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A espiritualidade nas políticas públicas de saúde

A espiritualidade nas políticas públicas de saúde

By admin in Crônicas de pesquisas on março 1, 2019

Ana Beatriz Foster

Graduanda em Ciências Sociais – Unicamp

“Espiritualidade” é um termo que está se destacando cada vez mais, tornando-se foco em várias pesquisas de diversas áreas do conhecimento. O que chama atenção principalmente é a incorporação da categoria por instituições seculares e mobilização em contextos oficiais de atenção à saúde. É justamente esse o foco da pesquisa principal: investigar como e as crescentes formas com a qual a categoria espiritualidade tem sido incorporada e usada no âmbito da saúde no Brasil. Para isso, o interesse empírico está dirigido a três dimensões: como espiritualidade aparece nos usos clínicos; como ela é mobilizada no contexto das pesquisas médicos científicos; e, como ela se apresenta nas políticas públicas de saúde.

Gradativamente, a categoria “espiritualidade” tem sido empregada em documentos oficiais do ministério da saúde, sendo frequentes referências explícitas, em textos de políticas públicas, à “dimensão espiritual da saúde”, aos “valores espirituais” e aos “cuidados com a espiritualidade”. O interesse principal da pesquisa pela qual sou responsável é analisar a presença e os usos da noção de espiritualidade nas políticas públicas de saúde no Brasil. O objetivo principal é mapear o modo como “espiritualidade” tem sido incorporada nessas politicas, explorando suas variações e com isso, apontar as convergências e as tensões que marcam esse processo. Para isso buscarei fazer o levantamento de todas as políticas de saúde promulgadas pelo ministério da saúde, desde a criação do SUS, juntamente com políticas de saúde estaduais e municipais, etapa essa que já iniciei; ademais, será elaborado um banco de dados, em um software de análise qualitativa, com os textos das políticas de saúde selecionadas; a partir das ferramentas de análise disponíveis, buscarei identificar as formas regulares de estabelecimento da categoria espiritualidade nas políticas de saúde. O foco de interesse desta pesquisa são as ocorrências em que conceitos como “espiritualidade”, “religião”, “religiosidade”, “espiritual” aparecem nos textos de políticas públicas de saúde existentes no Brasil.

No momento, a pesquisa está no começo, apenas em seus primeiros passos, sendo possível que, a partir da leitura e das investigações, ela tome rumos pelos quais não imagino agora. Por enquanto, estou levantando as políticas públicas de saúde no Brasil e lendo a literatura necessária e participando de discussões sobre os temas relacionados. Mesmo que pouca coisa fora feita até agora, muitas reflexões me vieram à mente a partir disso. Alinhada com o projeto de pesquisa principal, não parto de uma definição ou entendimento prévio do que seja a espiritualidade, mas como, a partir de cada realidade, a espiritualidade é concebida, desenhada e assim, mobilizada de variadas maneiras. Diante disso, o que posso dizer é que, pelo que observei, a forma com a qual espiritualidade é manuseada nas políticas públicas difere das formas como é empregada em pesquisas médicas e científicas e no campo clínico. A impressão que tenho é que diferentemente do discurso médico, que opera por uma lógica entendimento de uma “dimensão espiritual” como fator de saúde humana, no campo das políticas públicas, a categoria espiritualidade está implicada em uma lógica de “direitos”, sendo uma forma de conciliar o direito de liberdade religiosa dentro dos hospitais com a manutenção de um Estado laico, separado da religião.

Como já dito, estou apenas no início da pesquisa, sendo que com seu aprofundando, ideias, hipóteses, impressões mudem e tomem rumos inimagináveis.

Divinação e ciência: sonhos, corpos e sentidos de experiências divinatórias à literatura científica

Divinação e ciência: sonhos, corpos e sentidos de experiências divinatórias à literatura científica

By admin in Crônicas de pesquisas on fevereiro 22, 2019

Maria Luiza Assad

 

Como ganha corpo o que de outro modo poderíamos considerar “efêmero”? São as pessoas, mediante seus corpos, capazes de antecipar acontecimentos por vir? Como pode ser pensada a experiência dos sentidos? E talvez mesmo de seus horizontes temporais? Em certo sentido, a pesquisa que intento realizar segue na esteira de outros trabalhos que buscam “capturar o intangível”. E posso dizer que o intuito de observar como adquire corpo o intagível, neste caso, se desdobra em duas facetas:

Por um lado, posso dizer que o “intangível” de eleição reside na esfera das experiências divinatórias – isto é, visões, sonhos premonitórios, pressentimentos e intuições que parecem se concretizar. E o objetivo é acompanhar como as pessoas (“entre nós”) se relacionam com a possibilidade de tais ocorrências: como parecem ocorrer tais experiências; como são vividas corporalmente, quais são as percepções sobre horizontes temporais e limites de corpos emergentes, como são integradas ou transformam concepções de vida etc. Através de entrevistas, pretendo mapear a relação das pessoas com o que designarei por “sensibilidades antecipatórias”. E, propositalmente, não partirei de um grupo pré-estabelecido, mas daqueles que se mostrarem disponíveis para compartilhar suas experiências referentes a esse tipo de fenômeno.

