e temáticos. Todavia, para os astrólogos, a volição histórica está ligada aos muitos ciclos planetários e celestes, que são usados para decifrar o que o universo está tramando, além de – para parafrasear o compatriota de Adorno, Walter Benjamin – descobrir a diferença entre quando é possível dirigir a locomotiva da história e quando é necessário puxar o freio de emergência.

***

[1] Nota de tradução: no texto original people of color. 

Imagem destacada: da publicação original 

Omri Elisha é professor associado de Antropologia no Queens College e no Centro de Pós-Graduação, CUNY. Ele é o autor de Moral Ambition: Mobilização e Social Outreachachurches in Evangelical Megachurches (University of California Press, 2011). Ele recebeu seu PhD da Universidade de Nova York e foi Bolsista Residente na Escola de Pesquisa Avançada. Sua pesquisa sobre a antropologia do cristianismo cobriu tópicos como o reavivamento evangélico dos EUA, engajamento social, ativismo da mídia, guerra espiritual e performance ritual. Sua pesquisa atual explora questões de cosmologia, profissionalização e especialização entre os astrólogos ocidentais contemporâneos.

Revisão da tradução por Lucas Baccetto

Antropologia em Tempos de Pandemia

Antropologia em Tempos de Pandemia

By admin in Novidades on setembro 24, 2020

Aula Inaugural PPGA UFBA

Para dar começo à segunda mitade do ano 2020, o Programa de Pós- Graduação de Antropologia (PPGA) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), fez uma aula inaugural o dia 11 de setembro com Miriam Pillar Grossi, presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) e Rodrigo Toniol, presidente da Associação de Cientistas Sociais da Religião do Mercosul e coordenador do NUES.

A aula se baseu na iniciativa que desenvolveram os professores mencionados anteriormente, desde o inicio da pandemia: o Boletim Cientistas Sociais e Coronavirus. O boletim contou com o total de quase 150 textos produzidos, não só no Brasil, se não também de paises de América Latina. Essa experiência foi fruto da articulação de cinco associações científicas: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Os boletins contaram com a edição de Bianca Setti, Lucia Copelotti e Luciana Álvarez, as duas últimas integrantes do nosso grupo de pesquisa do NUES.

Para Grossi e Toniol, o boletim foi uma forma de dar visibilidade às pesquisas das ciências sociais que, neste momento, oferecem aportes fundamentais para diagnósticos e planejamento de movimentos de saída da pandemia.  Além disso, foi uma difusão de análises sobre gênero, religião, ensino a distância, ecologia, raça, políticas públicas, autoritarismo político e populações tradicionais, entre muitos outros. O objetivo foi também mostrar que há uma realidade social da pandemia, fundamental para entender os efeitos biológicos do vírus. 

Assista a aula no vídeo a seguir:

 

Crença e negacionismo científico nos tempos da COVID-19

Crença e negacionismo científico nos tempos da COVID-19

By admin in Novidades on setembro 21, 2020

Por Nicolas Viotti para DIVERSA

Tradução por Florencia Chapini 

Além das máscaras, da distância social e dos níveis de pobreza inéditos, a crise da COVID 19 nos deixou um novo cenário: a desconfiança nas certezas científicas. As manifestações no obelisco [1] mostram que grupos de pessoas desconfiam das recomendações médicas, que o Sars-CoV-2 não existe, que existe mas é uma invenção de laboratório, afirmam que existe um plano de Bill Gates e Georges Soros para acabar com o terceiro mundo, que o governo chinês “inventou” a pandemia para impor 5G, que as mortes são falsificadas, exageradas, mal contadas. Nas redes sociais publicações sistemáticas compartilham vídeos de “médicos pela verdade”, fala da “falsa pandemia”, imagens e textos com frases como “não seja cego, eu abri meus olhos” ou “não vamos ser cobaias para a vacina”.

Um público ouve, olha e lê com admiração. Se diz que são perigosos, que são ignorantes, que fazem parte do neoliberalismo, da irracionalidade, que são anti-vacinas, que o mundo foi para o inferno. Também é dito que devemos afirmar os valores da ciência, da racionalidade, que este não é o momento de ser isentos e que tudo isso é culpa do pós-modernismo, do relativismo, da direita paranóica, da esquerda conspiratória.

Como o ceticismo científico chegou tão longe? O que as ciências sociais podem dizer sobre isso, sobretudo a área das ciências sociais preocupada com a diversidade de racionalidades ou o que geralmente se identifica com os estudos sociais de crença?

Antropologia, crenças e diversidade

Falemos desde o início. A ciência moderna foi construída com base em critérios de evidência específicos, nem universais nem definitivos, sem dúvida históricos, mas que estabeleceram mal ou bem as bases de um modelo civilizador que tem oscilado entre duas posições: a da anulação da diferença e a da articulação criativa. A aplanação da diversidade e a afirmação unidimensional do modelo científico é uma possível deriva, que faz da ciência e da tecnologia um modelo unilinear e homogêneo, que anula a possibilidade de proliferação de outros mundos que não são apoiados por seus princípios. Por outro lado, outra deriva, talvez mais subterrânea, tem sido a reivindicação da diversidade de modos de evidência, racionalidade e vida, sua complementaridade e articulação, o que constitui uma vertente emancipatória do projeto moderno.

Esta última posição tem permitido que as racionalidades não científicas sobrevivam e se adaptem às sociedades modernas, mediadas por contextos nacionais específicos, relações complexas entre classes sociais, etnia e gênero. Diversas práticas como o culto aos santos, o curanderismo, o cristianismo pentecostal, a espiritualidade do estilo New Age, as terapias alternativas e as sócio-cosmologias afro e indígena formam um horizonte heterogêneo onde os modos de vida podem ser encontrados onde a relação humana e mais do que humano é central.  Em uma sociedade verdadeiramente democrática, todos esses outros mundos crescem e se reproduzem ao lado e em uma “conexão parcial” com o conhecimento científico, fazendo da multiplicidade, a diversidade e a complementaridade um fato recorrente.

As ciências sociais, e sobretudo a antropologia, têm desempenhado um papel central neste movimento. Armada de ferramentas como a ideia de diversidade, o relativismo cultural e a defesa das minorias, a antropologia foi tanto uma ferramenta de conhecimento dessas “outras racionalidades” quanto uma fábrica epistemológica de argumentos para fazer desse conhecimento a base da ação política pela diferença, a singularidade e minoridade.  Insistamos nisto, não é verdade que o recurso do relativismo como veículo de conhecimento esteja fora das mãos de um relativismo moral e político, mas o oposto é verdadeiro. Ao longo do século XX, muitos dos movimentos pela reivindicação de morais e políticas alternativas foram inspirados por alguma parte desse conhecimento de “alteridade”.

Até aqui é a história dos últimos 150 anos das sociedades ocidentais, onde à sombra dos modelos de homogeneização científica secular, coexistiram – muitas vezes perseguidas, estigmatizadas e ridicularizadas – práticas e modos de vida que não se sustentam na racionalidade da evidência científica oficial. No entanto, o cenário parece estar mudando. Nas últimas décadas, uma zona fundamentalista das sociedades ocidentais reagiu contra os processos de democratização mais geral da vida. A emergência de um processo de re-hierarquização social ocupa uma zona influente das elites econômicas, sociais e culturais como não acontecia há décadas, o que as leva a abandonar boa parte de seu projeto liberal e iluminado de democratização. Um projeto que, embora imperfeito, pelo menos permaneceu ideologicamente e discursivamente um ideal. Os exemplos das eleições democráticas de Trump, Bolsonaro e a exibição pública dos ultra-direitas europeus são apenas uma emergência de um “senso comum” que parece estar se aproximando cada vez mais do polo da afirmação sem vergonha do individualismo mais reacionário. O campo religioso não tem sido alheio a este processo, as chamadas religiões mundiais como o cristianismo católico e protestante, mas também o islamismo e o judaísmo, têm em suas fileiras movimentos fundamentalistas com novas intervenções no espaço público que reivindicam princípios de liberdade e autonomia apenas em uma retórica vitimizante, o que contrasta com as políticas de rejeição de qualquer incorporação de “diferença” que eles realmente apoiam.

Tanto as direitas políticas quanto os fundamentalismos religiosos, mas surpreendentemente também muitos discursos anti-sistema (incluindo práticas alternativas de formas de vida) exibem no espaço público uma desconfiança em relação às instituições que têm uma forte visibilidade. Recuperando a crítica contra-cultural da segunda parte do século XX, as novas posições anti-sistema apontam por direita e por esquerda para políticos e cientistas, que são o alvo por excelência do fracasso da tecno-política contemporânea.

Simultaneamente, o crescimento das mediações tecnológicas e a democratização da informação produziram modos de circulação de dados que des-hierarquizam a autoridade de instituições que até recentemente ainda eram legítimas, tais como a política, a ciência ou mesmo instituições religiosas. Hoje tudo está sendo posto em questão e é difícil fornecer uma base para evidências em um mar de dados que se movem a um tweet por segundo.

Esta implantação não é apenas ideológica, ou seja, não se afirma apenas em sistemas consistentes, mas é acima de tudo um campo de sentidos, de práticas e de critérios alternativos de evidência que se estendem sobre o senso comum. Durante a quarentena da COVID 19, conversas informais, comentários ao passar, postagens, e-mails e chats proliferam ao nosso redor que não são de ativistas convencidos, mas de um espaço social que passa por nós. Uma das mais marcantes é a desconfiança da ciência autorizada, que olha com receio para a OMS, para os médicos que recomendam a ASPO, para o uso de máscaras ou para os laboratórios que trabalham com a vacina. A desconfiança varia. Esses grupos podem suspeitar que o vírus é falso, assumir sua realidade mas afirmar que é exagerado, acusar Bill Gates ou “os políticos” de tudo, alegar que a cloroquina é o remédio e os laboratórios estão mantendo segredo para ganhar dinheiro, ou alegar que os testes de vacina serão um experimento prejudicial para os seres humanos. Tal desconfiança só raramente é inspirada por uma lógica estritamente religiosa, o que não quer dizer que não possa aparecer em algum tipo de ideia apocalíptica sobre a origem da pandemia ou em práticas mágicas sobre cura. A desconfiança na ciência oficial não é a vingança da religião, pelo contrário, é a crise das instituições incluindo a religião.

É possível que a desconfiança da ciência tenha algo a ver com diferentes dobras culturais, uma combinação de antigas racionalidades mágicas, em geral mais minoritárias, ou atualizadas por fenômenos mais massivos como o Pentecostalismo, o catolicismo carismático e, particularmente, os modos de vida holísticos. Da mesma forma, e acima de tudo, posições estritamente seculares, por vezes apenas semelhantes ao holismo contemporâneo, que reivindicam uma “ciência alternativa”, são centrais.

Sem dúvida estas configurações são exacerbadas por uma situação de crise, mas ao contrário da persistência da irracionalidade, as posições que parecem ser mais massivas (aquelas inspiradas por estilos de vida holísticos e aquelas que reivindicam uma “ciência alternativa”) são modos de intervenção que nos dizem algo sobre o secularismo avançado. Afinal, quando se faz uma pequena pesquisa sobre suas razões, há sempre alguma “evidência” de especialistas anti-sistema, “médicos nobres” ou “virologistas rejeitados pela OMS” que revelam a “verdade”, geralmente especialistas que pensam mais no fortalecimento do sistema imunológico do que em patógenos ou no ambiente ecológico de Gaia do que na OMS e em seu “sistema de vacinação indiscriminado”.

Em suas versões mais extremas, o que reúne estas posições, sejam elas religiosas no sentido estrito, holísticas ou estritamente seculares, é assumir teorias conspiratórias sobre agentes externos, planos maquiavélicos e populações enganadas que devem “acordar”, como descrito por exemplo por Luc Boltanski em seu livro Enigmas y Complots. Ao contrário das clássicas racionalidades complementares, que estavam parcialmente ligadas a uma pluralidade de racionalidades simultâneas, este tipo de intervenção faz da rejeição de provas oficiais uma marca de identidade e uma forma de se apresentar no espaço público.

Neste contexto, qual é o lugar das ciências sociais, especialmente aquelas que aderiram a um projeto preocupado com a pluralidade de racionalidades? Culpar-se a si mesmas por estarem associadas à cumplicidade com os novos fundamentalismos epistêmicos? Continuar insistindo cegamente em uma agenda de “boas” racionalidades e fechar os olhos para as derivas neoconservadoras contemporâneas? Renunciar a um princípio de simetria epistemológica geral e ser “críticas” àqueles de quem não gostamos?

Estudos sociais de crença e democracia

As ciências sociais que se preocupam desde o início com modos diferenciais de construção de crenças, alteridade e diversidade possuem ferramentas cruciais para a compreensão deste tipo de processos. Contra a ideia de que as ciências sociais não têm muito a dizer e que os recursos da antropologia são inúteis neste tipo de casos, pois seria apenas um relativismo ingênuo e, em sua pior versão, um relativismo moral perigoso, insistimos que a radicalização da lógica negacionista como uma lógica diferencial à nossa, nos permite reconhecer um processo que de outra forma se liberta para explicações como estupidez, irracionalidade ou fatores externos às próprias pessoas, sua função social, sua replicação de processos gerais como o neoliberalismo. Sem negar que eles podem ter funções específicas e que esses macro fenômenos existem, tentar entender os negacionismos em seus próprios termos deveria nos permitir conceber suas condições de proliferação, de eficácia social e, portanto, agir politicamente de forma menos ingênua e reativa, e mais de acordo com um Outro que deve ser interpelado. Os estudos sociais sobre crenças religiosas realizados por pesquisadores locais desde meados da década de 1980 têm muitas ferramentas para refletir sobre isso. Para quem não entra neste campo, talvez muito especifico, e prefere exemplos menos distantes de seu horizonte cultural secular, os trabalhos de Emilio de Ipola sobre o status de crença, especialmente seu ensaio O Câncer e a Crotoxina en Buenos Aires sobre o movimento de desconfiança na ciência oficial e o apoio ao tratamento alternativo do câncer nos anos 80, ainda são um paradigma que tem sido pouco explorado nas ciências sociais locais.

Entre o negacionismo científico e o cientificismo crescente, que exacerbado pela dureza biológica da pandemia da COVID 19, poderíamos insistir em alguns pontos que podem nos ajudar a insistir no lugar significativo que a abordagem da construção social de crenças tem hoje como um campo específico das ciências sociais.

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que existe um clima que desvaloriza o conhecimento das ciências sociais dedicadas à análise das crenças em todos os níveis, desde o operador de mídia até o tweeter que desacredita nos pesquisadores porque seus temas são “irrelevantes” para o bem comum, como demonstrado pelo questionamento do trabalho de Soledad Quereillhac sobre o esoterismo e o conhecimento científico entre um século e outro, mesmo o pesquisador formado nas ciências duras que não entende por que diabos os sociólogos, antropólogos e historiadores estudam os modos de produção, circulação e uso dos saberes, religiões ou crenças. Também não negligenciaria os próprios cientistas sociais que, diante da pandemia da COVID 19, parecem desconfiar mais do que nunca do clima “relativista” ou “construtivista” de uma série de estudos contemporâneos sobre o status da crença, a eficácia, a evidência e a confiança.

Em segundo lugar, devemos insistir que o relativismo epistemológico não é relativismo político. O exercício da simetria é um exercício cognitivo, não um que implique a simpatia ou a justificação moral do outro, seja ele qual for. A antropologia tem que romper com esta romantização do Outro, que muitas vezes é implícita, e em outros momentos explícita. Nossos compromissos políticos podem se distanciar do relativismo, se eles o fizeram em boa parte da defesa da diversidade, não precisam necessariamente continuar fazendo isso. Talvez possamos ser menos ingênuos nesta relação, mas isto não implica renunciar ao projeto de relativismo cognitivo, que é um veículo de conhecimento e não um compromisso exclusivamente ético com o Outro, como o antropólogo Talal Asad aponta de forma paradigmática para a disciplina em seu famoso ensaio O conceito de tradução cultural na antropologia social britânica. Uma antropologia de crenças, ou talvez de conhecimentos e modos de vida, daqueles de quem não gostamos é necessária, cada vez mais necessária. Talvez neste momento, a necessidade de um olhar próximo, detalhado e sincero sobre os princípios e modos de crença “não-empáticos” abra um novo dilema epistemológico que vem sendo discutido há décadas, mas que adquire agora uma relevância inusitada.

Finalmente, resta apenas mencionar algo em relação ao conceito de crença como um recurso analítico. É bom lembrar que toda a vida social contemporânea é construída sobre a “crença”. Crença no Estado, no dinheiro, no amor. A ideia é muito antiga, pelo menos desde o final do século XIX já se dizia que sem essas crenças não haveria sociedade. Se levarmos as críticas de crença ao máximo, devemos descartar, apenas para começar, todas as religiões, então seguir pelos sistemas de confiança monetária e, finalmente, pela mesma democracia participativa, a liberdade e o indivíduo. Todos esses sistemas são regimes de confiança. É necessário qualificar a crítica ingênua da chamada “pós-verdade” ou das “fake news” como se fossem uma espécie de manipulação de idiotas, pessoas ignorantes ou, como dizem alguns psicólogos e cientistas políticos, pessoas com “preconceitos cognitivos”. Em qualquer caso, a disputa não deveria basear-se apenas em negá-los (mesmo quando muitos deles se baseiam em ações deliberadas de má fé, seus efeitos sociais não podem ser reduzidos a isso), mas em mostrar suas condições de eficácia, e perguntar o que estamos fazendo de errado, que os modelos que esperamos que sejam social e coletivamente acordados como válidos não são. Isto poderia nos levar a justificar a ciência, mas de um lugar menos grandiloquente, mais humilde e cotidiano. Entender o funcionamento dos regimes de confiança, evidência e eficiência que geralmente são chamadas de crenças, depende não só da vida humana, mas também da possibilidade de construirmos outro tipo de sociedade democrática nos próximos anos.

***

[1] Nota de tradução: o dia 17 de agosto, em diferentes pontos da Argentina, diferentes setores se manifestaram em contra da quarentena pela pandemia e em contra do governo nacional. 

Nicolas Viotti é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Sociólogo pela Facultad de Ciencias Sociales (Universidad de Buenos Aires) e pesquisador do CONICET.

As imagens são da publicação original

Uma ciência plural é possível?

Uma ciência plural é possível?

By admin in Novidades on setembro 16, 2020

A questão da ética na pesquisa em educação desde uma perspectiva (cosmo)política

O dia 1 de setembro, a professora, pesquisadora e integrante do nosso grupo de pesquisa, Isabel Carvalho, fez uma aula inaugural no Programa de Pós- Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A aula foi intitulada “Uma ciência plural é possível? A questão da ética na pesquisa em educação desde uma perspectiva (cosmo)política”.

Para isso, Carvalho fez um recorrido do contexto mundial e do contexto nacional respeito à pandemia gerada pela COVID-19 onde discursos de negacionismo e descrença da ciência ganharam muita relevância. Tendo em vista isso, convidou aos/às ouvintes a pensar ciência, ética e política a partir de duas autoras: Donna Haraway e Isabelle Stengers. Disponibilizamos aqui o link do vídeo para quem tiver interesse. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A vida e a morte entre gestar e respirar: mortalidade materna por covid-19

A vida e a morte entre gestar e respirar: mortalidade materna por covid-19

By admin in Novidades, Publicações on setembro 15, 2020

Por Giorgia Carolina do Nascimento 

O surgimento de um velho problema

Um novo vírus, de alta letalidade entre humanos, se espalha ao redor do globo e faz com que seus habitantes percebam como respirar é prioritário na manutenção de suas vidas. Nessa realidade em que sabemos não ser ficcional, uma nova organização política e sanitária passa a delinear o que poderia ser entendido como “essencial”.  Serviços como os oferecidos em bares, restaurantes ou salões de beleza não eram considerados “essenciais”, assim como a renovação de receitas de contraceptivo em muitas unidades de saúde; ou também a presença de acompanhante durante o trabalho de parto, tendo a negativa como conduta adotada em hospitais pelo Brasil. O que poderia, assim, ser considerado tão importante e inalienável quanto respirar? 

Tanto em discussões acadêmicas, como em diretrizes municipais ou na ponta dos serviços, profissionais da saúde têm disputado narrativas sobre o que seria considerado um “serviço essencial”. Em decorrência das tensões e mudanças no Ministério da Saúde, que desde o dia 15 de maio conta com um ministro interino, em cada município as unidades têm agido de maneiras diversas no que diz respeito ao atendimento às gestantes, parturientes e puérperas. Isso porquê, apenas seis meses após o surto se iniciar no país, é que passa a existir um protocolo de atuação, com as diretrizes divulgadas no Manual de Recomendações para a Assistência da Gestante e Puérpera em setembro.

Ao observar, assim, um panorama em que os direitos sexuais e reprodutivos passam a ser flexibilizados – bem como ocorre com outros direitos de minorias em contextos de crise – aparece uma elevação no número mortes maternas. Haja vista também que a redução da mortalidade materna foi o único objetivo do milênio a não ser cumprido até 2015, não é de se surpreender que ela apareça como uma das consequências do contexto gerado pela pandemia, catalisadora de desigualdades sociais já existentes.

A “vulnerabilidade” entre corpos que gestam

 Enquanto direito da gestante, o oferecimento de uma assistência pré-natal considerada de qualidade é dever do estado. Contudo, aparece a ela como dever quando em políticas de educação e saúde a figura da mãe é desponta como uma espécie de “parceira” do estado. Meyer (2005) aponta como essa é uma das maneiras com que a biopolítica se faz por meio do controle e vigilância sobre corpos que gestam e parem, sob a égide do controle de natalidade. Ao passo em que esse fenômeno ocorre por meio da responsabilização contemporânea da maternidade, o mesmo estado que atribui deveres tem sido apontado como ineficiente em fornecer suporte para que eles se efetivem. 

