Mais sobre a pesquisa

O tema fundamental deste projeto de pesquisa são as crescentes formas de legitimação da categoria espiritualidade no campo da saúde. Precisamente, trata-se de investigar o modo pelo qual essa categoria tem sido incorporada por instituições seculares e, com isso, sido rotinizada em contextos oficiais de atenção à saúde. Para tanto, nosso foco de interesse empírico está dirigido a três dimensões que compõem o campo oficial do cuidado: a clínica, as pesquisas médicos científicas e as políticas públicas de saúde. Cada uma dessas dimensões tem instituído formas particulares da categoria espiritualidade em seus processos cotidianos. E, ao mesmo tempo, essas distintas formas de legitimação se sustentam por meio de referências mútuas, produzindo uma extensa cadeia de conexões a partir da qual, por exemplo, o resultado de pesquisas médicas dedicadas ao tema funciona como justificativa para inclusão da “dimensão espiritual” em protocolos clínicos; e os pesquisadores, por sua vez, recorrem às políticas de saúde que mencionam a categoria para afirmar a pertinência de suas investigações. Considerando essa dinâmica e, na tentativa de cobrir a complexidade do fenômeno, este projeto investe na análise dessas três dimensões – clínica, pesquisa e política.

No plano teórico, a proposta é investir na reflexão sobre essa própria categoria. Afinal, apesar da larga trajetória histórica dos debates acerca da espiritualidade na filosofia clássica e na teologia, no campo da antropologia a análise pormenorizada dos usos e das apropriações da “espiritualidade” é um tema pouco frequente e sistematizado. Por um lado, o caráter impreciso e pouco estruturado do termo não inibe sua recorrência em narrativas etnográficas, por outro, no mesmo passo que testemunhamos essa constância também constatamos uma espécie de marginalidade das reflexões sobre a categoria, muitas vezes descrita, simplesmente, como uma forma de negação da religião institucionalizada ou como sinônimo de uma religiosidade centrada unicamente na intimidade do sujeito. Sendo assim, o interesse pela realização desta pesquisa repousa em duas justificativas. Primeiro, ela dará centralidade para o debate sobre a própria categoria espiritualidade que, embora seja recorrentemente acionada nas ciências sociais, pouco foi tematizada diretamente. Segundo, o uso da noção de espiritualidade em contextos institucionais, burocratizados e seculares, tal como no universo empírico privilegiado por essa pesquisa, nos oferece novos elementos para reflexões sobre secularismo, religião e espaço público. Isso porque, observar as formas de legitimação da categoria espiritualidade em contextos como o da saúde abre um novo horizonte para as discussões sobre os modos de presença da religião (a partir de termos que por vezes a ela são associados, como é o caso da espiritualidade) e de sua relação com Estado. Enfim, é a versão institucionalizada da espiritualidade o que nos interessa.

Coordenado por Rodrigo Toniol e apoiado pela Fapesp, este projeto de pesquisa terá duração, em sua primeira fase, de 4 anos. Trabalhando diretamente em seu desenvolvimento, pesquisadores em diferentes etapas da formação, da graduação ao doutorado, formam a equipe principal. Cada um desses trabalhos resultará em monografias de conclusão de curso, dissertações e teses, que explorarão alguma dimensão do fenômeno aqui tematizado. Assim, este projeto subsidia pesquisas sobre: a consolidação da literatura médica dedicada à espiritualidade, a emergência do diagnóstico de transtorno espiritual e religioso, políticas de saúde que mobilizam o termo, a espiritualidade como ferramenta terapêutica em alguns transtornos psiquiátricos, a oferta de disciplinas de “espiritualidade e saúde” em cursos de medicina, entre outros temas.

Este site é uma ferramenta de divulgação científica. Por meio dele, leitores interessados poderão acompanhar o desenvolvimento do projeto, ter acesso a algumas de nossas atividades e entrar em contato conosco.