Categoria: Novidades

(Mc)Mindfulness e as políticas da respiração

(Mc)Mindfulness e as políticas da respiração

By admin in Novidades, Publicações, Uncategorized on agosto 25, 2020

Por Chloe Asker para Life of Breath

Tradução por Giovanna Paccillo

Durante o tempo em que pesquisava e escrevia o meu doutorado houveram diversos protestos que deixaram o centro de Londres parado. Essas manifestações foram organizadas e instituídas por um grupo ativista chamado Extinction Rebellion. Um momento pungente para mim foi quando os manifestantes, durante a ocupação da ponte Westminster, se uniram para um momento coletivo de contemplação, reflexão e meditação. Eles foram guiados por uma meditação de mindfulness que explorava a “união” coletiva da respiração que nos une, investigada pelas qualidades da compaixão e do cuidado.

 

Nós todos compartilhamos o ar

Sentimos nossa conjunção enquanto respiramos

De que nós estamos realmente aqui em união

Na grande expressão amorosa de unidade, compaixão, sabedoria, verdade e cuidado

(Transcrição de um vídeo do Youtube uploaded por “Campfire Convertion”, 2018).

 

 

Ativistas da Extinction Rebellion bloqueiam a ponte Waterloo meditando (Foto por Francesca Harris, em Abrahams, 2019).

A respiração é política, e aqui é politizada – conectando nossos corpos aparentemente individuais e delimitados à Terra e seus ritmos e mudanças. Como descreve Thich Nhat Hanh em seu depoimento para a Convenção-quadro das Nações Unidas sobre mudança climática (UNFCCC): ‘ao respirar com o mindfulness e contemplar seu corpo, você percebe que você é a Terra. Você percebe que a sua consciência é também a consciência da Terra. Olhe ao redor – o que você vê não é o ambiente, é você.’

No entanto, entre as humanidades e as ciências sociais críticas, o mindfulness tem sido interrogado e analisado como uma das práticas terapêuticas mais centrais que existem nas culturas neoliberais da modernidade tardia. O termo McMindfulness descreve o zeitgeist do mindfulness contemporâneo, no qual o mindfulness é empacotado e vendido como a cura para as ‘influências nocivas do capitalismo’ (Purser 2019: 19), responsável pelo estresse, ansiedade e depressão. Mas, em vez disso, ele [o mindfulness] agiria como uma forma de ‘otimismo cruel’ (Berlant 2011). No argumento McMindfulness, o mindfulness é encarado como algo que individualiza e despolitiza as condições de saúde mental. Fazendo isso, a pessoa se torna a própria responsável pelo seu estresse, e para lidar com a situação, ela precisaria gerir e mudar a si mesma. Essa lógica ignora as inúmeras forças estruturais que podem produzir depressão, ansiedade e problemas de saúde. Dessa maneira, o mindfulness funcionaria como outra tecnologia reguladora que atua ‘como uma espécie de barreira invisível que restringe o pensamento e a ação’ (Fisher 2009: 16).

No meu trabalho, lidei com o argumento McMindfulness, tendo testemunhado e experimentado o mindfulness de uma maneira diferente. Parte disso vem de minhas experiências vividas de mindfulness (em cursos e retiros de oito semanas) e de um cultivo consciente corporeificado da respiração. Seguindo os ritmos da respiração, podemos começar a desfazer limites fixos entre o eu e o mundo, mente e corpo, dentro e fora, natureza e cultura, e assim por diante. Cultivar a respiração consciente através do mindfulness não é ‘desviar-se das questões sociais e políticas’ (Engelmann 2015: 431). Mas, em vez disso, é uma forma de política e ética corporeificada que pode nos abrir para as maneiras pelas quais somos intrinsecamente imbricados com outros humanos e não-humanos – particularmente na fase de uma ‘extinção em massa’ (Extinction Rebellion nd) ou ‘aniquilação biológica’ (Ceballos, Ehrlich, e Dirzo 2017).

Se voltar para a respiração se tornou vital na era da destruição ambiental, no qual o próprio ar e oxigênio que dependemos para respirar está sendo ameaçado pelo rápido declínio de populações de corais pela acidificação, drenagem e poluição dos oceanos (Loria 2018). Além disso, o direito de respirar um ar limpo, seguro e não poluído está em perigo – principalmente entre comunidades minoritárias e pessoas negras. Por exemplo, em Noxious New York, Sze (2006) mostra o movimento de justiça ambiental na cidade de Nova York que foi impulsionado pelas altas taxas de asma em comunidades minoritárias. Ativistas argumentam que essa desigualdade é uma forma de racismo ambiental. A respiração plena não é igual. O acesso à respiração segura do ar é um problema político e ético contemporâneo.

Há também uma aspiração política e esperançosa de se ter espaço para respirar entre as condições violentas que essas forças perpetuam. A frase ‘não consigo respirar’, proferida por Eric Garner em seus últimos momentos, tornou-se o momento crucial do movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos (Lowery 2019). Era uma descrição literal de sua incapacidade de respirar devido à natureza violenta de sua prisão. Mas as palavras ‘eu não consigo respirar’ também acenderam algo mais, falando em sentido metafórico aos desafios e violências. Os homens negros enfrentam um ambiente hostil, onde sua própria capacidade de respirar livremente está sendo impedida pela negação contínua de seus direitos civis (Aymer 2016).

Juntamente com o perigo da emergência climática que afeta desproporcionalmente as comunidades raciais(1), a capacidade de respirar com segurança também é ameaçada pelo ar muito poluído que é inspirado / expirado. Nesse contexto, ‘não consigo respirar’ é, portanto, uma questão de supremacia branca e destruição ambiental. E assim, a aspiração de respirar livremente é um precedente político:

Eu penso que a luta por uma vida suportável é a luta para queers terem o direito de respirar. Ter espaço para respirar, ou serem capazes de respirar livremente […] é uma aspiração. Com a respiração vem a imaginação. Com a respiração vem possibilidade. Se a política queer é sobre liberdade, ela talvez signifique simplesmente a liberdade para respirar” (Ahmed 2010: 120).

Contudo, voltando conscientemente para a respiração, podemos começar a perceber um potencial ou abertura ético. Um que amplia o testemunho além do humano (Engelmann 2015), vinculando-nos ao meio ambiente; e como o cultivo de uma força ou energia específica que é um ato político ou uma ‘escolha perpétua’ (Skof e Berndtson 2018). Voltar-se para a respiração pode ser uma recusa radical das forças de governamentalidade neoliberal e supremacia branca arraigadas na nossa cultura de trabalho 24/7 da Ética Protestante (Crary 2014). Para alguns, estar em silêncio e vagareza através da respiração é uma forma de política corporeificada que trabalha para romper o “culto da rapidez” (Honore 2010: 3) – o próprio ritmo que o capitalismo exige. Em última análise, tudo o que você precisa fazer é respirar.

Yumi Sakugawa in Juxtapoz, 2016

Ter a liberdade de respirar pode envolver o cultivo consciente da respiração por meio de pedagogias corporais de respiração. Shahjahan (2015) argumenta que pedagogias críticas corporeificadas, como o mindfulness, podem ser usadas para descolonizar o ritmo de nossos corpos, diminuindo a velocidade ‘para acessar fontes alternativas de conhecimento, incluindo maneiras corporificadas de conhecer’ (p.499). Formas críticas de mindfulness, por exemplo, estão trabalhando para se apoiar no desconforto da fragilidade e supremacia branca (e. g. Mindfulness for the People), e para descolonizar formas de “imperialismo cognitivo” enraizadas nas vias neurais do cérebro (e.g.Indigenous Mindfulness).

Apesar de o meu trabalho focar na argumentação acerca de elementos do movimento Mcminful, eu percebei que há mais do que essas culturas aparentemente apolíticas. Na minha tese, eu argumento que o mindfulness cultiva uma forma de ativismo silencioso e de ética através do encantamento de encontros com não-humanos que provocam reflexão e ação sobre vulnerabilidade ambiental. Descobri que, por meio do nosso encontro com a respiração consciente, ganhamos insights. Um desses insights é o de que há mais no mindfulness do que no Mcmindfulness.

***

(1) Nota de tradução: no texto original “communities of colour”.

Este texto foi originalmente publicado no site do Life of Breath. O Life of Breath foi um projeto interdisciplinar de pesquisa de 5 anos de duração (2015-2020) financiado pelo Welcome Trust e pensado, principalmente pela Prof. Jane Macnaughton (Durham University) e pela Prof Havi Carel (University of Bristol). 

Referências bibliográficas:

Abrahams, Matthew. 2019. “The Buddhists of Extinction Rebellion.” Tricycle: The Buddhist Review. September 16, 2019. https://tricycle.org/trikedaily/extinction-rebellion-buddhists/.

Ahmed, Sara. 2010. The Promise of Happiness. Durham [N.C.]: Duke University Press.

Aymer, Samuel R. 2016. “‘I Can’t Breathe’: A Case Study—Helping Black Men Cope with Race-Related Trauma Stemming from Police Killing and Brutality.” Journal of Human Behavior in the Social Environment 26 (3–4): 367–76. https://doi.org/10.1080/10911359.2015.1132828.

Berlant, L. 2011. Cruel Optimism. Duke University Press.

Ceballos, Gerardo, Paul R. Ehrlich, and Rodolfo Dirzo. 2017. “Biological Annihilation via the Ongoing Sixth Mass Extinction Signaled by Vertebrate Population Losses and Declines.” Proceedings of the National Academy of Sciences 114 (30): E6089–96. https://doi.org/10.1073/pnas.1704949114.

Crary, Jonathan. 2014. 24/7: Late Capitalism and the Ends of Sleep. London: Verso Books.

Engelmann, Sasha. 2015. “Toward a Poetics of Air: Sequencing and Surfacing Breath.” Transactions of the Institute of British Geographers 40 (3): 430–44. https://doi.org/10.1111/tran.12084.

Extinction Rebellion. n.d. “The Emergency.” Extinction Rebellion (blog). Accessed January 27, 2020. https://rebellion.earth/the-truth/the-emergency/.

Fisher, Mark. 2009. Capitalist Realism: Is There No Alternative? John Hunt Publishing.

Honore, Carl. 2010. In Praise of Slow: How a Worldwide Movement Is Challenging the Cult of Speed. Hachette UK.

Loria, Kevin. 2018. “The Quest to Save the Fragile Reefs Earth’s Oceans Depend On.” Business Insider. April 12, 2018. https://www.businessinsider.com/coral-reef-bleaching-ocean-acidification-solutions-2018-4?r=US&IR=T.

Lowery, Wesley. 2019. “‘I Can’t Breathe’: Five Years after Eric Garner Died in Struggle with New York Police, Resolution Still Elusive.” Washington Post, June 14, 2019. https://www.washingtonpost.com/national/i-cant-breathe-five-years-after-eric-garner-died-in-struggle-with-new-york-police-resolution-still-elusive/2019/06/13/23d7fad8-78f5-11e9-bd25-c989555e7766_story.html.

Purser, Ron. 2019. McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality. Watkins Media.

Shahjahan, Riyad A. 2015. “Being ‘Lazy’ and Slowing Down: Toward Decolonizing Time, Our Body, and Pedagogy.” Educational Philosophy and Theory 47 (5): 488–501. https://doi.org/10.1080/00131857.2014.880645.

Skof, Lenart, and Petri Berndtson, eds. 2018. Atmospheres of Breathing. Albany, New York: State University of New York.

Sze, Julie. 2006. Noxious New York: The Racial Politics of Urban Health and Environmental Justice. MIT Press.

Israel Imaginária

Israel Imaginária

By Rodrigo Toniol in Novidades on agosto 24, 2020

Divulgamos o curso que será oferecido em 2020/2, no PPGAS/Unicamp.


Universidade Estadual de Campinas

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social

Disciplina de Leituras Dirigidas

Israel Imaginária: política, religião e nacionalismos

Professores

Rodrigo Toniol (Unicamp), Michel Gherman (Ben Gurion/ NIEJ-UFRJ)  e Omar Ribeiro Thomaz (Unicamp)

Período

Os encontros serão quinzenais, sempre na segunda-feira, das 10h às 12h. As atividades terão início no dia 21/09/2020

Dinâmica

O curso é aberto a estudantes do PPGAS/Unicamp e de outras universidades. Para estudantes externos é necessário enviar uma carta de apresentação para o email [email protected] até o dia 16/09

Em cada encontro discutiremos textos selecionados e/ou debateremos com convidados especialistas no tema. As aulas serão majoritariamente em português e ocasionalmente em inglês, dependendo da presença de convidados estrangeiros. 

Proposta

O debate sobre a construção da imagem do judeu na modernidade europeia não é um tema novo. Desde as reflexões propostas por Hannah Arendt até os conceitos de Zygmunt Baumann, que propõe que o judeu funcione como uma espécie de prisma (que contém as cores que o lhe observador impõe) da cultura europeia, são muitos os autores que lidam com noções de um judeu imaginário na história no século XX. Estudos de Nelson Vieira e Bernardo Sorj também discutem a construção da imagem do judeu no contexto específico do Brasil. Entretanto, foi o filósofo Alain Finkielkraut, já em fins do século XX,  que desenvolveu propriamente o conceito de “Judeu Imaginário”.

A proposta de Finkielkraut tem como ponto de partida a percepção de que à direita e à esquerda “o judeu” ocupa um lugar central na identidade social e politica da Europa. Apropriando-se das reflexões de Benedict Anderson, o filósofo sugere que esse “judeu imaginário” está completamente divorciado da experiência histórica do judeu e que sua emergência está atrelada à consolidação de um modelo, seguido por diversos grupos, para demandar políticas específicas de reconhecimento. Finkielkraut também percebe o uso de Israel como espécie de continuação do judeu imaginário. Nesse caso, a “Israel Imaginária”, que tem pouca relação com o Estado de Israel, é o elemento síntetizador de disputas e interesses religiosos, sociais e políticos. 

No Brasil dos 2000, percebemos que a Israel imaginária também funciona como referência politica de diversos grupos que atuam no complexo contexto social do país. Grupos de direita e de esquerda servem-se, cada um a sua maneira, desta perspectiva para intervir em suas respectivas agendas.  Nossa proposta nesse curso é discutir justamente os processos de construção da Israel imaginária no contexto da Política contemporânea brasileira. Grupos diversos têm usado Israel, incorporando inclusive símbolos e marcas de Israel e dos judeus em suas manifestações. 

Neste curso exploraremos essa bibliografia mencionada e outros textos de historiadores, filósofos e cientistas sociais. Como material de apoio também mobilizaremos ensaios e textos publicados na imprensa brasileira. Abordar a Israel imaginária é o caminho a partir do qual exploraremos, a um só tempo, a política contemporânea brasileira e o uso político de Israel como um traço que conecta o Brasil a outras partes do mundo em que esse uso também ocorre. 

 

Formas de visualização da respiração e a pandemia do novo coronavírus

Formas de visualização da respiração e a pandemia do novo coronavírus

By admin in Novidades, Publicações on agosto 20, 2020

Por Giovanna Paccillo

A pandemia do novo coronavírus nos fez atentar para um movimento mais amplo que poderia ser descrito como uma preocupação cada vez maior à respiração. O fenômeno não é novo – a exemplo do projeto Life of Breath, da Universidade de Bristol (UK) que ao menos desde 2015 vem desenvolvendo pesquisas interdisciplinares sobre respiração. Esse movimento pode ser observado tanto empiricamente, no sentido da multiplicação de artigos, colunas e livros abordando a respiração, mas também teoricamente, uma vez que a respiração como metáfora para pensar política, sociedade e o mundo capitalista é algo que também vem sendo pautado. No entanto, vem me chamando a atenção o uso contínuo de imagens em vídeos do fluxo de deslocamento do ar quando pessoas desempenham atividades corriqueiras ou possíveis sintomas da COVID-19 – como a tosse e o espirro. 

Tal interesse é justificado porque, desde o início de 2019, comecei a prestar mais atenção na respiração no contexto da minha própria pesquisa com ansiedade e Transtorno de Pânico. Na mesma época, conheci o Life of Breath e fiquei encantada com as obras de arte de Jayne Wilton. A artista, que havia estampado ao longo de 2016 as capas do periódico científico The Lancet Respiratory Medicine , fazia de seu principal objetivo tornar a respiração visível (fig 1).

Fig 1: Essa obra compõe a exposição Breathe, na qual a respiração de uma série de indivíduos foi capturada em uma superfície de cobre brilhante e, em seguida, gravada para criar um negativo onde a respiração se assentou na placa de cobre.

Suas obras se utilizam dos mais variados materiais e técnicas para capturar tanto o ar exalado quanto o ar inalado. Ao pensar a partir das obras de Jayne Wilton, o projeto Life of Breath começou a refletir sobre os usos de suas técnicas para além da “apreciação estética” (MacNaughton; Carel, 2016, p.306), incorporando-a na prática clínica através da invenção de um novo dispositivo que pretendia auxiliar no tratamento de pacientes com dificuldades respiratórias. Tratava-se de uma mistura de técnicas utilizadas pela artista, e de técnicas de visualização que já faziam parte de um cotidiano científico, agrupadas sob o nome shadowgraph. A ideia é relativamente simples: a pessoa que terá sua respiração observada se posiciona em frente a um espelho côncavo e uma fonte de luz é apontada para o indivíduo e para o espelho. As imagens são obtidas quando a luz refletida do espelho é refratada em diferentes graus à medida que passa do calor da boca para o ar mais frio ao redor, “a imagem resultante se parece com a superfície da lua, ondulando em padrões particulares” (Ibid, p.306 tradução minha).

A adaptação desse dispositivo para o ambiente clínico visava responder a um desejo compartilhado por pesquisadores, médicos e pacientes, de tornar visível e entender a forma que a respiração adquiria pelo ar. Segundo afirmam Carel e MacNaughton, comentários sobre como temperatura, textura e peso do ar afetam a respiração são comuns em pacientes que sentem alguma dificuldade de respirar. Ao torná-la visível na clínica, espera-se que os pacientes entendam e articulem a relação que tem com a respiração de forma mais simples aos médicos. Além disso, promoveria um novo método não invasivo de medição da respiração, no qual poderia se identificar padrões de nuvens em comum entre diferentes condições respiratórias. Apesar de já existir uma tecnologia parecida ao menos desde 1970 (Tang et. al. 2012), seu uso clínico é um indicativo de que esse tipo de imagem poderia ir além. No escopo de interesse do projeto Life of Breath, a imagem poderia servir para diagnósticos individuais e para um processo de entendimento de uma condição pelo paciente em questão.

Figura 2: Shadowgraph. Fonte: artigo de Tang. et. al

Tang et. al. (2012), ao discorrerem sobre o dispositivo científico do shadowgraph afirmam que, ao menos desde os surtos de síndrome respiratória aguda (SARS) em 2003, têm havido um grande interesse no desenvolvimento de métodos para avaliar os riscos de transmissão por aerossol (ou pelo ar) de agentes infecciosos presentes em humanos, como vários outros subtipos de vírus influenza A. No entanto, esses estudos se centraram principalmente em amostragens de ar em ambientes específicos, como dentro de hospitais e outros espaços relacionados ao campo da saúde. Os autores chamaram atenção, portanto, para a importância de examinar a dinâmica dos fluxos de ar em “atividades respiratórias humanas naturais, como respirar, falar, rir, tossir e espirrar, o que proveriam as maiores forças motrizes para expulsão de gotículas de saliva ou muco em aerossóis gerados por humanos”, que podem “transportar uma variedade de agentes infecciosos transmissíveis por vias aéreas” (Ibid, p.2)

A vantagem desse tipo de técnica é não usar nenhum tipo de material irritante ou tóxico, e tampouco uma iluminação muito intensa, como é o caso dos lasers. Seria necessário apenas um espelho côncavo esférico de alta precisão com uma fonte de luz branca (LED). Desse modo, é possível usar voluntários capazes de performar várias atividades respiratórias em frente a um espelho para permitir que padrões realistas de fluxo de ar possam ser visualizados e gravados por um especialista para análise posterior (fig 2). No estudo de Tang. et. al. foram medidos os fluxos de ar de pacientes saudáveis ao tossir normalmente e ao tossir em seus cotovelos, como era recomendado pelo US Centers for Disease Control and Prevention (CDC), da cidade de Atlanta, nos Estados Unidos. Essas imagens não são simplesmente gravadas, sendo posteriormente medidas, tabeladas, transformadas em gráficos e analisadas. A captura da imagem é somente o primeiro passo de uma extensa cadeia de relações que conformam o experimento em questão.

