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(Mc)Mindfulness e as políticas da respiração

(Mc)Mindfulness e as políticas da respiração

By admin in Novidades, Publicações, Uncategorized on agosto 25, 2020

Por Chloe Asker para Life of Breath

Tradução por Giovanna Paccillo

Durante o tempo em que pesquisava e escrevia o meu doutorado houveram diversos protestos que deixaram o centro de Londres parado. Essas manifestações foram organizadas e instituídas por um grupo ativista chamado Extinction Rebellion. Um momento pungente para mim foi quando os manifestantes, durante a ocupação da ponte Westminster, se uniram para um momento coletivo de contemplação, reflexão e meditação. Eles foram guiados por uma meditação de mindfulness que explorava a “união” coletiva da respiração que nos une, investigada pelas qualidades da compaixão e do cuidado.

 

Nós todos compartilhamos o ar

Sentimos nossa conjunção enquanto respiramos

De que nós estamos realmente aqui em união

Na grande expressão amorosa de unidade, compaixão, sabedoria, verdade e cuidado

(Transcrição de um vídeo do Youtube uploaded por “Campfire Convertion”, 2018).

 

 

Ativistas da Extinction Rebellion bloqueiam a ponte Waterloo meditando (Foto por Francesca Harris, em Abrahams, 2019).

A respiração é política, e aqui é politizada – conectando nossos corpos aparentemente individuais e delimitados à Terra e seus ritmos e mudanças. Como descreve Thich Nhat Hanh em seu depoimento para a Convenção-quadro das Nações Unidas sobre mudança climática (UNFCCC): ‘ao respirar com o mindfulness e contemplar seu corpo, você percebe que você é a Terra. Você percebe que a sua consciência é também a consciência da Terra. Olhe ao redor – o que você vê não é o ambiente, é você.’

No entanto, entre as humanidades e as ciências sociais críticas, o mindfulness tem sido interrogado e analisado como uma das práticas terapêuticas mais centrais que existem nas culturas neoliberais da modernidade tardia. O termo McMindfulness descreve o zeitgeist do mindfulness contemporâneo, no qual o mindfulness é empacotado e vendido como a cura para as ‘influências nocivas do capitalismo’ (Purser 2019: 19), responsável pelo estresse, ansiedade e depressão. Mas, em vez disso, ele [o mindfulness] agiria como uma forma de ‘otimismo cruel’ (Berlant 2011). No argumento McMindfulness, o mindfulness é encarado como algo que individualiza e despolitiza as condições de saúde mental. Fazendo isso, a pessoa se torna a própria responsável pelo seu estresse, e para lidar com a situação, ela precisaria gerir e mudar a si mesma. Essa lógica ignora as inúmeras forças estruturais que podem produzir depressão, ansiedade e problemas de saúde. Dessa maneira, o mindfulness funcionaria como outra tecnologia reguladora que atua ‘como uma espécie de barreira invisível que restringe o pensamento e a ação’ (Fisher 2009: 16).

No meu trabalho, lidei com o argumento McMindfulness, tendo testemunhado e experimentado o mindfulness de uma maneira diferente. Parte disso vem de minhas experiências vividas de mindfulness (em cursos e retiros de oito semanas) e de um cultivo consciente corporeificado da respiração. Seguindo os ritmos da respiração, podemos começar a desfazer limites fixos entre o eu e o mundo, mente e corpo, dentro e fora, natureza e cultura, e assim por diante. Cultivar a respiração consciente através do mindfulness não é ‘desviar-se das questões sociais e políticas’ (Engelmann 2015: 431). Mas, em vez disso, é uma forma de política e ética corporeificada que pode nos abrir para as maneiras pelas quais somos intrinsecamente imbricados com outros humanos e não-humanos – particularmente na fase de uma ‘extinção em massa’ (Extinction Rebellion nd) ou ‘aniquilação biológica’ (Ceballos, Ehrlich, e Dirzo 2017).