A Gestante (Lasar Segall, 1920)

É assim que, neste período de pandemia do novo coronavírus (covid-19), o controle social em saúde tem apontado como uma debilidade nesse suporte tem se traduzido nos exorbitantes índices de mortalidade materna no país. Em uma publicação recente no International Journey of Ginecology and Obstetrics, com base em dados disponíveis pelo sistema SIVEP Gripe do Ministério da Saúde, pesquisadoras apontam que a taxa de mortalidade por covid-19 entre as gestantes brasileiras é de 12,7% (Takemoto et al, 2020). Até junho, em outros países, a taxa encontrada seria 3,5 vezes menor.

O estudo teve grande repercussão nacional e mobilizou A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) a lançar uma nota. Isso porque foi constatado como, dentre as mulheres que faleceram, 22% não foram internadas na UTI e 14% não tiveram suporte ventilatório. Apenas 64% foram entubadas e colocadas em ventilação mecânica.  Além disso, Takemoto et al (2020) ressaltam que falta de assistência, problemas do sistema de saúde, falta de insumos e recursos são todos barreiras de acesso. Ou seja, tais números, que mostram como essas mulheres já chegam em estado agravado no hospital, falam sobre as desigualdades que se escancaram com o contexto da pandemia.

A despeito das dificuldades em se coletar dados, seja pela falta deles, com a subnotificação, ou pelas questões implicadas em trabalhar com dados de baixa qualidade em decorrência de sua diminuta quantidade, ainda é possível por meio deles perceber parte do racismo estrutural sobre o qual se assenta o Brasil. Primeiro porque a baixa qualidade dos dados – devido à sua quantidade diminuída, ilustrando a dificuldade em se colher a informação raça/cor, que deveria constar em todas fichas de saúde, conforme previsto na Política Nacional de Saúde Integral da População Negra – representa um apagamento que, em si, é amostra das iniquidades raciais em saúde. Segundo porque, a despeito dessas implicações, os dados disponíveis também não deixam de corroborar essa realidade. 

Débora Santos et al (2020), quando comparam os índices de mortalidade materna entre mulheres negras e brancas devido ao COVID-19, constatam como a mortalidade entre mulheres negras foi quase duas vezes superior. Isso porque, a despeito de perfis semelhantes, de idade e morbidade, eram hospitalizadas em piores condições – por chegarem em estado mais agravado nos hospitais -, além da maior taxa de admissão na UTI, ventilação mecânica e óbito. Esses dados, ao contrário de apenas números, são representativos de processos que gestantes, parturientes e puérperas, especialmente as entendidas como “vulneráveis”, experienciam de maneira coletiva no país.

A asfixia já estava ali

No campo biomédico, a morte materna configura-se entre aquelas consideradas como “mortes evitáveis”. Tendo em vista que o ciclo gravídico-puerperal não é doença, mas um processo fisiológico, profissionais apontam que na maioria dos casos não haveria nada no campo biomédico, fisiológico, que as justificassem, a não ser a falta de atendimento adequado. Por isso, é considerada como um dos grandes indicadores de má qualidade dos serviços.  No Brasil, disparidades raciais no processo de atenção à gestação e ao parto são reflexo da atenção de pior qualidade recebida pelas mulheres negras (Leal et al, 2017) e mostram como experiências vividas por meio da raça, da classe e do gênero, além de constituírem-se mutuamente, se fazem também por meio da relação com os serviços de saúde.

Apesar de entendidas como “mortes evitáveis”, com o que autores como Almeida (2018) e Mbembe (2018) propõem, por meio de um olhar para a estrutura, busco refletir como esta realidade não expressa aspecto conjuntural e tampouco um fenômeno anormal, mas, ao contrário, a norma.  Dados como os apresentados, revelam algumas das desigualdades estruturantes de países colonizados como o Brasil e conformam suas relações, econômica, política e subjetivamente. Nessa relação, não apenas alguns corpos deixam de serem reconhecidos como sujeitos das políticas pelo estado, como este reuniria o direito de deixar viver uns em detrimento dos outros ou de fazer morrer em detrimento de algo maior, de um bem supostamente coletivo (Mbembe, 2018).

É deste modo que o advento da pandemia catalisa duas faces do parto enquanto evento não apenas biológico, mas político, no Brasil: a da biopolítica, com a responsabilização e o controle da natalidade, mas também a da necropolítica, especialmente com índices de mortalidade materna que assustam às autoridades e que assolam às famílias das vítimas. Especialmente no que se refere ao gerenciamento das populações pobres, negras e periféricas, sob a lógica da biopolítica, nos serviços ofertados à população há um modo de funcionamento que diz respeito à negligência e à precariedade. Ao fazer viver de modo precário, viver passa a ser sobreviver. No entanto, ser gestante no Brasil da pandemia não é apenas experienciar um tipo de atenção e de cuidado, ou da falta dele, em que se deixa morrer lentamente. Ao contrário, o que passa a aparecer é o advento da necropolítica. 

Table for goods. Grada Kilomba/Desobediências poéticas (2017)

A morte materna, em especial de mulheres entendidas como vulneráveis – periféricas, negras e também as indígenas – é expressão de um dos tentáculos desse fenômeno, em que guerra e morte revelam-se não como exceção, mas como parte constitutiva do estado e que se faz e se refaz todos os dias por meio da lógica colonial. As iniquidades raciais em saúde seriam, deste modo, amostra do projeto de política de morte estruturante das relações sobre as quais assenta-se a constituição de países colonizados e profundamente desiguais como o Brasil.

“No final, tudo nos traz de volta ao corpo”

Assim, é entre o par bio-necropolítica que se gesta e se pare precariamente e também se tem a respiração cessada prematuramente na pandemia do terceiro mundo. Pensando nisso, este último bloco tem como subtítulo parte da reflexão a que nos convida Mbembe (2020) em seu texto “O direito universal a respiração”. Nele, o filósofo apresenta a metáfora de que o mundo é um grande corpo que habitamos e, ainda, que as florestas seriam seus pulmões, os quais nos permitiriam a vida. Mas essa Terra, que é mãe, nos faz lembrar de que há ainda um corpo primeiro o qual habitamos antes de passarmos a este mundo. E é a este universo primário para o qual busquei chamar a atenção neste texto.

Este corpo, que não deixa de ser pautado por diferenças – de classe, raça, geração etc – que o inscreve como mais ou menos “vulnerável”, também se constitui pelo universo da saúde sexual e reprodutiva. No que se refere às gestantes indígenas, negras e periféricas, ocorre não apenas uma distribuição desigual da vulnerabilidade, em que se deixa e faz morrer àquela que faz viver,  mas, com isso, uma distribuição desigual do contato com o vírus, mostrando como também existe uma desigualdade colocada em termos de racismo ambiental, em que “respiração plena não é igual. O acesso à respiração segura do ar é um problema político e ético contemporâneo” (Chloe Asker, 2020).

Sem título (Ani Ganzala, 2020)

Especialmente diante da visibilização de pautas como “vidas negras importam”, findo aqui com a seguinte reflexão: Como imaginar e construir futuros em um presente em que este corpo primeiro, que gesta, é parte dos principais alvos desse vírus letal, que asfixia corpos já agonizantes? Mbembe propõe que, ao olhar para a respiração, talvez seja possível valorizar a vida entendendo-se não apenas enquanto espécie humana, mas como parte integrante da bioesfera. Se este for um projeto possível, pois que se comece, então, revertendo a morte do início.

***

Imagem destacada: Mascarados, ou quase. (Ani Ganzala, 2020)

Referências:

ASKER, Chloe. (Mc) Mindfulness e as políticas da respiração. NUES, 25 de agosto de 2020. Disponível em: https://nues.com.br/mcmindfulness-e-as-politicas-da-respiracao/

FEBRASGO. Nota oficial de alerta às mortes maternas associadas a covid-19, 2020. Disponível em <https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1067-nota-oficial-de-alerta-as-mortes-maternas-associadas-a-covid-19>. Último acesso 10/09/2020.

LEAL, Maria do Carmo et al. A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro ,  v. 33, 2017.   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102311X2017001305004&lng=en&nrm=iso>. Último acesso 11/09/2020. 

MBEMBE, Achille. O direito universal à respiração. Trad. Mariana Pinto dos Santos e Marta Lança, 2020. Disponível em < geledes.org.br/o-direito-universal-a-respiracao>. Último acesso: 10/09/2020. 

SANTOS, Débora de Souza et al. Disproportionate impact of COVID-19 among pregnant and postpartum Black Women in Brazil through structural racism lensClinical Infectious Diseases, 2020. 

SCHWANGERE [A Gestante]. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra1488/schwangere-a-gestante>. Acesso em: 12 de Set. 2020. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

TAKEMOTO, Maira Liberdad Soligo et al. The tragedy of COVID-19 in Brazil. Internationcal Journal of Gynecology Obstetrics, 2020. 

 

Yoga e imunidade em tempos de pandemia

Yoga e imunidade em tempos de pandemia

By admin in Novidades, Publicações on agosto 26, 2020

Por Tuhina Ganguly para Religious Matters

Traduçaõ por Cecilia Bastos e Thaís Assis

O mantra “mantenha a forma” aparentemente renovou sua relevância no contexto da atual pandemia na Índia e a nível global à medida que pessoas privilegiadas se encontram em casa, afastadas de academias e parques. O convite para cuidar de nós mesmos surgiu como um estímulo para se manter saudável durante o isolamento social. De forma significativa, também conseguiu trazer o sistema imunológico para as nossas discussões cotidianas. Mesmo quando encontramos, para nosso horror, o número crescente de mortes em todo o mundo, é evidente que aqueles com um sistema imunológico comprometido estão mais vulneráveis ao ataque do vírus.

Em 20 de março de 2020, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da Organização Mundial da Saúde, sugeriu que as pessoas façam yoga para manter sua saúde física e mental. “Isso não só o ajudará a longo prazo, mas também o ajudará a combater o COVID-19, se você for infectado”, sugeriu. Como o yoga moderno, combinando pranayama (técnicas de respiração) e asana (posturas físicas), entra na cena atual? Ele pode impulsionar o sistema imunológico? E quais são as maneiras pelas quais o yoga se cruza com as abordagens espirituais, biomédicas e biopolíticas do corpo, quando vistas através das lentes do sistema imunológico?

Os conselhos de Ghebreysus ressoam as recomendações feitas por outras organizações de saúde e por praticantes de yoga. Uma publicação no Harvard Health Blog, feita pelo médico John Sharp, recomenda a prática de yoga para aliviar a ansiedade nas circunstâncias atuais. O impacto do estresse no sistema imunológico continua a ser pesquisado, mas alguns estudos já desenvolvidos sugerem uma conexão causal entre altos níveis de estresse e ansiedade com um sistema imunológico mais frágil. Enquanto o discurso de Ghebreyesus parece sugerir uma conexão direta entre o yoga e um sistema imunológico mais forte, o post de Sharp se alinha à associação comumente feita entre yoga-meditação e alívio do estresse. De qualquer maneira, as interseções atuais entre yoga e imunidade compõem o escopo das investigações antropológicas sobre os emaranhados dos diferentes entendimentos de saúde e corpo e suas implicações.