Por outro lado, o intuito se desdobra na observação de como o intangível vem recebendo corpo através de certa literatura científica. Por ora, o que posso antecipar é que parte da pesquisa deve acompanhar o deslocamento operado em meio a  abordagens científicas que usualmente tem de lidar com corpos: pensem em medicina e certas contribuições das biociências. Mas também na própria antropologia. E, em especial, naquela sua faceta de “antropologia médica”. Não por querer aprofundar subdivisões, mas pela própria forma com que necessariamente teve de lidar com o questões relativas ao corpo. Observar deslocamentos no interior da antropologia parece chave. E não apenas porque é o campo em que se insere o projeto: mas por ser “tradicionalmente” aquele que lida com as temáticas da divinação, dos limites de corpos e pessoas, e das renegociações entre o que se compreende como social e/ou natural.

Claro, trata-se mais de uma promessa inicial que, como em tantas pesquisas, pode cair por terra ao longo do seu desenvolvimento, levada a assumir outros rumos. Um ponto delicado se refere ao próprio “método” e suas razões. Por que não partir de um grupo já definido, por exemplo? Um grupo religioso, como informalmente já me foi sugerido? Posso vislumbrar (assim como provavelmente aqueles que me cercam) uma série de dificuldades de não ir a um campo situado em algum lugar específico, em momentos específicos. Uma razão, neste momento, é: porque esse tipo de recorte não permitiria ver a ocorrência/relação com dado fenômeno – seja lá como o entendamos – fora daquele domínio. Não permitiria sequer perscrutar a possibilidade de que seja mais disseminado do que se concebe.

Por fim, de certo modo isso remete à escolha pela “divinação”. Uma etnografia como a de Charles Stewart indica como sonhos-visões não apenas permitem vislumbrar a coexistência de diferentes percepções temporais, como podem incitar a ação no presente. E o interesse nesse tipo de questão foi profundamente influenciada por seus trabalhos, dentre outros. Mas o que posso dizer, além disso, é que a escolha também se inspirou no famoso ensaio de Carlo Ginzburg acerca do paradigma indiciário. 

O paradigma que poderia ser entendido como “médico”, mas também “divinatório”, dependendo de sua orientação temporal. No mesmo ensaio, Ginzburg aludia ainda à ideia de que há uma forma de conhecer marcada por uma “intuição baixa”, isto é, profundamente radicada no corpo, nos sentidos. Aquilo que reuniria os humanos às outras espécies animais. E o que certamente não deve surpreender antropólogos de inspiração fenomenológica. Aspecto que, junto a certas conversas iniciais, talvez indique que o que almejo perscrutar se encontre sob a esfera de “sensibilidades antecipatórias”; capacidades, habilidades ou formas de conhecer, sentir, antecipar que dependem do corpo. Nesse momento em que tanto se fala da dificuldade de imaginar futuros, também fui capturada pelo interesse em acompanhar as percepções a seu respeito. E do engajamento corporal que deve fazer parte desse processo.

A “espiritualidade”: um olhar a partir do cotidiano

A “espiritualidade”: um olhar a partir do cotidiano

By admin in Crônicas de pesquisas, Novidades on fevereiro 2, 2019

Texto de Nicolás Viotti (CONICET)

Tradução: Luciana Cavalcanti

Os estudos sobre a espiritualidade contemporânea apresentam uma grande heterogeneidade nos últimos anos. Se tivéssemos que agrupá-los em diferentes abordagens, poderíamos assinalar pelo menos três correntes.

Um primeiro grupo apresenta uma descrição sociológica e histórica mais ou menos geral, subsumida à narrativa moderna da individualização, que supõe uma perda de um horizonte heteronormativo da religião e a emergência – pela via dos movimentos espirituais – de um modelo autônomo ou individualista (14, 15, 16). Embora esses trabalhos tenham  o mérito de uma leitura a longo prazo, mantiveram-se em um nível muito ideacional e, como consequência, muitas vezes concentraram-se excessivamente na tensão entre uma ordem coesa, própria de uma religiosidade eclesial, e uma concepção do individualismo, próprio da espiritualidade, o que suporia uma subjetividade infrasocial. Esse tipo de análise possui algumas dificuldades para detectar a capilaridade das experiências auto percebidas como espirituais nos mais diversos âmbitos e, particularmente, para entender sua presença e difusão pública contemporânea.

Um segundo grupo desenvolveu uma crítica a esses trabalhos pioneiros, mostrando como o foco na vida cotidiana permite reconstruir relações sociais e questionar a ênfase excessiva que esses trabalhos deram à autonomia individual. Nesse sentido, Wood(17) e Wood e Bunn (18) se preocupam com o problema da autoridade, a partir de uma releitura da teoria da prática social de autores como Pierre Bourdieu e Michel Foucault. Esses autores assinalam que é necessário repensar a dicotomia entre autonomia individual e autoridade externa e enfatizam que existem múltiplas autoridades nas práticas espirituais no estilo Nova Era, como líderes, especialistas e forças não naturais, que têm influência sobre os grupos e indivíduos de maneira profunda e com um forte nível de estabilidade.

Ademais, mostram como essas práticas e essas múltiplas autoridades se vinculam com processos de produção e reprodução das classes sociais, particularmente os grupos identificados como setores médios. Esses autores priorizam as redes e as práticas cotidianas, descrevendo as tramas relacionais, com sua produtividade social e cosmológica, em um movimento que matiza alguns dualismos implícitos na sociologia da modernização religiosa: social/individual, sagrado/profano e alma/corpo.

Em último lugar, a partir de uma perspectiva mais radicalmente pragmática, Bender e McRoberts(19) insistiram em uma crítica semelhante aos estudos mais clássicos que entendem a espiritualidade como um fenômeno independente do religioso, e caracterizado exclusivamente pela individualização e privatização. Pelo contrário, esses autores mostram até que ponto a espiritualidade possui uma gênese histórica e uma forte dimensão relacional – não apenas uma ênfase na “interioridade” – e de que maneira é um recurso performativo com consequências públicas. Esse último aspecto é crucial porque, contra a ideia da privatização da religião, mostra como a espiritualidade mobiliza diversas formas de ação pública e de adesões políticas nas sociedades contemporâneas, as quais andam de mãos dadas com as novas formas de mediaçao que implicam os recursos da comunicação de massas e a indústria cultural.

Esses trabalhos sobre a espiritualidade contemporânea são um recurso útil para repensar as distinções entre o estritamente religioso e o terapêutico, na medida em que deixam parcialmente de lado as distinções mais estritas entre esferas ou campos independentes, ou mesmo sua redefinição contemporânea, para concentrar-se na vida cotidiana. Do mesmo modo, descentralizam o foco dos especialistas e das intervenções públicas e dão um novo estatuto epistemológico aos espaços mais “banais” e “impuros”. Por último, também permitem suspender os recortes mais convencionais entre grupos religiosos ou terapias, como se fossem uma realidade em si mesma.

Esse movimento recente possui desenvolvimentos próprios na América Latina, o que seria muito extenso para reconstruir aqui. Ao menos na Argentina, a análise do que aqui estamos denominando e recortando analiticamente como bem-estar espiritual encontra uma série de trabalhos e reflexões que cresceram nas últimas décadas, a partir de uma problemática que adquiriu cada vez mais visibilidade pública. Apesar de priorizarem a lógica institucional, tanto os trabalhos voltados para movimentos ou grupos religiosos e/ou espirituais mostraram uma tendência para a articulação (4, 5, 9, 20). Esses trabalhos abordaram o problema da articulação entre o médico-psicológico e o espiritual, e tiveram um desenvolvimento particular, sobretudo, sob o conceito de “terapias alternativas”. Tanto do ponto de vista da construção e negociação das identidades profissionais da medicina e da psicologia (21) quanto do ponto de vista mais englobante de especialistas e frequentadores de práticas “alternativas” como a reflexologia, a ioga e a medicina ayurveda, que supõem diferentes graus de articulação com alguns princípios não naturalistas no horizonte de um “pluralismo terapêutico” que se caracteriza pela “escolha” entre opções diversas (9, 22, 23, 24, 25).