Por que, então, em meio a uma pandemia, essa imagem, que provavelmente compõe uma cadeia meticulosa de relações num contexto de pesquisas científicas que poderão ou não servir a políticas públicas é transmitida em canais de televisão ou em vídeos no youtube em sua “imagem bruta”? A resposta a essa questão parece simples, no sentido de que a mediação entre um observador e uma imagem é menor do que entre um observador e um gráfico que resulta dessa imagem, ou seja, um gráfico muito provavelmente, vai requerer a mediação de um especialista, ou de um material de apoio. O que me parece curioso é como ocorre a transformação dessa imagem científica que se destina a um tipo de público específico, em uma imagem pedagógica que advoga pelo uso das máscaras só que para um público leigo.

Fig. 3: Reprodução de tela do vídeo da vox. Fonte:
https://www.youtube.com/watch?v=gElHX1AIIOY

Um exemplo é o caso da Vox, um canal no youtube de grande alcance e que faz vídeos informativos a respeito dos mais diversos assuntos. Durante a pandemia de COVID-19 ela publicou vídeos sobre o surgimento do vírus, sobre controvérsias em torno de seu tratamento e também sobre a eficácia das máscaras. O vídeo chamado What face mask actually do against coronavírus, publicado em 22 de abril de 2020 assume um tom característico do canal, que se coloca como um mediador entre o que diz a ciência e um público leigo. Logo no início do vídeo, imagens capturadas de um shadowgraph mostravam o fluxo de ar que se deslocava quando a pessoa respirava, tossia, tossia na mão, tossia nos cotovelos, usava uma máscara de poeira, e quando usava uma máscara cirúrgica (fig 3). O vídeo da Vox não é o único a utilizar essa técnica de visualização durante a pandemia. Há outros casos interessantes como o chamado Quão bem funcionam as máscaras  e o Shadowgraph Imaging of Human Exhaled Airflows: An Aid to Aerosol Infection Control, publicado no dia 15 de março de 2020. Esse último mostrava o deslocamento do fluxo de ar em uma respiração normal, em uma respiração pela boca, ao assoviar, ao rir, ao tossir, ao tossir com uma máscara cirúrgica, ao tossir usando uma N95. Em certo momento do vídeo, uma segunda pessoa é colocada, e o deslocamento de ar passa a ser mostrado em relação a dinâmica de conversa das duas pessoas. 

Esses vídeos tinham como objetivo mostrar como as máscaras interrompem o fluxo de ar provocado pelo nosso corpo ao respirar, andar, tossir, e conversar no nosso cotidiano. A grande característica deles é fornecer uma comparação visual de um movimento sem e com uma máscara, além da comparação entre os diferentes tipos de máscaras. Essas imagens fazem algo de diferente em relação ao que muitas vezes é dito sobre as informações que nos chegam através do noticiário, na qual os especialistas são levados a esses espaços e o convencimento é feito através da figura autoritativa do cientista. Não seria apenas mais um caso clássico de “fé na ciência”, mas naquilo em que nós vemos a partir dos nossos próprios olhos.

Em artigo recente, o antropólogo Jeremy Stolow desenvolve sua noção de corpo pandêmico. Parte de seu argumento é mostrar como nossa percepção das fronteiras corporais (de onde nosso corpo começa e termina) estão sendo constantemente feitas em relação a um cálculo de risco e ameaça. Isso pode ser visto, para o autor, na multiplicação de representações visuais que demonstram o risco que um corpo corre quando colocado em determinada distância de outro. De certa forma, essas imagens da respiração materializam o que falam Juliana Boldrin e Jeremy Stolow, quando apontam para a porosidade de nossos corpos. O que nossos olhos veem ao assistir atentamente aos vídeos é uma nuvem que deixa nossa boca e nos envolve, ondulando e reverberando até tocar outras “superfícies”. Se olharmos para os comentários do vídeo teremos: “Se eu não estava paranoico antes, estou agora!”, “nós deveríamos todos estar usando máscaras”, ou “a distância segura deveria ser maior do que 2 metros”. A persuasão decorrente das imagens não provém somente do experimento visual, mas de sua montagem em sequência e em comparação, e do sentimento de medo e responsabilização que ele parece inculcar na audiência. 

A sequência de imagens ao mostrar como esse fluxo pode ser contido através das máscaras, parece tornar razoável que nós nos responsabilizemos pela delimitação dessa fronteira. Nesse sentido, além de materializarem a dinâmica do vírus, os vídeos nos oferecem uma solução: eles ensinam como podemos nos manter condensados nesse limite. Apesar disso, se olharmos atentamente para as imagens, podemos perceber um fluxo de ar que escapa das pessoas mesmo com as máscaras, mesmo que pouco. Por mais que existam tentativas de delimitar muito bem o espaço e as fronteiras, como aponta o texto de Juliana Boldrin (2020), sempre existe um deslocamento capturado pela câmera que evidencia que todos os nossos movimentos deslocam, de certa forma, o ar que nos envolve, formando uma espécie de “aura” na imagem, e escancarando tragicamente a impossibilidade de controlar todos os fluxos e movimentos – para esse problema, outras medidas teriam de ser tomadas.

A mim parece interessante pensar como essas imagens produzidas da mesma forma adquirem status completamente diferentes, dependendo da cadeia de relações de que fazem parte. Se, num primeiro momento e com a adição de cores e enquadramentos distintos, ela é considerada uma obra de arte, num outro momento ela é um dispositivo clínico de autopercepção e uma ferramenta diagnóstica. Essas imagens que se transformam nos fazem pensar ainda sobre a porosidade dos nossos próprios campos de conhecimento, nos entrecruzamentos entre arte e ciência, ciência e comunicação, alargando ainda mais as possibilidades que a metáfora da respiração nos traz.

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Imagem destacada: MoMa Studio: Breathe With Me da Lygia Clark

Referência Bibliográficas

MACNAUGHTON, Jane; CAREL, Havi. Breathing and Breathlessness in clinic and culture: using critical medical humanities to bridge an epistemic gap. In: WHITEHEAD A, WOODS A, ATKINSON, S, et al. (Eds.). The Edinburgh Companion to the Critical Medical Humanities. Edinburgh University Press, 2016.

TANG et al. Airflow Dynamics of Coughing in Healthy Human Volunteers by Shadowgraph Imaging: An Aid to Aerosol Infection Control. In: LoS ONE 7(4): e34818. doi:10.1371/journal.pone.0034818, 2012.

 

Respiração e Máscaras: o que as fronteiras corporais fazem ver

Respiração e Máscaras: o que as fronteiras corporais fazem ver

By admin in Novidades, Publicações on agosto 18, 2020

Por Juliana Boldrin

Em 2018, eu fazia pesquisa de campo em um hospital de tratamento para tuberculose no interior do estado de São Paulo. Certa vez, uma tempestade se armava no céu, pintando toda a atmosfera do dia de cinza. Saí correndo por toda a extensão externa do hospital para tentar chegar ao ponto de ônibus antes da chuva que, contra minhas expectativas, já começava a cair forte. Mesmo correndo, uma cena me capturou no caminho. Em determinado ponto vi uma paciente com quem havia conversado boas vezes, e um moço, que no dia anterior falava sobre seu desespero de claustrofobia em relação a sua transferência para uma ala que foi reativada no hospital, o isolamento. Naquele momento, os dois pacientes estavam embaixo de um toldo, tentando não tomarem chuva, e muito próximos e sorrindo, estavam em vias de se beijarem quando passei. Eu presenciara ao longo dos dias anteriores o flerte entre eles e via crescer a intimidade entre os dois. Sabia da importância daquela relação em um contexto de hospitalização de longa duração que tornava a passagem dos dias dentro da instituição penosa.  

O moço foi transferido para o isolamento porque estava positivo, ou seja, em uma fase do tratamento na qual ainda poderia contagiar outras pessoas com a tuberculose. À sua vez, Solange estava negativa, o que em termos biomédicos quer dizer que não estava mais transmitindo a doença, ainda que seu tratamento não tivesse terminado, sendo que essas duas classificações – positivo e negativo -,  atendem às especificidades dessa doença, ao seu tratamento e modo de transmissão. O isolamento era um novo tipo de espaço na instituição, criado pela necessidade de determinadas engenharias de gestão do ar para diminuir as possibilidades de contágio tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde. Além disso, eu também sabia que a paciente estava para ter alta médica em breve. O beijo podia ser como um respiro no meio do dia naquele contexto de enclausuramento, mas ao mesmo tempo era a possibilidade da paciente regredir em todo seu tratamento. Daí um desconforto, mesmo com toda a apreciação daquele afeto.

A partir dessa memória passei a evocar, à luz da cena etnográfica descrita, Os Amantes, quadro de René Magritte datado de 1928. Com vistas àquele contexto, o quadro materializa um contato que misturava perigo e amor. Na pintura, um casal em cores fortes se beija, mas há a bonita e estranha presença de panos acinzentados que envolvem suas cabeças. Não há rostos na imagem, apenas seus contornos. A minha estranheza em relação aos panos era porque destoavam da  intimidade de um beijo, para o qual se pressupõe contato direto entre as superfícies corporais, toques, mistura entre respirações e salivas. A presença dos panos iluminava a razão do meu desconforto diante do quase beijo que vi naquele dia de chuva no hospital, já que eles faziam as vezes da demarcação de limites dos corpos que embairreirariam as trocas de substâncias e misturas de vazamentos corporais.  O perigo e o desconforto que senti passando pelos dois pacientes estava em relacionar aquela proximidade com a potencial presença invisível das bactérias que causam a tuberculose no ar que inspiravam e expiravam, e que os envolvia na troca de substâncias corporais. Este entrelaçamento entre amor e perigo com a possibilidade de contágio me provoca a pensar a respeito da criação de fronteiras corporais, especialmente a que diz respeito aos rostos, a das máscaras.

