Blog

Espírito por Josef Sorett

Espírito por Josef Sorett

By admin in Publicações on junho 23, 2020

Texto original de Josef Sorett para The Immanet Frame

Tradução por Lucas Baccetto

…com o espírito ao nosso lado, buscamos seus sinais…

Como alguém liga ou traça os limites ao redor de uma investigação sobre o termo “espírito” ou “espíritos”? Talvez esse seja o desafio para todas as palavras. Toda e qualquer palavra, uma interação ou um artefato da linguagem e da cultura. Eu estou afirmando o óbvio, daí a importância de um projeto como este, “Um Universo de Termos”. Mesmo no interior dos itens de uma instalação que revisita o volume editado por Mark C. Taylor em 1998, Critical Terms for Religious Studies, o termo “espírito(s)” pareceria especialmente instável, promiscuo em sua recusa em ter seu sentido fixado. Nós buscamos seus sinais, diz Joe Wood em 1992. O espírito se move de maneiras misteriosas, eles dizem.

Isso ocorre de tal modo que, de alguma forma, o espírito não foi incluso no volume editado por Taylor. Como isso foi possível, dada a centralidade do termo na história da filosofia e teologia ocidentais e, portanto, para o campo dos estudos de religião? Como podemos explicar sua ausência no Critical Terms, que foi publicado no mesmo ano do agora clássico trabalho do sociólogo Robert Wuthnow, After Heaven, sobre a espiritualidade norte-americana (um sinal da importância do termo que desde então apenas cresceu, de discussões de espiritualidade à possessão espiritual)? São perguntas importantes, mas eu as deixarei para outro dia, eu acho.

Se não é com o volume original de Taylor ou com o estado do campo de estudos, então por onde se pode começar? Talvez retornando à repetição particular desse termo, que mobilizou grande parte da minha própria pesquisa: o espírito precedido pelo qualitativo racial. Ou, como Joe Wood colocou: o espírito negro. Como essa configuração pode ajudar (ou dificultar) em nossos esforços na busca dos sinais?

Antes, uma confissão (e um spoiler): eu tendo a detestar quando dicionários ancoram uma análise. Ainda assim, me vejo fazendo precisamente esse mesmo movimento, esperando encontrar um ponto fixo para começar (ou concluir) essa breve reflexão. Sem qualquer surpresa, a consulta ao dicionário de língua inglesa Merriam-Webster confirmou imediatamente minhas suspeitas e me frustrou ainda mais. Quatorze sentidos diferentes, vários com dois ou mais subsentidos dentro deles; desde “lealdade entusiástica” até “uma inclinação, impulso ou tendência de tipo específico: estado de espírito”. Espírito, ao que parece, é definido por um excedente de sentidos. Espírito, então, é bem parecido com a quarta definição de “promíscuo”: “composto de todo tipo de coisas”. O segundo sentido do espírito, talvez, seja o que faça mais sentido no contexto dos estudos de religião: “um ser ou essência sobrenatural”. Ou não, já que até mesmo essa essência é dividida em quatro subsentidos menores.

Então, eu me volto para as minhas estantes de livros para conseguir melhores pistas, ou ao menos uma lembrança útil. Sendo um pesquisador da religião e da cultura afro-americana, meus livros deveriam pelo menos limitar meu campo:

Não tenho tanta sorte. Aleatória, não científica e de modo algum representativa, essa amostra apresenta muito e conta pouco, no sentido de nos situar em algum lugar. Esses noves títulos, antigos e novos, oferecem uma noção do quão amplo é o terreno, mesmo quando os subtítulos sugerem caminhos evidentes que o espírito percorreu.

O que acontece quando espírito(s) é amarrado a um adjetivo? Um qualitativo racial, por exemplo? Tornar o espírito negro ajuda a esclarecer alguma coisa? Ou nos confunde ainda mais? Nenhum termo figurou tão proeminentemente na essência do meu trabalho que espírito. As fontes primárias me levaram a essa direção. Muitos dos artistas e intelectuais que encontrei na investigação de meu primeiro livro, Spirit in the Dark, se valeram do que eu acabei chamando de uma “gramática do espírito”. Espírito, espíritos, espiritual, espiritualmente. Espírito preto, raça espírito, espírito racial, espírito negro. Espiritualidade dos velhos tempos e nova espiritualidade. Esses foram apenas alguns dos termos escolhidos por eles. Por sua vez, argumentei que o espírito (e essa constelação de termos relacionados) providenciou uma gramática através da qual se debatia a cultura e a arte negra, assim como o significado mesmo de negritude, durante grande parte do século XX.

