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Hindus sem religião: notas sobre o Neo-hinduísmo contemporâneo

Hindus sem religião: notas sobre o Neo-hinduísmo contemporâneo

By admin in Dossiê Yoga e Meditação on agosto 4, 2020

Dossiê Yoga e Meditação 

Por Thaís Silva de Assis

São raros os movimentos globais que se declaram religiosos, dentre aqueles que derivam suas práticas e teologias do Hinduísmo. Em um texto intitulado “Hinduism without religion”, Amanda Lucia (2011) revela que entre os seguidores de gurus transnacionais e entre os praticantes de yoga contemporâneos há uma dificuldade significativa em lidar com a categoria hindu: alguns grupos inclusive a rejeitam completamente e adotam termos como espiritual ou espiritualidade para marcar a distância em relação às ortodoxias hindus e para sustentar a ideia de universalismo ou ecumenismo. A autora observou que, quando proponentes de tais práticas argumentam que não são religiosos, estão relegando a categoria hindu a algo estagnado. Em geral, o esforço de distanciamento do religioso está ligado a uma concepção da religião como algo ritualístico, hierárquico e anti-moderno. O que coincide com algumas experiências brasileiras (Barroso, 1997; Bastos, 2012; Assis, 2017).

Entre os grupos neo-hindus, há tanto os que advogam o valor da tradição – a importância de retomar práticas originais ou autênticas –, quanto aqueles que catalisam uma ruptura completa com o tradicional (Lucia, 2014). Alguns exemplos notáveis são o movimento Hare Krishna, o Ananda Marga, o Brahma Kumaris, o Siddha Yoga, a organização Osho e a Sathya Sai. Sejam convencionais ou inovadoras, as tradições hindus precisam se reconfigurar para manterem sua relevância diante das audiências contemporâneas. O mesmo se verifica ao longo da disseminação e da popularização das práticas de yoga e meditação. 

Historicamente, o Neo-hinduísmo, se desenvolveu a partir do fim do século XIX promovendo reinterpretação de tradições religiosas hindus, afirmação da identidade nacional indiana e assimilação de valores e de ideais ocidentais (Smith, 2016). O trânsito global do Hinduísmo – dos hábitos, crenças e valores hindus – revelou-se como um movimento de mão dupla entre a Índia em processo de ocidentalização e o Ocidente em processo de orientalização (1) (Silveira, 2005). Esse intercâmbio intercultural transnacional só foi possível porque as fronteiras étnicas foram superadas a partir da eliminação da centralidade do discurso sobre o sistema de castas – no qual o indivíduo deveria estar localizado pelo nascimento para ser considerado hindu – e também da disposição dos líderes religiosos para levar práticas hindus a pessoas de origem externa ao sul da Ásia (Penumala, 2010).

Nina Rao Fonte: http://www.ninaraochant.com/

Os movimentos neo-hindus(2) estabelecidos hoje no Brasil são os herdeiros dessa renascença ou reforma do Hinduísmo. No âmbito dessas experiências contemporâneas, a retórica universalista muitas vezes tem precedência sobre a afirmação identitária hindu e sobre a representação antagônica de mundo – materialismo ocidental versus espiritualismo indiano – desenvolvida pelos líderes precursores do Neo-hinduísmo. Hoje em dia, os grupos tendem a relativizar a importância de doutrinas, rituais e fontes simbólicas hindus nas quais suas mensagens religiosas estão baseadas. Geralmente, apresentam seus conhecimentos como sendo universais e esotéricos, experienciais e práticos, científicos ou terapêuticos com o intuito de atrair maior audiência (Altglas, 2004; 2005).

O ponto é que, mesmo que os ensinamentos dos grupos neo-hindus atuais estejam ligados a tradições religiosas específicas, os participantes não aderem senão de forma relativamente livre ao Hinduísmo – não adotam todas as noções e selecionam apenas o que se adapta a sua busca pessoal. Isto é, os membros têm uma relação pragmática com os ensinamentos, dos quais em geral retêm técnicas corporais, respiratórias e meditativas, como no caso do yoga (Atlglas, 2004).

Nesse sentido, vale lembrar que a integração de práticas neo-hindus ao contexto brasileiro se relaciona com o movimento de Nova Era, que começou a se delinear com o advento da Contracultura e se constituiu como um movimento plural de lazer, cultura, consumo, saúde e práticas místico-esotéricas, sustentadas por discursos de liberdade individual, autonomia e crescimento pessoal. 

A rigor, no âmbito do paradigma de Nova Era, ter uma experiência pessoal – com o divino, com o mistério ou com o eu superior – é mais importante do que ter vinculações religiosas com uma instituição ou manter alguma tradição religiosa familiar. Aqueles que aderem a essas práticas vivem e elegem sua espiritualidade como opção, escolha ou preferência pessoal, de maneira autônoma e voluntária. Os indivíduos podem circular por grupos e eventualmente construir, por conta própria, sua religiosidade numa espécie de bricolagem (Sanchis, 2006).