Cobra pose/bhujangasana pintada na lateral de um viaduto, Índia (imagem cortesia: autor)

Imunidade e estilo de vida

O surgimento do yoga como medida preventiva no cenário atual de Covid-19, em minha opinião, é resultado de sua inclusão na medicina integrativa a nível global e de um impulso agressivo na Índia, através de intervenções institucionais por parte do Estado e de gurus iogues. Seu impacto nas doenças relacionadas ao estilo de vida, como diabetes e hipertensão, parece ser reconhecido ou pelo menos apoiado por médicos dos sistemas médicos tradicionais e da biomedicina. Não obstante, doenças derivadas do estilo de vida não são doenças transmissíveis. A atual pandemia, por outro lado, redirecionou nossa atenção para as interconexões entre o sistema imunológico e o estilo de vida no contexto de doenças transmissíveis.

Dadas as complexas redes de células e moléculas que compõem essa expressão ambivalente, “sistema imunológico”, existem pontos de vista diferentes e outros tantos em emergência sobre o impacto do estilo de vida em nossa imunidade. Uma publicação de setembro de 2014, atualizada em 6 de abril de 2020, do Harvard Health Blog afirma que, embora atualmente não existam estudos conclusivos que revelem conexões diretas entre o estilo de vida e o sistema imunológico, já existem projetos de pesquisa em andamento investigando esta interconexão. O post continua sugerindo a escolha de um estilo de vida saudável para manter “seu sistema imunológico forte e saudável”. Patologistas e imunologistas também têm indicado uma conexão entre exercício, dieta e o sistema imunológico (Childs, Calder e Miles 2019; Knight 2012).

Esteira de yoga para venda em uma mercearia, Índia (foto cortesia: autor)

Porém, enquanto a pesquisa científica se empenha em definir essas interconexões, as narrativas voltadas a “impulsionar”, “apoiar” e “fortalecer” o sistema imunológico através do estilo de vida com dietas, exercícios e meditação têm sua relevância renovada no vocabulário dos leigos. Conversando com meus amigos e familiares na Índia, parece que o sistema imunológico nunca foi um tema tão popular para as conversas diárias como agora. Tais narrativas combinam noções de saúde e cura com agência e empoderamento individuais, focando no indivíduo como o ponto nodal da responsabilidade moral, orientada pela comunidade.

As normas de distanciamento social, o uso de máscaras, a lavagem das mãos e o auto-isolamento colocaram as táticas de prevenção individual (impostas ou voluntárias) no centro das estratégias governamentais para impedir a propagação do vírus. É nesse ambiente que enfatiza o autocuidado, o condicionamento físico, a agência individual e noções de responsabilidade moral que muitos indivíduos da classe média indiana estão se voltando para o yoga. Como uma amiga minha, Neeta (nome alterado), que recentemente ingressou nas aulas de yoga online, disse em uma conversa pessoal: “Não podemos fazer nada além de tomar precauções e nos mantermos livres de estresse”.

Tais emaranhados entre as noções de estresse e imunidade, com foco no estilo de vida individual e no autocuidado, tem se reconfigurado por intermédio de certas mudanças epistêmicas na compreensão do corpo. Tais mudanças combinam os paradigmas do yoga com o biomédico, o espiritual com o científico e o moral com o político.

Epistemologias do corpo

No Yoga Sutra de Patanjali, que é sem dúvida o texto sobre yoga mais citado, o sistema de asana-pranayama corresponde ao sistema de corpo-mente. O objetivo do yoga, segundo Patanjali, é o cessar de todas as formas de movimento que por fim leva ao samadhi (pura consciência) (BRYANT, 2009). Embora o samadhi continue sendo uma meta difícil para a vida em família, na linguagem de hoje, alcançar a “consciência” surgiu como um objetivo central da prática de yoga. No contexto atual, desestressar e melhorar a consciência através do yoga foram combinados aos discursos sobre o sistema imunológico que apontam para interseções entre espiritualidade e ciência.

Um vídeo indiano postado no YouTube em março de 2020, que obteve mais de 15.000 visualizações, afirma a importância de asanas e pranayamas para prevenir a contaminação por Covid-19 através do fortalecimento do sistema imunológico. Os asanas e pranayamas apresentados no vídeo estão voltados para uma ou ambas abordagens que apresento a seguir. A primeira visa “fornecer um relaxamento profundo a todo o sistema corpo-mente”, como uma maneira de combater os imunossupressores – estresse, medo e ansiedade. Fazendo eco a tais narrativas, um dos meus interlocutores praticante de ioga me disse: “Eu me sinto levado a praticar ioga (atualmente). Estou praticando estilos mais restauradores, porque é reconfortante e abre o peito, sinto mais ar, isso conecta minha mente ao meu corpo, é meditativo segui-lo”. O sistema mente-corpo se combina aqui à obtenção de um estado físico e espiritual de consciência que está conectado mais profundamente com discursos de estresse e imunidade.

Deixe-me pensar um pouco mais na abundância semiótica da frase “abrindo o peito”. Em minhas aulas de yoga, os professores frequentemente nos instruem a abrir o peito. Abrir o tórax é uma instrução para alcançar a postura corporal necessária para certos asanas e se refere, por exemplo, a manter o tronco reto e na vertical. Ou acompanha o movimento de esticar os braços nas laterais. Além disso, abrir o peito também se refere a uma condição de bem-estar psíquico, espiritual e físico que certos asanas ajudam a alcançar. Abrangendo o coração e os pulmões, o tórax é uma região capaz de conjugar terminologias espirituais e médico-científicas. O coração, entendido nos Upanishads como um vazio ou uma cavidade, é o centro do atman (ou do eu mais íntimo) e da consciência (WHITE, 1996). Abrir o peito, portanto, é abrir a “caverna do coração” e, portanto, da alma, para Brahman, o princípio cósmico absoluto (KEARNEY, 2008).

O conceito de eu interior nas Upanishads está intimamente ligado à noção de respiração ou prana (KEARNEY, 2008; WHITE, 1996). É na conjuntura do prana e da respiração que talvez haja outra mudança epistêmica em andamento ou com potencial de emergir como tal. No vídeo que mencionei anteriormente, a segunda abordagem apresentada envolve lidar com o sistema respiratório por meio de técnicas de respiração, “para que o eventual ataque do Covid-19, que causa desconforto respiratório, possa ser totalmente evitado”. Na epistemologia ióguica do corpo, a respiração é um componente central. Considerando que o vírus parece afetar particularmente os pulmões e o sistema respiratório, ele deixa margem para que uma compreensão prânica do corpo se entrelace com noções biomédicas do sistema imunológico?

Pranayama ou exercícios de controle da respiração (fonte Wikemedia)

O prana, enquanto conceituação da respiração e do fôlego, faz parte de um sistema complexo de “ares vitais” do corpo (BRYANT, 2009, p. 571). Sendo o principal ar vital, o prana também orienta os outros ares relacionados à digestão de nutrientes, à eliminação de resíduos corporais, à circulação e aos movimentos ascendentes (ibid). Essa complexa interconectividade da respiração, operando dentro de um sistema amplo, tem o potencial de se alinhar à concepção do sistema imunológico percebido como um complexo de redes. Porém, enquanto este último é compreendido na biomedicina principalmente através das lentes das células, dos micróbios e, cada vez mais, dos órgãos, o yoga parece encontrar na situação atual um impulso para evidenciar a respiração ou o prana no âmbito de sua compreensão do corpo e da imunidade.

Resta saber se haverá, e se houver de quais maneiras, uma integração duradoura entre o yoga e a biomedicina partindo do sistema imunológico. No entanto, a pandemia atual pode muito bem ter servido para realinhar de maneira significativa as epistemologias ióguicas e biomédicas do corpo.

Imunidade, Yoga e Biopolítica

Voltemos à história da minha amiga Neeta, que tem se dedicado a aulas de yoga online para lidar com as ansiedades da pandemia. Na mesma conversa, ela me disse que estava particularmente ansiosa com o fato de seus pais morarem sozinhos em uma cidade ao norte da Índia, a poucas centenas de quilômetros dela, onde havia rumores sobre o contágio do Covid-19 em uma escola islâmica local. Esses rumores se seguiram às associações recentes feitas entre um aumento nos casos de Covid-19 na Índia e um evento islâmico organizado em Nova Délhi pelo Tablighi Jamaat em março de 2020.

Como os antropólogos argumentam, os discursos biomédicos sobre o sistema imunológico e sua mobilização nos imaginários nacionais quase nunca são inocentes. Discursos sobre imunidade inevitavelmente dão origem e reforçam a criação de fronteiras (MARTIN, 1990). A criação do self e do eu saudável, nas interseções do corpo individual e nacional, envolve um processo de exclusão e repulsa. O que é excluído pelo organismo individual, ou o que deveria ser excluído pelo organismo individual, em sua busca por se tornar menos vulnerável (invencível, talvez) é ao mesmo tempo uma questão que se estende ao âmbito nacional. Dado que as práticas do estilo de vida de certas comunidades, incluindo suas práticas religiosas cotidianas, aparentam ser particularmente suspeitas deparamo-nos com perguntas sobre quem parece fazer o organismo nacional vulnerável? Quem é excluído da criação do self? Quem pode reivindicar empatia e cuidado individual e coletivo? Nestes tempos, as interseções do yoga e da biomedicina apontam, repetidamente, para a construção da nação e para a biopolítica.

A popularidade atual dos vídeos de yoga na Índia e sua legitimação são parte tanto da história antiga do yoga postural moderno quanto de seus desenvolvimentos recentes. Em sua discussão sobre o yoga moderno na Índia, Joseph Alter escreve: “A posição do yoga no discurso nacionalista tornou possível imaginar – em termos do corpo e de práticas incorporadas – uma comunidade global” (2004, p. 102). O yoga universaliza, simultaneamente, uma prática incorporada e o hinduísmo, por meio do estilo de vida individual e do estabelecimento de conexões entre o presente e um passado védico glorioso. O apoio ativo do governo ao yoga aliado à imensa popularidade de gurus carismáticos contemporâneos, impulsionada pela televisão e pelas mídias sociais, consolidou o yoga como um presente exclusivo da Índia para o mundo, ao mesmo tempo em que mobilizou o orgulho nacional pelas “tradições” indianas. Tais tradições são exaltadas em narrativas nacionalistas e também universalistas, na medida em que são consideradas exemplares da sabedoria ancestral indiana, que está no coração do hinduísmo e ainda pode se mostrar verdadeira para toda a humanidade.

