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Situando a pandemia no tempo: astrologia e Covid-19

Situando a pandemia no tempo: astrologia e Covid-19

By admin in Novidades on setembro 29, 2020

Texto de Omri Elisha para Immanent Frame

Tradução de María Luiza Assad

Muitos norte-americanos se voltaram para a astrologia, o estudo das correlações entre padrões celestes e acontecimentos temporais, para dar sentido a tempos tumultuosos. Apesar de relatos sobre astrólogos sendo repreendidos por não terem previsto a Covid-19, há uma elevada demanda por serviços astrológicos. De consultas privadas a previsões de horóscopos através de múltiplas mídias, as pessoas estão ávidas por saber quando a pandemia vai acabar e como ela afetará suas vidas no longo prazo. 

Mas a astrologia ocidental é mais do que o uso de técnicas oraculares para responder a necessidades imediatas e pessoais. É um campo de práticas interpretativas enraizado em afirmações metafísicas a respeito de como arquétipos universais estruturam a passagem do tempo e dão vida às metanarrativas que reconhecemos como história. Para os astrólogos modernos, a pandemia e suas vastas implicações transpessoais e histórico-mundiais são expressões de temáticas recorrentes, cujas repetições trazem provações e transições a serem suportadas e lições existenciais a serem aprendidas. Analisar essa perspectiva cosmológica como uma forma de consciência histórica, em vez de apenas como uma função da superstição ocultista ou da “adivinhação”, é um passo importante em direção a um melhor entendimento sobre como as pessoas que praticam e se envolvem com a astrologia percebem as valências morais do tempo. Isso também destaca modelos de futuridade que não estão vinculados a teleologias estritamente seculares ou religiosas, mas que se encontram em algum lugar entre o fluxo progressivo de um tempo vazio e homogêneo, e uma temporalidade que é policíclica e pré-ordenada, em que tudo que vai, volta. 

Embora poucos astrólogos profissionais tenham previsto especificamente que um coronavírus traria o mundo a uma pausa em 2020 – e os sistemas globais à beira do colapso –, o tempo e a severidade da pandemia não foram uma surpresa para eles. O ano de 2020 era tópico de ansiosa especulação na comunidade astrológica bem antes que a Covid-19 se tornasse uma palavra familiar. A razão era uma incomum série intensa de trânsitos planetários. Isso começou em janeiro, com uma rara “conjunção” entre Plutão, símbolo de morte, poder e mudança inexorável (e ainda um “planeta” em termos astrológicos), e Saturno, o planeta das estruturas, autoridades e fronteiras, no signo zodiacal de Capricórnio. Em dezembro, o ano terminará com um encontro semelhante entre Saturno e Júpiter em Aquário. Astrólogos leram esses e outros desenvolvimentos celestes como indicadores simbólicos de trauma e transformação, um período de acerto de contas terrestre perfeitamente sincronizado aos ritmos do cosmos.

Para explorar a natureza de tais suposições, é de grande ajuda deixar de lado as críticas familiares sobre a astrologia, baseadas em acusações de superstição, pseudociência, ignorância e engano. O que não é tarefa fácil, dada a indignação e suspeita pública de longa data mesmo entre acadêmicos. Nos anos 1950, Theodor Adorno ridicularizou de modo notório a astrologia moderna acusando-a de ser um fetichismo retrógado, que deriva sua autoridade a partir de uma “fachada de pseudo-racionalidade” isenta de engajamento crítico. Adorno abominava colunas de horóscopos, que para ele representavam aquilo de pior que a indústria cultural moderna era capaz. Ele argumentou que, ao reificarem forças estruturais e motivações inconscientes como destino, e ao sugerirem que os processos sociais ligados à raiz dos problemas das pessoas de alguma forma “se resolveriam por si mesmos”, horóscopos promoviam padrões de pensamento autoritários, propícios à ascensão do fascismo, incluindo conformidade, irracionalidade e dependência voluntária de uma onisciência externa. 

Muito da crítica de Adorno às implicações sociopsicológicas da retórica dos horóscopos é tão mobilizadora quanto antipática. Mas a análise, baseada em três meses de conteúdo da coluna de horóscopos do Los Angeles Times, é demasiado restrita empiricamente para dar conta dos diversos usos e expressões do conhecimento astrológico. E, ao se basear de tal forma em imputações de má fé, paranoia, ego fraco e equívoco, seu tratado virtualmente não deixa espaço para qualquer outra conclusão senão a de que, formas culturais como a astrologia e o ocultismo em geral, invariavelmente distorcem as realidades sociais e mediam uma falsa consciência. 

Uma abordagem menos redutora poderia considerar como praticantes contextualizam conceitos e predições através de um espectro mais vasto de gêneros discursivos, para além de horóscopos de “prateleira de supermercado”. À medida que a astrologia ganhou popularidade em anos mais recentes, auxiliada por mídias digitais e sociais como canais no YouTube, podcasts, ensino online, softwares e diversos memes do Instagram, os estilos interpretativos se diversificaram e alguns dos aspectos mais técnicos e elaborados do campo cresceram em visibilidade. Áreas de conhecimento especializado e esotérico são mais acessíveis do que nunca, influenciando e amplificando percepções sociais até mesmo de entusiastas casuais, assim como de concepções populares sobre cosmos, espiritualidade e self.

Uma dessas áreas é a da “astrologia mundana”: técnicas e princípios específicos aos estudos de ciclos histórico-mundiais. Embora suas aplicações sejam orientadas para o futuro, a astrologia mundana, assim como outras formas de conhecimento antecipatório, lida com amplos quadros temporais. Para prever e especular sobre o futuro, os astrólogos mundanos geralmente buscam maximizar seu conhecimento sobre o passado. Se envolvem com um tipo de trabalho interpretativo que é pautado em expertise no que diz respeito a símbolos e cálculos astronômicos. Esse trabalho também se baseia no delineamento de comparações entre acontecimentos históricos de passados distantes e recentes, já que envolvem as mesmas marcas planetárias e se entende que eles instauram temas arquetípicos semelhantes.

Com a aproximação da recente conjunção Plutão-Saturno, astrólogos olharam para grandes eventos de ciclos sinódicos que tiveram início com sua última conjunção no início dos anos 1980, um tempo de recessão econômica e grande desemprego. Tensões da Guerra Fria, conflito exacerbado no Oriente Médio e o surgimento da crise da AIDS. O ciclo de quase quatro décadas envolveu uma “oposição” entre ambos os planetas, que foi associada aos ataques de 11 de setembro e à guerra contra o Terror empreendida pelos EUA, e um trânsito conhecido como quadratura (de uma distância de 90°) durante a crise econômica de 2008. Como a conjunção em janeiro marcou o culminar desse ciclo e o início de um novo, os astrólogos indicaram que, o que quer que aconteça em 2020, vai ecoar temas arquetípicos de todos aqueles eventos, ainda que sutil e indiretamente, e oferecer indicações sobre o que o novo ciclo nos reserva. Os astrólogos também levantaram ciclos Saturno-Plutão precedentes, como aqueles associados à I Guerra Mundial e à ascensão do Nazismo, além da peste bubônica. Alguns prestaram atenção especial à conjunção de 1518, a última vez que Saturno e Plutão se encontraram em Capricórnio, o que coincidiu com o início da Reforma Protestante, escalada no tráfico de escravos transatlântico e a “praga dançante” de Estrasburgo.

Os grandes fios que ligam essas e outras eras históricas na imaginação astrológica são paradigmáticas assim como sintagmáticas. Alguns astrólogos, como o estudioso-praticante Richard Tarnas, os contextualizam como “ciclos de crises e contrações”, períodos de extrema pressão social e lutas de poder, ascensão e queda de impérios, desastres naturais e intensificadas experiências coletivas de rupturas, abalos, dificuldades, opressão e eventual resolução. Sejam quais forem os desdobramentos finais, as dinâmicas Saturno-Plutão são os proverbiais choques no sistema, indicando mudanças tectônicas, resultando em colapso, renovação e/ou reconfiguração de estruturas e instituições de governo da vida. 

A pandemia do novo Coronavirus, tendo vindo à luz, foi então prontamente interpretada entre os astrólogos como peça central de uma transição liminar de uma época histórico-astrológica para outra. Isolamento e instabilidade prolongados foram (e continuam a ser) construídos como o modo do universo para forçar as sociedades ao redor do mundo a desacelerarem, fazer um balanço de seus valores e recursos, e se prepararem para novas realidades, tanto catastróficas quanto auspiciosas, que estão surgindo no horizonte cósmico. Acadêmicos e críticos geralmente reduzem tais concepções a mecanismos psicológicos como viés de confirmação. Seja como for, o processo do astrólogo de ligar os pontos entre princípios arquetípicos e os acontecimentos reais-mundiais pode revelar o que pessoas que afirmam esses princípios acreditam que a humanidade está prestes a enfrentar e o que pensam que o futuro reserva num grande esquema das coisas.

