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Entre espiritualidade e ciência: debates e disputas

Entre espiritualidade e ciência: debates e disputas

By admin in Uncategorized on agosto 19, 2019

Por Luciana Cavalcanti

O termo “espiritualidade” se revela extremamente amplo e de difícil definição, sendo muitas vezes associado a um distanciamento das pessoas das instituições religiosas, por um lado e, por outro, a uma ênfase na valorização da dimensão subjetiva da experiência do sagrado ou do transcendente. Além disso, esse termo tem se mostrado relevante para a medicina e a ciência em geral, sendo frequentemente mobilizado, em uma tendência mundial de atenção a esse tema pelo viés da saúde e do bem estar. No entanto, o caráter abrangente e pouco delimitado da palavra torna muito complexas as discussões sobre o seu uso no campo da saúde.

Como tem sido observado por nosso grupo, nos diversos projetos que compõem a pesquisa “Espiritualidade Institucionalizada”, é marcante a percepção de agentes e instituições da área da saúde (internacionais e nacionais) de que a espiritualidade constitui uma dimensão da saúde humana, sendo que, em geral, essa categoria é mobilizada como um fator positivo para o bem estar.

Complementarmente às pesquisas em andamento do NUES, preocupadas em identificar o crescente uso da categoria nos campos da clínica médica, das políticas públicas e pesquisas científicas na área da saúde no Brasil, que associam a “espiritualidade” como um fator de maior saúde, pretendo olhar para o papel de uma ciência que adota o lugar do ceticismo e contesta os desdobramentos dessa tendência observada.

Para isso, acompanharei a atuação do Instituto Questão de Ciência (IQC), uma instituição de divulgação científica inaugurada no final de 2018, na cidade de São Paulo, e que declara ter como missão lutar para que as políticas públicas do país tenham embasamento científico, combatendo, assim, o desperdício de dinheiro público. Quero atentar-me ao discurso adotado pelo Instituto, tentando identificar os possíveis elementos de um certo cientificismo que é mobilizado para criticar aberta e duramente diversos tipos de terapias alternativas, como a homeopatia e o reiki, colocadas pelo IQC num mesmo grupo junto a diversas outras, sob a denominação de “pseudociências”.

Num rápido percorrido pela revista online do instituto, é possível identificar uma defesa obstinada da importância das evidências e comprovações científicas para as questões de saúde e para a vida pública de uma maneira geral, como forma de tornar as políticas e os investimentos públicos válidos. Terei como foco, portanto, os debates que tomam lugar a partir das contestações que a Ciência com C maiúsculo faz a algumas práticas que, de certa forma, são consequência da ideia de que “espiritualidade faz bem para a saúde”, mas não só, como é o caso de terapias que simplesmente se baseiam em outros sistemas de conhecimento.

Nesse sentido, baseada na perspectiva teórica da controvérsia, pretendo analisar as discussões que se produzem entre o IQC e os diversos agentes envolvidos, tais como os cidadãos que usam esses tratamentos, terapeutas, biólogos, médicos, físicos, jornalistas, a opinião pública, políticos e políticas públicas e, agora, antropólogos. Tais atores se mobilizam em debates sobre a efetividade das terapias alternativas e os seus processos de institucionalização, seja no sistema de saúde ou no apoio a pesquisas. A controvérsia também toca a questão da validade ou da legitimidade desses tratamentos, questionados por um olhar científico, acabando por levar a disputas sobre o que deve orientar o investimento público, sendo, assim, esse tema de interesse social.

Em um contexto político de ataques direcionados à ciência e à educação, assim como de desmonte da máquina pública e de cortes em outras áreas, o papel da divulgação científica mostra-se importante pelo seu caráter informativo, desmistificador e contestador. No entanto, me parece necessário, e é isso que pretendo fazer em minha pesquisa, atentar-se para o lugar dos debates e disputas, intrínsecos a uma realidade que se mostra plural e, muitas vezes, contraditória.