Blog

GT Religião e Sociedade

GT Religião e Sociedade

By Rodrigo Toniol in Novidades on maio 3, 2020

Convidamos a todas e todos pesquisadores da áreas a submeterem trabalhos no GT Religião e Sociedade. Abaixo descrevemos a proposta de retomada deste GT histórico da ANPOCS.

 

GT Religião e Sociedade 

Rodrigo Toniol (Unicamp)

João Rickli (UFPR)

Resumo: Em 2001, Pierre Sanchis escreveu que ““o campo religioso é cada vez menos o campo das religiões”. A dupla dimensão deste diagnóstico, da insuficiência das instituições em conformar as experiências religiosas e da crise da categoria religião para dar conta dos fenômenos contemporâneos, vocaliza de forma sintética uma tensão que marca boa parte da produção das ciências sociais sobre o tema nas últimas décadas.

 

Resumo expandido

A presença da religião nos debates públicos contemporâneos é fato inegável, amplamente notado e discutido no universo acadêmico. Essa centralidade parece decorrer de uma ambiguidade fundamental. Por um lado, religião tornou-se um princípio chave de mobilização identitária, sendo indispensável para a descrição dos fatos políticos recentes de maior importância da história: o vocabulário articulado na votação pelo impeachment de Dilma Rousseff, a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, a eleição de Jair Messias Bolsonaro no Brasil, o crescimento da ultradireita europeia. Por outro lado, religião é uma categoria analítica fundamental para cientistas sociais, a partir da qual têm elaborado reflexões cada vez mais afinadas sobre sua relação com o Estado, sobre os limites do secularismo e sobre sua capacidade explicativa sobre novas formas de relação com o sagrado. Desde meados de fevereiro de 2020, religião ocupou novamente o centro do debate público, quando as profundas transformações globais em curso devido a um novo tipo de coronavírus foram acompanhadas pela recusa de líderes religiosos em suspenderem atividades coletivas em suas igrejas e pela esperança disseminada de que curas milagrosas fossem operadas em meio à pandemia.
As reações do senso comum ilustrado ao reconhecimento dos componentes religiosos de ações e mobilizações políticas recentes têm variado majoritariamente entre uma certa perplexidade ou preocupação e a simples indignação e repúdio. Assim, o apelo que a noção de religião adquiriu também veio acompanhado por generalizações e reificações bastante frequentes em artigos de opinião, que insistem em generalizações como, “as igrejas evangélicos”, “as igrejas neopentecostais”, “os muçulmanos radicais” ou ainda “os cristãos conservadores”, ora apresentados como os grandes vilões que desafiam a laicidade do Estado e o progresso de pautas emancipatórias e das conquistas dos direitos das minorias, ora como vítimas indefesas de maquinações de lideranças inescrupulosas e manipuladoras.
No universo acadêmico e em seu entorno, as manifestações de autoridades políticas em aberta defesa da ocupação de posições chaves no Estado por atores “terrivelmente religiosos” parecem estimular a produção de reações “terrivelmente superficiais”, vinculadas a opiniões e pré-julgamentos que associam de forma automática a religião ao conservadorismo e a determinadas posições no espectro político. Para a compreensão da complexidade das imbricações entre a religião e as mais variadas arenas políticas e sociais contemporâneas, entretanto, é necessária a produção de pesquisas sistemáticas acerca dos fatos e fenômenos que se articulam com a ideia de religião, em direção a uma reflexão qualificada que permita o avanço do conhecimento acadêmico que permite sólido embasamento empírico para o enfrentamento das questões e dilemas inerentes aos fenômenos religiosos contemporâneos. Destacamos, neste sentido, as contribuições que as pesquisas etnográficas produzidas no âmbito da antropologia da religião têm fornecido para o enriquecimento e aprofundamento dos debates.
Este GT propõe reunir trabalhos baseados em pesquisas qualitativas, sobretudo aquelas de caráter etnográfico, que exploram modos e situações específicos através dos quais a religião se manifesta, influencia ou mesmo transforma formações sociais contemporâneas. Para tanto, fazemos dois movimentos simultâneos, expressos no título e subtítulo do GT.
O primeiro destes movimentos busca resgatar o caráter abrangente que historicamente o Grupo de Trabalho “Religião e Sociedade” teve na ANPOCS ao longo das décadas de 1980 e 1990. Paula Montero (1999), em seu texto de balanço de área, publicado no livro O que ler nas ciências Sociais (1970-1995), demonstra como o conjunto dos temas tratados pelo GT Religião e Sociedade naquelas duas décadas do século XX dirigia-se, principalmente, ao catolicismo e à força emergente do protestantismo renovado no Brasil. Para isso, mobilizava-se explicações totalizantes sobre a matriz cultural-bíblico-católica que estaria impressa desde a sociogênese da nação, assim como sobre a ascensão do pentecostalismo nas periferias, cuja explicação também se dava por meio de grandes chaves interpretativas.
As duas décadas seguintes, no entanto, consolidaram tendências que apontavam noutra direção. Os temas relativos à religião foram pulverizados e um certo esgotamento da categoria como forma de circunscrever e traduzir realidades empíricas em objetos de pesquisa parecem ter desmotivado iniciativas de promoção de debates mais sistemáticos em torno desta noção. A percepção deste aparente esgotamento do termo está bem sintetizada no diagnóstico de Pierre Sanchis, que no início do século XX escreveu de forma lapidar: “o campo religioso é cada vez menos o campo das religiões” (2001:17). Nesta ideia, havia duas dimensões principais. A primeira refere-se à crise de legitimidade e reconhecimento do próprio conceito de religião que o tornou inadequado, ainda que necessário, para designar um habitus que se expressa por meio de espiritualidades, filosofias de vida e experiências do sagrado que compõem determinado regime de crer. A segunda remete à crise das instituições religiosas tradicionais que vem paulatinamente perdendo a sua hegemonia como mediadoras da experiência do sagrado e como responsáveis pela reprodução da crença (Steil e Toniol, 2013) .
Estas mudanças, por sua vez, produziram um deslocamento na atenção dos cientistas sociais da religião enquanto produtora de identidades específicas, para o das suas interfaces com outras esferas da vida social. Um deslocamento que implica tanto em um novo vigor aos estudos da religião quanto evidencia a dissolução dos fenômenos religiosos em outras lógicas (Almeida, 2010). Tal deslocamento impõe aos cientistas sociais um esforço reflexivo que dê conta do desencaixe entre a realidade empírica, descrita nas etnografias de práticas, instituições, grupos e experiências religiosas, e os conceitos de religião, secularização, espaço público e política elaborados e definidos a partir de outro contexto social e histórico.
Essa fragmentação do campo empírico e analítico também se refletiu nos GTs da Anpocs. Ao contrário das décadas de 1980 e 1990, nas duas décadas que se seguiram foram poucos os encontros que contemplaram um Grupo de Trabalho de temática ampla, que reunisse debates sobre diferentes tradições religiosas em um único fórum, assim como que mobilizasse especialistas, associados a distintas tradições teóricas, em debates sobre a pertinência da noção de religião.
O que propomos é a retomada de uma arena de debates acerca dos fenômenos religiosos inspirada nestes esforços de síntese do passado, que possa acolher as temáticas específicas que ficaram de certa forma dispersas em iniciativas menos abrangentes em reuniões recentes. O objetivo do GT, ao fazer este movimento de resgate do caráter aglutinador do antigo “Religião e Sociedade”, é propiciar um amplo diálogo entre trabalhos que exploram a religião em diferentes esferas da vida social e contextos etnográficos a partir de enquadramentos teóricos variados e abertos.
Simultaneamente a este movimento que aglutina e recoloca a religião como categoria central, fazemos um outro em direção ao reconhecimento dos desvios e insuficiências inerentes às apostas excessivas nesta tomada da religião como instrumento heurístico de enquadramento dos objetos e de análise teórica. Para tanto, buscamos reunir trabalhos que explorem a religião em seus enredamentos com outras forças sociais e que privilegiem relações e articulações das quais a religião é (mais) um componente e uma possibilidade, e não uma categoria normativa. Com isso, procuramos retomar debates que foram centrais em fóruns anteriores da ANPOCS, apostando naquilo que eles podem nos aportar após décadas de fragmentação empírica e teórico-analítica do campo.


Referências

ALMEIDA, Ronaldo. “Religião em Transição”. In: C. Martins; L. F. D. Duarte (eds.). Horizontes das Ciências Sociais – Antropologia. São Paulo: ANPOCS/Editora Bacarolla, 2010.

MONTERO, Paula., “Religiões e dilemas da sociedade brasileira”. In: S. Miceli (org.). O que ler na ciência social brasileira (1970-1995). Vol. II: Sociologia. São Paulo: Sumaré/ANPOCS, 1999.

Sanchis, P. Fiéis & cidadãos: percursos de sincretismo no Brasil. EdUERJ, 2001.

Steil, Carlos Alberto, and Rodrigo Toniol. “A crise do conceito de religião e sua incidência sobre a antropologia.” Religión, cultura y política en las sociedades del siglo XXI. Buenos Aires: Biblos, pp. 137-158, 2013.