Existem quase tantas opiniões quanto intérpretes acerca do que virá a seguir. Padrões celestes e paradigmas estão em fluxo constante e a comunidade astrológica é tão variada e contenciosa quanto qualquer campo que produza conhecimento. Como todos os preditores, as perspectivas dos astrólogos mudam e evoluem com os tempos. Na emergência dos protestos que seguiram o assassinato de George Floyd, muito da atenção se deslocou do confinamento pela Covid-19 para questões de justiça racial, igualdade e responsabilidade política, marcas características do idealismo humanitário radical de Aquário, signo da próxima “grande conjunção”. Se a pandemia foi o teste de realidade global, Vidas Negras Importam é o chamado cósmico para a ação. Tais visões são defendidas pela emergente vanguarda de astrólogos mais jovens, muitos dos quais são LGBTQ e  não brancos [1], ávidos por buscar novas integrações de práxis social, esotérica e espiritual.

No geral, porém, a astrologia moderna tende a ser menos sobre arquitetar mudança social e desmantelar estruturas de opressão do que um meio para afirmação, crescimento pessoal e espiritual, e para um aconselhamento prático personalizado. Astrólogos ocidentais encorajam seus leitores a confiarem na sabedoria dos ciclos e na ideia de que as coisas certamente ficarão piores antes de melhorarem, que mudanças de qualquer tipo sempre têm um propósito a longo prazo, devido à providência divina (definida de maneiras diversas). É uma perspectiva que não dispensa a agência humana, e muito raramente assume uma causalidade direta por parte dos corpos celestes, mas por vezes sugere um tipo de fatalismo e ahistoricismo que críticos como Adorno acham tão perturbador.

E, no entanto, é um erro assumir que “consciência cósmica” automaticamente impeça uma consciência histórica. A intenção de levar os discursos astrológicos a sério não diz respeito a avaliar a sua precisão ou presciência, mas reconhecer que são expressões de saber cultural – e mesmo de crítica –, que os praticantes cultivam ativamente para compreender melhor o presente à luz de passados reais e de futuros possíveis. São esforços para historicizar as condições de existência, que nesse momento impelem a cada um de nós a reconhecer o estado precário e volátil do mundo que nós fabricamos, uma situação difícil que não é sem precedentes ou aleatória. 

Quando se trata de previsões mundanas-históricas, astrólogos ocidentais não são alheios à hipérbole. Guerra, tumultos políticos, revoluções em tecnologia ou finanças, e outras mudanças sísmicas na cultura e na consciência estão quase sempre na mesa quando grandes transições planetárias estão envolvidas. Mas a despeito de circunstâncias, ou do quão vagas ou concretas as afirmações possam ser, a divinação astrológica é tão diagnóstica e prescritiva quanto é preditiva. Jamais apenas uma questão de mitigar incerteza, ela é para praticantes e entusiastas uma maneira de classificar momentos no tempo, pondo-os nos seus devidos lugares e contemplando o movimento adiante. Esses não são impulsos alheios às mentes de sujeitos modernos seculares, que narram a história em termos dialéticos e temáticos. Todavia, para os astrólogos, a volição histórica está ligada aos muitos ciclos planetários e celestes, que são usados para decifrar o que o universo está tramando, além de – para parafrasear o compatriota de Adorno, Walter Benjamin – descobrir a diferença entre quando é possível dirigir a locomotiva da história e quando é necessário puxar o freio de emergência.

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[1] Nota de tradução: no texto original people of color. 

Imagem destacada: da publicação original 

Omri Elisha é professor associado de Antropologia no Queens College e no Centro de Pós-Graduação, CUNY. Ele é o autor de Moral Ambition: Mobilização e Social Outreachachurches in Evangelical Megachurches (University of California Press, 2011). Ele recebeu seu PhD da Universidade de Nova York e foi Bolsista Residente na Escola de Pesquisa Avançada. Sua pesquisa sobre a antropologia do cristianismo cobriu tópicos como o reavivamento evangélico dos EUA, engajamento social, ativismo da mídia, guerra espiritual e performance ritual. Sua pesquisa atual explora questões de cosmologia, profissionalização e especialização entre os astrólogos ocidentais contemporâneos.

Revisão da tradução por Lucas Baccetto

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