Se voltar para a respiração se tornou vital na era da destruição ambiental, no qual o próprio ar e oxigênio que dependemos para respirar está sendo ameaçado pelo rápido declínio de populações de corais pela acidificação, drenagem e poluição dos oceanos (Loria 2018). Além disso, o direito de respirar um ar limpo, seguro e não poluído está em perigo – principalmente entre comunidades minoritárias e pessoas negras. Por exemplo, em Noxious New York, Sze (2006) mostra o movimento de justiça ambiental na cidade de Nova York que foi impulsionado pelas altas taxas de asma em comunidades minoritárias. Ativistas argumentam que essa desigualdade é uma forma de racismo ambiental. A respiração plena não é igual. O acesso à respiração segura do ar é um problema político e ético contemporâneo.

Há também uma aspiração política e esperançosa de se ter espaço para respirar entre as condições violentas que essas forças perpetuam. A frase ‘não consigo respirar’, proferida por Eric Garner em seus últimos momentos, tornou-se o momento crucial do movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos (Lowery 2019). Era uma descrição literal de sua incapacidade de respirar devido à natureza violenta de sua prisão. Mas as palavras ‘eu não consigo respirar’ também acenderam algo mais, falando em sentido metafórico aos desafios e violências. Os homens negros enfrentam um ambiente hostil, onde sua própria capacidade de respirar livremente está sendo impedida pela negação contínua de seus direitos civis (Aymer 2016).

Juntamente com o perigo da emergência climática que afeta desproporcionalmente as comunidades raciais(1), a capacidade de respirar com segurança também é ameaçada pelo ar muito poluído que é inspirado / expirado. Nesse contexto, ‘não consigo respirar’ é, portanto, uma questão de supremacia branca e destruição ambiental. E assim, a aspiração de respirar livremente é um precedente político:

Eu penso que a luta por uma vida suportável é a luta para queers terem o direito de respirar. Ter espaço para respirar, ou serem capazes de respirar livremente […] é uma aspiração. Com a respiração vem a imaginação. Com a respiração vem possibilidade. Se a política queer é sobre liberdade, ela talvez signifique simplesmente a liberdade para respirar” (Ahmed 2010: 120).

Contudo, voltando conscientemente para a respiração, podemos começar a perceber um potencial ou abertura ético. Um que amplia o testemunho além do humano (Engelmann 2015), vinculando-nos ao meio ambiente; e como o cultivo de uma força ou energia específica que é um ato político ou uma ‘escolha perpétua’ (Skof e Berndtson 2018). Voltar-se para a respiração pode ser uma recusa radical das forças de governamentalidade neoliberal e supremacia branca arraigadas na nossa cultura de trabalho 24/7 da Ética Protestante (Crary 2014). Para alguns, estar em silêncio e vagareza através da respiração é uma forma de política corporeificada que trabalha para romper o “culto da rapidez” (Honore 2010: 3) – o próprio ritmo que o capitalismo exige. Em última análise, tudo o que você precisa fazer é respirar.

Yumi Sakugawa in Juxtapoz, 2016

Ter a liberdade de respirar pode envolver o cultivo consciente da respiração por meio de pedagogias corporais de respiração. Shahjahan (2015) argumenta que pedagogias críticas corporeificadas, como o mindfulness, podem ser usadas para descolonizar o ritmo de nossos corpos, diminuindo a velocidade ‘para acessar fontes alternativas de conhecimento, incluindo maneiras corporificadas de conhecer’ (p.499). Formas críticas de mindfulness, por exemplo, estão trabalhando para se apoiar no desconforto da fragilidade e supremacia branca (e. g. Mindfulness for the People), e para descolonizar formas de “imperialismo cognitivo” enraizadas nas vias neurais do cérebro (e.g.Indigenous Mindfulness).