Capa da edição da Vogue Portugal. Abril de 2020

Diante de imagens de casais se beijando com máscaras neste período de pandemia da covid-19, como foi o caso da capa da edição da Vogue Portugal de abril de 2020, o novo contexto sócio-político possibilita reencontrar tanto a cena etnográfica quanto o quadro. Esse reencontro é possível na medida que as duas imagens mobilizadas sinalizam para um movimento que foi amplificado pelo novo coronavírus. Trata-se da criação de espaços bem delimitados como forma de se lidar com agentes invisíveis patogênicos tais como os vírus e as bactérias. Em escala global, esse movimento é mais notadamente visível, por exemplo, em relação às fronteiras nacionais: os fluxos de pessoas entre os países passaram a ser controlados sob novos critérios e o coronavírus, dentre outras coisas, conjugou-se com políticas de imigração que são racistas. A casa e a rua também demonstram o ponto. É preciso higienizar tudo que possa ser um rastro da rua no corpo ou nos objetos antes de atravessar o limiar da porta, a qual passou a marcar uma série de processos de higienização e de gestões daquilo que o corpo teve contato na rua. A criação desses espaços bem delimitados busca conter a expansividade do que Jeremy Stolow (2020) chamou de “corpo pandêmico”, noção que contempla a coabitação de seres vivos no que é entendido como corpo humano, mas também o microambiente dentro do qual cada corpo está: “Onde quer que se queira traçar a linha que delimita um território chamado ‘indivíduo humano’, parece que não podemos desenredar esse corpo da névoa circundante de atividade microscópica” (STOLOW, 2020, n.p). É  para um nível corporal específico dessa criação de espaços bem delimitados, cujo intuito é criar proteção contra os perigos dessa névoa circundante, que procuro chamar atenção: o nível da barreira criada no rosto a partir dos usos das máscaras, as quais se tornaram um artefato cotidiano que compõem com nossas respirações e com um novo tipo de visualidade dos rostos. 

Através das duas imagens – a da cena etnográfica e a do quadro de Magritte –, que, a partir de um ato de intimidade que remete ao amor, tensionam o corpo como uma totalidade bem delimitada e acabada nas superfícies da pele, gostaria de sugerir um olhar imaginativo para as máscaras, focalizando no aspecto respiratório desde seu mecanismo de funcionamento. As imagens, em associação, ao possibilitarem relacionar intimidade e perigo de contágio, oferecem uma perspectiva interessante para pensar sobre as novas contenções corporais. 

A antropóloga Isabel Franke (2019) debruçou-se sobre a invenção das máscaras de gás usadas em contextos de guerra. Para tanto, tomou como pressuposto que a máscara possui dois lados: “o do forro – a perspectiva de quem a veste, e o de fora -, aquilo que um observador vê diante dela” (FRANKE, 2019, p. 66).  No entanto, o mecanismo de funcionamento de filtragem das máscaras abarca, a um só tempo, as duas perspectivas.  A barreira no rosto cria contenção corporal e nesta mesma medida forja as perspectivas de interior e exterior, de entrada e saída dos ares do corpo. Isto na medida que a máscara abarca o movimento duplo da respiração, a inspiração e a expiração. Então, acoplando-se aos pulmões com toda sua elasticidade de expansão e contração, as máscaras filtram o ar  inspirado para oxigenar os corpos e também diminuem o alcance do que é expelido nessa “névoa circundante”. Atentando para a conjugação do aparato com o movimento respiratório é possível compreendê-lo como um “trickster codificador com o qual devemos aprender” (HARAWAY, 1995, p. 41) quando,  concomitantemente, promove o cuidado de si e do outro. A relação entre respiração e máscara traz à tona um cuidado que, ao ser autocuidado, o é também em relação a um senso societário.

Nesse mundo de constantes invisibilidades – do vírus, do ar, das presenças de corpo no ar, da respiração, do que vaza -,  a delimitação específica promovida pela máscara e como ela se acopla com a respiração, lembra que estamos conectados com a produção de mundos. Se o coronavírus tem sido um intensificador de desigualdades econômicas em várias escalas e também sociais de raça, gênero e classe – inclusive e justamente em torno do cuidado e do espaço doméstico -, o mecanismo de funcionamento das máscaras junto à respiração, e as possibilidades que abre para refletir sobre o cuidado tornam visível que as fronteiras, em diversas escalas, estão sendo mais que reformuladas, estão sendo criadas. 

Os beijos, da cena etnográfica e da pintura, colocam em questão mais que contato entre superfícies corporais, mas corpos que se misturam: as respirações se confundem, assim como as substâncias das bocas. Assim, os beijos fazem ver a própria respiração sob uma perspectiva na qual a inspiração e a expiração podem ser compreendidas como uma  mistura com o ar, este não como um agente externo que ocupa um espaço amorfo e vazio, mas  também como uma espécie de corpo em relação com entes viventes que se engaja com os nossos pulmões, flui pelo corpo e se mistura novamente, saindo de forma transformada para compor com o mundo.  Nesse sentido, a respiração é um ponto de conexão que atravessa o corpo individual e político atingido pelo coronavírus e que relacionada com o aspecto duplo de funcionamento das máscaras faz ver que estamos em relações de interdependência, enquanto corpo político, muito mais intensas do que imaginávamos. O acoplamento das respirações com as máscaras e o tipo de cuidado que emerge disso torna visível que as várias formas do neoliberalismo, em termos de constituição de sujeitos e de noções de individualidade e governança,  fazem morrer. 

Os beijos trazem à tona um limiar. Eles tornaram-se despidos de inocência, ao mesmo tempo que o amor, como o cuidado, parece sujeito à recriação nos termos de uma política feminista que, nas palavras de bell hooks “o amor combina com cuidado, responsabilidade, comprometimento e conhecimento” de modo que assim “entenderemos que não pode haver amor sem justiça” (hooks, 2020, p.150). 

***

Juliana Boldrin é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Unicamp. Seu atual tema de pesquisa são as produções de imagens e visualidades do pulmão em práticas científicas. 

Imagem destacada: Os Amantes. René Magritte (1928)

Referências Bibliográficas

FRANKE, Isabel. A fotografia e a máscara: uma antropologia da imagem. Dissertação de Mestrado – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2019.

HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da  perspectiva parcial. cadernos pagu (5) 1995: pp. 07-41.

HOOKS, Bell. Amar Novamente: o coraçao do feminismo in: O Feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Editora Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 2020.

STOLOW, Jeremy. Algumas notas sobre a visualização do corpo pandêmico, 2020. Disponível em:<https://nues.com.br/algumas-notas-sobre-a-visualizacao-do-corpo-pandemico/ >. Último acesso: 30/ 07/ 2020. 

 

Espiritualidade e Ambientalismo

Espiritualidade e Ambientalismo

By admin in Novidades on junho 18, 2020

No dia 16 de maio de 2020, Isabel Carvalho, professora da UNIFESP e pesquisadora do NUES, participou dos Diálogos Pré Simpósio de Educação Ambiental e Transição para as Sociedades Sustentáveis. A palestra foi sobre Espiritualidade e Ambientalismo, organizada pelo Laboratório de Educação e Política Ambiental, Oca (ESALQ/USP) e mediada pela doutoranda Rachel Trovarelli.
Em sua fala, a pesquisadora abordou o conceito de Espiritualidade dentro dos estudos das Ciências Sociais da Religião. Situou a noção de Espiritualidade no contexto de secularização na modernidade, caracterizando a espiritualidade como a expressão de uma religiosidade laica, que se distancia das religiões institucionais e se aproxima do Movimento “Nova Era”. Destacou como “Mística Ecológica” o deslocamento das religiões da transcendência, que entendem o sagrado como uma dimensão fora deste mundo, para um “Sagrado Ecológico” que percebe o sagrado como uma dimensão imanente, isto é, presente neste mundo, e particularmente associada aos poderes restauradores e curativos da natureza. Por fim, identificou os principais marcadores desta perspectiva de espiritualidade nas práticas ambientalistas.

Disponibilizamos o vídeo desta fala fazendo click aqui, para quem tiver interesse no assunto

 

Tarô e pandemia

Tarô e pandemia

By admin in Novidades on junho 4, 2020

Texto original de Mariana Ábalos Irazábal para DIVERSA

Tradução: Florencia Chapini

Tarô como ferramenta de bem-estar em tempos de Facebook e coronavírus

Nos tempos atuais, devido ao avanço da pandemia de coronavírus (COVID-19), uma extensa gama de reações está se tornando visível por amplos setores da população que recorrem a diferentes práticas espirituais em resposta ao problema. Essas práticas são abordadas como ferramentas válidas para a busca do bem-estar pessoal em um contexto de crescente crise social. Nesta ocasião, quero compartilhar uma experiência recente que tive a esse respeito.

Mobilizada pela curiosidade, há alguns dias entrei para um grupo no Facebook chamado “Unidos pelo tarô”. Foi criado há três anos, possui mais de 3.500 participantes de diferentes países de língua espanhola e uma dinâmica de cerca de 600 novas publicações mensais continuamente atualizadas através dos comentários dos diferentes membros. Ao contrário de outros grupos de tarô nos quais a interação é gerada principalmente com base na demanda-oferta de leituras de cartões, “Unidos pelo tarô” é apresentado como um grupo de estudo e troca coletiva de conhecimentos, e é por isso que despertou meu interesse.

Em 17 de março, solicitei minha aceitação (é um “grupo privado”) para entrar e foi aprovado em alguns minutos, o que eu percebi como um sinal de que o administrador moderava regularmente o grupo. Mais tarde, essa ideia foi confirmada, vendo diferentes publicações de benvinda aos novos membros quase diariamente. Assim que entrei, fiz uma revisão geral e fiquei surpresa com o número de publicações feitas no mês de março sobre o problema do coronavírus. O número total compreende mais de 10 publicações, que por sua vez têm muitas respostas. Vi posts com menos de 5 comentários, assim também algumas de mais de 100, e eles ainda continuam gerando retornos e engajamento, então o número continua a crescer diariamente. Levando em consideração o conjunto de publicações e comentários, é apresentado um número total mais do que relevante de pessoas interagindo sobre o mesmo assunto, entendido como um problema global.

