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Chamado para relatos de sonhos e predições durante a pandemia. Llamado para relatos de sueños y predicciones durante la pandemia.

Chamado para relatos de sonhos e predições durante a pandemia. Llamado para relatos de sueños y predicciones durante la pandemia.

By admin in Novidades, Publicações on maio 17, 2020

Por Maria Luiza Assad

Você teve algum sonho marcante, desde que começou a pandemia? Algo que consegue relacionar (ou não) ao que vem ocorrendo? E, desde março, realizou algum tipo de consulta com cartomancia, tarot, astrologia, búzios ou outra técnica para tentar prever o futuro ou entender o presente nesse momento? Algo na sua relação com sonhos ou essas práticas mudou nesse período?

Esta é uma plataforma para receber relatos de sonhos ou de consultas com uma dessas práticas nesse momento. Ou mesmo aquelas que ainda ocorrerão, até o fim de nossas tentativas de quarentena.

Desde o início da epidemia/pandemia de Covid-19, muitos grupos de pesquisa vêm abrindo espaço para relatos de sonhos e outros aspectos que ajudem a entender o impacto desse momento sobre afetos, imaginação e projetos das pessoas. O espaço que gostaríamos de abrir segue essa linha. Por isso, gostaríamos de abrir esse espaço para convidar a relatar essas experiências. Mesmo que o conteúdo dos sonhos não tenha uma relação explícita com a pandemia. Os relatos serão arquivados pelo grupo e serão analisados para entender o possível impacto do que vem ocorrendo sobre nossas expectativas. Com isso, pretendemos constituir uma espécie de arquivo, mantido em sigilo que nos dê margem a pensar o impacto sobre imaginário, afetos e projetos. Apenas três pesquisadores do grupo terão acesso ao material. E esse será sigiloso desde o início.

Se você tiver uma experiência com práticas divinatórias, pode descrevê-la brevemente aqui. E se quiser descrever ainda mais, pode nos procurar por e-mail ([email protected]) e manifestar seu interesse.

Se tiver algum relato de sonho marcante ou diferente, que consiga ligar ao momento da epidemia, sinta-se convidado para contá-lo para nós. Nos diga a data (aproximada, caso não se lembre) em que ocorreu. Sugerimos que descreva seu (s) sonho (s) da forma mais simples possível, mesmo que seja muito breve, e sem procurar ser poético ou literário. Descreva as imagens, sons ou outros elementos do sonho. Aponte quando foi uma experiência mais vívida. E, se quiser, diga depois algum elemento ao qual ele te remeteu.

Não precisamos de seu nome. E isso contribui para o sigilo do processo. Mas seria interessante apontar sua idade. E você pode nos dizer se gostaria que sua experiência fosse publicada em alguma parte do blog, no futuro, em outra fase. Embora não esteja certo que publicaremos o material coletado aqui, sua preferência deve estar clara desde o início.  E, em caso de dúvida ou mudança de ideia, nos escreva. 

Pode deixar o seu relato fazendo click aqui.

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¿Has tenido algún sueño notable desde que comenzó la pandemia? ¿Algo que pueda relacionarse (o no) con lo que viene sucediendo? Y, desde marzo, ¿Has realizado algún tipo de consulta con cartomancia, tarot, astrología, conquillas o cualquier otra técnica para tratar de predecir el futuro o comprender el presente en este momento? ¿Ha cambiado algo en tu relación con los sueños o estas prácticas durante este período?

Esta es una plataforma para recibir informes de sueños o consultas con una de estas prácticas en ese momento. O incluso aquellos que seguirán ocurriendo, hasta el final de nuestros intentos de cuarentena.

Desde el comienzo de la epidemia / pandemia de Covid-19, muchos grupos de investigación han estado abriendo espacio para informes de sueños y otros aspectos que ayudan a comprender el impacto de este momento en los afectos, la imaginación y los proyectos de las personas. El espacio que nos gustaría abrir sigue esta línea. Por lo tanto, nos gustaría invitarte a informar estas experiencias. Incluso, si el contenido de los sueños no está explícitamente relacionado con la pandemia. Los informes serán archivados por el grupo y serán analizados para comprender el posible impacto de lo que está sucediendo en nuestras expectativas. Con esto, pretendemos constituir una especie de archivo, en secreto que nos permita pensar sobre el impacto en lo imaginario, los afectos y los proyectos. Solo tres investigadores del grupo tendrán acceso al material. Y esto se clasificará desde el principio.

Si tenes experiencia con prácticas adivinatorias, podes describirla brevemente aquí. Y si deseas describirlo aún más, podes comunicarte por correo electrónico ([email protected]) y expresar tu interés.

Si tenes un relato de sueño notable o diferente que puede conectar con el momento de la epidemia, no dudes en contárnoslo. Especifica la fecha (aproximada, si no lo recordas) en que ocurrió. Te sugerimos que describas tu (s) sueño (s) de la manera más simple posible, incluso si es muy breve y sin tratar de ser poético o literario. Describí las imágenes, sonidos u otros elementos del sueño. Señala cuándo fue una experiencia más vívida. Y, si queres, podes comentar algún elemento al cual te remitió.

No necesitamos tu nombre. Esto contribuye a la confidencialidad del proceso. Pero sería interesante tener en cuenta tu edad. Por otro lado, necesitamos que nos digas si te gustaría que tu experiencia sea publicada en alguna parte de este blog, en el futuro, en otra etapa. Aunque no es seguro que publicaremos el material recopilado aquí, tu preferencia debe ser clara desde el principio. Y, en caso de duda o cambio de opinión, escribinos.

 Podes dejar tu relato haciendo click aquí.  

