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Espírito por Peter van der Veer

Espírito por Peter van der Veer

By admin in Publicações on junho 8, 2020

Texto original de Peter van der Veer para The Immanent Frame

Tradução por Laura Andare

Conceitos como “espírito” ou “matéria” ou “corpo” escapam a definições exatas. São produtivos precisamente pela sua indeterminação. Isto possibilita usá-los em contextos amplamente diversos. São mais sugestivos do que precisos. Qual a relação, por exemplo, entre o Espírito Santo, parte da trindade do cristianismo, com o Geist transcendental Hegeliano da história, ou com a variedade de espíritos que são incorporados por pessoas mundo afora? À primeira vista, talvez nenhuma. Mas, por outro lado, Pentecostais falam em línguas quando em possessão espiritual, e parece haver uma noção quase Hegeliana no Cristianismo de que a história é movida por um propósito transcendental. As ricas tradições espirituais e possessões espirituais do Islamismo que encontram sua máxima expressão nos cultos Sufi têm sofrido ataques de movimentos escrituralistas que os veem como antitéticos ao núcleo teológico Islâmico. No entanto, pode-se encontrar por todo o mundo muçulmano uma conexão vibrante entre cura religiosa e controle sobre o mundo espiritual. Quando usamos a palavra inglesa “spirit”, conectamos diferentes universos semânticos contidos na tradição Ocidental, mas também invocamos, de fora do Ocidente, outras tradições e seus debates. 

Espiritualidade, termo derivado de espírito, é um dos conceitos mais importantes para se entender a modernidade. Ela adquire um novo significado na era da experimentação científica, e no contexto do nacionalismo e do imperialismo então recém emergentes. Viu-se uma grande ascensão do interesse em espíritos e espiritualidade na segunda metade do século XIX. Na década de 1850, na França, Allan Kardec comunicava-se com espíritos através de uma prancheta, uma tábua acoplada a um lápis, que permitia a escrita automática guiada pelos espíritos. Ele escreveu uma série de livros, intitulados coletivamente de “Codificação Espírita”. 

Importantes intelectuais franceses, como Victor Hugo, tornaram-se seguidores entusiasmados do Espiritismo. Em 1878, Madame Helena Blavatsky e  Coronel Henry Olcott, que lutou pelo Exército da União durante a Guerra Civil Americana, fundaram a Sociedade Teosófica (Theosophical Society) em Nova Iorque. Como muitos outros que estiveram naquela guerra, Olcott adquiriu interesse pela comunicação com os espíritos dos mortos. No ano de 1874, em uma viagem para Vermont em visita à família Eddy – conhecidos pelo sucesso na comunicação com espíritos – conheceu Madame Blavatsky, uma russa que afirmava ter visitado o Tibet. Ela seria capaz de se comunicar não só com os espíritos, mas também com os Mestres do Universo, que estavam no Oriente. Blavatsky fez a jogada mestra de associar a comunicação com espíritos e a espiritualidade, tradição ilimitada do misticismo.

A arte abstrata Moderna é uma marca da modernidade. Wassily Kandinsky e Piet Mondrian, grandes pioneiros da arte abstrata do começo do século XX, compreendiam a passagem da representação para a abstração como “espiritual”. Em Über das Geistige in der Kunst (Do Espiritual na Arte), um dos mais influentes textos produzidos por um artista no século XX, Kandinsky refere-se a Blavatsky como grande inspiração. Do mesmo modo, Mondrian foi diretamente inspirado pela leitura de Isis Unveiled (Ísis sem véu), de Blavatsky, em seu uso da forma geométrica. Em 1909, Mondrian se tornou um membro da Sociedade Teosófica. Para ambos, a espiritualidade forneceu uma via de exploração da realidade além dos métodos convencionais da ciência e do materialismo. 

A espiritualidade foi (e ainda é) vista como mais abundante no “Oriente” do que no “Ocidente”, que era tido como materialista e hiper-racional. O Oriente era um lugar de imaginação espiritual, acessível a um público ocidental através da conquista colonial e da tradução de orientalistas. Asiáticos não eram recipientes passivos do processo de orientalização, mas seus promotores ativos. O Indiano Swami Vivekananda, que se tornou famoso por sua performance no Parlamento Mundial de Religiões de Chicago, em 1893, teve imenso sucesso em sua propagação do Yoga como a base científica da espiritualidade Hindu. Seu consorte Bengalês, Rabindranath Tagore, o primeiro asiático a ganhar um prêmio Nobel de Literatura, tentou ir além de fronteiras nacionais ao promover uma espiritualidade Pan-Asiática. Tal empreendimento foi obstado quando intelectuais japoneses qualificaram o pacifismo de Tagore como uma marca de um povo colonizado, contrapondo-o a uma espiritualidade japonesa de tons belicosos. 

A espiritualidade poderia ser entendida como uma alternativa unificadora e universalista às divisões religiosas, raciais e étnicas entre povos, mas também poderia ser construída como característica de uma nação: o espírito da nação. Esta tensão nunca foi, de fato, resolvida. Líderes espirituais como Mahatma Gandhi ou o Dalai Lama, simultaneamente, difundiram uma mensagem universal e lutaram pela independência nacional. O nacionalismo frequentemente combina uma variedade de tradições culturais e religiosas em uma espiritualidade unificadora que caracteriza um povo específico. Em vez das fechadas tradições religiosas, especialmente as institucionalizadas em igrejas, a espiritualidade poderia ser usada para transcender divisões. 

A moderna “invenção” ocidental da espiritualidade teve que se adequar ao rico repertório de tradições do espírito e da possessão espiritual do Oriente. Madame Blavatsky e Coronel Olcott tentaram se alinhar ao Hinduísmo, mas para a India Hindu não se deve comunicar com os espíritos dos mortos, e sim evitá-los e deixá-los em paz. Já na China, isso se altera. As formas mais originárias de escrita, na China, foram escritos espíritas. Este tipo de escrita não pretendia imprimir o discurso humano à escrita, mas sim comunicar com os espíritos. Eles eram signos talismânicos que permitiam ao escritor se comunicar com os poderes ocultos do universo, ou mesmo controlá-los. Cultos de escrita espírita eram uma parte crucial da religião no Sul da China até serem reprimidos pelo Estado Comunista nos anos 50. 

Talvez a definição Victoriana de Edward Tylor, da religião como uma crença em seres espirituais, seja arquetípica da ubiquidade dos espíritos no mundo de nossa imaginação. Espírito pode ser usado como um termo contrastante, em oposição a “matéria” e “corpo”. Mas o espírito é materializado na escrita e incorporado na possessão espiritual, conectando o mundo imanente com o transcendente em uma miríade de formas.

Peter van der Veer é é antropólogo. Diretor do Instituto Max Planck para o Estudo da Diversidade Religiosa e Étnica em Göttingen e professor emérito da Universidade de Utrecht. Seus trabalhos incluem estudos comparativos entre Índia e China.                                                                                                                                                                                                  

Tradutora: Laura Andare é Cientista Social formada pela UNICAMP e Arte Educadora. Compõe o NUES e tem desenvolvido pesquisa sobre o processo de institucionalização  da Arteterapia no SUS. 

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