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Divinação e ciência: sonhos, corpos e sentidos de experiências divinatórias à literatura científica

Divinação e ciência: sonhos, corpos e sentidos de experiências divinatórias à literatura científica

By admin in Crônicas de pesquisas on fevereiro 22, 2019

Maria Luiza Assad

 

Como ganha corpo o que de outro modo poderíamos considerar “efêmero”? São as pessoas, mediante seus corpos, capazes de antecipar acontecimentos por vir? Como pode ser pensada a experiência dos sentidos? E talvez mesmo de seus horizontes temporais? Em certo sentido, a pesquisa que intento realizar segue na esteira de outros trabalhos que buscam “capturar o intangível”. E posso dizer que o intuito de observar como adquire corpo o intagível, neste caso, se desdobra em duas facetas:

Por um lado, posso dizer que o “intangível” de eleição reside na esfera das experiências divinatórias – isto é, visões, sonhos premonitórios, pressentimentos e intuições que parecem se concretizar. E o objetivo é acompanhar como as pessoas (“entre nós”) se relacionam com a possibilidade de tais ocorrências: como parecem ocorrer tais experiências; como são vividas corporalmente, quais são as percepções sobre horizontes temporais e limites de corpos emergentes, como são integradas ou transformam concepções de vida etc. Através de entrevistas, pretendo mapear a relação das pessoas com o que designarei por “sensibilidades antecipatórias”. E, propositalmente, não partirei de um grupo pré-estabelecido, mas daqueles que se mostrarem disponíveis para compartilhar suas experiências referentes a esse tipo de fenômeno.

Por outro lado, o intuito se desdobra na observação de como o intangível vem recebendo corpo através de certa literatura científica. Por ora, o que posso antecipar é que parte da pesquisa deve acompanhar o deslocamento operado em meio a  abordagens científicas que usualmente tem de lidar com corpos: pensem em medicina e certas contribuições das biociências. Mas também na própria antropologia. E, em especial, naquela sua faceta de “antropologia médica”. Não por querer aprofundar subdivisões, mas pela própria forma com que necessariamente teve de lidar com o questões relativas ao corpo. Observar deslocamentos no interior da antropologia parece chave. E não apenas porque é o campo em que se insere o projeto: mas por ser “tradicionalmente” aquele que lida com as temáticas da divinação, dos limites de corpos e pessoas, e das renegociações entre o que se compreende como social e/ou natural.

Claro, trata-se mais de uma promessa inicial que, como em tantas pesquisas, pode cair por terra ao longo do seu desenvolvimento, levada a assumir outros rumos. Um ponto delicado se refere ao próprio “método” e suas razões. Por que não partir de um grupo já definido, por exemplo? Um grupo religioso, como informalmente já me foi sugerido? Posso vislumbrar (assim como provavelmente aqueles que me cercam) uma série de dificuldades de não ir a um campo situado em algum lugar específico, em momentos específicos. Uma razão, neste momento, é: porque esse tipo de recorte não permitiria ver a ocorrência/relação com dado fenômeno – seja lá como o entendamos – fora daquele domínio. Não permitiria sequer perscrutar a possibilidade de que seja mais disseminado do que se concebe.

Por fim, de certo modo isso remete à escolha pela “divinação”. Uma etnografia como a de Charles Stewart indica como sonhos-visões não apenas permitem vislumbrar a coexistência de diferentes percepções temporais, como podem incitar a ação no presente. E o interesse nesse tipo de questão foi profundamente influenciada por seus trabalhos, dentre outros. Mas o que posso dizer, além disso, é que a escolha também se inspirou no famoso ensaio de Carlo Ginzburg acerca do paradigma indiciário. 

O paradigma que poderia ser entendido como “médico”, mas também “divinatório”, dependendo de sua orientação temporal. No mesmo ensaio, Ginzburg aludia ainda à ideia de que há uma forma de conhecer marcada por uma “intuição baixa”, isto é, profundamente radicada no corpo, nos sentidos. Aquilo que reuniria os humanos às outras espécies animais. E o que certamente não deve surpreender antropólogos de inspiração fenomenológica. Aspecto que, junto a certas conversas iniciais, talvez indique que o que almejo perscrutar se encontre sob a esfera de “sensibilidades antecipatórias”; capacidades, habilidades ou formas de conhecer, sentir, antecipar que dependem do corpo. Nesse momento em que tanto se fala da dificuldade de imaginar futuros, também fui capturada pelo interesse em acompanhar as percepções a seu respeito. E do engajamento corporal que deve fazer parte desse processo.