Cada vez que dou uma palestra sobre meu livro, sou recebido com uma série de perguntas semelhantes, quase invariáveis. Como estou definindo espírito? Seria o espírito, para mim, uma coisa real? Eu estou falando sobre o Espírito? Eu entendo o espírito em termos literários em vez de literais (como se essa distinção fizesse sentido)? É uma metáfora? Um tropo? Minha resposta frequente tem sido um simples “sim”. Melhor ainda: “todas as opções acima”. Com a mesma frequência, eu não forneci resposta alguma, redirecionando a atenção de volta às fontes. Tomando emprestado de Rainer Maria Rilke: “ame as perguntas!” Mas talvez essa recusa seja injusta ou inadequada. Embora eu a imagine servindo a um propósito pedagógico – um convite a pensar além, de forma mais profunda e mais próxima –, talvez as vezes uma resposta simples seja merecida. Lembrando da frustração permanente de meus alunos com essa abordagem, eu passei a reconsiderá-la. Mesmo assim, havia uma esperança de que, ainda que de forma indireta, ao atender a uma gramática do espírito que fora tipicamente marcada como racial, pudéssemos encontrar uma nova ou distinta entrada na nossa forma de pensar sobre religião.

Muita tinta acadêmica já foi gasta nos últimos anos sobre a natureza co-constitutiva de raça e religião. Por exemplo, em seu livro mais recente publicado em 2017, New World A-Coming, Judith Weisenfeld analisa com perspicácia as novas religiões negras que emergiram durante a primeira metade do século XX, as quais ela nomeia como “religio-racial”. Ou podemos considerar como Robert Jones chama a atenção, para um público mais popular, para a longa sombra racial (muitas vezes não nomeada) lançada pelo cristianismo nos Estados Unidos, em seu livro de 2016, The End of White Christian America. Como Weisenfeld observa corretamente (e o título do livro de Jones sugere), todas as religiões são formações raciais. Só que as brancas tendem a não ser nomeada como tais.

Correndo o risco de ser chamado de reducionista, quanto mais penso sobre o assunto, mais venho a acreditar que o estudo da religião na América do Norte é o estudo da raça. Citado na epígrafe deste ensaio em sua reflexão sobre Malcom X e a identidade e cultura negra nos anos 1990, o falecido escritor e editor Joe Wood ligou o espírito a, mais simplesmente, “um ethos compartilhado”. Notavelmente, a definição de Wood não se sobrepõe a nenhuma das vinte e três oferecidas pelo dicionário Merriam-Webster. Além disso, ele escreve: “O espírito negro nunca significou uma coisa ou qualquer coisa concreta, o que é seu grande poder e fracasso.” No dizer de Wood, negritude e espírito se encaixam. Espírito – em preto e branco – é talvez o termo que melhor media esse emaranhamento fundamental entre raça e religião, assim como as assimetrias que animam e fornecem contexto para o lugar do termo na história norte-americana. Ele ilumina e frustra nossos melhores esforços em entender suas incontáveis configurações. E nós mesmos. Melhor ainda, você poderia dizer (na verdade, eu diria) que o espírito da religião na América do Norte é, como um historiador coloca, “o encontro do negro e branco”.

***

Josef Sorett é professor associado de religião e Estudos Afro-americanos e da Diáspora Africana na Columbia University, onde também dirige o Centro de Religião Afro-Americana, Política Sexual e Justiça Social. Ele é o autor de Spirit in the Dark: A Religious History of Racial Aesthetics (Oxford, 2016). O próximo livro de Josef, O Santo Santo Negro: As ironias de um secular afro-americano, será lançado (Oxford, 2020). 

Imagem: Obra sem título de Ayelén Arrigo

Comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *