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Entre viagens e livros. A difusão do yoga e da meditação na Argentina

Entre viagens e livros. A difusão do yoga e da meditação na Argentina

By admin in Dossiê Yoga e Meditação on julho 22, 2020

Dossiê Yoga e Meditação

Por María Eugenia Funes

Colocar a atenção nos processos de difusão de cosmovisões e práticas religiosas de outros contextos geográficos diz muito sobre as sociedades que as “recebem”. A chegada do yoga e da meditação na Argentina, por exemplo, mostra o rol que as viagens e o material escrito tiveram para a ampliação da oferta religiosa e espiritual num país historicamente hegemonizado pelo catolicismo.

Como expõem as pesquisas especializadas, tanto o yoga quanto a meditação não chegaram ao território argentino por meio da imigração (como no caso de outras religiões minoritárias como o protestantismo ou o judaísmo) mas através de indivíduos que viajaram ao Oriente, estiveram em contato com suas filosofias e religiões e, logo ao voltar ao país, traduziram obras canônicas do hinduísmo e do budismo e ensinaram suas técnicas e práticas corporais (Carini, 2009; Saizar, 2015; Puglisi, 2016; D’Angelo, 2018). 

A chegada do hinduísmo produz-se durante a primeira metade do século XX num contexto de “orientalismo positivo” (Gasquet, 2008; Bergel, 2015) e da difusão do esoterismo entre os membros das elites econômicas, políticas e intelectuais do país que, como Ricardo Guiraldes, viajaram na Índia ou, como Victoria Ocampo, convidaram mestres ou “Swamis” ao país. Esses últimos ensinaram os princípios do hinduísmo por meio da leitura de textos sagrados, guiaram práticas de yoga e meditação entre pesquisadores espirituais e cultores locais do orientalismo e criaram as primeiras escolas de yoga. Além disso, esse movimento integrou uma outra prática fundamental pela difusão de cosmovisões e práticas religiosas do Oriente: a tradução de seus textos sagrados. Nesse sentido, destaca-se o papel que teve um sacerdote jesuíta, Ismael Quiles que, após uma estadia na Índia, traduziu alguns textos e fundou uma escola de yoga numa universidade católica jesuíta que ainda funciona. 

Na década de 1980, num contexto de disseminação do movimento da Nova Era (Carozzi, 2000) chegaram várias ramas do budismo que contribuíram na institucionalização da meditação na Argentina.  Ao contrário do hinduísmo de elite citado anteriormente, muitos dos difusores da meditação nesta etapa foram argentinos de setores médios que viajaram na Europa ou nos Estados Unidos onde incorporaram a prática da meditação através do contato com uma segunda geração de mestres que haviam-se formado no Japão ou em outros países asiáticos. Neste caso é também frequente o convite de mestres que visitam os templos locais, fundados pelos viajantes, onde guiam meditações e oferecem conferências.

Finalmente, como foi indicado no início, uma das características da vida religiosa na Argentina é a extensão da socialização e da presença do catolicismo no âmbito público. As variadas formas da incorporação do yoga e da meditação neste país não escapam essa qualidade. Nesse sentido, entre as versões locais da meditação e o yoga encontram-se pontes simbólicas e estratégias sócio-adaptativas entre as cosmovisões, linguagens e simbologias do hinduísmo e do budismo com aquelas do habitus católico local (Carini, 2013; Giménez y Saizar, 2011; Puglisi, 2012).

Imagem destacada: Victoria Ocampo com o escritor indio Rabindranath Tagore.  

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María Eugenia Funes é doutora em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires e em Sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Atualmente é bolsista de pós-doutorado no CONICET e professora na Universidad del Salvador, na Argentina.

Referências:

Bergel, Martin. (2015). El oriente desplazado. Los intelectuales y los orígenes del tercermundismo en la Argentina. Universidad Nacional de Quilmes.

Carozzi, María Julia. (2000). Nueva Era y terapias alternativas. Construyendo significados en el discurso y la interacción. Ediciones de la UCA.

Carini, Catón. (2009). Las nuevas tierras del Buda; globalización, medios de comunicación y descentralización en una minoría religiosa de la Argentina. Debates do Ner, 10(16), 49-70. https://doi.org/10.22456/1982-8136.9606

Carini, Catón. (2013). Cosmovisión y puentes simbólicos en el budismo zen argentino. MItológicas, 28, 9-32.

D’Angelo, Ana. (2018). De swamis a gurúes. Una genealogía histórica de los tipos de yoga practicados en Argentina: Entre el neo-hinduismo y la Nueva Era. Sociedad y Religión, 28(49), 101-134.

Gasquet, Axel. (2008). El orientalismo argentino. De la revista Nosotros al grupo sur. Latin American Studies Center.

Giménez, Alejandra, & Saizar, Mercedes. (2011). Reeducando la mirada. Reflexiones sobre la refiguración de nociones católicas entre practicantes de terapias alternativas en Buenos Aires (Argentina). Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, 20(35), 151-161.

Puglisi, R. (2016). Los grupos Sai Baba y Zendo Betania en Argentina. Globalización, técnicas corporales y modos alternativos de subjetivación en el contexto nacional contemporáneo. Astrolabio, 16, 192-219.

Puglisi, Rodolfo. (2012). Tejiendo vínculos: Tres mecanismos socioadaptativos desplegados por el movimiento Sai Baba en Argentina. Revista Colombiana de Antropología, 48(2), 67-88.

Saizar, Mercedes. (2015). El hinduismo en Argentina. Más allá de hippies y globalizados. MItológicas, 30, 62-75.

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