A afinidade de grupos neo-hindus com esse tipo de discurso e experiência é notável visto que tendem a negar a identificação de seus repertórios como religiosos, preferindo caracterizá-los como filosofia ou estilo de vida. Seus praticantes consideram o repertório religioso tradicional como autoritário e inflexível, enquanto, em contraste, veem as novas formas de religiosidade ou espiritualidade como menos restritivas e mais ajustáveis às necessidades e aspirações individuais (Dawson, 2007).

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Thaís Silva de Assis é doutoranda em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Possui experiência na área de Sociologia da Religião, privilegiando temas ligados a espiritualidades e terapias holísticas. Pertenece ao NUES.

NOTAS:

(1) Aqui há uma crítica de Marcos da Silveira (2005) à tese de Colin Campbell (1997) sobre a orientalização do Ocidente.

(2) Alguns pesquisadores – como Altglas (2004; 2005), Hatcher (2004), Squarcini (2002) e Viotti (2015) – utilizam o próprio conceito de Neo-hinduísmo para designar a difusão histórica da religião e também a configuração contemporânea das reinterpretações ou adaptações das tradições religiosas hindus em escala global.

Imagem destacada: por Laura Nagi. Fonte: https://www.dandapani.org/

Referências Bibliográficas

ALTGLAS, Véronique. Les mouvements néo-hindous en Occident: entre ambitions universelles et affirmation identitaire. Conference paper, Seminaire Jeunes Chercheurs. Rouen: AJEI (Association jeunes etudes indiennes), 2004.

_____________. Le nouvel hindouisme occidental. Paris: CNRS Éditions, 2005.

ASSIS, Thaís Silva de. Neo-hinduísmo carioca: um estudo sociológico sobre um grupo de vedanta. Rio de Janeiro: UFRJ/PPGSA. Dissertação de Mestrado em Sociologia e Antropologia, 2017.

BARROSO, Maria Macedo. A Construção da Pessoa “Oriental” no Ocidente: um Estudo de Caso sobre o Siddha Yoga. Rio de Janeiro: UFRJ/ PPGAS. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social, 1999.

BASTOS, Cecilia dos Guimarães. Em busca de espiritualidade na Índia: os significados de uma moderna peregrinação. Rio de Janeiro: PPCIS/UERJ. Tese de Doutorado em Ciências Sociais, 2012.

CAMPBELL, Colin. A Orientalização do Ocidente: Reflexões sobre uma Nova Teodicéia para um Novo Milênio. Religião e Sociedade, v.18, n.1, p.5-22, 1997.

DAWSON, Andrew. New era – new religions: religious transformation in contemporary Brazil. Aldershot: Ashgate, 2007. 

HATCHER, Brian A. Contemporary Hindu Thought. In: Contemporary Hinduism. RINEHART, Robin (Org). Contemporary Hinduism: Ritual, Culture, and Practice. Santa Barbara, Calif.: ABC-CLIO, 2004.

LUCIA, Amanda J. Hinduism without religion: Amma’s movement in America. Cross Currents, v. 61, n. 3, 2011, p. 374-398. 

_____________. Innovative gurus: tradition and change in contemporary Hinduism. International Journal of Hindu Studies, v. 18, n. 2, 2014, p. 221-263. 

PENUMALA, Pratap Kumar. Sociology of Hinduism. In: TURNER, Brian (Ed.). The new Blackwell companion to The Sociology of Religion. Wiley-Blackwell, 2010, p. 407-430.

SANCHIS, Pierre. “O campo religioso será ainda hoje o campo das religiões?”. IHU On-Line, nov. 2006. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/2049-o-campo-religioso-sera-ainda-hoje-o-campo-das-religioes-entrevista-com-pierre-sanchis>. 

SILVEIRA, Marcos Silva da. New Age & Neo-hinduísmo: uma via de mão dupla nas relações culturais entre ocidente e oriente. Ciências Sociais e Religião, n. 7, 2005, p. 73-101.

SMITH, David. Hinduism. In: WOODHEAD, Linda; PARTRIDGE, C; KAWANAMI, H. (Eds.). Religions in the Modern World: Traditions and Transformations. New York: Routledge, 2016, p. 41-72.

SQUARCINI, Federico. ‘Power of mysticism’ and ‘mysticism of power’: Understanding the sociopolitical history of a neo-hindu movement. Social Compass, v. 48, n. 3, 2002, p. 343-364.VIOTTI, Nicolás. El affaire Ravi Shankar: Neo-hinduismo y medios de comunicación en Argentina.Sociedad y religión, v. 25, n. 43, p. 13-46, mayo 2015.

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