GT Religião e Sociedade

GT Religião e Sociedade

By Rodrigo Toniol in Novidades on maio 3, 2020

Convidamos a todas e todos pesquisadores da áreas a submeterem trabalhos no GT Religião e Sociedade. Abaixo descrevemos a proposta de retomada deste GT histórico da ANPOCS.

 

GT Religião e Sociedade 

Rodrigo Toniol (Unicamp)

João Rickli (UFPR)

Resumo: Em 2001, Pierre Sanchis escreveu que ““o campo religioso é cada vez menos o campo das religiões”. A dupla dimensão deste diagnóstico, da insuficiência das instituições em conformar as experiências religiosas e da crise da categoria religião para dar conta dos fenômenos contemporâneos, vocaliza de forma sintética uma tensão que marca boa parte da produção das ciências sociais sobre o tema nas últimas décadas.

 

Resumo expandido

A presença da religião nos debates públicos contemporâneos é fato inegável, amplamente notado e discutido no universo acadêmico. Essa centralidade parece decorrer de uma ambiguidade fundamental. Por um lado, religião tornou-se um princípio chave de mobilização identitária, sendo indispensável para a descrição dos fatos políticos recentes de maior importância da história: o vocabulário articulado na votação pelo impeachment de Dilma Rousseff, a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, a eleição de Jair Messias Bolsonaro no Brasil, o crescimento da ultradireita europeia. Por outro lado, religião é uma categoria analítica fundamental para cientistas sociais, a partir da qual têm elaborado reflexões cada vez mais afinadas sobre sua relação com o Estado, sobre os limites do secularismo e sobre sua capacidade explicativa sobre novas formas de relação com o sagrado. Desde meados de fevereiro de 2020, religião ocupou novamente o centro do debate público, quando as profundas transformações globais em curso devido a um novo tipo de coronavírus foram acompanhadas pela recusa de líderes religiosos em suspenderem atividades coletivas em suas igrejas e pela esperança disseminada de que curas milagrosas fossem operadas em meio à pandemia.
As reações do senso comum ilustrado ao reconhecimento dos componentes religiosos de ações e mobilizações políticas recentes têm variado majoritariamente entre uma certa perplexidade ou preocupação e a simples indignação e repúdio. Assim, o apelo que a noção de religião adquiriu também veio acompanhado por generalizações e reificações bastante frequentes em artigos de opinião, que insistem em generalizações como, “as igrejas evangélicos”, “as igrejas neopentecostais”, “os muçulmanos radicais” ou ainda “os cristãos conservadores”, ora apresentados como os grandes vilões que desafiam a laicidade do Estado e o progresso de pautas emancipatórias e das conquistas dos direitos das minorias, ora como vítimas indefesas de maquinações de lideranças inescrupulosas e manipuladoras.
No universo acadêmico e em seu entorno, as manifestações de autoridades políticas em aberta defesa da ocupação de posições chaves no Estado por atores “terrivelmente religiosos” parecem estimular a produção de reações “terrivelmente superficiais”, vinculadas a opiniões e pré-julgamentos que associam de forma automática a religião ao conservadorismo e a determinadas posições no espectro político. Para a compreensão da complexidade das imbricações entre a religião e as mais variadas arenas políticas e sociais contemporâneas, entretanto, é necessária a produção de pesquisas sistemáticas acerca dos fatos e fenômenos que se articulam com a ideia de religião, em direção a uma reflexão qualificada que permita o avanço do conhecimento acadêmico que permite sólido embasamento empírico para o enfrentamento das questões e dilemas inerentes aos fenômenos religiosos contemporâneos. Destacamos, neste sentido, as contribuições que as pesquisas etnográficas produzidas no âmbito da antropologia da religião têm fornecido para o enriquecimento e aprofundamento dos debates.
Este GT propõe reunir trabalhos baseados em pesquisas qualitativas, sobretudo aquelas de caráter etnográfico, que exploram modos e situações específicos através dos quais a religião se manifesta, influencia ou mesmo transforma formações sociais contemporâneas. Para tanto, fazemos dois movimentos simultâneos, expressos no título e subtítulo do GT.
O primeiro destes movimentos busca resgatar o caráter abrangente que historicamente o Grupo de Trabalho “Religião e Sociedade” teve na ANPOCS ao longo das décadas de 1980 e 1990. Paula Montero (1999), em seu texto de balanço de área, publicado no livro O que ler nas ciências Sociais (1970-1995), demonstra como o conjunto dos temas tratados pelo GT Religião e Sociedade naquelas duas décadas do século XX dirigia-se, principalmente, ao catolicismo e à força emergente do protestantismo renovado no Brasil. Para isso, mobilizava-se explicações totalizantes sobre a matriz cultural-bíblico-católica que estaria impressa desde a sociogênese da nação, assim como sobre a ascensão do pentecostalismo nas periferias, cuja explicação também se dava por meio de grandes chaves interpretativas.
As duas décadas seguintes, no entanto, consolidaram tendências que apontavam noutra direção. Os temas relativos à religião foram pulverizados e um certo esgotamento da categoria como forma de circunscrever e traduzir realidades empíricas em objetos de pesquisa parecem ter desmotivado iniciativas de promoção de debates mais sistemáticos em torno desta noção. A percepção deste aparente esgotamento do termo está bem sintetizada no diagnóstico de Pierre Sanchis, que no início do século XX escreveu de forma lapidar: “o campo religioso é cada vez menos o campo das religiões” (2001:17). Nesta ideia, havia duas dimensões principais. A primeira refere-se à crise de legitimidade e reconhecimento do próprio conceito de religião que o tornou inadequado, ainda que necessário, para designar um habitus que se expressa por meio de espiritualidades, filosofias de vida e experiências do sagrado que compõem determinado regime de crer. A segunda remete à crise das instituições religiosas tradicionais que vem paulatinamente perdendo a sua hegemonia como mediadoras da experiência do sagrado e como responsáveis pela reprodução da crença (Steil e Toniol, 2013) .
Estas mudanças, por sua vez, produziram um deslocamento na atenção dos cientistas sociais da religião enquanto produtora de identidades específicas, para o das suas interfaces com outras esferas da vida social. Um deslocamento que implica tanto em um novo vigor aos estudos da religião quanto evidencia a dissolução dos fenômenos religiosos em outras lógicas (Almeida, 2010). Tal deslocamento impõe aos cientistas sociais um esforço reflexivo que dê conta do desencaixe entre a realidade empírica, descrita nas etnografias de práticas, instituições, grupos e experiências religiosas, e os conceitos de religião, secularização, espaço público e política elaborados e definidos a partir de outro contexto social e histórico.
Essa fragmentação do campo empírico e analítico também se refletiu nos GTs da Anpocs. Ao contrário das décadas de 1980 e 1990, nas duas décadas que se seguiram foram poucos os encontros que contemplaram um Grupo de Trabalho de temática ampla, que reunisse debates sobre diferentes tradições religiosas em um único fórum, assim como que mobilizasse especialistas, associados a distintas tradições teóricas, em debates sobre a pertinência da noção de religião.
O que propomos é a retomada de uma arena de debates acerca dos fenômenos religiosos inspirada nestes esforços de síntese do passado, que possa acolher as temáticas específicas que ficaram de certa forma dispersas em iniciativas menos abrangentes em reuniões recentes. O objetivo do GT, ao fazer este movimento de resgate do caráter aglutinador do antigo “Religião e Sociedade”, é propiciar um amplo diálogo entre trabalhos que exploram a religião em diferentes esferas da vida social e contextos etnográficos a partir de enquadramentos teóricos variados e abertos.
Simultaneamente a este movimento que aglutina e recoloca a religião como categoria central, fazemos um outro em direção ao reconhecimento dos desvios e insuficiências inerentes às apostas excessivas nesta tomada da religião como instrumento heurístico de enquadramento dos objetos e de análise teórica. Para tanto, buscamos reunir trabalhos que explorem a religião em seus enredamentos com outras forças sociais e que privilegiem relações e articulações das quais a religião é (mais) um componente e uma possibilidade, e não uma categoria normativa. Com isso, procuramos retomar debates que foram centrais em fóruns anteriores da ANPOCS, apostando naquilo que eles podem nos aportar após décadas de fragmentação empírica e teórico-analítica do campo.


Referências

ALMEIDA, Ronaldo. “Religião em Transição”. In: C. Martins; L. F. D. Duarte (eds.). Horizontes das Ciências Sociais – Antropologia. São Paulo: ANPOCS/Editora Bacarolla, 2010.

MONTERO, Paula., “Religiões e dilemas da sociedade brasileira”. In: S. Miceli (org.). O que ler na ciência social brasileira (1970-1995). Vol. II: Sociologia. São Paulo: Sumaré/ANPOCS, 1999.

Sanchis, P. Fiéis & cidadãos: percursos de sincretismo no Brasil. EdUERJ, 2001.

Steil, Carlos Alberto, and Rodrigo Toniol. “A crise do conceito de religião e sua incidência sobre a antropologia.” Religión, cultura y política en las sociedades del siglo XXI. Buenos Aires: Biblos, pp. 137-158, 2013.

Uma boa hora? Diferenças na produção de experiências de gestação, parto e puerpério.

Uma boa hora? Diferenças na produção de experiências de gestação, parto e puerpério.

By admin in Uncategorized on fevereiro 11, 2020

Por Giorgia Carolina do Nascimento

Sobretudo a partir dos anos 2000, têm despontado no Brasil ativismos em torno da bandeira pela “humanização do parto e nascimento”. Dessa prerrogativa derivam políticas públicas desenvolvidas pelo SUS e diversas produções acadêmicas. Ao mesmo tempo, nas últimas décadas, setores do movimento negro atuam pela criação e implementação de políticas reparatórias e específicas para essa população enquanto forma de combater iniquidades, como é o caso da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN).

Diante desse cenário e partir de um olhar para produção de diferenças nos processos de gestação, parto e puerpério, tenho buscado entender de que modos as narrativas de mulheres negras e/ou as de classes populares tensionam ou corroboram discursos correntes sobre o parto – especificamente o biomédico tido hegemônico, os do estado e os das ativistas pelo “parto humanizado”, em suas diversidades práticas e discursivas. Nesta pesquisa, que se iniciou em 2018, tenho atentado para como, sobretudo, mulheres negras e/ou as de classes populares, mobilizadas por suas experiências, agenciam noções de “bom parto”  (PULHEZ, 2015).  Neste percalço, raça e classe despontam como categorias sociológicas privilegiadas e, ainda, reflexões sobre corpo e experiência, feminismos negro e interseccional e colonialidade  dão sustentação teórico-metodológica. 

Por abranger diferentes níveis de complexidade e serviços de atenção ao pré-natal, parto e puerpério no SUS, o volume do material, fruto do trabalho de campo realizado especialmente em 2019, fez com que a dissertação se tornasse uma tese. A partir de então, atenta a questões êmicas referentes à dimensão da espiritualidade, o objeto de pesquisa se ampliou e passou a aderir ao tema do projeto “Espiritualidade Institucionalizada”.

O trabalho de campo, em sua maior parte, já foi realizado. Nesta etnografia multissituada, além do acompanhamento de mulheres pela cidade de Campinas, figuram três instituições da região: Centros de Saúde na cidade de Campinas, o Centro de Atenção Integral a Saúde da Mulher (CAISM) e o Hospital Estadual de Sumaré (HES). Nesta última, um hospital que atende principalmente aquelas cuja gestação é classificada como alto risco, foi onde realizei a etapa mais recente e ainda não analisada da pesquisa. Ali estive em contato direto com as mulheres em parturição e no puerpério imediato e foi, sobretudo, onde a espiritualidade aparece como fator importante no campo; por conformar as experiências das mulheres, passa a atravessar a pesquisa de maneira mais significativa. 

Também ao não separar a experiência do fazer estatal é que minha pesquisa ganha aderência ao projeto “Espiritualidade Institucionalizada”: as políticas públicas de saúde direcionadas à população negra são exemplo disso. No caso da PNSIPN, coloca-se a possibilidade de setores desta população terem suas práticas de saúde não biomédicas respaldadas em ambientes institucionais, no sentido de legitimar a espiritualidade como um fator de saúde. Ao tratar, especialmente, da “valorização de práticas populares” – ou seja, àquelas associadas ao campo do “tradicional” – a PNSIPN sugere interessantes relações a serem investigadas nesse novo momento da pesquisa. Caberá, assim, nos próximos anos, analisar a produção e implementação da PNSIPN e sua relação com os processos de gestação, parto e puerpério, as categorias de diferenciação e a dimensão da espiritualidade

O campo vêm mostrando, assim como aponta a hipótese do projeto “Espiritualidade Institucionalizada”, não apenas que categoria espiritualidade tem adquirido cada vez mais legitimidade no campo da saúde, como também parece apontar outros modos de entender como essa legitimação ocorre, ao passo que tanto as narrativas e experiências das interlocutoras de pesquisa, os discursos ativistas, quanto a PNSIPN sugerem interessantes relações entre raça, classe, processos de gestação, parto e puerpério e espiritualidade.

É dessa maneira que, enquanto proponho olhar para os diferentes lados do triângulo escaleno e para a reciprocidade das relações entre a experiência e a ponta dos serviços, o estado e as políticas públicas e os ativismos pela humanização do parto, a espiritualidade – assim como categorias de diferenciação tais como raça, classe e outras – se destaca como linha que conecta diferentes atores nessa malha. Ainda, ao privilegiar raça e classe como importantes categorias sociológicas, e ao tomá-las enquanto experiência corporificada, sugiro que um olhar interseccional para as diferenças na conformação dos processos de gestação, parto e puerpério pode também ampliar os modos de pensar a relação entre saúde e espiritualidade.

Referência: PULHEZ, Mariana Marques. Vítimas de violência obstétrica: conflitos éticos em torno da legitimação de uma categoria. In: XI Reunión de Antropologia del Mercosur, 2015, Uruguai. Ponencias de Grupo de Trabajo 3, 2015.

Yoga é religião?

Yoga é religião?

By admin in Crônicas de pesquisas on janeiro 30, 2020

Texto publicado em Estado da Arte, do Estadão.


por Rodrigo Toniol

Afinal, Yoga é uma prática religiosa? Essa é uma pergunta complexa, espinhosa e que ativa debates acalorados entre praticantes e instrutores. Respondê-la de modo definitivo seria abrir mão de disputas e camadas que tornam a pergunta de algum modo interessante. Evitando o campo minado, tomemos como fio condutor o caso do yoga em algumas situações nas quais sua dimensão religiosa emergiu, ainda que na chave da controvérsia.

Em fevereiro de 2011, na região de San Diego, na Califórnia, nove escolas públicas de ensino infantil deram início à um projeto que implementou aulas de yoga para seus estudantes. As aulas integravam um projeto maior de melhora da saúde física dos alunos e havia sido executado graças ao apoio de U$ 500.000 oferecido pela Fundação Jois, que promove yoga em ambientes escolares. Alguns meses após o início das atividades, um grupo de pais abriu processo contra a cidade de San Diego e os diretores das escolas, argumentando que a prática feriria a liberdade religiosa de seus filhos e ainda, que comprometeria os princípios constitucionais relativos à laicidade do Estado. “Se há alguma dimensão religiosa na prática do yoga, seu lugar não pode ser o ensino público. Sempre haverá um componente religioso nessa prática”, argumentou o representante das famílias para a imprensa local durante os debates envolvendo o caso. Como prova do princípio religioso da prática foram apresentados alguns pôsteres com os oitos passos da prática, escritos em sânscrito. Também questionou-se o uso da saudação Namastê no início das aulas e os nomes das posturas ensinadas, que remetiam a reverências a deidades hindus. Nos anos em que o processo correu as aulas continuaram, mas o Namastê foi abolido e as posturas renomeadas com palavras lúdicas, como “telefone”, “molho de maçã” e “dedo do pé”. O imbróglio jurídico durou dois anos. Em sua decisão, a corte reconheceu que yoga tem raízes religiosas, a despeito da raiz na filosofia hindu, mas que sua versão moderna “está ancorada na sociedade secular estadunidense, podendo mesmo ser considerada como um fenômeno cultural americano”. A decisão manteve o estatuto ambíguo da prática, afirmando que nos Estados Unidos, a tradição religiosa do yoga foi convertida como cultura secular e que, portanto, pratica-la não é ato religioso.

No mesmo estado da California, a administração do aeroporto de San Francisco tomou a decisão de não dedicar nenhum espaço para qualquer prática religiosa. Aboliu de sua arquitetura a capela ecumênica, tão comum em aeroportos de todo mundo. No entanto, em um lugar análogo ao que a capela ocuparia, implementou o Yoga room, “um espaço devotado ao relaxamento, auto-reflexão e prática de yoga”, como descreve no site. Se no aeroporto, a sala de yoga ocupa o espaço que já foi da religião, de modo que parece encarnar o papel de seu avatar e, ao mesmo tempo, de sua antítese.

Na América Latina, situações potencialmente controversas envolvendo a prática também têm se consolidado nos últimos anos. Na Argentina, por exemplo, como o antropólogo Nicolás Viotti tem demonstrado, há um número cada vez maior de penitenciárias que implementaram sessões de yoga para os detentos, com a justificativa de que a prática melhora a qualidade de vida e eleva valores como “gratidão, força de vontade, paciência, persistência, responsabilidade, liberdade e paz” entre seus praticantes. A pedagogia da prática passa não somente pelo ensinamento de posturas, como também por aulas teóricas, que envolvem suas bases hindus.

No Brasil, é no Sistema Único de Saúde que a prática encontra respaldo. Desde 2006, por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, o SUS reconhece a legitimidade e promove em alguns de seus hospitais e postos de saúde, terapias alternativas/complementares. A lista de práticas promovidas é extensa, contemplando, por exemplo homeopatia, medicina tradicional chinesa, biodança, dança circular, meditação, reiki, terapia de florais e, desde 2018, yoga.

Se no caso da escola californiana a legitimidade da prática e sua desassociação com a religião passou pela alegação da cultura e nas prisões argentinas a chave acionada é a do bem estar e da educação, no Brasil, o que viabiliza a oferta da yoga por parte de instituições públicas é a possibilidade de apresenta-la como ferramenta de promoção de saúde. 

As primeiras menções ao yoga pela Organização Mundial da Saúde (OMS) ocorreram no fim da década de 1960 e início dos 70. Naquele contexto, sempre era descrita como uma prática de medicina tradicional, colocada ao lado de tantas outras, como a Ayurveda, alguns rituais de cura de grupos indígenas da Amazônia e sistemas de tratamento de comunidades na África. Sempre que associadas à medicina tradicional, essas práticas foram descritas como modelos de cuidados holísticos, atentos, inclusive, à dimensão espiritual da pessoa. Isso mudou a partir da década de 1980, quando, no âmbito da própria OMS, yoga passou a ser descrita como uma técnica terapêutica. E não somente isso, apresentada como uma técnica cuja eficácia não depende do pertencimento cultural a grupos específicos, mas que pode ser comprovada a partir de testes clínicos. A ciência operou como mediadora do processo de “desreligiosização” da prática, permitindo que ela se convertesse, no Ocidente, em uma técnica de saúde.

Comum a todas essas situações está a autonomização da prática do Yoga de um universo simbólico mais amplo, do qual ele mesmo era/é parte integrante. Transformar Yoga em prática, desassociada do hinduísmo não é tarefa simples e nem teve trajetória linear na história recente: explosão do mercado editorial dedicado ao tema, a estetização da prática pela indústria cinematográfica e ainda a oferta cada vez mais ampla de escolas de formação, são alguns ingredientes desse caldo.

Na versão ocidental, yoga é associada à religião quando esse destacamento do sistema mais amplo com o qual já foi associado não funciona. Contudo, se a relação com a religião é usualmente negada, não é incomum que se sustente seu vínculo com outra dimensão mediadora, entre os religioso e o secular: a de espiritualidade. Ao acionar essa noção, as situações envolvendo yoga se associam com movimentos que podemos reconhecer em um conjunto mais amplo de outras práticas como meditação, reiki, mindfulness e uso de florais. Espiritualidade parece ser a forma de saída da religião e, ao mesmo tempo, de manutenção das referências a ela. É essa de duplo vínculo que tornam as respostas à pergunta que intitula este texto invariavelmente ambíguas sem que sejam contraditórias.

A espiritualidade como dimensão da atenção em Cuidados Paliativos

A espiritualidade como dimensão da atenção em Cuidados Paliativos

By admin in Crônicas de pesquisas on janeiro 30, 2020

Por Lucía Copelotti

Entendidos como uma especialidade médica orientada à atenção de pacientes com diagnósticos de enfermidades que ameaçam a continuidade da vida, os Cuidados Paliativos constituem uma forma particular de assistência baseada em princípios que visam o acolhimento, o conforto, o controle da dor, o alívio do sofrimento, mais do que a busca pela cura. Em outros termos, a partir da constituição de equipes de saúde multidisciplinares, essa especialidade clínica busca promover a humanização da morte através da identificação das necessidades e preferências do paciente quanto ao tipo de cuidado e tratamento médico em um processo cujas decisões terapêuticas envolvem a pessoa doente e também seus familiares.  Essa especialidade clínica goza, portanto, de uma natureza ambígua. Por um lado, assim como qualquer outra especialidade médica, é protocolar, segue uma rotina pré-estabelecida de atenção à saúde. Por outro, está baseada nas demandas particulares dos pacientes, o que muitas vezes coloca o próprio protocolo à prova. De alguma maneira, os cuidados paliativos não estão à margem da prática clínica, mas pelo contrário, eles constituem sua franja, a partir do qual a clínica transforma seus protocolos.

Em seus princípios, os Cuidados Paliativos procuram distanciar-se do modelo hegemônico de gestão dos cuidados, pautado em um ideal de assistência altamente tecnológico, racionalizado e impessoal. Nesse contexto, a morte e o morrer passam a ser concebidos como um processo, administrado e gerido pela equipe multiprofissional – constituída por médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outras especialidades – cuja proposta assistencial volta-se à humanização dos cuidados diante da finitude da vida a partir da comunicação aberta; das decisões consensuais e informadas entre paciente, familiares e a equipe médica; da afirmação da morte como um processo natural; e da reivindicação do uso apropriado da tecnologia e da medicalização na promoção do conforto e alivio da dor.

Tais formulações e definições dos cuidados paliativos, característica do conjunto das pesquisas feitas até o momento no Brasil sobre o tema, positivam essa modalidade médica, enfatizam seus benefícios e seu papel disruptivo com relação à biomedicina. Ao fazê-lo, contudo, perdemos de vista as controvérsias que envolvem o tema, não apenas éticas, mas também situações que expõem, por exemplo, as tênues fronteiras entre o secular e o religioso nos hospitais quando surge uma demanda por atenção espiritual, ou ainda, como é o caso desta pesquisa, quando a própria equipe médica hospitalar assume o lugar de atenção ao espírito. Por essa razão, parece relevante perguntar, então, como “religião e espiritualidade” são tratadas pelos agentes do campo da saúde nas rotinas de cuidado a pacientes com diagnósticos de enfermidades que ameaçam a continuidade da vida?

Nesta pesquisa, o meu interesse está centrado na possibilidade de indagar acerca do papel desempenhado por esses agentes de saúde no processo de inclusão da espiritualidade no horizonte assistencial e na produção de formas particulares de conceber, de manipular e administrar o par religião-saúde na prática clínica. Para tanto, o universo de análise desta investigação é, justamente, o processo de institucionalização e legitimação dos cuidados com a dimensão espiritual da saúde no âmbito dos cuidados paliativos.

O deslocamento do foco analítico da esfera religiosa para a esfera da prática clínica não é casual, e busca dar conta das dinâmicas próprias desse fenômeno de institucionalização do par espiritualidade e saúde, marcado, entre outros aspectos, pela ressignificação do perfil dos especialistas responsáveis pela promoção do cuidado e do conforto espiritual em contextos hospitalares. A assistência à espiritualidade da pessoa doente, função tradicionalmente desempenhada por agentes religiosos, vem sendo incorporada cada vez mais por profissionais de diferentes especialidades médicas, e pode ser observada tanto na recorrência da categoria espiritualidade, e sua distinção em relação à religião, nos documentos, guias e manuais orientados à regulação da prática clínica em cuidados paliativos; quanto na proposição de instrumentos de diagnóstico, como escalas e questionários, utilizados para aferir, por exemplo, o nível de desconforto e sofrimento espiritual do paciente.

Assim, diante desse cenário parece pertinente questionar: Como especialistas conjugam a prática biomédica com o cuidado da espiritualidade dos pacientes? Como se constituem os protocolos de atenção à dimensão espiritual da saúde nas rotinas de atendimento em contextos hospitalares? Em que termos é possível estruturar a oferta de cuidados espirituais em instituições oficiais de assistência à saúde? Estas são algumas das questões que mobilizam minha pesquisa e que pretendo responder ao longo da investigação.

Disciplinas sobre saúde e espiritualidade nos cursos de medicina em universidades brasileiras

Disciplinas sobre saúde e espiritualidade nos cursos de medicina em universidades brasileiras

By admin in Crônicas de pesquisas on janeiro 30, 2020

Por Florencia Chapini

Os estudos sobre o vínculo de espiritualidade e saúde cresceram e no caso do Brasil, intensificou-se nos anos 2000, com a consolidação de grupos e fóruns em diferentes universidades e organizações médicas. Esse fortalecimento levou a lecionar disciplinas dedicadas ao tema em cursos de medicina em universidades do Brasil. Onde em alguns casos misturam-se pesquisa e a prática clínica.

No 33° Congresso Brasileiro de Psiquiatria no ano 2015 o tema da espiritualidade esteve pressente em três atividades diferentes, a palestra “Pesquisas em espiritualidade e saúde”, o curso “A espiritualidade na prática clínica” e o “Encontro mundial espiritualidade e saúde mental” (Toniol, 2019). Um dos professores convidados nesse Congresso tem um grupo de estudo que além de oferecer disciplinas onde se trata o tema, tem um atendimento gratuito no Núcleo de estudos em saúde e espiritualidade (Nesme) na Universidade Federal Fluminense.

Por outro lado, na Universidade de São Paulo e na Universidade Juiz de Fora, começam a institucionalizar-se grupos de pesquisas dedicados ao tema, como o Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade da Faculdade de Medicina (ProSer) da USP ou o Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES) vinculado ao Programa de Pós-graduação de Medicina na UFJF. O primeiro desenvolve pesquisa dedicadas as possíveis relações entre espiritualidade e saúde; e o NUPES é um grupo coordenado pelo médico e psiquiatra Alexander Moreria de Almeida, quem também dirige as seções de espiritualidade e psiquiatria da Associação Mundial de Psiquiatria e da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Na Universidade Federal do Ceará a professora Eliane Oliveira é pioneira em o tratamento da relação de medicina e espiritualidade. Segundo o site, a UFC foi a primeira universidade em ditar uma disciplina optativa, a mesma coordenada por Oliveira. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul foi oferecida no ano 2016 pela primeira vez.

O objetivo desta pesquisa é analisar o desenvolvimento das disciplinas dedicadas à relação entre saúde e espiritualidade na graduação de medicina em universidades brasileiras fazendo foco nas mudanças ou novas modalidades na noção de pessoa. Para isso se propõe indagar o contexto de surgimento das disciplinas, a trajetória profissional no tema dos docentes responsáveis, e por fim o recebimento dessas disciplinas dos estudantes. Concebo as disciplinas como processos de aprendizagem que têm particularidades contextuais, mas que institucionalmente apontam para a crescente legitimação do tema da espiritualidade no âmbito da saúde. É ao ensino desse novo segmento médico de atenção à saúde que essa pesquisa se dirige. Ao fazê-lo também avanço sobre um melhor entendimento, a partir das ciências sociais, dos usos da noção de espiritualidade.

Entrelinhas: um mapeamento da atuação da Constelação Familiar Sistêmica em ambientes secularizados no Brasil

Entrelinhas: um mapeamento da atuação da Constelação Familiar Sistêmica em ambientes secularizados no Brasil

By admin in Crônicas de pesquisas on outubro 7, 2019

Por Greta Garcia

A Constelação Familiar Sistêmica, abordagem terapêutica não-convencional desenvolvida pelo filósofo e teólogo Bert Hellinger ao longo do século XX, pode ser apontada como própria dos campos do conhecimento como o holístico e o fenomenológico. A terapia propõe, via métodos metafísicos, a melhora ou até mesmo a cura de alguma questão que possa estar causando algum tipo de tormento ou bloqueio na vida do indivíduo que a experiencia. Em contrapartida às práticas médicas convencionais, a Constelação Familiar opera a partir do chamado Pensamento Sistêmico, teoria fundamentada na existência de um sistema de consciência coletiva ligado à sabedoria e proteção ancestral, que ramificam-se e atuam de forma ativa na vida de todos os indivíduos. 

A teoria busca, assim, acessar pontos ainda intocados do inconsciente para reconhecer a reprodução de padrões comportamentais que estruturam os êxitos e infortúnios de um determinado sistema familiar e, consequentemente, dos indivíduos que a ele pertencem. Diante disso, deparo-me com uma interessante questão: a aparente ligação da Constelação Familiar com o holístico não tem se apresentado como um fator de inibição para a sua presença e consolidação na esfera pública oficial; mas sim o oposto. É curioso observar como a Constelação conquista cada vez mais legitimação e espaço dentro de contextos institucionais, burocratizados e seculares de prestação de serviços públicos de atenção à saúde. 

Sobretudo na última década, o volume de pesquisas acadêmicas sobre o tema cresceu exponencialmente, convertendo-o num importante elemento de intersecção entre universos como o da psicologia, das ciências sociais, do direito, da educação e da saúde; Desta forma, os últimos (e próximos) anos representam um momento chave para a integração da prática da Constelação Familiar em ambientes oficiais, secularizados e gestados pelo Estado. Esta integração pode ser identificada como mais um sintoma de que, desde a segunda metade do século XX, a área da saúde vem dedicando maior atenção à dimensão espiritual dos indivíduos, assim como aos seus desdobramentos na sociedade. 

À vista disso, o que minha pesquisa propõe é traçar um mapeamento da introdução da Constelação Familiar a ambientes institucionalizados, utilizando como referência algumas questões fundamentais, como, o que o aumento urgente dos olhares sobre a Constelação, por parte da academia, tem a nos dizer sobre a especificidade desta prática? De que formas a Constelação Familiar tem se feito presente e estabelecida como técnica válida à dimensão da saúde, tendo em vista sua adesão às políticas públicas também nas áreas da educação, da psicologia e do direito? E até, de quais formas a Constelação passa a adquirir legitimidade em seus atuais universos de atuação e, qual o perfil de profissionais ali atuantes?

Atualmente a pesquisa encontra-se em seus primeiros momentos, o que costuma me levar a pensar que, a partir das investigações bibliográficas e de campo, as coisas possam tomar um rumo diferente que não imagino agora. Ainda que diante de dadas incertezas, é certo que compreender o processo de institucionalização da Constelação Familiar como política de atenção à saúde pode abrir novos cenários para reflexões sobre as relações estabelecidas entre práticas reconhecidas como holísticas e/ou espirituais, secularismo e espaço público, além dos seus movimentos de incorporação ao cotidiano das instituições.

Espiritualidade na América Latina: agências globais e políticas públicas de saúde locais

Espiritualidade na América Latina: agências globais e políticas públicas de saúde locais

By admin in Crônicas de pesquisas on setembro 29, 2019

Por Lucas Bolonha

Como resoluções de agências globais de saúde são adotadas na oficialização de políticas públicas de saúde? Em políticas que tensionam a categoria espiritualidade, como é mobilizado o par espiritualidade e saúde? Como o contraste entre a política brasileira de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) e políticas de outros países latino-americanos revela uma parte da rede dessas relações?

Uma vez que meu projeto, incorporado no projeto “Espiritualidade institucionalizada”, repousa nos desdobramentos das questões apresentadas, busco mostrar como a noção de espiritualidade é formulada e contribuir para elucidar a cadeia de atores que fazem a rede de resoluções da Organização Mundial da Saúde (OMS) até políticas públicas de saúde locais possível. Além disso, me atento às requisições de uma análise que evoca América Latina, que implica também em construir um debate que foge daquele norte-atlanticêntrico e coloca a antropologia brasileira em diálogo com uma literatura até então restrita ao seu processo de internacionalização.

Meu problema de pesquisa é então constituído a partir do aumento progressivo que vem ocorrendo desde 1999 em âmbito global de países que oficializam o uso das terapias alternativas/complementares. No contexto latino-americano, o processo de oficialização dessas terapias encontra na constituição de políticas públicas de saúde a mobilização de duas categorias: medicina tradicional (MT) e medicina alternativa e complementar (MAC), e pode-se identificá-las a partir do público que têm acesso a elas.

Enquanto no Brasil as mobilizações realizadas são aquelas da categoria MAC que tem abrangência universal de acesso à população, em outros países do continente as mobilizações foram referentes à categoria MT em que as terapias têm seu público de acesso restrito. Essas políticas públicas encontram legitimidade via global nas resoluções da  Organização Mundial da Saúde, principalmente naquela em que espiritualidade é difundida como uma dimensão da saúde humana. Nesse sentido, entende-se que a categoria espiritualidade é acionada na oficialização das terapias alternativas/complementares, sendo mobilizada de diferentes maneiras para atingir objetivos específicos, seja de interculturalização ou de universalização.

Se reconhecer as políticas públicas de saúde que oficializam as práticas integrativas/complementares no Brasil e o entrelace dessa política com as resoluções da OMS já revela uma ampla parte da cadeia de atores e da mobilização das categorias espiritualidade e saúde, observá-las em contraste com outros países da América Latina aumenta ainda mais este espectro da rede e este modo próprio de articulação do continente. Nesse sentido, busco contribuir para maiores formulações, já que a pesquisa permite o contraste tanto da mobilização da própria categoria, quanto de outros alinhamentos para as mesmas resoluções globais.

Para dar conta dessa análise, tomo como apostas os países que se destacam na elaboração de políticas públicas de saúde no continente latino-americano: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia e Uruguai. Contudo, enfatizo que esses países são tanto uma aposta quanto um ponto de partida. Ou seja, meu interesse não recai especificamente sobre eles, mas os toma como porta de entrada visto que são referência na elaboração políticas de saúde e no acesso a elas, bem como são produtores de modelo para o restante do continente.

Por fim, para fechar esta breve apresentação sobre meu tema de pesquisa, apresento meus procedimentos analíticos, que estão sendo pensados divididos em três movimentos. O primeiro diz respeito à construção do banco de dados de políticas voltadas para a inscrição de MT/MAC em sistemas oficiais de saúde, buscando, quando necessário, documentos ainda não digitalizados. O segundo é o de comparação dessas políticas, em que irei me apropriar da literatura das ciências sociais que diz respeito sobre comparação de políticas, ensejando contribuir para o debate acerca de um continente ainda pouco explorado e de articulação específica. O terceiro e último movimento é a realização de entrevistas com os agentes que participaram da elaboração dessas políticas, para assim obter informações da articulação empregada da categoria espiritualidade, bem como as tensões implicadas na escolha.

Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro

Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro

By admin in Crônicas de pesquisas on setembro 17, 2019

Por Isabela Mayumi

Em junho de 2001, a Revista Veja publicou a matéria “Em busca de Deus”, discorrendo acerca das tentativas dos cientistas de romper as barreiras entre a fé e a ciência. Em fevereiro de 2007, a Revista Galileu publicou “O monge cientista”, focalizando o interesse do 14º Dalai Lama pela ciência como um método complementar ao budismo na busca pela verdade. Anos depois, em novembro de 2013, a revista de curiosidades científicas SuperInteressante publicou “Fé faz bem” e, no mês seguinte, a Revista Saúde É Vital publicou “Fé pode (mesmo) curar”.

Essa sucessão de publicações em revistas de circulação nacional não são as únicas que trouxeram à tona o eixo temático “saúde-espiritualidade-ciência”, e podem ser compreendidas como desdobramentos de um movimento que vem se consolidando há algumas décadas, explorado nas pesquisas que compõem o projeto “Espiritualidade Institucionalizada”. Das pesquisas médico-científicas até a formulação de políticas públicas voltadas à saúde, perpassando a literatura médica e documentos oficiais, é notável um crescente reconhecimento da associação entre espiritualidade e saúde.

Dialogando com este contexto, minha pesquisa buscará analisar os textos de divulgação científica em revistas e jornais brasileiros que veiculam a espiritualidade como um fator positivo à saúde ao chamado “público leigo”. Essas publicações são dedicadas a, por um lado, difundir as pesquisas médico-científicas que dizem respeito aos benefícios da espiritualidade para a saúde e, por outro, positivar a fé no atual cenário brasileiro. Numa breve análise inicial, há uma certa demanda desses textos, algo que pode ser explicado pelo fato de que cada indivíduo pode constituir sua experiência espiritual ao passo do detrimento da adesão a uma prática religiosa institucionalizada.

Como o consumo por parte desse público pode, de alguma maneira, auxiliar na legitimação dos benefícios da espiritualidade à saúde? Quais são os recursos acionados na elaboração de tais textos, sobretudo no mercado editorial brasileiro? E, ademais, quais são as consequências da formulação da espiritualidade como uma questão de saúde? Qual é o trajeto de uma pesquisa, conduzida em uma universidade, até a produção de sua versão de popularização? Quais são os temas mais recorrentes nessas publicações? Quem e quais instituições estão por trás desse fenômeno de popularização? Como isso tem se estabelecido no mercado editorial brasileiro? É através destes questionamentos que pretendo desenvolver minha pesquisa.

Espiritualidade, ciência e saúde são temas-chave identificáveis em passagens de livros e outras mídias, porém as publicações em revistas e jornais no mercado editorial brasileiro se caracterizam, precisamente, pela sua natureza secular. É necessário que haja um especial cuidado para que essas publicações não se confundam com obras de literatura religiosa, bastante consumidas no Brasil, em que a cena religiosa é marcada pelo crescimento evangélico e por outras expressões de fé, embora a maioria da população seja católica. Assim, é preciso compreendermos os mecanismos de divulgação e transmissão de informações dessas publicações, num arranjo ainda provisório e em construção.

Espiritualidade Política

Espiritualidade Política

By admin in Uncategorized on agosto 30, 2019

No mês de agosto, Rodrigo Toniol, coordenador do projeto de pesquisa “Espiritualidade Institucionalizada”, publicou uma resenha crítica do livro “O Enigma da Revolta”. Disponibilizamos aqui os links para o texto em sua versão em português, publicada no Jornal O Estado de São Paulo, e em castellano, publicada no blog da Red Diversa. Também mencionamos uma entrevista realizada com Toniol sobre o tema, publicada pelo Instituto Humanitas, da Unisinos.

Texto em português – https://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/espiritualidade-politica-e-nossa-imaginacao-de-outros-futuros/

Texto em castellano – http://www.diversidadreligiosa.com.ar/blog/foucault-y-la-espiritualidad-politica/?fbclid=IwAR21SH5s5MQAlci169ZrdLzDzWY6KvVBIdeGVdtoyilhomUXeT53sp5hOGM

Entrevista – http://www.ihu.unisinos.br/592089-espiritualidade-politica-e-a-possibilidade-de-outros-futuros-entrevista-especial-com-rodrigo-toniol