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Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro

Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro

By admin in Crônicas de pesquisas on setembro 17, 2019

Por Isabela Mayumi

Em junho de 2001, a Revista Veja publicou a matéria “Em busca de Deus”, discorrendo acerca das tentativas dos cientistas de romper as barreiras entre a fé e a ciência. Em fevereiro de 2007, a Revista Galileu publicou “O monge cientista”, focalizando o interesse do 14º Dalai Lama pela ciência como um método complementar ao budismo na busca pela verdade. Anos depois, em novembro de 2013, a revista de curiosidades científicas SuperInteressante publicou “Fé faz bem” e, no mês seguinte, a Revista Saúde É Vital publicou “Fé pode (mesmo) curar”.

Essa sucessão de publicações em revistas de circulação nacional não são as únicas que trouxeram à tona o eixo temático “saúde-espiritualidade-ciência”, e podem ser compreendidas como desdobramentos de um movimento que vem se consolidando há algumas décadas, explorado nas pesquisas que compõem o projeto “Espiritualidade Institucionalizada”. Das pesquisas médico-científicas até a formulação de políticas públicas voltadas à saúde, perpassando a literatura médica e documentos oficiais, é notável um crescente reconhecimento da associação entre espiritualidade e saúde.

Dialogando com este contexto, minha pesquisa buscará analisar os textos de divulgação científica em revistas e jornais brasileiros que veiculam a espiritualidade como um fator positivo à saúde ao chamado “público leigo”. Essas publicações são dedicadas a, por um lado, difundir as pesquisas médico-científicas que dizem respeito aos benefícios da espiritualidade para a saúde e, por outro, positivar a fé no atual cenário brasileiro. Numa breve análise inicial, há uma certa demanda desses textos, algo que pode ser explicado pelo fato de que cada indivíduo pode constituir sua experiência espiritual ao passo do detrimento da adesão a uma prática religiosa institucionalizada.

Como o consumo por parte desse público pode, de alguma maneira, auxiliar na legitimação dos benefícios da espiritualidade à saúde? Quais são os recursos acionados na elaboração de tais textos, sobretudo no mercado editorial brasileiro? E, ademais, quais são as consequências da formulação da espiritualidade como uma questão de saúde? Qual é o trajeto de uma pesquisa, conduzida em uma universidade, até a produção de sua versão de popularização? Quais são os temas mais recorrentes nessas publicações? Quem e quais instituições estão por trás desse fenômeno de popularização? Como isso tem se estabelecido no mercado editorial brasileiro? É através destes questionamentos que pretendo desenvolver minha pesquisa.

Espiritualidade, ciência e saúde são temas-chave identificáveis em passagens de livros e outras mídias, porém as publicações em revistas e jornais no mercado editorial brasileiro se caracterizam, precisamente, pela sua natureza secular. É necessário que haja um especial cuidado para que essas publicações não se confundam com obras de literatura religiosa, bastante consumidas no Brasil, em que a cena religiosa é marcada pelo crescimento evangélico e por outras expressões de fé, embora a maioria da população seja católica. Assim, é preciso compreendermos os mecanismos de divulgação e transmissão de informações dessas publicações, num arranjo ainda provisório e em construção.