Essas conexões e interações estão, é claro, longe de serem diretas. Mas o poder desses emaranhados reside em sua capacidade de penetrar sutilmente nas práticas cotidianas em torno da saúde e da boa forma. Em uma das minhas aulas de yoga (muito antes do isolamento social), a instrutora nos orientou a ficar sem consumir álcool pelo menos enquanto estivéssemos fazendo o curso. Deveríamos tratar esse período como um momento de “desintoxicação”, segundo ela. Essa linguagem para corrigir o mal-estar causado pelo excesso de consumo se integra facilmente às regras de pureza e poluição que sustentam as castas e as diferenças religiosas. Em outra aula, com um instrutor diferente, uma colega muçulmana não-praticante me confidenciou certa vez que estava preocupada com o fato de o instrutor sentir o seu hálito com cheiro de alho após o almoço! “Eles não gostam”, disse ela, referindo-se à concepção alimentar hindu que considera cebola e alho como alimentos “quentes”, que podem dar origem a pensamentos “impuros”. Em um país onde líderes religiosos e políticos carismáticos exercem muita influência, a retórica dominante dificulta o divórcio entre práticas “autotransformadoras” presentes no contexto mais amplo das filiações crescentes ao Hindutva e das inserções brandas de tais tendências no cotidiano. Ao mesmo tempo, o consumo dessas práticas isola o indivíduo das questões sócio-políticas mais amplas.

O foco no corpo individual permite aos praticantes separar precisamente o corpo físico de sua constituição sociopolítica. Manter-se livre de estresse nesses tempos é importante. Porém, a ênfase no corpo individual torna a pessoa imune às políticas excludentes dessas práticas?

O desafio sem precedentes de nossa época impôs novos acertos de contas, sobretudo em questões de saúde e cura. As práticas religiosas e espirituais inevitavelmente ganham novos fundamentos em tempos de crise. Em especial, este é o caso das práticas físico-espirituais do corpo. No entanto, este também é o momento de interrogar os acordos transnacionais sobre o corpo e a imunidade para observar mudanças sutis nos paradigmas epistêmicos formados nas interseções entre o espiritual e o físico. E as implicações dos imaginários do corpo individual e nacional, ao mesmo tempo espirituais e científicos, para uma ética coletiva de habitar esses tempos difíceis.

***

O texto original foi publicado em Religiuos Matters: https://religiousmatters.nl/yoga-and-immunity-in-the-time-of-the-pandemic/  

Tuhina Ganguly é professora assistente no Departamento de Sociologia, Universidade Shiv Nadar, Índia. Seus principais interesses de pesquisa estão na área de religiosidades e espiritualidade contemporânea. O projeto etnográfico atual de Tuhina está focado nas interseções das práticas espirituais e epistemologias do corpo.

Tradutoras:

Cecilia Bastos é doutora em Ciências Sociais pelo PPCIS da UERJ e pesquisadora em Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ.

Thaís Assis é doutoranda em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Possui experiência na área de Sociologia da Religião, privilegiando temas ligados a espiritualidades e terapias holísticas.

 

Referências Bibliográficas

ALTER, Joseph. 2004. Yoga in Modern India: The Body between Science and Philosophy. Princeton University Press: Princeton.

BRYANT, Edwin. 2009. The Yoga Sutras of Patanjali: A New Edition, Translation and Commentary with Insights from the Traditional Commentators. North Point Press: New York.

CHILDS, Caroline E., Philip C. Calder and Elizabeth A. Miles. 2019. “Diet and Immune Function”. Nutrients 11(8), 1933. 

KEARNEY, Richard. 2008. “Pranayama: Breathing from the Heart”. Religion and the Arts 12: 266-276.

KNIGHT, Joseph A. 2012. “Physical Inactivity: Associated Diseases and Disorders”. Annals of Clinical and Laboratory Science 42 (3):320-337. 

MARTIN, Emily. 1990. “Toward an Anthropology of Immunology: The Body as Nation State”. Medical Anthropology Quarterly 4(4): 410-426.

SHARP, John. “Coping with Coronavirus Anxiety”. Harvard Health Blog. March 12, 2020. Accessed March 25, 2020. 

WHITE, David Gordon. 1996. The Alchemical Body: Siddha Traditions in Medieval India. The University of Chicago Press: Chicago.

Formas de visualização da respiração e a pandemia do novo coronavírus

Formas de visualização da respiração e a pandemia do novo coronavírus

By admin in Novidades, Publicações on agosto 20, 2020

Por Giovanna Paccillo

A pandemia do novo coronavírus nos fez atentar para um movimento mais amplo que poderia ser descrito como uma preocupação cada vez maior à respiração. O fenômeno não é novo – a exemplo do projeto Life of Breath, da Universidade de Bristol (UK) que ao menos desde 2015 vem desenvolvendo pesquisas interdisciplinares sobre respiração. Esse movimento pode ser observado tanto empiricamente, no sentido da multiplicação de artigos, colunas e livros abordando a respiração, mas também teoricamente, uma vez que a respiração como metáfora para pensar política, sociedade e o mundo capitalista é algo que também vem sendo pautado. No entanto, vem me chamando a atenção o uso contínuo de imagens em vídeos do fluxo de deslocamento do ar quando pessoas desempenham atividades corriqueiras ou possíveis sintomas da COVID-19 – como a tosse e o espirro. 

Tal interesse é justificado porque, desde o início de 2019, comecei a prestar mais atenção na respiração no contexto da minha própria pesquisa com ansiedade e Transtorno de Pânico. Na mesma época, conheci o Life of Breath e fiquei encantada com as obras de arte de Jayne Wilton. A artista, que havia estampado ao longo de 2016 as capas do periódico científico The Lancet Respiratory Medicine , fazia de seu principal objetivo tornar a respiração visível (fig 1).

Fig 1: Essa obra compõe a exposição Breathe, na qual a respiração de uma série de indivíduos foi capturada em uma superfície de cobre brilhante e, em seguida, gravada para criar um negativo onde a respiração se assentou na placa de cobre.

Suas obras se utilizam dos mais variados materiais e técnicas para capturar tanto o ar exalado quanto o ar inalado. Ao pensar a partir das obras de Jayne Wilton, o projeto Life of Breath começou a refletir sobre os usos de suas técnicas para além da “apreciação estética” (MacNaughton; Carel, 2016, p.306), incorporando-a na prática clínica através da invenção de um novo dispositivo que pretendia auxiliar no tratamento de pacientes com dificuldades respiratórias. Tratava-se de uma mistura de técnicas utilizadas pela artista, e de técnicas de visualização que já faziam parte de um cotidiano científico, agrupadas sob o nome shadowgraph. A ideia é relativamente simples: a pessoa que terá sua respiração observada se posiciona em frente a um espelho côncavo e uma fonte de luz é apontada para o indivíduo e para o espelho. As imagens são obtidas quando a luz refletida do espelho é refratada em diferentes graus à medida que passa do calor da boca para o ar mais frio ao redor, “a imagem resultante se parece com a superfície da lua, ondulando em padrões particulares” (Ibid, p.306 tradução minha).

A adaptação desse dispositivo para o ambiente clínico visava responder a um desejo compartilhado por pesquisadores, médicos e pacientes, de tornar visível e entender a forma que a respiração adquiria pelo ar. Segundo afirmam Carel e MacNaughton, comentários sobre como temperatura, textura e peso do ar afetam a respiração são comuns em pacientes que sentem alguma dificuldade de respirar. Ao torná-la visível na clínica, espera-se que os pacientes entendam e articulem a relação que tem com a respiração de forma mais simples aos médicos. Além disso, promoveria um novo método não invasivo de medição da respiração, no qual poderia se identificar padrões de nuvens em comum entre diferentes condições respiratórias. Apesar de já existir uma tecnologia parecida ao menos desde 1970 (Tang et. al. 2012), seu uso clínico é um indicativo de que esse tipo de imagem poderia ir além. No escopo de interesse do projeto Life of Breath, a imagem poderia servir para diagnósticos individuais e para um processo de entendimento de uma condição pelo paciente em questão.

Figura 2: Shadowgraph. Fonte: artigo de Tang. et. al

Tang et. al. (2012), ao discorrerem sobre o dispositivo científico do shadowgraph afirmam que, ao menos desde os surtos de síndrome respiratória aguda (SARS) em 2003, têm havido um grande interesse no desenvolvimento de métodos para avaliar os riscos de transmissão por aerossol (ou pelo ar) de agentes infecciosos presentes em humanos, como vários outros subtipos de vírus influenza A. No entanto, esses estudos se centraram principalmente em amostragens de ar em ambientes específicos, como dentro de hospitais e outros espaços relacionados ao campo da saúde. Os autores chamaram atenção, portanto, para a importância de examinar a dinâmica dos fluxos de ar em “atividades respiratórias humanas naturais, como respirar, falar, rir, tossir e espirrar, o que proveriam as maiores forças motrizes para expulsão de gotículas de saliva ou muco em aerossóis gerados por humanos”, que podem “transportar uma variedade de agentes infecciosos transmissíveis por vias aéreas” (Ibid, p.2)

A vantagem desse tipo de técnica é não usar nenhum tipo de material irritante ou tóxico, e tampouco uma iluminação muito intensa, como é o caso dos lasers. Seria necessário apenas um espelho côncavo esférico de alta precisão com uma fonte de luz branca (LED). Desse modo, é possível usar voluntários capazes de performar várias atividades respiratórias em frente a um espelho para permitir que padrões realistas de fluxo de ar possam ser visualizados e gravados por um especialista para análise posterior (fig 2). No estudo de Tang. et. al. foram medidos os fluxos de ar de pacientes saudáveis ao tossir normalmente e ao tossir em seus cotovelos, como era recomendado pelo US Centers for Disease Control and Prevention (CDC), da cidade de Atlanta, nos Estados Unidos. Essas imagens não são simplesmente gravadas, sendo posteriormente medidas, tabeladas, transformadas em gráficos e analisadas. A captura da imagem é somente o primeiro passo de uma extensa cadeia de relações que conformam o experimento em questão.

Por que, então, em meio a uma pandemia, essa imagem, que provavelmente compõe uma cadeia meticulosa de relações num contexto de pesquisas científicas que poderão ou não servir a políticas públicas é transmitida em canais de televisão ou em vídeos no youtube em sua “imagem bruta”? A resposta a essa questão parece simples, no sentido de que a mediação entre um observador e uma imagem é menor do que entre um observador e um gráfico que resulta dessa imagem, ou seja, um gráfico muito provavelmente, vai requerer a mediação de um especialista, ou de um material de apoio. O que me parece curioso é como ocorre a transformação dessa imagem científica que se destina a um tipo de público específico, em uma imagem pedagógica que advoga pelo uso das máscaras só que para um público leigo.