Analisando os posts dos usuários, identifiquei que a maioria eram de leituras sobre quais são as características da pandemia e sobre quanto tempo a situação de rápida disseminação do vírus se espalhará e as estratégias atuais de isolamento social para mitigá-lo. A lógica mais comum da interação no grupo é que uma pessoa publique fotos de sua tiragem, juntamente com sua interpretação. Abaixo, o restante dos usuários comenta suas opiniões a esse respeito, se eles diferem ou concordam com a leitura ou até respondem com fotos de suas próprias jogadas de tarô na mesma pergunta / tópico. Os baralhos de tarô consistem em 78 cartas divididas em dois grandes grupos – arcanos maior e menor -, portanto, o leque de combinações possíveis de cartas que podem surgir em uma leitura é grande. Além disso, os esquemas usados ​​para baixar as letras ou os métodos de leitura são heterogêneos, com dezenas de formatos. Mesmo assim, poderia haver uma maneira de ler as cartas para cada leitor de tarô, pois eles sustentam que é possível gerar um vínculo único e inigualável entre a pessoa e suas cartas, portanto cada um possa inventar sua própria estrutura de leitura de acordo com seu conforto ou conexão sincera. Adicionado a tudo isso é o fato de que, embora os 78 arcanos sejam geralmente os mesmos, os designs de cartões em termos de cores e figuras são muito diversos entre os baralhos. Este não é um elemento menor, uma vez que algum recurso destacado em um baralho (por exemplo, para onde o olhar do personagem representada é direcionado) não é tão importante em outro, e esses são detalhes que, ao ler, são cuidadosamente observados pelos tarotistas para sua análise.

O que mais chamou minha atenção foi que, apesar do panorama heterogêneo e dinâmico descrito no parágrafo anterior, ao analisar as postagens dos usuários, encontrei mais coincidências do que discordâncias entre si. Quando confrontados com perguntas como “Qual é a situação atual em que estamos vivendo?”, “Quanto tempo durará a pandemia / quarentena”, “Será encontrada uma solução?” Ou apenas tiragens gerais focadas no coronavírus sem uma pergunta específica, a maioria das leituras coincidiam. Com o uso de diferentes baralhos, diferentes rotações e a presença de arcanos muito heterogêneos em cada ocasião, quase todos os intérpretes chegaram a conclusões comuns. Elas envolveram principalmente a concepção do vírus como consequência das ações humanas e seu modo de vida, com base na exploração excessiva do meio ambiente. Por outro lado, também apontaram a qualidade do rápido nível de disseminação que ele apresenta e a dificuldade de sua resolução, pois é um vírus novo. Finalmente, eles concordaram que a cura seria realmente encontrada e o fenômeno não duraria “por muito tempo” – um período de dois ou três meses a mais – até que seja efetivamente controlado pelos países. Há também quem interpretou as leituras de maneira diferente, dizendo que isso será resolvido apenas em 2021 ou, inclusive, alguns leram nas cartas que a vacina já existe e não está sendo usada devido à manipulação comercial entre países. No entanto, esses foram os casos minoritários quantitativamente e não tiveram grande repercussão ou apoio dentro do grupo.

Neste ponto, quero me aprofundar um pouco mais na análise das leituras sobre a duração do “tempo” do coronavírus. Embora houvesse alguns aventureiros que ousaram ditar os meses em que a pandemia chegaria ao fim – e dentro deles, a maioria concordou que será durante o período de abril a junho – eles eram realmente poucos em comparação com o número de total de postagens sobre o coronavírus. Mais pessoas comentaram se uma vacina apareceria ou não, mas sem calcular “quando”. Ao mesmo tempo, muitos mais se limitaram a dar uma característica geral da situação e convidar a refletir sobre ela e a responsabilidade que o ser humano tem, tanto em sua origem quanto em sua resolução. Isso me enviou diretamente para identificar o evento como um exemplo claro do processo de psicologização que o tarô está passando e, além disso, para explicar o novo uso que está sendo feito dele, de acordo com certos aspectos da espiritualidade da New Age. Historicamente, o tarô era valorizado principalmente como uma ferramenta de adivinhação. Nos últimos tempos, essa situação foi gradualmente modificada. Hoje, a prática do tarô como uma ferramenta holística, espiritual e terapêutica – chamada “tarô terapêutico” – é muito mais difundida do que seu uso como uma ferramenta para “clarividência / adivinhação”. Por sua vez, existem outros elementos presentes na prática terapêutica do tarô que podem ser analisados ​​como vinculados ao movimento de espiritualidade da New Age. Por exemplo, o fato mencionado acima de que não é estabelecida uma maneira “única” ou “oficial” de jogar e interpretar cartas, mas que a autonomia de cada pessoa é respeitada, pois é sua “intuição” que os guiará a faça uma leitura correta. Também a concepção do uso terapêutico do tarô como um processo de aprendizagem que será alcançado gradualmente, cada tarotista no seu tempo, a partir do seu desenvolvimento e crescimento espiritual. Finalmente, a noção de que a pessoa e suas cartas estão conectadas entre si e, ao mesmo tempo, ligadas ao “tudo” ao redor, o cosmos, a natureza. Portanto, o tarô ressignificado como uma ferramenta terapêutica – e não mais principalmente como um método de adivinhação – implica entender que, através de uma leitura de cartas, o jogador de tarô mobiliza energias que podem afetar seu ambiente geral em diferentes graus, já que o ser humano está em constante comunhão com o “tudo”.

Apesar das diferentes interpretações, o nível de detalhe proposto e das reuniões / divergências de opinião entre os participantes, identifiquei que havia uma constante em todas as postagens. Essa constante tinha a ver com o apelo à auto-reflexão, conscientizar sobre o impacto das ações humanas e valorizar os entes queridos e as coisas que, devido ao ritmo de vida que se tem, geralmente permanecem em segundo plano (este último incentivado como resultado do isolamento obrigatório como medida preventiva). Apesar dos fios das postagens e comentários começarem com a foto de uma tiragem em busca de informações específicas sobre o coronavírus, sobre como o processo se desenvolverá ou o possível tempo de conclusão, eles acabaram sendo espaços de reflexão coletiva entre os participantes do grupo. Havia também uma expressão aberta de emoções, idéias e desejos sobre o assunto e, ligada a isso, a vida em geral. O resultado visível do discurso expresso em cada comentário é o de um sentimento de bem-estar geral entre os participantes, de apoio mútuo, de contenção coletiva. Essa expressão de uma sensação de bem-estar e positividade ocorreu mesmo quando as postagens leem a pandemia como algo que ainda gerará muitas mortes e conflitos, com os próprios participantes guiando a publicação para um fechamento positivo que criaria um ambiente de conforto e crescimento através da reflexão.

Considero que é um caso muito interessante para explicar a existência de processos contínuos de sacralização da vida cotidiana que, em tempos de crise social como a vivenciada pelo coronavírus, tendem a aumentar e adquirir novas formas. Numa época em que até a confiança depositada – por exemplo – nos governantes se torna um tanto frágil para a população, as diferentes práticas espirituais têm centralidade e legitimidade no cotidiano dos atores, como forma legítima de buscar seu bem-estar pessoal. Ao mesmo tempo, é um caso que serve para visualizar muito claramente os processos de hibridação contemporâneos que estão ocorrendo entre diferentes práticas espirituais e psicoterapias. Nesse caso, os comentários dos participantes do grupo promoveram continuamente a introspecção, compartilhando sentimentos, pensamentos. Tudo isso como uma estratégia reflexiva para o crescimento, baseada no autoconhecimento e na auto-reflexão, um caminho que levaria à melhoria pessoal e ao bem-estar acima mencionado, que por sua vez impactaria positivamente em aqueles que rodeiam a pessoa. Por fim, para os usuários desse grupo, neste momento de forte isolamento social em que a maioria das interações sociais ocorre por meio de redes sócio-digitais, o tarô se torna um grande aliado / amigo com o qual interagir pessoalmente e onde encontrar um pouco de “calma” e contenda no meio do “caos”.

Mariana Abalos Irazábal é Licenciada em Sociología pela Universidad de San Martín(UNSAM / Conicet). Sua tesina foi sobre a construção de identificações pessoais, sociais e colectivas em templos afroumbandistas.

Políticas de espiritualidad: una agenda de investigación/ Políticas de espiritualidade: uma agenda de pesquisa

Políticas de espiritualidad: una agenda de investigación/ Políticas de espiritualidade: uma agenda de pesquisa

By admin in Novidades on junho 2, 2020

El día 22 de mayo, el profesor y coordinador del proyecto “Espiritualidad institucionalizada” Dr. Rodrigo Toniol, realizó la conferencia “Políticas de espiritualidad: una agenda de investigación” organizada por el Instituto de Sociedad y Religión (ISOR) de la Universidad Católica del Uruguay.

Gracias a la invitación del director del ISOR, Nestor Da Costa y con la mediación de Valentina Pereira,  Toniol explica la trayectoria realizada como investigador en el tema y presenta el proyecto que actualmente coordina con las diferentes líneas de investigación que lo componen. Dejamos el video a disposición para quienes tienen interés en el tema y aprovechamos para difundir el proyecto en español.

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No día 22 de maio, o professor e cordenador do projeto ” Espiritualidade Institucionalizada” Dr. Rodrigo Toniol, fez a conferencia “Políticas de espiritualidade: uma agenda de pesquisa” organizada pelo Instituto de Sociedade e Religião (ISOR) da Universidade Católica do Uruguai.

A partir do convite do diretor do ISOR, Nestor Da Costa e com a mediação da Valentina Pereira, Toniol explica a trajetória realizada como pesquisador sobre o assunto e apresenta o projeto que atualmente coordena com as diferentes linhas de pesquisa que o compõem. Disponibilizamos o vídeo para quem tiver interesse no assunto e aproveitamos a oportunidade para divulgar o projeto em espanhol.

 

Seminário Virtual: Reações Religiosas à COVID-19 na América Latina/ Reacciones Religiosas al COVID-19 en América Latina

Seminário Virtual: Reações Religiosas à COVID-19 na América Latina/ Reacciones Religiosas al COVID-19 en América Latina

By admin in Novidades on junho 1, 2020

Convidamos a todos e todas para o seminário: Reações religiosas à COVID-19 na América Latina. O Laboratório de Antropologia da Religião (LAR/UNICAMP) em parceria com a revista Ciências Sociais e Religião imaginaram este evento buscando refletir sobre três dimensões da pandemia:

a) a reinvenção das práticas religiosas decorrente da virtualidade, da mediação tecnológica e do isolamento corporal;

b) os sentidos e moralidades religiosos em torno do novo coronavírus;

c) as controvérsias públicas envolvendo religião e pandemia.

No site do Laboratório de Antropologia da Religião divulgaremos os/as participantes dentro de alguns dias, mas por hora, pedimos para todas as pessoas interessadas reservarem a data (30/06 a 02/07) para acompanhar o evento conosco!

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Invitamos a todos y todas al seminario: Reacciones religiosas a COVID-19 en América Latina. El Laboratorio de Antropología de la Religión (LAR / UNICAMP) en asociación con la revista Ciencias Sociales y Religión imaginó este evento buscando reflexionar sobre tres dimensiones de la pandemia:

a) la reinvención de las prácticas religiosas resultantes de la virtualidad, la mediación tecnológica y el aislamiento corporal;

b) los sentidos religiosos y la moralidad alrededor del nuevo coronavirus;

c) controversias públicas relacionadas con la religión y la pandemia.

¡En la página del Laboratorio de Antropología de la Religión anunciaremos a los/as participantes en unos días, pero por ahora, pedimos a todas las personas interesadas que reserven la fecha (30/06 al 02/07) para seguir el evento con nosotros/as!

A imagem do cartaz é de Gabriel Abrantes/ La imagen del póster es de Gabriel Abrantes.

Fôlego Global

Fôlego Global

By admin in Novidades on maio 28, 2020

Texto original de Peter van der Veer para Religious Matters

Tradução de Cecilia Bastos e Thaís Assis

Há mais de dez anos, publiquei um artigo intitulado Global Breathing, que discute a história social das técnicas de respiração em práticas espirituais na Índia e na China – tais como Yoga e Qi Gong. As tradições hindu, taoísta e budista entendem o controle sobre a respiração não apenas como essencial para a vida, mas também para o crescimento espiritual. Tal ideia é compartilhada inclusive por algumas tradições cristãs e islâmicas. O artigo explorou a nacionalização e a globalização dessas técnicas que encontraram audiência muito além da Índia e da China. No momento atual, testemunhamos a globalização de um vírus que ataca nossa habilidade de respirar e nenhuma técnica espiritual está disponível para manter o controle sobre a respiração. É preciso confiar em dispositivos mecânicos para assumir nossa respiração enquanto lutamos contra o vírus.

No auge da crise do Corona: um passo além das máscaras

 

O coronavírus é um ataque ao corpo, tanto o corpo individual quanto o político. Na mídia, a atenção se volta para este último. Nenhum governo do mundo estava preparado para este ataque; pelo contrário, muitos governos locais e nacionais tentaram restringir a circulação de informações sobre o vírus ao invés de, com antecedência, controlar sua disseminação. O principal acusado é evidentemente o governo chinês que revelou ter obtido pouca experiência na epidemia de SARS. Outros governos, notavelmente aqueles dos Estados Unidos, Irã e Brasil, demonstraram ausência de uma administração responsável a seus modos. Ao mesmo tempo, cada um culpa todos os outros pelo despreparo. No imaginário dos cidadãos, a expectativa era que os governos estivessem preparados para enfrentar algo que ameaça a humanidade há gerações. O fracasso foi espantoso, mas ironicamente, obteve altas taxas de aprovação pela gestão de crise. A relação entre ciência e política é um dos aspectos mais importantes desse equívoco. Basta ler a descrição feita por Richard Evans sobre o gerenciamento do surto de cólera em Hamburgo, na segunda metade do século XIX, para se dar conta de que pouco mudou a esse respeito.

Outro aspecto pode ser designado como cultural. Um vírus originário da e propagado pela China parece ter sido considerado como um vírus chinês e um problema exclusivo do país. Por algum motivo, na Holanda e no Reino Unido a difusão da ideia de um vírus chinês esteve ainda vinculada aos efeitos do desenvolvimento da conexão 5G. Terroristas atearam fogo em inúmeras torres de telefonia celular para coibir a disseminação do vírus. É difícil não imaginar se as respostas políticas e científicas teriam sido tão lentas quanto foram caso o vírus tivesse se manifestado inicialmente na Alemanha ou nos Estados Unidos. Apesar das décadas de globalização nas quais o papel da China foi central, o país continua a ser visto com tanto distanciamento que considera-se que as coisas que acontecem por lá não afetam o Ocidente. Em uma escala menor, nota-se algo correlato na reação imediata dada por Singapura – cuja maioria dos cidadãos possui origem chinesa – ao surto na China, acentuada pela negligência quanto aos trabalhadores migrantes do sul da Ásia, que são tratados como se não existissem.

Apesar dos discursos que afirmam a necessidade de demonstrar solidariedade em meio à crise, é evidente que as desigualdades sociais e diferenças raciais estão se tornando mais perceptíveis em escala global. Depois de um período inicial no qual os chineses e outros imigrantes asiáticos vivendo em países ocidentais foram submetidos a difamação por serem considerados portadores da doença, autoridades chinesas passaram a discriminar racialmente africanos que vivem no país. O crescimento da xenofobia contra os estrangeiros na China é vertiginoso. No sul da Ásia, milhões de pobres trabalhadores imigrantes estão condenados a sofrer com os lockdowns, enquanto as estatísticas revelam que, nos Estados Unidos, as populações com ascendência africana ou hispânica morrem em taxas desproporcionais.

A mídia acompanha esses acontecimentos políticos em detalhes e há muita discussão política nas redes sociais. Quero chamar atenção para algo que merece destaque: o corpo individual e a conceituação do corpo nas respostas culturais ao vírus. Passamos a tomar consciência da frequência com que tocamos o rosto e lavamos as mãos. A experiência urbana típica de estar “na cara” (ou diante) do outro também se transforma em um estar longe “da cara” (ou do alcance) do outro[1]. Essas disciplinas do corpo e das emoções que daí são produzidas merecem reflexão. O que mais me impressionou foram dois fenômenos enigmáticos. O primeiro é o uso de máscaras faciais. Enquanto as sociedades do Leste e Sudeste Asiático não demonstram nenhuma objeção a usá-las, as ocidentais apresentam grande resistência. Grande parte do debate nos países ocidentais se pauta por questões aparentemente racionais, como a eficácia das máscaras faciais, seu uso por crianças ou pessoas com deficiência ou sua disponibilidade. Por trás dessas discussões racionais está o incômodo em não mostrar o rosto, a expressão da individualidade. Existe um receio de produzir uma sociedade de massa sem rostos. Há também o medo de perder o controle do próprio corpo, principalmente quando os protocolos são decretados pelas autoridades. A máscara se torna um sinal de obediência coletiva à autoridade externa. Tais sentimentos coletivos já haviam se revelado na oposição patente ao uso do véu muçulmano e a outras formas de recato islâmicas. Mostrar o rosto parece ser um requisito imprescindível para participar de sociedades ocidentais.

 “Use uma máscara”: um pôster do Ministério da Cultura e Política de Informação da Ucrânia

Tais sentimentos não são compartilhados na Ásia oriental. O Japão é, sob muitos aspectos, a principal potência condutora da modernidade asiática. A máscara facial foi amplamente aceita após a gripe espanhola (de fato americana) e, em geral, os japoneses são muito metódicos em sua higiene. Lavar as mãos regularmente e usar luvas são práticas comuns, que fazem parte de um senso cívico de consideração quanto ao outro. Os chineses, por outro lado, não são famosos por seu estilo de vida higiênico. Até recentemente, era bastante comum encontrar vendedores de rua idosos. Após o SARS 1 e 2, os mercados “úmidos” tornaram-se conhecidos por serem terrenos férteis para vírus perigosos. Mesmo assim, as máscaras faciais se tornaram uma norma da vida pública, especialmente com a crescente conscientização dos altos níveis de poluição do ar na China. Isso também se aplica a grandes partes do sudeste asiático. Parece que a prudência ocidental em relação a perder as feições ao usar uma máscara não incomoda as sociedades que sempre foram retratadas em termos de ter ou perder o respeito[2].

A outra resposta corporal à ameaça viral que me impressionou foi a corrida de alemães e holandeses em busca de papel higiênico. Por que o papel higiênico é uma necessidade tão absoluta? Antropologicamente falando, o banheiro é o espaço liminar entre cultura e natureza. Enquanto alguém tiver papel higiênico, ele é digno e poderá enfrentar o vírus que é um lembrete persistente do fato de que fazemos parte da natureza. A vulnerabilidade natural do corpo no banheiro requer práticas que sustentem uma distância civilizada da natureza. Novamente, existem algumas diferenças significativas nas sociedades asiáticas, muitas delas preferem o uso da água e, novamente, os japoneses são os líderes da cultura moderna com seus sistemas sanitários espetaculares. Nos banheiros indianos, por outro lado, há um pequeno recipiente com água. A mão esquerda é usada no banheiro e a mão direita no contato com alimentos. Ao mesmo tempo, pessoas de castas elevadas quase nunca limpam seus banheiros, utilizando o trabalho de pessoas nascidas na casta dos intocáveis para fazer isso. Um aspecto importante da reforma social viabilizada por Gandhi foi promover a limpeza dos banheiros por quem o utiliza. Na China rural, o papel higiênico é raro, enquanto na China urbana os sistemas de esgoto geralmente não são capazes de processar papel higiênico. Somente em Hong Kong houve grande procura por papel higiênico, talvez para mostrar que Hong Kong faz parte da civilização ocidental.

Finalmente, a resposta corporal mais significativa ao ataque viral é a morte, o fim do corpo. Nesse aspecto, as sociedades asiáticas e ocidentais têm algo em comum. A morte é negada de maneiras variadas, é um tópico evitado, relegado a hospitais e necrotérios. Embora a morte ocorra constantemente, nunca antes houve estatísticas diárias de mortes. Na Holanda, é impressionante o quão secular é a resposta à inevitável mortalidade de pessoas. Há ansiedade, até mesmo medo, especialmente de morrer sozinho sem a presença de familiares e amigos, mas não se encontram respostas religiosas. A morte e o luto pelos mortos costumava ser uma área privilegiada de interesse religioso. Somente o trabalho de campo pode nos ajudar a descobrir como tem sido as respostas na Ásia, mas trabalho de campo é algo que não podemos fazer hoje em dia.

[1] Nota das tradutoras: no texto original, há a oposição entre “being in each other’s face” e “being out of each other’s face”, o que indica um contraste entre coisas que são visíveis ou que as pessoas fazem em público e coisas que encobrem essas expressões ou distanciam os indivíduos.

[2] Nota das tradutoras: no texto original, o autor fez um trocadilho ao escrever “having face” e “losing face”. Na cutura chinesa, a expressão “to lose face” indica a perda da reputação de alguém, no sentido de honra ou moral, por isso, consideramos a palavra respeito adequada para a tradução.

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Peter van der Veer é antropólogo. Diretor do Instituto Max Planck para o Estudo da Diversidade Religiosa e Étnica em Göttingen e professor emérito da Universidade de Utrecht. Seus trabalhos incluem estudos comparativos entre Índia e China.

Tradutoras: Cecilia Bastos é doutora em Ciências Sociais pelo PPCIS da UERJ e pesquisadora em Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ. Thaís Assis é doutoranda em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Possui experiência na área de Sociologia da Religião, privilegiando temas ligados a espiritualidades e terapias holísticas.

 

“E LA NAVE VÁ”: FELLINI, PANDEMIA E A VIDA NUA

“E LA NAVE VÁ”: FELLINI, PANDEMIA E A VIDA NUA

By admin in Novidades on maio 26, 2020

Texto de Isabel Carvalho

Resumo

Este artigo analisa alguns dos efeitos da pandemia do novo Corona Virus para as sociedades capitalistas, tanto do ponto de vista das suas consequências para vida coletiva quanto para a experiências das pessoas. Toma como analogia o último filme de Fellini “E la Nave Vá”, onde um cruzeiro luxuoso é surpreendido durante seu trajeto pelo início da Primeira Guerra Mundial. O artigo dialoga com publicações recentes sobre a pandemia, nas ciências sociais. Desenvolve como argumento central que a epidemia nos confronta com o que Agamben chamou de vida nua: a irrupção da vida biológica, de uma conexão natural desconhecida, que excede todos os cálculos da vida política e se impõem, num tempo curto, como uma fatalidade intransponível. É neste ambiente que somos confrontados diuturnamente com a vida nua, a fragilidade das pessoas e a precariedade da sociedade. A queda dos ativos financeiros e a alta do dólar. A desaceleração da economia caminha lado a lado com as medidas de isolamento social e as projeções de colapso dos serviços de saúde, falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) para os profissionais da saúde e respiradores para os doentes. As medidas de contenção envolvem higiene e distanciamento social. Estradas barradas, cidades fechadas, voos cancelados, comércio suspenso, trabalho em casa e desemprego. Muito da vida pública foi transferida para dentro dos apartamentos. As janelas se transformam em espaços de sociabilidade, palco das manifestações políticas contra o governo e dos aplausos para os profissionais da saúde. O texto interroga sobre que efeitos podemos esperar após a epidemia. Haverá um futuro? Para quem e em que condições? O que se passará em sociedades tão desiguais como o Brasil? Haverá algum aprendizado social proveniente deste período de isolamento, mortes, lutos e medos? O que a vida nua, deste tempo de catástrofe, evocará como respostas?

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Anunciada pelos cientistas, antecipada pelo cinema mas ignorada como realidade provável pela maioria dos governos e populações, a pandemia chegou, tornando-se um acontecimento de difícil contestação. Um de seus principais impactos foi abrir um intervalo incomum no tempo ordinário, e lançar, através de uma fenda abrupta, enormes contingentes populacionais numa grande pausa. É como se, de um instante a outro, passássemos a viver numa espécie de lado avesso do mundo, onde os sinais se invertem. O afastamento passou a ser a medida de segurança, o próximo, mesmo íntimo, deve permanecer distante.  O espaço virtual se apresentou como um dos poucos refúgios seguros. O próprio corpo se tornou fonte e objeto de contaminação. Gestos espontâneos de auto contato têm que ser reprogramados. Os espaços públicos se transformaram em zonas de alto risco e o confinamento, obrigatório. As análises políticas e os pronunciamentos à nação deram voz à epidemiologistas, infectologistas, biólogos e matemáticos. Num mundo de grande mobilidade, deslocamentos foram impedidos e muitos ficaram onde estavam. Para diminuir a velocidade do contágio a Terra parou.

Um dos emblemas do início da pandemia foram os navios cruzeiros que, como no último filme de  Feliini, E la Nave Vá[1], se converteram de um dia para outro, de atividade de luxo de uma elite a quem tudo é permitido[2], em embarcações apátridas, vagando em quarentena, impedidas de aportar, enclausurados com seus doentes. Embora o filósofo italiano Giorgio Agamben (2020a e 2020b.), em dois artigos recentes sobre a epidemia na Itália, tenha preferido destacar os aspectos negativos do estado de exceção que permitiu ao governo o controle exacerbado dos corpos e comportamentos dos indivíduos, eu tomaria o conceito de vida nua, proposto em seu ensaio sobre o Homo Sacer (2007), para entender os efeitos, não apenas de exceção mas, sobretudo, excessivos do que estamos vivendo. A pandemia nos confronta com a vida nua: a irrupção da vida biológica, de uma natureza desconhecida e imprevisível que excede todos os cálculos da vida política e se impõe, num tempo curto, como uma fatalidade intransponível. Vivemos a primeira pandemia do século XXI. Uma onda de contágio espalha infecção e produz mortes em progressão geométrica. O vírus é invisível a olho nu e seus propagadores somos cada um de nós, agora convertidos em uma ameaça em potencial para nós mesmos e para todos os outros. Este agente atende pelo nome científico de Covid19.

É neste ambiente que somos confrontados diuturnamente com a vida nua. A fragilidade das pessoas e a precariedade da sociedade. A queda dos ativos financeiros. As reservas do combustível fóssil, que move as economias industrializadas, se acumulam para além da capacidade de estocagem dos países produtores. A desaceleração da economia caminha lado a lado com as medidas de isolamento social. Cresce o colapso dos serviços de saúde, a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) para os profissionais da saúde e respiradores para os doentes. As medidas de contenção envolvem higiene e distanciamento social. Estradas barradas, cidades fechadas, voos cancelados, comércio suspenso, as indústrias de serviços como o turismo e a cultura paralisadas, trabalho em casa, rápido declínio no uso do papel moeda e intensificação de uma economia digital, aceleração do desemprego e da precarização. Muito da vida pública foi transferida para dentro dos apartamentos. As janelas se transformam em espaços de sociabilidade, palco das manifestações políticas contra o governo e dos aplausos para os profissionais da saúde. O evento da Pandemia já foi chamado de um acelerador de futuros (MELO, 2020), tornando realidades, tendências que já estavam latentes. A questão é saber que futuros são estes e quem está incluídos neles.

São Paulo, por exemplo, mostra a sua cara: segregada. Dividida entre uma cidade dos que tem casas e janelas e outra que vive na rua. São Paulo contou a população de rua em 24.344 pessoas, no Censo da População em Situação de Rua, realizado pela Prefeitura Municipal no final de 2019. Uma população que, apesar de sua presença constante em todos os espaços da cidade, é solenemente invizibilizada. Existem, ainda, muitas outras cidades dentro da metrópole paulistana. As periferias e as favelas, por exemplo, onde o isolamento social e os cuidados de higiene têm que ser traduzidos para uma realidade sem saneamento básico, de baixa renda, e de grande aglomeração de pessoas que compartilham espaços precários e muito pequenos. A mesma população de baixa renda é a mais exposta ao vírus. É esta que continua se deslocando todos os dias, para manter seus empregos nos serviços essenciais que continuam funcionando como supermercados, farmácias, hospitais e limpeza urbana. Como sabemos desde os estudos de justiça ambiental, os riscos ambientais não se distribuem igualmente numa sociedade desigual, recaindo sobre os mais pobres, realidade que a Pandemia apenas reitera.

Parece que chegamos, pelas mãos de um vírus, ao cenário mais próximo do que há tempos vem sendo anunciado pelos cientistas sociais como a grande crise do capitalismo. Uma crise econômica e ecológica que evidencia uma profunda inflexão das nossas relações com o ambiente face à vulnerabilidade humana diante deste “nano” inimigo. Sua expansão parece ter tido origem num salto de sua origem em animais exóticos, onde é endêmico, para as biotas de hospedeiros humanos, seu território de conquista. O vírus é formado por uma estrutura simples e primitiva, constituída de um único filamento de RNA (ácido ribonucleico), envolvido por uma fina membrana esférica de gordura e proteína, ao ar livre, desidrata, seca e morre. No entanto, seu poder de disseminação e destruição nos organismos humanos, transforma este mínimo ente biológico no principal fator de colapso social do século XXI, só comparável a Primeira Grande Guerra Mundial, a Gripe Espanhola que a sucedeu e a grande depressão dos anos 30 do século XX. Como sugeriu Lilia Schwarcz (2020), a Pandemia pode ser o evento que, para além da cronologia, marca a experiência transição do século XX, um período de apostas nas tecnologias, para o XXI, nos remetendo às incertezas e aos limites dos nossos recursos técnicos e sociais.

Um momento doloroso para viver e raro para pensar. Afinal, como aconselhou o Papa Francisco (2020), não devemos desperdiçar estes dias difíceis.  A grande pausa freou abruptamente o imperativo da rapidez, virtude máxima da produtividade. No rastro desta aterrissagem forçada e turbulenta do nosso modo de vida, emergem, desconcertantes, alguns indícios daquele outro mundo possível que reivindicavam os Fóruns Sociais Mundiais, na virada do milênio. No entanto, neste caso, não se trata da utopia sendo realizada, mas de uma distopia que deixa todas as nossas expectativas em suspensão.

Com o avanço do contágio, os países afetados, cada um a seu tempo, foi parando. As imagens das metrópoles com suas ruas e pontos turísticos completamente vazios, se tornou recorrente. Também se fez notar a melhoria na qualidade do ar, em virtude da drástica redução das emissões de carbono na atmosfera. Os céus de Beijing, Nova Déli, Cidade do México, São Paulo, nunca estiveram tão limpos. Os canais de Veneza, sem o movimento turístico, exibem águas mais límpidas e calmas. A Bahia da Guanabara voltou a ser vista com águas calmas e, aparentemente, mais limpas. Os observatórios astronômicos mediram a diminuição do ruído da crosta terrestre, causado pelas movimentações humanas. Os astrônomos, agora, podem ouvir melhor a voz da Terra e acompanhar seus movimentos através dos ruídos sísmicos.

O centro de São Paulo silenciou e o viaduto Santa Efigênia foi fotografado, absolutamente vazio. Eu ouço da janela, pela primeira vez, os sinos da Igreja do bairro e o violino que a vizinha do prédio da frente, musicista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – OSESP, ensaia todas as tardes. Estas cenas emitem, ao mesmo tempo, sinais reconfortantes e estranhamente ameaçadores. A realidade não é mais a mesma e produz mensagens de duplo vínculo, desconcertando-nos.

Governos, porta-vozes de políticas neoliberais, devem prover saúde e renda para os mais vulneráveis. Depois de pelo menos quatro décadas de neoliberalismo e desinvestimento em sistemas de saúde e seguridade social, o mundo dos negócios clama pela intervenção do Estado. Fala-se em um novo Plano Marshall, renda mínima, solidariedade, políticas distributivas. Neste contexto, muito do que estava abaixo da linha d’água, latente, emerge. Redes de apoio mútuo, atendimento psicológico gratuito para profissionais do Sistema Único de Saúde – SUS, produção solidária, trocas não mercantis, movimentos por códigos abertos, militantes do acesso livre estão trabalhando no sequenciamento genético do vírus e produção de máscaras 3D. Muitas trilhas de compartilhamentos e cooperação têm sido abertas. Pesquisas científicas nunca foram tantas e tão rápidas sobre os múltiplos aspectos do novo vírus.

Por outro lado, analistas mais céticos advertem que não nos iludamos. Para José Luis Fiori (2020), por exemplo, o prognóstico para o Brasil era ruim e só vai piorar, e menciona a guerra por insumos, remédios e EPIs, reiterando a lógica egoísta de sempre. De fato, vimos nos noticiários das últimas semanas como os EUA agiram como piratas globais interceptando inúmeros carregamentos destes produtos, agora preciosos, desviando-os para os EUA, e deixando países como a Alemanha e o Brasil, sem as suas encomendas já realizadas destes bens.

Este raro momento, me faz pensar em Richard Sennett. Depois de ter escrito sobre os impactos sociais e emocionais dos processos de flexibilização do trabalho e precarização dos vínculos no novo capitalismo, ele concluiu que: “a ideia de encontrar uma alternativa não é um projeto utópico, mas algo que precisamos fazer porque esse sistema não funciona” (SENNET, 2012a)[3]. O Covid19, por onde passa, vai expondo, dolorosamente, esta desfuncionalidade do capitalismo, baseado na abstração do mundo financeiro, sem gente dentro, e na insustentabilidade nacional em setores como a produção de medicamentos, a pesquisa em ciência básica, e os serviços públicos de saúde. Todos os dias, como um pesadelo recorrente, contabiliza-se os infectados e os mortos. Os corpos são enterrados sem despedidas, em cerimônias fúnebres de uma hora, com um mínimo de familiares. Filmadas por drones, vemos as enormes valas comuns abertas no Bronx, na periferia de Nova Iorque, recebendo caixas de papelão com as vítimas da Pandemia, que se empilham, manejadas por guindastes. Forças-tarefa com roupas de astronautas e rostos cobertos trabalham para abertura de covas nos cemitérios de São Paulo. Cadáveres que excederam a capacidade do serviço mortuário são deixados na rua, em Guaiaquil, no Equador. A morte na pandemia não é uma morte bela, uma morte heroica, ou uma morte boa, entre os seus. É uma morte pária, sem contorno, tanto para os que se vão quanto para os que ficam[4]. A vida nua, sem retoques, desfigura a realidade e nos lança no deserto do real. Tempos de catástrofes, como nomeou Isabelle Stengers (2015). Tempos de uma nova classe de medo global, como analisou Gustavo Lins Ribeiro, sobre a epidemia:

 

Um temor totalizante, sentido por todos os habitantes de um coletivo, na expectativa de uma enorme quantidade de mortes que potencialmente ou de fato atingirá a todos e acabará o mundo conforme foi conhecido até um determinado momento (…) envolvendo a sensação de fim de mundo, um verdadeiro fato social total, como diria Marcel Mauss, que condensa respostas fisiológicas, biológicas, psicológicas, culturais, políticas, econômicas, sociais e científicas (RIBEIRO, 2020, p. 1).

 

As ilusões de proteção e “imunidade”, que mantinham o sentimento de normalidade cotidiana, vão se tornando cada vez mais difíceis de sustentar. A bolha burguesa e suas apostas na ideologia do aprimoramento individual, da vida saudável, dos cuidados em saúde e autoproteção, está por um fio, cada vez mais fina e esgarçada diante da pandemia, como alertou Fabíola Rhoden (2020).

Parodiando Fellini, nos perguntamos: para onde “la nave vá?”. Que rumos nossa inconsequente embarcação tomará, depois de ter sido atingida pela catástrofe pandêmica?  haverá um futuro? Para quem e em que condições? Como será o novo normal instaurado por um capitalismo de controle e vigilância exacerbados? O que se passará em sociedades tão desiguais como o Brasil? Haverá algum aprendizado social proveniente deste período de isolamento, mortes, lutos e medos? Qual o legado que estes dias difíceis trarão para o cenário de polarização, segregação e exclusão anterior à Pandemia? A recessão econômica, ao que tudo indica, se aprofundará. Já se fala em uma década perdida. O que a vida nua, que irrompeu neste tempo de catástrofe, evocará como respostas? Que marcas e cicatrizes restarão destes tempos? Ou enterraremos estas memórias em rápidas cerimônias, sem ritos e sem luto?

 

[1] Último filme de Frederico Fellini (1983), “E la nave vá”, se passa em 1914. Um Cruzeiro (Glória N.) leva uma exótica elite artística europeia em direção à ilha Erimo, para jogar ao mar as cinzas de uma famosa cantora de ópera, Edmea Tetua. Personagem provavelmente inspirada em Maria Callas, falecida em 1977, cujas cinzas foram espalhadas no mar Egeu. Entre os passageiros desfilam matronas, cantores, palhaços, bufões, artistas de circo, um rinocenonte, e um jornalista, que deve registrar a viagem. Esta espécie de versão felliniana da nau dos loucos segue sua viagem até que o início da Primeira Guerra muda o curso da viagem.  O navio é interceptado por náufragos sérvios que invadem o Cruzeiro, como um tsunami de realidade pobre e miserável submergindo o mundo luxuoso, exótico e delirante de Glória N.

[2] ZIZEK (2020), referindo-se aos cruzeiros e sua ostentação os considerou uma imagem obscena.

[3] Richard Sennett, após mencionar que tinha concluído um ciclo de produções que denunciaram as falhas estruturais do capitalismo, empreendeu, durante as primeiras décadas dos anos 2000, um novo projeto. Desta vez, buscando um tom propositivo, produziu uma trilogia denominada “Homo Faber”. Nestes livros ele se dedicou a pensar as habilidades que precisamos para seguir vivendo Juntos. Esta trilogia teve como seu primeiro livro “O artíficie” (2008), o segundo chamou-se “Juntos: os rituais, os prazeres e a política da cooperação” ( 2012) e o terceiro, “Construir e Habitar (2018).

[4] Sobre ao estatuto da morte na pandemia ver o excelente artigo de Carmen Rial (2020), no Boletim de Ciências Sociais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

AGAMBEN. Giorgio. In: AGANBEN, Giorgio; ET ALII. A sopa de Wuhan. 1a. ed. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020a.  P 17-20.

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AGAMBEN, Giorgio; BURIGO, Henrique. Homo Sacer, o poder soberano e a vida nua I. 2ª. ed. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007.

BERGÓLIO, Francisco. Não desperdice estes dias difíceis. Entrevista concedida à Paolo Rodari, Jornal La Repubblica, 18/03/2020. Tradução disponível em : http://www.ihu.unisinos.br/597240-o-papa-nao-desperdicem-esses-dias-dificeis

FIORI, Jose Luis. Entrevista concedida à Elenora Lucena e Rodolfo Lucena.

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ZIZEK, Slavoj. in: AGANBEN, Giorgio; ET ALII. A sopa de Wuhan. 1a. ed. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020. P 21-28.

STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes – resistir à barbárie que se aproxima. São Paulo (SP): Cosac & Naify, 2015.

LINS RIBEIRO, Gustavo. Medo Global. Boletim Ciências Sociais: Cientistas Sociais e o Coronavírus. Boletim Especial n. 5, ANPOCS, 26/03/2020. Disponível em

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RIAL, Carmen. Mortes Belas, Mortes Boas, Mortes Malignas e a Covid-19. Boletim de Ciências Sociais: Cientistas Sociais e o Coronavírus. Boletim Especial n. 20, ANPOCS, 14/04/2020. Acessível em: http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2333-boletim-n-20-mortes-belas-mortes-boas-mortes-malignas-e-a-covid-19. Acessado em 14/04/2020.

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Artigo original em: Castro, Daniel; Dal Seno, Danilo; Pochmann, Marcio (Organizadores). Capitalismo e a Covid-19. Um debate urgente. São Paulo, 2020.