Apesar de o meu trabalho focar na argumentação acerca de elementos do movimento Mcminful, eu percebei que há mais do que essas culturas aparentemente apolíticas. Na minha tese, eu argumento que o mindfulness cultiva uma forma de ativismo silencioso e de ética através do encantamento de encontros com não-humanos que provocam reflexão e ação sobre vulnerabilidade ambiental. Descobri que, por meio do nosso encontro com a respiração consciente, ganhamos insights. Um desses insights é o de que há mais no mindfulness do que no Mcmindfulness.

***

(1) Nota de tradução: no texto original “communities of colour”.

Este texto foi originalmente publicado no site do Life of Breath. O Life of Breath foi um projeto interdisciplinar de pesquisa de 5 anos de duração (2015-2020) financiado pelo Welcome Trust e pensado, principalmente pela Prof. Jane Macnaughton (Durham University) e pela Prof Havi Carel (University of Bristol). 

Referências bibliográficas:

Abrahams, Matthew. 2019. “The Buddhists of Extinction Rebellion.” Tricycle: The Buddhist Review. September 16, 2019. https://tricycle.org/trikedaily/extinction-rebellion-buddhists/.

Ahmed, Sara. 2010. The Promise of Happiness. Durham [N.C.]: Duke University Press.

Aymer, Samuel R. 2016. “‘I Can’t Breathe’: A Case Study—Helping Black Men Cope with Race-Related Trauma Stemming from Police Killing and Brutality.” Journal of Human Behavior in the Social Environment 26 (3–4): 367–76. https://doi.org/10.1080/10911359.2015.1132828.

Berlant, L. 2011. Cruel Optimism. Duke University Press.

Ceballos, Gerardo, Paul R. Ehrlich, and Rodolfo Dirzo. 2017. “Biological Annihilation via the Ongoing Sixth Mass Extinction Signaled by Vertebrate Population Losses and Declines.” Proceedings of the National Academy of Sciences 114 (30): E6089–96. https://doi.org/10.1073/pnas.1704949114.

Crary, Jonathan. 2014. 24/7: Late Capitalism and the Ends of Sleep. London: Verso Books.

Engelmann, Sasha. 2015. “Toward a Poetics of Air: Sequencing and Surfacing Breath.” Transactions of the Institute of British Geographers 40 (3): 430–44. https://doi.org/10.1111/tran.12084.

Extinction Rebellion. n.d. “The Emergency.” Extinction Rebellion (blog). Accessed January 27, 2020. https://rebellion.earth/the-truth/the-emergency/.

Fisher, Mark. 2009. Capitalist Realism: Is There No Alternative? John Hunt Publishing.

Honore, Carl. 2010. In Praise of Slow: How a Worldwide Movement Is Challenging the Cult of Speed. Hachette UK.

Loria, Kevin. 2018. “The Quest to Save the Fragile Reefs Earth’s Oceans Depend On.” Business Insider. April 12, 2018. https://www.businessinsider.com/coral-reef-bleaching-ocean-acidification-solutions-2018-4?r=US&IR=T.

Lowery, Wesley. 2019. “‘I Can’t Breathe’: Five Years after Eric Garner Died in Struggle with New York Police, Resolution Still Elusive.” Washington Post, June 14, 2019. https://www.washingtonpost.com/national/i-cant-breathe-five-years-after-eric-garner-died-in-struggle-with-new-york-police-resolution-still-elusive/2019/06/13/23d7fad8-78f5-11e9-bd25-c989555e7766_story.html.

Purser, Ron. 2019. McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality. Watkins Media.

Shahjahan, Riyad A. 2015. “Being ‘Lazy’ and Slowing Down: Toward Decolonizing Time, Our Body, and Pedagogy.” Educational Philosophy and Theory 47 (5): 488–501. https://doi.org/10.1080/00131857.2014.880645.

Skof, Lenart, and Petri Berndtson, eds. 2018. Atmospheres of Breathing. Albany, New York: State University of New York.

Sze, Julie. 2006. Noxious New York: The Racial Politics of Urban Health and Environmental Justice. MIT Press.

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