Fig. 3: Reprodução de tela do vídeo da vox. Fonte:
https://www.youtube.com/watch?v=gElHX1AIIOY

Um exemplo é o caso da Vox, um canal no youtube de grande alcance e que faz vídeos informativos a respeito dos mais diversos assuntos. Durante a pandemia de COVID-19 ela publicou vídeos sobre o surgimento do vírus, sobre controvérsias em torno de seu tratamento e também sobre a eficácia das máscaras. O vídeo chamado What face mask actually do against coronavírus, publicado em 22 de abril de 2020 assume um tom característico do canal, que se coloca como um mediador entre o que diz a ciência e um público leigo. Logo no início do vídeo, imagens capturadas de um shadowgraph mostravam o fluxo de ar que se deslocava quando a pessoa respirava, tossia, tossia na mão, tossia nos cotovelos, usava uma máscara de poeira, e quando usava uma máscara cirúrgica (fig 3). O vídeo da Vox não é o único a utilizar essa técnica de visualização durante a pandemia. Há outros casos interessantes como o chamado Quão bem funcionam as máscaras  e o Shadowgraph Imaging of Human Exhaled Airflows: An Aid to Aerosol Infection Control, publicado no dia 15 de março de 2020. Esse último mostrava o deslocamento do fluxo de ar em uma respiração normal, em uma respiração pela boca, ao assoviar, ao rir, ao tossir, ao tossir com uma máscara cirúrgica, ao tossir usando uma N95. Em certo momento do vídeo, uma segunda pessoa é colocada, e o deslocamento de ar passa a ser mostrado em relação a dinâmica de conversa das duas pessoas. 

Esses vídeos tinham como objetivo mostrar como as máscaras interrompem o fluxo de ar provocado pelo nosso corpo ao respirar, andar, tossir, e conversar no nosso cotidiano. A grande característica deles é fornecer uma comparação visual de um movimento sem e com uma máscara, além da comparação entre os diferentes tipos de máscaras. Essas imagens fazem algo de diferente em relação ao que muitas vezes é dito sobre as informações que nos chegam através do noticiário, na qual os especialistas são levados a esses espaços e o convencimento é feito através da figura autoritativa do cientista. Não seria apenas mais um caso clássico de “fé na ciência”, mas naquilo em que nós vemos a partir dos nossos próprios olhos.

Em artigo recente, o antropólogo Jeremy Stolow desenvolve sua noção de corpo pandêmico. Parte de seu argumento é mostrar como nossa percepção das fronteiras corporais (de onde nosso corpo começa e termina) estão sendo constantemente feitas em relação a um cálculo de risco e ameaça. Isso pode ser visto, para o autor, na multiplicação de representações visuais que demonstram o risco que um corpo corre quando colocado em determinada distância de outro. De certa forma, essas imagens da respiração materializam o que falam Juliana Boldrin e Jeremy Stolow, quando apontam para a porosidade de nossos corpos. O que nossos olhos veem ao assistir atentamente aos vídeos é uma nuvem que deixa nossa boca e nos envolve, ondulando e reverberando até tocar outras “superfícies”. Se olharmos para os comentários do vídeo teremos: “Se eu não estava paranoico antes, estou agora!”, “nós deveríamos todos estar usando máscaras”, ou “a distância segura deveria ser maior do que 2 metros”. A persuasão decorrente das imagens não provém somente do experimento visual, mas de sua montagem em sequência e em comparação, e do sentimento de medo e responsabilização que ele parece inculcar na audiência. 

A sequência de imagens ao mostrar como esse fluxo pode ser contido através das máscaras, parece tornar razoável que nós nos responsabilizemos pela delimitação dessa fronteira. Nesse sentido, além de materializarem a dinâmica do vírus, os vídeos nos oferecem uma solução: eles ensinam como podemos nos manter condensados nesse limite. Apesar disso, se olharmos atentamente para as imagens, podemos perceber um fluxo de ar que escapa das pessoas mesmo com as máscaras, mesmo que pouco. Por mais que existam tentativas de delimitar muito bem o espaço e as fronteiras, como aponta o texto de Juliana Boldrin (2020), sempre existe um deslocamento capturado pela câmera que evidencia que todos os nossos movimentos deslocam, de certa forma, o ar que nos envolve, formando uma espécie de “aura” na imagem, e escancarando tragicamente a impossibilidade de controlar todos os fluxos e movimentos – para esse problema, outras medidas teriam de ser tomadas.

A mim parece interessante pensar como essas imagens produzidas da mesma forma adquirem status completamente diferentes, dependendo da cadeia de relações de que fazem parte. Se, num primeiro momento e com a adição de cores e enquadramentos distintos, ela é considerada uma obra de arte, num outro momento ela é um dispositivo clínico de autopercepção e uma ferramenta diagnóstica. Essas imagens que se transformam nos fazem pensar ainda sobre a porosidade dos nossos próprios campos de conhecimento, nos entrecruzamentos entre arte e ciência, ciência e comunicação, alargando ainda mais as possibilidades que a metáfora da respiração nos traz.

***

Imagem destacada: MoMa Studio: Breathe With Me da Lygia Clark

Referência Bibliográficas

MACNAUGHTON, Jane; CAREL, Havi. Breathing and Breathlessness in clinic and culture: using critical medical humanities to bridge an epistemic gap. In: WHITEHEAD A, WOODS A, ATKINSON, S, et al. (Eds.). The Edinburgh Companion to the Critical Medical Humanities. Edinburgh University Press, 2016.

TANG et al. Airflow Dynamics of Coughing in Healthy Human Volunteers by Shadowgraph Imaging: An Aid to Aerosol Infection Control. In: LoS ONE 7(4): e34818. doi:10.1371/journal.pone.0034818, 2012.

 

Respiração e Máscaras: o que as fronteiras corporais fazem ver

Respiração e Máscaras: o que as fronteiras corporais fazem ver

By admin in Novidades, Publicações on agosto 18, 2020

Por Juliana Boldrin

Em 2018, eu fazia pesquisa de campo em um hospital de tratamento para tuberculose no interior do estado de São Paulo. Certa vez, uma tempestade se armava no céu, pintando toda a atmosfera do dia de cinza. Saí correndo por toda a extensão externa do hospital para tentar chegar ao ponto de ônibus antes da chuva que, contra minhas expectativas, já começava a cair forte. Mesmo correndo, uma cena me capturou no caminho. Em determinado ponto vi uma paciente com quem havia conversado boas vezes, e um moço, que no dia anterior falava sobre seu desespero de claustrofobia em relação a sua transferência para uma ala que foi reativada no hospital, o isolamento. Naquele momento, os dois pacientes estavam embaixo de um toldo, tentando não tomarem chuva, e muito próximos e sorrindo, estavam em vias de se beijarem quando passei. Eu presenciara ao longo dos dias anteriores o flerte entre eles e via crescer a intimidade entre os dois. Sabia da importância daquela relação em um contexto de hospitalização de longa duração que tornava a passagem dos dias dentro da instituição penosa.  

O moço foi transferido para o isolamento porque estava positivo, ou seja, em uma fase do tratamento na qual ainda poderia contagiar outras pessoas com a tuberculose. À sua vez, Solange estava negativa, o que em termos biomédicos quer dizer que não estava mais transmitindo a doença, ainda que seu tratamento não tivesse terminado, sendo que essas duas classificações – positivo e negativo -,  atendem às especificidades dessa doença, ao seu tratamento e modo de transmissão. O isolamento era um novo tipo de espaço na instituição, criado pela necessidade de determinadas engenharias de gestão do ar para diminuir as possibilidades de contágio tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde. Além disso, eu também sabia que a paciente estava para ter alta médica em breve. O beijo podia ser como um respiro no meio do dia naquele contexto de enclausuramento, mas ao mesmo tempo era a possibilidade da paciente regredir em todo seu tratamento. Daí um desconforto, mesmo com toda a apreciação daquele afeto.

A partir dessa memória passei a evocar, à luz da cena etnográfica descrita, Os Amantes, quadro de René Magritte datado de 1928. Com vistas àquele contexto, o quadro materializa um contato que misturava perigo e amor. Na pintura, um casal em cores fortes se beija, mas há a bonita e estranha presença de panos acinzentados que envolvem suas cabeças. Não há rostos na imagem, apenas seus contornos. A minha estranheza em relação aos panos era porque destoavam da  intimidade de um beijo, para o qual se pressupõe contato direto entre as superfícies corporais, toques, mistura entre respirações e salivas. A presença dos panos iluminava a razão do meu desconforto diante do quase beijo que vi naquele dia de chuva no hospital, já que eles faziam as vezes da demarcação de limites dos corpos que embairreirariam as trocas de substâncias e misturas de vazamentos corporais.  O perigo e o desconforto que senti passando pelos dois pacientes estava em relacionar aquela proximidade com a potencial presença invisível das bactérias que causam a tuberculose no ar que inspiravam e expiravam, e que os envolvia na troca de substâncias corporais. Este entrelaçamento entre amor e perigo com a possibilidade de contágio me provoca a pensar a respeito da criação de fronteiras corporais, especialmente a que diz respeito aos rostos, a das máscaras.

Capa da edição da Vogue Portugal. Abril de 2020

Diante de imagens de casais se beijando com máscaras neste período de pandemia da covid-19, como foi o caso da capa da edição da Vogue Portugal de abril de 2020, o novo contexto sócio-político possibilita reencontrar tanto a cena etnográfica quanto o quadro. Esse reencontro é possível na medida que as duas imagens mobilizadas sinalizam para um movimento que foi amplificado pelo novo coronavírus. Trata-se da criação de espaços bem delimitados como forma de se lidar com agentes invisíveis patogênicos tais como os vírus e as bactérias. Em escala global, esse movimento é mais notadamente visível, por exemplo, em relação às fronteiras nacionais: os fluxos de pessoas entre os países passaram a ser controlados sob novos critérios e o coronavírus, dentre outras coisas, conjugou-se com políticas de imigração que são racistas. A casa e a rua também demonstram o ponto. É preciso higienizar tudo que possa ser um rastro da rua no corpo ou nos objetos antes de atravessar o limiar da porta, a qual passou a marcar uma série de processos de higienização e de gestões daquilo que o corpo teve contato na rua. A criação desses espaços bem delimitados busca conter a expansividade do que Jeremy Stolow (2020) chamou de “corpo pandêmico”, noção que contempla a coabitação de seres vivos no que é entendido como corpo humano, mas também o microambiente dentro do qual cada corpo está: “Onde quer que se queira traçar a linha que delimita um território chamado ‘indivíduo humano’, parece que não podemos desenredar esse corpo da névoa circundante de atividade microscópica” (STOLOW, 2020, n.p). É  para um nível corporal específico dessa criação de espaços bem delimitados, cujo intuito é criar proteção contra os perigos dessa névoa circundante, que procuro chamar atenção: o nível da barreira criada no rosto a partir dos usos das máscaras, as quais se tornaram um artefato cotidiano que compõem com nossas respirações e com um novo tipo de visualidade dos rostos. 

Através das duas imagens – a da cena etnográfica e a do quadro de Magritte –, que, a partir de um ato de intimidade que remete ao amor, tensionam o corpo como uma totalidade bem delimitada e acabada nas superfícies da pele, gostaria de sugerir um olhar imaginativo para as máscaras, focalizando no aspecto respiratório desde seu mecanismo de funcionamento. As imagens, em associação, ao possibilitarem relacionar intimidade e perigo de contágio, oferecem uma perspectiva interessante para pensar sobre as novas contenções corporais. 