Se os primeiros se concentram em uma análise da incorporação do espiritual no médico-psicológico, com foco na oferta, os segundos se concentram na adaptação de práticas – que, a princípio, pertenciam a um horizonte cosmológico – aos regimes seculares de gestão de saúde, não sem tensões, ressignificações e persistências. Ainda mantendo-se na “esfera” das denominadas terapias alternativas, esses trabalhos possuem um enorme valor e ampliaram o conhecimento de uma série de práticas que manifestam regimes de causalidade e de eficácia não naturalista, chegando até a questionar-se sobre os limites ou fronteiras do estritamente “terapêutico” e mostrando diferentes graus de vínculos com essas tecnologias e saberes que vão desde o uso estratégico até a adesão aos seus princípios básicos.

Se a partir de um ponto de vista essa separação pode ser socialmente eficaz, de outro não possui uma relevância tão substanciosa. É, em parte, a linguagem da qual dispomos que fica presa na tensão entre o religioso-espiritual e o médico-terapêutico. E, como se conhece bem sua capacidade performativa, recorta nossos objetos de estudo, nossos temas e nossos problemas de uma maneira singular. Com essa premissa, assinalo três focos de separação que podem ser repensados a partir de uma análise sobre a vida cotidiana e os diferentes agenciamentos plurais do bem estar espiritual.

Em primeiro lugar, o recorte que realizamos entre “terapias alternativas”  e “grupos religiosos ou espirituais”. Enquanto o primeiro tende a um diálogo no horizonte dos estudos sobre saúde, o segundo é incorporado às ciências sociais da religião. O trabalho de María Julia Carozzi (26), desde o título que alerta sobre a possibilidade de ler esses processos em sua simultaneidade e a descrição da rede como lógica morfológica e indicação de alguns princípios básicos como a cosmização, a autonomia e a desierarquização, se preocupou em não separar esses âmbitos em esferas independentes; e, apesar de que alguns de seus princípios ou sua morfologia não tenham servido para todos os casos particulares – sobretudo quando se colocou a ênfase nos discursos públicos e nos princípios totalizantes de grupos espirituais ou terapêuticos – acreditamos que sua descrição ainda é útil, ao priorizar a ordem cotidiana e a circularidade dos frequentadores.

Particularmente, quando analisamos os discursos e as práticas públicas surge um segundo ponto de distanciamento. Sobretudo quando o foco está colocado nos especialistas y nas intervenções de coletivos específicos, nós, analistas, tendemos a nos concentrar nos modos de legitimação, de diferenciação, de heterodoxia e/ou de resistência, porque muitas vezes é isso que aparece na interação com seus líderes, referentes ou experts. Desse modo, a articulação entre esses termos aparece como um “híbrido”, no sentido em que Bruno Latour (12) entende o termo, como uma combinação de dois elementos que se enunciam separadamente, mas que vivem como unidos. Da mesma forma, a partir deles, acessamos habitualmente perspectivas sistematizadas e relativamente coerentes e acreditamos constatar algum tipo de sistemas com princípios, valores e práticas organizados como se fossem exclusivos dos grupos que analisamos, e não parte de uma gramática que se constrói em um processo mais amplo.

Em terceiro e último lugar, incluindo quando nos concentramos nos discursos menos públicos, sobretudo quando tomamos um sujeito individual como interlocutor válido e locus único da interação, tendemos a reconstruir suas “representações” e suas trajetórias (terapêuticas e/ou religioso-espirituais) de modo isolado, tomando como dada uma concepção da pessoa que aparece como universal, mas que se assemelha bastante ao modelo do individualismo moderno, o qual supõe um agente que “seleciona” e “escolhe” em um mercado ou em um cenário “plural” de bens de salvação ou bem-estar. O foco colocado na escolha individual corre o risco de tomar por certa uma concepção de pessoa estritamente individualista, sem questionar-se sobre o modo de subjetividade que ali se produz e que, acreditamos, supõe elementos diferenciados do modelo clássico de indivíduo (27). Boa parte da bibliografia das ciências sociais se concentrou na imagem “daquele que busca” [no original “buscador”], assumindo um tipo de indivíduo demasiadamente associado ao individualismo moderno, apagando, em muitos casos, as tramas de relações sociais que produzem essas “escolhas” ou as próprias teorias que esses agentes têm sobre sua própria pessoa, as quais muitas vezes não correspondem a um agente que atua no mundo de modo tão livre. Um enfoque muitas vezes sobredimensionado pelo próprio caráter das nossas abordagens teórico-metodológicas como, por exemplo, o uso exclusivo da entrevista em uma profundidade que pode focar unilateralmente na “experiência individual” (8).

Retomando alguns dos levantamentos de um enfoque relacional e do que ele faz à subjetividade no horizonte da espiritualidade contemporânea, queremos argumentar que um olhar sobre o cotidiano que assuma  seriamente alguns aspectos vividos como reais pelos seus frequentadores pode nos ajudar a recompor um quadro um pouco mais complexo desse processo. Em certo sentido, nos interessa restituir a análise relacional descrita pelos primeiros trabalhos que, na região, descreveram a Nova Era e as terapias alternativas como parte de uma mesma rede, e estendê-la mais ainda em direção a uma trama mais ampla que incorpore o cotidiano e os regimes de subjetivação.

Entendemos a espiritualidade como uma categoria que evidentemente não é novidade, mas que adquiriu uma renovada presença contemporânea, que existe como colocada em ação, ou seja, que existe na medida em que é atuada, com grande capacidade de circulação e performatividade nos mais diversos âmbitos (19, 28, 29). Ao mesmo tempo, entendemos que essa pragmática da espiritualidade supõe uma gramática heterogênea, mas não por isso infinita e sem especificidade, que incorpora uma concepção não naturalista da causa e eficácia, uma ordem cosmológica relacional e um trabalho sobre “si mesmo” e que se manifesta em intensidades diversas que baseiam em mediadores materiais e discursivos de diferentes linhagens: esoterismos vários, com uma presença consolidada durante o século XX, a cultura self-help e tecnologias da subjetividade de origem oriental, incluindo algumas práticas ameríndias, adaptadas à vida cotidiana de coletivos urbanos das sociedades euro-americanas contemporâneas (30, 31).

Do ponto de vista da circulação cotidiana desses saberes e práticas, é possível que a tensão entre o terapêutico e o religioso/espiritual, e também suas disputas pela legitimidade em um campo ou as perspectivas sistêmicas que emergem quando o foco está colocado nos discursos públicos, adquira outro matiz. Não só é muito mais difícil recortar as esferas autônomas do terapêutico e do espiritual, como também a própria espiritualidade supõe uma trama de circuitos, de sentidos e de práticas diferenciadas. Embora o discurso público insista nas vantagens físicas, médicas e inclusive psicológicas da meditação, supervalorizando sua função no bem-estar entendido como um processo biológico e psicoemocional, a partir da vida cotidiana, as causas desse bem-estar excedem, e muito, uma definição biológica e sociopsicológica da subjetividade, incorporando uma dimensão não humana como a energia que supõe uma força vital transformadora que pode produzir mal-estar quando não circula corretamente e bem-estar quando se consegue canalizá-la e equilibrá-la.

A vida cotidiana dos atores em ação e a complexidade do que Law (13) denominou “formas não convencionais”, supõe processos de circulação e conjuntos que podem nos ajudar a repensar as pontes e articulações distintas entre o mundo médico-psicológico, as terapias alternativas e a espiritualidade Nova Era. Nesse sentido, nos parece importante a análise de Law (13) sobre os “conjuntos” em contextos religiosos, onde aparece como significativo dar uma perspectiva realista que permita ampliar a realidade das pessoas que a vivem e, nesse processo, indagar inclusive a própria noção de pessoa que está em jogo. Tal abordagem também poderia ler criticamente a perspectiva do individualismo metodológico que se concentra nos usuários ou frequentadores de práticas desse tipo e suas “eleições terapêuticas” ou suas “eleições espirituais” como “campos” ou “esferas” de ação diferenciadas.

Trecho do trabalho “Para além da terapia e da religião? uma aproximação relacional da construção espiritual do bem-estar”. (Original: Más allá de la terapia y la religión: una aproximación relacional a la construcción espiritual del bienestar”)

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Frequências  – genealogia da espiritualidade

Frequências – genealogia da espiritualidade

By admin in Novidades on janeiro 20, 2019

É crescente o investimento da literatura especializada em identificar os vínculos históricos entre espiritualidade e a consolidação da modernidade ocidental. Os fios a partir dos quais essa história tem sido contada são muitos: a partir das relações coloniais, nos trabalhos de Peter van der Veer; a partir do misticismo universitário, como demonstrou Courtney Bender, explorando figuras como Ralph Waldo Emerson, William James, Walt Whitman; ou ainda  partir do modelo médico protestante, bem descrito por Pamela Klassen. O adensamento dessa literatura ganhou com aliado um valioso projeto: Frequencies – a collaborative genealogy of spirituality.

Naquele projeto, a empreitada de construir uma genealogia da espiritualidade foi encarada a partir de um procedimento simples, perguntar a acadêmicos, escritores e artistas o que vem às suas mentes quando se menciona a palavra espiritualidade. O resultado é uma curiosa enciclopédia, com verbetes como: sangue, catástrofe, contradição, espresso, sanduíche de frango, iPhone e mágica. Diante da dispersão da espiritualidade, nada mais adequado que uma genealogia que reproduza, em sua própria forma, essa característica. 

O projeto foi coordenado por Katrhyn Lofton e John Modern; e recebeu contribuições, entre outros, de Tanya Lurhmann, Jeremy Stollow, David Morgan, Winnifred Sullivan, entre outros.

Explore aqui todos os verbetes deste projeto.

Sobre a imagem que ilustra este post, Mobile Transcendence Device, de Joe Meiser, leia o verbete LSD do projeto. Para conhecer outros trabalhos do artista, visite seu site. 

Religião Material

Religião Material

By Rodrigo Toniol in Novidades, Publicações on janeiro 16, 2019

Em abril deste ano a Unicamp receberá, como pesquisadora visitante, a professora Birgit Meyer. Entre a série de atividades previstas para o período da visita, está o lançamento do livro Como as coisas importam, publicado pela editora da UFRGS. O livro reúne textos traduzidos, inéditos em português, de Meyer, além de uma entrevista e de uma extensa introdução escrita por seus organizadores, Emerson Giumbelli, João Rickli e Rodrigo Toniol. Ao longo dos próximos meses faremos atualizações sobre as atividades que realizaremos com a professora Meyer. Aproveitamos a novidade para compartilhar um roteiro de leituras, que pode ajudar interessados a se engajarem nas discussões realizadas no campo da chamada “Religião Material”.

Uma versão modificada deste texto foi publicada na Newsletter (2017/2) da Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul.


Campo em expansão

O crescimento da literatura das ciências sociais dirigida às materialidades tem contribuído para a consolidação do que já é quase um subcampo disciplinar, com debates próprios, eventos específicos e publicações regulares dedicadas ao tema. É certo que um esforço genealógico das discussões sobre materialidade, objetos e coisas – palavras que na literatura especializada estão longe de serem sinônimos – poderia identificar os atos de fundação desse campo em textos de autores clássicos das ciências sociais. O propósito da compilação bibliográfica que segue, no entanto, não pretende ir tão longe e tampouco pretende cercar a totalidade dessa literatura. Alternativamente, opto por referenciar um conjunto limitado de leituras que pode auxiliar aqueles que estiverem interessados em uma área específica desse debate mais amplo, refiro-me a chamada “material religion”. Portanto, o que segue não é uma lista exaustiva do que há para ser lido, mas sim um guia introdutório, que indica alguns dos textos que são constantemente referidos no campo e, ao mesmo tempo, que servem para situar seu debate. Esse foi o critério de seleção da bibliografia sugerida – apesar disso, como não poderia deixar de ser, não nego o caráter arbitrário e pessoal das leituras indicadas.

O que é a material religion ?

Entre outras sínteses possíveis, reproduzo a definição do que seja material religion presente no número inaugural do periódico homônimo: “Ao nos referirmos a material religion estamos nos referindo a possibilidade de considerar a religião a partir de suas formas materiais e do uso que se faz desses materiais na prática religiosa”. Trata-se, poderíamos dizer, de um movimento que reage ao entendimento da religião e da prática religiosa como fenômenos cognitivos, que ocorreriam inicialmente no plano das ideias e posteriormente se projetariam em representações materiais. O que está em jogo nessa perspectiva, pelo contrário, é o entendimento de que os materiais, seus usos e a forma de experimentá-los são– e não simplesmente refletem – a religião.

De forma mais didática, Birgit Meyer, em um texto intitulado “There is a spirit in that image’: Mass-produced Jesus pictures and Protestant–Pentecostal animation in Ghana”, afirmou: “A abordagem material da religião significa perguntar como a religião ocorre materialmente, o que não deve ser confundido com a pergunta muito menos útil de como a religião é expressa em formas materiais. Os estudos sobre religião material começam com a suposição de que as coisas, seus usos e sua apreciação não são dimensões que se adicionam à religião, mas, pelo contrário, são intrínsecas a ela”. Se, por um lado, é possível argumentar que materiais sempre estiveram no horizonte de reflexões de cientistas sociais da religião, por outro, é inegável que o deslocamento proposto instituiu novidades para o próprio modo de definir religião e – talvez principlamente – também para o modo de pesquisá-la.

Grupos de pesquisa

Por mais que a literatura dedicada ao tema seja majoritariamente anglo-saxônica, temos no Brasil, há algum tempo, movimentos de aproximação com essa perspectiva, seja via cursos em programas de graduação e pós-graduação, seja pela produção de pesquisas ou pela tradução de textos a ela relativa. Sobre o primeiro movimento, de ensino e pesquisa, merece destaque a consolidação do grupo de pesquisa Mares, registrado no CNPq e que reúne pesquisadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul (https://maresantropologia.wordpress.com) e as atividades do Grupo de Pesquisa em Antropologia da Devoção, do Museu Nacional, que sistematicamente tem organizado eventos e promovido debates dirigidos ao tema. Com relação às traduções, destaco a publicação recente de um artigo de Birgit Meyer, publicado na Revista Campos (http://revistas.ufpr.br/campos/article/view/53464) e, naquele mesmo volume, de um texto apresentação da obra da autora, escrito por Carly Machado (http://revistas.ufpr.br/campos/article/view/53445/pdf). Além disso, desde o início de 2017, Emerson Giumbelli, João Rickli e eu, Rodrigo Toniol, temos trabalhado na organização do livro já mencionado, que compilará a tradução de um conjunto de textos de Meyer.

Sites sugeridos

Antes ainda de passar para indicação bibliográfica propriamente dita, indico três sites que podem ser consultados e que dispõem de farto material relativo ao tema:

  1. https://www.religiousmatters.nl/buildings-images-and-objects/
  2. http://mavcor.yale.edu
  3. http://materialreligions.blogspot.nl

Indicação bibliográfica: 

  1. Meyer, Birgit. Mediation and the genesis of presence. Towards a material approach to religion, 2012 – Disponível em: https://www.uu.nl/file/25377/download?token=AudZSc-l
  2. Morgan, David, ed. Religion and Material Culture: The Matter of Belief. London: Routledge, 2009.
  3. ENGELKE, Matthew. “Material Religion”. In: ORSI, Robert A. The Cambridge Companion to Religious Studies. New York: Cambridge University Press, 2012, pp. 209-229.
  4. Morgan, David. The Sacred Gaze. Religious Visual Culture in Theory and Practice. Berkeley: University of California Press, 2005.
  5. MEYER, Birgit. Picturing the Invisible. Visual Culture and the Study of Religion. Method & Theory in the Study of Religion, 27 (4-5), 2015.
  6. Houtman, Dick, and Birgit Meyer, eds. Things:: Religion and the Question of Materiality. Fordham Univ Press, 2012.
  7. Promey, Sally M., ed. Sensational Religion: Sensory Cultures in Material Practice. Yale University Press, 2014.
  8. Bräunlein, Peter J. “Thinking Religion Through Things.” Method & Theory in the Study of Religion 28.4-5 (2016): 365-399.
Espiritualidade e arte – imagens do site

Espiritualidade e arte – imagens do site

By Rodrigo Toniol in Crônicas de pesquisas on janeiro 16, 2019

Não passará desapercebido pelo leitor deste site o uso de obras de arte para ilustra-lo. Invariavelmente, as referências são pinturas modernas, como é o caso da imagem da capa do site, uma obra de Arthur Dove, e a inspiração da qual se originou o logo, dos trabalhos de Kandinsky. Além de razões pragmáticas, a opção por fazê-lo está relacionada com a relação entre a noção de espiritualidade, que tematiza este projeto, e a própria consolidação da modernidade. As imagens aqui mobilizadas refletem essa relação, que no campo da história da arte tem sido evidenciada já há bastante tempo.

Em dezembro de 1911, Waissily Kandinsky publicou o texto Do espiritual na arte, um ensaio capital para os movimentos artísticos do século XX. O artista russo, pioneiro do abstracionismo no Ocidente, exorta nesse livro a capacidade singular da literatura, da música e da pintura de captar e expressar o ser espiritual das coisas. Numa de suas célebres passagens, Kandinsky escreveu: “A forma, mesmo abstrata, geométrica, possui seu próprio som interior, ela é um ser espiritual, dotado de qualidades idênticas as dessa forma. Um triângulo é um ser. Um perfume espiritual que lhe é próprio emana dele” (2000:75).

Na arte abstrata, há uma centralidade atribuída à forma. Esse privilégio da forma, no entanto, não está expresso, como no realismo, pelos traços que buscam reproduzir com perfeição a realidade visível e superficial das coisas. Pelo contrário, a qualidade da forma que interessa aos abstracionistas é aquela velada e, ao mesmo tempo, manifesta, pela superfície. É por isso que, por exemplo, Kandinsky trata do triângulo a partir de sua forma interior (ou de seu perfume espiritual) e não da geometria de sua superfície exterior (as três retas que o compõem). A obra reproduzida acima, Primeira aquarela abstrata, é uma pintura de formas interiores. Tal fidelidade à interioridade da forma também mobilizou o pintor abstrato holandês Piet Mondrian que, quatro anos depois da publicação do ensaio de Kandinsky, afirmou: “para uma abordagem espiritual na arte, é preciso usar menos realidade possível, porque a realidade é oposta ao espiritual” (Fingesten 1961:3).

No início do século XX, o abstracionismo, um dos principais sinais da modernidade ocidental, encarnou o “espiritual” como um de seus elementos centrais. Se esse pode ser um fato inesperado para quem analisa as transformações modernas da vida na Europa do século XIX e XX nos termos da “desmistificação”, para os pesquisadores deste projeto, essa é apenas mais uma das demonstrações de que a espiritualidade não é uma forma marginal de resistência à modernidade secular, mas é parte do próprio projeto moderno, sendo, a emergência do termo, um de seus índices e uma chave fundamental para compreendê-lo.

Não foram poucos os autores que sublinharam a importância da espiritualidade para as ideias e conceitos de alguns dos artistas pioneiros na arte abstrata – além de Kandinsky e Mondrian, outros pintores como Frantisek Kupta e Kazimir Malevich também foram explícitos sobre seus interesses em retratar o ser espiritual das coisas em suas obras (Fingesten 1961; Tuchman et al. 1986).

Tão importante quanto esses textos, é um conjunto crescente de exposições que têm sido montadas em museus de todo mundo e que abordam essa relação. A última delas que merece destaque foi montada em Paris, em 2017, no Musée D´Orsay, em parceria com l’Art Gallery of Ontario de Toronto, intitulada “Au-delà des étoiles. Le paysage mystique de Monet à Kandinsky”.

Antes delas, porém, outras quatro exposições que também exploraram essa relação: 

1 – Van Gogh et la naissance du cloisonisme

2 – Le nord mystique: le paysage symboliste dans la peinture de l´Europe du Nord et de l`Amerique du Nord, 1890-1940

  Ambas organizadas pela L´Art Gallery of Ontario, no Canadá. A primeira em 1981 e a segunda em 1984

3 – Turner, Whistler e Monet: visions impressionnistes

Montada na Tate Gallery, em Londres, entre 2004 e 2005.

4 – De Van Gogh à Kandinsky. Le paysage symboliste en Europe, 1880-1910

Que circulou em diferentes museus e galerias da Europa.

Ao longo dos próximos meses traremos outras referências deste diálogo entre ciências sociais e arte, endereçado às relações entre modernidade e espiritualidade.

 

Referências

FINGESTEN, Peter. (1961), “Spirituality, mysticism and non-objective art”. Art Journal, vol. 21, nº 1: 2-6. 

KANDINSKY, Wassily. (2000),Do espiritual na arte e na pintura em particular. São Paulo: Martins Fontes. 

TUCHMAN, Maurice et al. (1986), The spiritual in art: abstract painting 1890-1985. Los Angeles: Los Angeles County Museum of Art.

Entre trópicos

Entre trópicos

By admin in Publicações on janeiro 15, 2019

O fenômeno da Nova Era é um tema recorrentemente associado pela literatura à noção de espiritualidade. Usualmente desisntitucionalizadas, dispensando mediadores sacerdotais e marcadas pelos saberes psi, as práticas da chamada Nova Era são tão presentes quanto difusas: de terapias alternativas ao turismo energético, de consumo de literatura a imersões em grupos xamânicos. Foram as variações e os próprios limites do fenômeno e da categoria explicativa da Nova Era, que orientaram os debates do livro que acaba de ser lançado no México. Entre trópicos. Diálogos de estúdios Nueva Era entre México y Brasil, é resultado de anos de diálogo entre Renée de la Torre, Carlos Alberto Steil e Rodrigo Toniol. A edição, que também será publicada em português, reúne textos de 21 pesquisadores, como: Fátima Tavares, Juan Scuro, Waleska Aureliano, Carlos Caroso, Cristina Gutiérrez, Emerson Sena, Isabel Carvalho e Beatriz Labate. Aqui é possível consultar o sumário. 

Biblioteca virtual

Biblioteca virtual

By admin in Publicações on janeiro 14, 2019

Acompanhando as recomendações de boas práticas propostas pela Fapesp, este projeto de pesquisa disponibilizará parte de sua biblioteca virtual como ferramenta de divulgação científica. Ao longo os próximos quatro anos essas referências serão atualizadas constantemente, conforme o projeto se ampliar e incorporar novos pesquisadores. Compartilhar essas referências também é uma forma de manter aberto o diálogo entre os pesquisadores deste grupo e outros colegas interessados na articulação entre ciência, espiritualidade e saúde. Convidamos a todos a explorar o material. Aqui o link!