A antropóloga Isabel Franke (2019) debruçou-se sobre a invenção das máscaras de gás usadas em contextos de guerra. Para tanto, tomou como pressuposto que a máscara possui dois lados: “o do forro – a perspectiva de quem a veste, e o de fora -, aquilo que um observador vê diante dela” (FRANKE, 2019, p. 66).  No entanto, o mecanismo de funcionamento de filtragem das máscaras abarca, a um só tempo, as duas perspectivas.  A barreira no rosto cria contenção corporal e nesta mesma medida forja as perspectivas de interior e exterior, de entrada e saída dos ares do corpo. Isto na medida que a máscara abarca o movimento duplo da respiração, a inspiração e a expiração. Então, acoplando-se aos pulmões com toda sua elasticidade de expansão e contração, as máscaras filtram o ar  inspirado para oxigenar os corpos e também diminuem o alcance do que é expelido nessa “névoa circundante”. Atentando para a conjugação do aparato com o movimento respiratório é possível compreendê-lo como um “trickster codificador com o qual devemos aprender” (HARAWAY, 1995, p. 41) quando,  concomitantemente, promove o cuidado de si e do outro. A relação entre respiração e máscara traz à tona um cuidado que, ao ser autocuidado, o é também em relação a um senso societário.

Nesse mundo de constantes invisibilidades – do vírus, do ar, das presenças de corpo no ar, da respiração, do que vaza -,  a delimitação específica promovida pela máscara e como ela se acopla com a respiração, lembra que estamos conectados com a produção de mundos. Se o coronavírus tem sido um intensificador de desigualdades econômicas em várias escalas e também sociais de raça, gênero e classe – inclusive e justamente em torno do cuidado e do espaço doméstico -, o mecanismo de funcionamento das máscaras junto à respiração, e as possibilidades que abre para refletir sobre o cuidado tornam visível que as fronteiras, em diversas escalas, estão sendo mais que reformuladas, estão sendo criadas. 

Os beijos, da cena etnográfica e da pintura, colocam em questão mais que contato entre superfícies corporais, mas corpos que se misturam: as respirações se confundem, assim como as substâncias das bocas. Assim, os beijos fazem ver a própria respiração sob uma perspectiva na qual a inspiração e a expiração podem ser compreendidas como uma  mistura com o ar, este não como um agente externo que ocupa um espaço amorfo e vazio, mas  também como uma espécie de corpo em relação com entes viventes que se engaja com os nossos pulmões, flui pelo corpo e se mistura novamente, saindo de forma transformada para compor com o mundo.  Nesse sentido, a respiração é um ponto de conexão que atravessa o corpo individual e político atingido pelo coronavírus e que relacionada com o aspecto duplo de funcionamento das máscaras faz ver que estamos em relações de interdependência, enquanto corpo político, muito mais intensas do que imaginávamos. O acoplamento das respirações com as máscaras e o tipo de cuidado que emerge disso torna visível que as várias formas do neoliberalismo, em termos de constituição de sujeitos e de noções de individualidade e governança,  fazem morrer. 

Os beijos trazem à tona um limiar. Eles tornaram-se despidos de inocência, ao mesmo tempo que o amor, como o cuidado, parece sujeito à recriação nos termos de uma política feminista que, nas palavras de bell hooks “o amor combina com cuidado, responsabilidade, comprometimento e conhecimento” de modo que assim “entenderemos que não pode haver amor sem justiça” (hooks, 2020, p.150). 

***

Juliana Boldrin é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Unicamp. Seu atual tema de pesquisa são as produções de imagens e visualidades do pulmão em práticas científicas. 

Imagem destacada: Os Amantes. René Magritte (1928)

Referências Bibliográficas

FRANKE, Isabel. A fotografia e a máscara: uma antropologia da imagem. Dissertação de Mestrado – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2019.

HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da  perspectiva parcial. cadernos pagu (5) 1995: pp. 07-41.

HOOKS, Bell. Amar Novamente: o coraçao do feminismo in: O Feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Editora Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 2020.

STOLOW, Jeremy. Algumas notas sobre a visualização do corpo pandêmico, 2020. Disponível em:<https://nues.com.br/algumas-notas-sobre-a-visualizacao-do-corpo-pandemico/ >. Último acesso: 30/ 07/ 2020. 

 

Yoga: dilemas de saúde na pandemia

Yoga: dilemas de saúde na pandemia

By admin in Dossiê Yoga e Meditação on julho 30, 2020

Dossiê Yoga e Meditação

Por Marina Sena

A preocupação com a promoção de saúde, e não apenas com o tratamento das doenças, é uma das características que se reafirmam em nossa sociedade contemporânea(1). Práticas que se voltam ao cuidado do indivíduo como um todo, que promovem o paciente ao papel de agente responsável por sua saúde e que agregam ao cuidado as chamadas Práticas Integrativas e Complementares (PICs) formam um dos marcos nesse processo que contrapõe a racionalidade médica convencional (2,3).

Seguindo essa elaboração, numa ata da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) realizada em dezembro de 2014, observou-se que através da cooperação internacional é possível o intercâmbio de melhores práticas destinadas a construir estilos de vida que promovam saúde e, “reconhecendo que o yoga fornece uma abordagem holística à saúde e ao bem-estar e que uma ampla divulgação de informações sobre os benefícios da prática de yoga seria favorável para a saúde da população mundial”, decidiu-se proclamar 21 de Junho como o Dia internacional do Yoga, com objetivo de ampliar a conscientização sobre os benefícios dessa prática(4).

Figura 1 – Prática de yoga reúne cerca de 36mil pessoas em Nova Delhi, Índia, para celebração de seu dia internacional em 21 de junho de 2015.
Figura 2 – escultura em painel de pedra datada do séc. V d.C. representando um yogue em vṛkṣāsana, a postura da árvore. Localizado em Mahabalipuram, Tamil Nadu, Índia.

Essa visão da “yogaterapia”, que  aborda o yoga como uma prescrição interferindo diretamente no estado de saúde,  apesar de soar como algo recente, já aparece nos textos tradicionais do yoga, como vemos, por exemplo, no texto Hatha Yoga Pradipika, datado entre os séculos XIV e XVI: “Pela purificação dos nadis, pode-se reter a respiração com facilidade, aumenta-se o fogo gástrico e começa-se a escutar o som interno; assim, a saúde está assegurada. Aqueles que têm excesso de mucos devem praticar os seis processos de purificação primeiro (…).” (sutras 20 e 21, capítulo 2, Tratado sobre Pranayama) (5). Entretanto, de acordo com esses textos constituintes da cultura onde o yoga está inserido, os resultados obtidos no campo da saúde biológica são secundários, pois o objetivo se mantém em alcançar um estado espiritual chamado de kaivalyam, ‘libertação’ [das causas do sofrimento]. 

Em diferentes textos dessa tradição o assunto abordado é a resolução do sofrimento humano, a busca pela felicidade e por uma vida que seja plena (6). O yoga, então, é considerado uma ferramenta, um conjunto de técnicas adequadas que prepara a pessoa em todos os seus aspectos, de maneira que ela possa compreender as situações da vida que lhe ocasionam sofrimento, sua responsabilidade diante delas e, através de uma postura reflexiva e meditativa, descortinando suas ações e seus frutos, poder contemplar a expressão de si mesma, livre de sofrimento(7).

Distanciado desse contexto, o yoga ganhou repercussão atualmente como terapia quando a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2009, descreveu-o a partir da validação da ciência, baseado em evidências, e recomendou sua utilização como técnica de prevenção, cuidado e bem-estar possível para todos, afirmando a universalização dessa prática (8).

É notório um avanço do tema no campo de pesquisas em ciências biomédicas, apontando evidências, por exemplo, para manejo e prevenção do estresse crônico e seus amplos efeitos; para tratamento de afecções como ansiedade, depressão, dor nas costas; e também como uma prática que pode alterar positivamente a fisiologia do corpo(9–14).

Figura 3 – Prática de Yoga com o Prof. César Deveza para funcionários do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas – FMUSP

No cenário pandêmico em que vivemos, graças ao acesso à tecnologia, a prática de yoga tem ganhado ainda mais adeptos e repercussões midiáticas  (15–19).

Em 21 de junho de 2020, em celebração ao Dia Internacional do Yoga, o Centro Cultural da Índia em São Paulo, onde está localizado o Consulado da Índia no Brasil, promoveu uma série de aulas online sobre o yoga, dentre elas a “Yoga for Immunity During Time of Pandemic”, ministrada por Manmath M. Gharote, diretor do Lonavla Yoga Institute, situado na Índia (20).

Nessa aula foi feita uma proposta de “Imunidade Total”, a qual seria atingida através da integração dos cinco aspectos que compõem a personalidade, elencadas como ser fisicamente apto, mentalmente estável, emocionalmente equilibrado, socialmente amadurecido e espiritualmente elevado, o que corresponde também ao objetivo do yoga, segundo o professor. 

Ele descreve uma sequência de técnicas de yoga (realização de silêncio ou oração, mudrá, ásana, kriya, pranayama, dharana e recitação de mantra) que pode ser praticada para estabilizar a mente, modificar os pensamentos negativos em positivos e, assim, atingir a imunidade total. O yoga, dessa forma, é apresentado como uma ferramenta terapêutica a partir da atribuição do dever de transformação do sujeito, mesmo diante de um contexto de exceção e de vulnerabilidade como o que a pandemia apresenta. 

Figura 4 – Pacientes diagnosticados com coronavírus praticam yoga com seus médicos, vestidos com equipamentos de proteção, num centro de atendimento em Delhi, Índia. 

O processo de saúde-doença é dinâmico, não-linear, com atravessamentos pelas camadas do biológico, psicológico, social, ambiental e espiritual (21,22). A partir dessa perspectiva, a proposta de imunidade total, como sugerida pelo professor indiano, não seria uma formação idealizada, uma simplificação do processo de saúde-doença? E quanto àqueles que se motivam a seguir as recomendações do yoga, mas não atingem a imunidade parcial muito menos a total, não poderiam sofrer pela culpabilização e sensação de inadequação à prática? Panoramas como esse, voltados a atingir resultados, não trariam uma assertiva necessidade de desempenho sobre o si mesmo e desviariam o olhar do praticante da atitude contemplativa, índice essencial para essa prática?

Remetendo ao “estado de liberdade” dos antigos textos, o yoga, hoje reconhecido como um agente para a promoção da autonomia do cuidado em saúde, encontra-se numa condição que talvez requeira o equilíbrio complementar entre suas raízes culturais e os avanços científicos, como um ente vivo que revela sua natureza, lembrando que “yoga” [do sânscrito] significa união.

***

Marina Sena é Mestranda em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com o tema “Conceitos de Espiritualidade e seus Instrumentos de Mensuração”. Possui graduação em Quiropraxia pela Universidade Anhembi Morumbi (2013), especialização em Psicomotricidade pela FMU (2018), formação em Yoga pela Humaniversidade Holística (2009). É membro do ProSER – Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade do IPq-HC-FMUSP.

Referências Bibliográficas

  1. Povlsen L, Borup I. Health Promotion: A developing focus area over the years. Scand J Public Health. 2015; 
  2. Lima PDT. Medicina integrativa: A cura pelo equilíbrio. MG Editores; 2009. 
  3. Otani MAP, Barros NF de. A Medicina Integrativa e a construção de um novo modelo na saúde. Cien Saude Colet [Internet]. 2011;16(3):1801–11. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232011000300016&lng=pt&tlng=pt
  4. Nations U. 69/131. International Day of Yoga – Resolution adopted by the General Assembly on 11 December 2014 [Internet]. 2015 [cited 2020 Jul 28]. Available from: https://undocs.org/pdf?symbol=en/a/res/69/131
  5. Souto A. A Essência do Hatha Yoga: Hatha Pradipika – Gheranda Samhita – Goraksha Shataka. São Paulo: Phorte Editora; 2009. 
  6. Feuerstein G. Uma visão profunda do yoga. São Paulo: Pensamento; 2005. 
  7. Eliade M. Yoga, imortalidade e liberdade. 6a edição,. São Paulo: Palas Athena Editora; 1996. 400p p. 
  8. Toniol R. Atas do espírito: a Organização Mundial da Saúde e suas formas de instituir a espiritualidade. Anuário Antropológico. 2017; 
  9. Balasubramaniam M, Telles S, Doraiswamy PM. Yoga on our minds: A systematic review of yoga for neuropsychiatric disorders. Vol. 3, Frontiers in Psychiatry. 2013. 
  10. Cramer H, Lauche R, Anheyer D, Pilkington K, de Manincor M, Dobos G, et al. Yoga for anxiety: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Depression and Anxiety. 2018. 
  11. Cramer H, Lauche R, Langhorst J, Dobos G. Yoga for depression: A systematic review and meta-analysis. Depression and Anxiety. 2013. 
  12. Tilbrook HE, Cox H, Hewitt CE, Kang’ombe AR, Chuang LH, Jayakody S, et al. Yoga for chronic low back pain: A randomized trial. Ann Intern Med. 2011; 
  13. Hartfiel N, Havenhand J, Khalsa SB, Clarke G, Krayer A. The effectiveness of yoga for the improvement of well-being and resilience to stress in the workplace. Scand J Work Environ Heal. 2011; 
  14. Gard T, Noggle JJ, Park CL, Vago DR, Wilson A. Potential self-regulatory mechanisms of yoga for psychological health. Front Hum Neurosci. 2014; 
  15. Bernardi T. Dicas para não surta r e para suar [Internet]. 2020. Available from: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatibernardi/2020/06/dicas-para-nao-surtar-e-para-suar.shtml
  16. A explosão do Yoga Online durante a Quarentena do Coronavírus [Internet]. 2020 [cited 2020 Jul 28]. Available from: https://www.terra.com.br/noticias/dino/a-explosao-do-yoga-online-durante-a-quarentena-do-coronavirus,d4ceca450e8e43d2d68f413af2cf8354rn8enswg.html
  17. Yoga na quarentena: relaxe e ocupe a mente com a ajuda do G1 [Internet]. 2020. [cited 2020 Jul 28]. Available from: https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2020/03/24/yoga-na-quarentena-relaxe-e-ocupe-a-mente-com-a-ajuda-do-g1.ghtml
  18. Quatro benefícios do yoga para a vida em quarentena [Internet]. [cited 2020 Jul 28]. Available from: https://globoesporte.globo.com/eu-atleta/treinos/post/2020/07/18/quatro-beneficios-do-yoga-para-a-vida.ghtml
  19. Pesquisa revela quais exercícios mais praticados durante quarentena [Internet]. 2020 [cited 2020 Jul 28]. Available from: https://www.lance.com.br/fora-de-campo/pesquisa-revela-quais-exercicios-mais-praticados-durante-quarentena.html
  20. Centro Cultural Swami Vivekananda SP. Dia Internacional do Yoga 2020 [Internet]. 2020 [cited 2020 Jun 21]. Available from: https://www.youtube.com/watch?v=Z4aUGskurDA&t=13076s
  21. Oliveira MADC, Egry EY. A historicidade das teorias interpretativas no processo saúde-doença THE HISTORICITY OF THE HEALTH-ILLNESS PROCESS INTERPRETATIVE. Rev Esc Enferm. 2000; 
  22. Torosian MH, Biddle VR. Spirituality and healing. Semin Oncol. 2005;

Figura 1: Fonte: TIME Magazine https://time.com/3929799/india-international-yoga-day-record-modi/

Figura 2: Fonte: https://www.yoga.pro.br/arvore-vrksasana-a-postura-da-arvore-vrikshasana/

Figura 3: Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas – FMUSP.

Figura 4: Fonte: BBC News https://www.instagram.com/p/CCyskvwprCX/

Terapias controversas

Terapias controversas

By admin in Publicações on julho 6, 2020

Por Luciana Cavalcanti

A pandemia provocada pelo novo coronavírus aqueceu diversos debates e disputas sobre temas relacionados às políticas públicas de saúde e de controle sanitário e o papel do Estado na administração de direitos básicos, como é a saúde. A crise sanitária emergiu, vale lembrar, num contexto de uma estabelecida lógica neoliberal na tomada de decisões políticas e de ascensão da extrema direita em diversos países do mundo. E, nos lugares onde teorias negacionistas surgiram enquanto importantes atores na arena pública, que agora, surpreendentemente ou não, revelam seus frutos, os debates aparecem particularmente acirrados.

Em meio a tudo isso, um tema que nos interessa particularmente são as polêmicas em torno das terapias alternativas e práticas integrativas e complementares (PICs), que se intensificaram junto com as angústias que vão se somando a cada dia e com uma crescente e renovada esperança na ciência. Há diferentes perspectivas com relação ao uso e legitimidade dessas práticas, que parecem ter sido atualizadas com o contexto pandêmico.

Num texto do início de março, “Creencias y epidemias: Complementariedad, mejor que estigmatización”, Gabriela Irrazábal indicava, antes da chegada da pandemia à América Latina, atitudes práticas e informações importantes para o enfrentamento do vírus que se aproximava. Dentre as recomendações, ao constatar a força e importância de distintas crenças para o povo argentino (ela se direciona ao seu contexto, mas o argumento cabe também no Brasil), ela sugeriu que: “Em vez de estigmatizar e tratar essas práticas [orações, assistir a programas religiosos, tratar-se com curandeiros] como ignorantes ou “não científicas”, é conveniente usar os espaços de espiritualidade e religiosidade como mais um canal de informações em saúde e de acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde. Deve-se fomentar a complementaridade terapêutica e não a rejeição e estigmatização de práticas e costumes enraizados na sociedade. A espiritualidade e religiosidade afetam o processo de tomada de decisão na busca pela cura. (…) As pessoas respondem a doenças infecciosas e tomam decisões alinhadas às estruturas interpretativas enraizadas cultural e historicamente. Atitudes, práticas e comportamentos são o produto de lógicas culturais que dão sentido à vida pessoal e à experiência coletiva.” [tradução minha]. Essa mesma noção de complementaridade é um dos argumentos que sustenta a presença das PICs no SUS.

No dia 21 de maio, quando as mortes por covid-19 no Brasil ultrapassaram a marca de 20 mil, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) aprovou uma recomendação sugerindo ao Ministério da Saúde e aos conselhos estaduais e municipais a ampla divulgação de evidências científicas sobre as práticas englobadas pela Política Nacional de PICs, assim como de materiais de comunicação informativos sobre o uso das PICs nesse momento. As terapias, que vão desde yoga até ozonoterapia, aparecem então como cuidados a se ter no horizonte nessa pandemia. 

A aprovação dessa recomendação foi muito criticada por cientistas pela incoerência, já que o mesmo Conselho considerou que não se deve fazer uso da cloroquina para o tratamento da covid-19, já que não há evidências que comprovem sua eficácia e, por outro lado, indícios de que pode piorar o quadro se tornam mais robustos. Essa parcela da comunidade científica aponta que faltam evidências concretas que demonstrem que as PICs – ou pelo menos a maioria delas – façam bem à saúde e, portanto, o consideram o oferecimento delas no sistema público de saúde um mau uso do dinheiro público, um gasto.

A esse lado da polêmica soma-se o Instituto Questão de Ciência, associação que se dedica a promover a ciência e defender o embasamento de políticas públicas em evidências, sendo desde sua criação muito crítico da PNPIC e de tudo aquilo que não seja cientificamente comprovado. O Instituto estende a crítica de incoerência à posição da OMS, que reconhece medicinas tradicionais e terapias alternativas há bastante tempo, mas fez advertências quanto ao uso de métodos “naturais” para o uso de covid-19. Para eles, essa posição ambígua da OMS reflete o cenário que possibilitou a promoção da cloroquina, que veio à tona por causa de uma pesquisa inconsistente e irresponsável, e logo se tornou objeto de disputa política, como sabemos. A aproximação de um comportamento político que nega a gravidade da pandemia, promove um medicamento provavelmente ineficaz e retira a responsabilidade do Estado de cuidar da população, de um lado, com a conquista de espaço na saúde pública e persuasão das terapias alternativas, de outro, passa pela percepção de que o negacionismo de um equipara-se à inconsistência e incompatibilidade científica do outro. Nesse sentido, também revela a identificação de uma irracionalidade comum que deve ser combatida pelo rigor do método científico, defendido pela comunidade de cientistas que a partir dele se orienta. 

Embora exista, nos dois casos, um afastamento do que constitui a produção e validação científica e moderna de conhecimento, não parece tão claro que os dois movimentos se originem do mesmo tipo de raciocínio e modo de encarar o conhecimento. Além disso, a irracionalidade, se é que essa é uma boa palavra, pode ter várias origens e responder a distintos interesses e crenças, alguns mais, outros menos difíceis de explicar.

Frente a essas reações, o CNS divulgou uma nota explicativa dizendo que nunca recomendou o uso das PICs como tratamento para a covid-19, e no mesmo sentido, o ObservaPICS, da Fiocruz, junto com diversos laboratórios e grupos de pesquisa de universidades de todo o país, lançaram uma nota na qual defendem a importância dessas terapias enquanto práticas complementares ao tratamento convencional, que oferecem cuidado e suporte para enfrentar sofrimentos físicos e psicológicos. Além disso, ambas as notas apelam para o combate de fake news, ao dizer que a grande mídia divulgou, equivocadamente, que a recomendação do CNS sugeria as PICs como substituto da cloroquina ou de qualquer outro tratamento da doença.

A disputa de narrativa mostra como a produção e validação coletivas de conhecimento, a disseminação de notícias e informações falsas, o financiamento público de direitos e serviços e a função e alcance do Estado são temas políticos, imbricados e que muitas vezes se confundem, revelando características histórico-políticas que constituem nossa sociedade e também o fato de que demarcações que acreditamos estabelecidas estão, na realidade, em constante movimento. A pandemia apenas tornou mais transparente essa rede.

***

Imagem destacada: https://artuk.org/discover/artworks/dux-et-comes-iv-30933/search/actor:wadsworth-edward-alexander-18891949/page/1/view_as/grid 

Referências: