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Espírito por Josef Sorett

Espírito por Josef Sorett

By admin in Publicações on junho 23, 2020

Texto original de Josef Sorett para The Immanet Frame

Tradução por Lucas Baccetto

…com o espírito ao nosso lado, buscamos seus sinais…

Como alguém liga ou traça os limites ao redor de uma investigação sobre o termo “espírito” ou “espíritos”? Talvez esse seja o desafio para todas as palavras. Toda e qualquer palavra, uma interação ou um artefato da linguagem e da cultura. Eu estou afirmando o óbvio, daí a importância de um projeto como este, “Um Universo de Termos”. Mesmo no interior dos itens de uma instalação que revisita o volume editado por Mark C. Taylor em 1998, Critical Terms for Religious Studies, o termo “espírito(s)” pareceria especialmente instável, promiscuo em sua recusa em ter seu sentido fixado. Nós buscamos seus sinais, diz Joe Wood em 1992. O espírito se move de maneiras misteriosas, eles dizem.

Isso ocorre de tal modo que, de alguma forma, o espírito não foi incluso no volume editado por Taylor. Como isso foi possível, dada a centralidade do termo na história da filosofia e teologia ocidentais e, portanto, para o campo dos estudos de religião? Como podemos explicar sua ausência no Critical Terms, que foi publicado no mesmo ano do agora clássico trabalho do sociólogo Robert Wuthnow, After Heaven, sobre a espiritualidade norte-americana (um sinal da importância do termo que desde então apenas cresceu, de discussões de espiritualidade à possessão espiritual)? São perguntas importantes, mas eu as deixarei para outro dia, eu acho.

Se não é com o volume original de Taylor ou com o estado do campo de estudos, então por onde se pode começar? Talvez retornando à repetição particular desse termo, que mobilizou grande parte da minha própria pesquisa: o espírito precedido pelo qualitativo racial. Ou, como Joe Wood colocou: o espírito negro. Como essa configuração pode ajudar (ou dificultar) em nossos esforços na busca dos sinais?

Antes, uma confissão (e um spoiler): eu tendo a detestar quando dicionários ancoram uma análise. Ainda assim, me vejo fazendo precisamente esse mesmo movimento, esperando encontrar um ponto fixo para começar (ou concluir) essa breve reflexão. Sem qualquer surpresa, a consulta ao dicionário de língua inglesa Merriam-Webster confirmou imediatamente minhas suspeitas e me frustrou ainda mais. Quatorze sentidos diferentes, vários com dois ou mais subsentidos dentro deles; desde “lealdade entusiástica” até “uma inclinação, impulso ou tendência de tipo específico: estado de espírito”. Espírito, ao que parece, é definido por um excedente de sentidos. Espírito, então, é bem parecido com a quarta definição de “promíscuo”: “composto de todo tipo de coisas”. O segundo sentido do espírito, talvez, seja o que faça mais sentido no contexto dos estudos de religião: “um ser ou essência sobrenatural”. Ou não, já que até mesmo essa essência é dividida em quatro subsentidos menores.

Então, eu me volto para as minhas estantes de livros para conseguir melhores pistas, ou ao menos uma lembrança útil. Sendo um pesquisador da religião e da cultura afro-americana, meus livros deveriam pelo menos limitar meu campo:

Não tenho tanta sorte. Aleatória, não científica e de modo algum representativa, essa amostra apresenta muito e conta pouco, no sentido de nos situar em algum lugar. Esses noves títulos, antigos e novos, oferecem uma noção do quão amplo é o terreno, mesmo quando os subtítulos sugerem caminhos evidentes que o espírito percorreu.

O que acontece quando espírito(s) é amarrado a um adjetivo? Um qualitativo racial, por exemplo? Tornar o espírito negro ajuda a esclarecer alguma coisa? Ou nos confunde ainda mais? Nenhum termo figurou tão proeminentemente na essência do meu trabalho que espírito. As fontes primárias me levaram a essa direção. Muitos dos artistas e intelectuais que encontrei na investigação de meu primeiro livro, Spirit in the Dark, se valeram do que eu acabei chamando de uma “gramática do espírito”. Espírito, espíritos, espiritual, espiritualmente. Espírito preto, raça espírito, espírito racial, espírito negro. Espiritualidade dos velhos tempos e nova espiritualidade. Esses foram apenas alguns dos termos escolhidos por eles. Por sua vez, argumentei que o espírito (e essa constelação de termos relacionados) providenciou uma gramática através da qual se debatia a cultura e a arte negra, assim como o significado mesmo de negritude, durante grande parte do século XX.

Cada vez que dou uma palestra sobre meu livro, sou recebido com uma série de perguntas semelhantes, quase invariáveis. Como estou definindo espírito? Seria o espírito, para mim, uma coisa real? Eu estou falando sobre o Espírito? Eu entendo o espírito em termos literários em vez de literais (como se essa distinção fizesse sentido)? É uma metáfora? Um tropo? Minha resposta frequente tem sido um simples “sim”. Melhor ainda: “todas as opções acima”. Com a mesma frequência, eu não forneci resposta alguma, redirecionando a atenção de volta às fontes. Tomando emprestado de Rainer Maria Rilke: “ame as perguntas!” Mas talvez essa recusa seja injusta ou inadequada. Embora eu a imagine servindo a um propósito pedagógico – um convite a pensar além, de forma mais profunda e mais próxima –, talvez as vezes uma resposta simples seja merecida. Lembrando da frustração permanente de meus alunos com essa abordagem, eu passei a reconsiderá-la. Mesmo assim, havia uma esperança de que, ainda que de forma indireta, ao atender a uma gramática do espírito que fora tipicamente marcada como racial, pudéssemos encontrar uma nova ou distinta entrada na nossa forma de pensar sobre religião.

Muita tinta acadêmica já foi gasta nos últimos anos sobre a natureza co-constitutiva de raça e religião. Por exemplo, em seu livro mais recente publicado em 2017, New World A-Coming, Judith Weisenfeld analisa com perspicácia as novas religiões negras que emergiram durante a primeira metade do século XX, as quais ela nomeia como “religio-racial”. Ou podemos considerar como Robert Jones chama a atenção, para um público mais popular, para a longa sombra racial (muitas vezes não nomeada) lançada pelo cristianismo nos Estados Unidos, em seu livro de 2016, The End of White Christian America. Como Weisenfeld observa corretamente (e o título do livro de Jones sugere), todas as religiões são formações raciais. Só que as brancas tendem a não ser nomeada como tais.

Correndo o risco de ser chamado de reducionista, quanto mais penso sobre o assunto, mais venho a acreditar que o estudo da religião na América do Norte é o estudo da raça. Citado na epígrafe deste ensaio em sua reflexão sobre Malcom X e a identidade e cultura negra nos anos 1990, o falecido escritor e editor Joe Wood ligou o espírito a, mais simplesmente, “um ethos compartilhado”. Notavelmente, a definição de Wood não se sobrepõe a nenhuma das vinte e três oferecidas pelo dicionário Merriam-Webster. Além disso, ele escreve: “O espírito negro nunca significou uma coisa ou qualquer coisa concreta, o que é seu grande poder e fracasso.” No dizer de Wood, negritude e espírito se encaixam. Espírito – em preto e branco – é talvez o termo que melhor media esse emaranhamento fundamental entre raça e religião, assim como as assimetrias que animam e fornecem contexto para o lugar do termo na história norte-americana. Ele ilumina e frustra nossos melhores esforços em entender suas incontáveis configurações. E nós mesmos. Melhor ainda, você poderia dizer (na verdade, eu diria) que o espírito da religião na América do Norte é, como um historiador coloca, “o encontro do negro e branco”.

***

Josef Sorett é professor associado de religião e Estudos Afro-americanos e da Diáspora Africana na Columbia University, onde também dirige o Centro de Religião Afro-Americana, Política Sexual e Justiça Social. Ele é o autor de Spirit in the Dark: A Religious History of Racial Aesthetics (Oxford, 2016). O próximo livro de Josef, O Santo Santo Negro: As ironias de um secular afro-americano, será lançado (Oxford, 2020). 

Imagem: Obra sem título de Ayelén Arrigo

Espiritualidade e Ambientalismo

Espiritualidade e Ambientalismo

By admin in Novidades on junho 18, 2020

No dia 16 de maio de 2020, Isabel Carvalho, professora da UNIFESP e pesquisadora do NUES, participou dos Diálogos Pré Simpósio de Educação Ambiental e Transição para as Sociedades Sustentáveis. A palestra foi sobre Espiritualidade e Ambientalismo, organizada pelo Laboratório de Educação e Política Ambiental, Oca (ESALQ/USP) e mediada pela doutoranda Rachel Trovarelli.
Em sua fala, a pesquisadora abordou o conceito de Espiritualidade dentro dos estudos das Ciências Sociais da Religião. Situou a noção de Espiritualidade no contexto de secularização na modernidade, caracterizando a espiritualidade como a expressão de uma religiosidade laica, que se distancia das religiões institucionais e se aproxima do Movimento “Nova Era”. Destacou como “Mística Ecológica” o deslocamento das religiões da transcendência, que entendem o sagrado como uma dimensão fora deste mundo, para um “Sagrado Ecológico” que percebe o sagrado como uma dimensão imanente, isto é, presente neste mundo, e particularmente associada aos poderes restauradores e curativos da natureza. Por fim, identificou os principais marcadores desta perspectiva de espiritualidade nas práticas ambientalistas.

Disponibilizamos o vídeo desta fala fazendo click aqui, para quem tiver interesse no assunto

 

Espírito por Emily Ogden

Espírito por Emily Ogden

By admin in Publicações on junho 16, 2020

Texto original de Emily Ogden para Immanent Frame

Tradução por Isabela Mayumi

O que quer que espírito seja – e o termo possui muitos significados – você geralmente precisa se livrar de alguns obstáculos para chegar a ele. Esses obstáculos podem ser corpo e paixão, como quando o espírito está pronto, mas a carne é fraca. Eles podem ser algo material, como quando a essência dos chifres de um veado-vermelho se diferencia da galhada de um cervo. Tais obstáculos podem ser os eventos contingentes opostos ao Espírito Absoluto da História, como em “Fenomenologia do Espírito” de Hegel. Quando nos dizem que o avião de Charles Lindbergh é chamado de “O Espírito de São Luís” [Spirit of St. Louis], ou que um desodorante tem cheiro de espírito adolescente, nós deveríamos nos lembrar apenas dos melhores e mais sublimes aspectos dessas coisas. Uma lista bastante parcial do que é tirado de nossos conceitos de adolescência ou de St. Louis deve incluir suor, corpo, gênero, infraestrutura urbana, segregação racial e política – em resumo, tudo o que cheira mal. O espírito do Espírito, se você me permite dizer, é demolição.

O espírito nas experiências de transe dos séculos XVIII e XIX nos EUA não é exceção. Espiritualistas estadunidenses ativos durante a segunda metade do século XIX contatavam o além utilizando uma variedade de técnicas mediúnicas. Os médiuns eram pessoas capazes de transformar os seus corpos em canais de comunicação com o outro mundo. Às vezes os espíritos usavam o corpo do médium para escrever, falar ou fazer gestos; outras vezes eventos peculiares, como barulhos desencarnados ou violões tocando sozinhos, aconteciam exclusivamente na presença do médium. Crucialmente, os médiuns eram canais transparentes: passavam mensagens sem intervir nelas.  A mediunidade estava portanto relacionada com outras formas de experiência, como o despertar Protestante, as visões Shaker e os encontros Quaker, em que o recebimento direto do espírito surgiu como a eliminação de obstáculos institucionais, seja clerical ou textual, seja do individual e do divino. 

Os espíritos transmitiam mensagens e performances de diversos tipos, incluindo notícias de alguém querido ou algum ilustre falecido, pistas de onde algum objeto perdido poderia estar, visões de uma sociedade mais igualitária, e fantasias racistas nas quais os médiuns personificavam povos indígenas, ou seja, brincavam de índio. Entre os vários tipos de comunicação espiritual, um se destacou por tensionar diretamente a reputação anti-hierárquica do espírito. Esse gênero pode ser chamado de organograma vatic [vatic org chart]: imagina-se a “Terra do Verão” [Summerland], o céu espiritualista, como um lugar onde o entrecruzamento de esferas, os círculos e as conexões elétricas são tão difíceis de serem rastreadas quanto as partes de uma instituição complexa. O que pensamos sobre o espiritualismo ter re-inserido a hierarquia no céu, quando esta parecia ser a prática explicitamente projetada para ser eliminada? Em outras palavras, por que a Terra do Verão é tão burocrática?

Tanto Andrew Jackson Davis, que se tornou teólogo não-oficial do espiritualismo, quanto o médium Joseph D. Stiles tinham visões desse tipo. Enquanto que o anti-clericalismo de Davis, em Os Princípios da Natureza [The Principles of Nature], chama o clérigo de o mais “inviável” e “corruptor” das profissões, seu céu é uma hierarquia de seres que habitam amplamente ao menos sete esferas, algumas com sub-esferas, cujo contato é controlado conforme os graus de iluminação. Stiles descreve extensivamente as hierarquias do céu, com níveis, círculos e linhas de conexão liaison, representadas por carga elétrica. Em certa passagem, o espírito de Samoset preside um círculo, presumivelmente mais baixo do que o de Benjamin Franklin. Cada círculo está em uma esfera diferente, e independentemente do nível acontecem trocas elétricas entre os dois círculos, e assim Franklin dá choques em Samoset*. Davis e Stiles visualizaram a dinâmica do poder nos canais oficiais do céu, mesmo quando as práticas espiritualistas da Terra aparentemente desejassem afastar tais formalidades.

Assim, a libertação da burocracia se parecia muito com a burocracia. A libertação parecia a metástase, e não a ausência, de restrição. Isso é muito ruim? É tão ruim quanto parece? O que está em jogo na cópia espiritualista da hierarquia é a questão de sua liberdade: eles acabaram reproduzindo, sintomaticamente e apesar de si mesmos, precisamente o que estavam tentando escapar, simplesmente por que não dá para escapar de nossas condições históricas? Questões desse tipo tornaram-se bastante comuns nas ciências humanas. Visualizar o poder em termos de um discurso circulante que não pode ser localizado em um soberano e que não pode, portanto, ser escapado, os(as) pesquisadores(as) podem sentir como se seus sujeitos – e eles mesmos(as) – fossem pegos, na apropriada expressão de Rita Felski, “em uma teia sem aranha”. 

Portanto, uma vez que a liberdade do sistema está em jogo para os espiritualistas, acho que uma situação afetiva provavelmente está em pauta aos acadêmicos das humanidades dessa área: um afeto que poderíamos chamar de “melancolia foucaultiana”. O estado de melancolia foucaultiana é aquele em que você se indaga com alguma angústia, ou talvez agora com tédio, não há saída para o sistema? Não existe um personagem dessa narrativa que escapa à sátira geral? Não há uma única mariposa que mantém suas asas livres? Não existe um lá fora?

Faz e não faz sentido que o trabalho de Michel Foucault inspire esses estados desagradáveis. Faz sentido pois ele nos oferece o modelo imensamente influente de modernidade, caracterizado pela ascensão da instituição total e pelo poder que nos põe em seus calendários e exames, em vez de nos quebrar na roda de Santa Catarina. Não faz sentido porque Foucault raramente é visto, se é que foi visto, preocupado. Se existe uma melancolia foucaultiana, Foucault não sofreu disso. Ele é um escritor malicioso, satírico e lírico, mas em geral não angustiado. Na verdade, ele parece ter um certo prazer na poiésis de nossas respostas ao poder; seu Carlos Lineu “sonha” em “caligramas botânicos”. Os devaneios de Lineu o afundaram no sistema, não o levaram para fora dele. Então não há liberdade, se você acha que liberdade é encontrar a saída. Mas há poesia. 

Susan Stewart chama de “a liberdade do poeta” a capacidade de construir e destruir. Aqui, a liberdade não é escapar da matrix, mas adotar a posição do arquiteto fantástico em relação à imagem do espelho da matrix. Stewart descreve um garoto que constrói um castelo de areia com “torres, fossos, paredes internas, entalhes talhados pela ponta de uma colher para marcar onde as janelas ficariam”. Com seu trabalho completo, ele de repente destrói o castelo – não com ressentimento, mas com prazer. Stewart comenta: “Sem a liberdade de reversibilidade promovida pelo desfazer… Não podemos dar valor à nossa criação”. Com a destruição, “o garoto parecia devolver o poder da forma de volta a si mesmo”. 

Se pensarmos nesse sentido, o espírito da burocracia da Terra do Verão pode ser afinal um certo tipo de espírito livre. Como uma hierarquia clerical, um castelo – afinal uma fortaleza medieval – é uma tecnologia de poder. O garoto de Stewart reivindica esse poder como dele para usar ou destruir. Ele o torna tão frágil quanto ilimitado. A poíesis frágil também se encontra nas fantasias organizacionais espiritualistas. A fragilidade está no fato de que raramente os organogramas articulam-se entre si. As esferas de Davis são concêntricas ou o quê? Samoset e Franklin estão apenas flutuando em algum lugar? Eu ainda nunca tive sucesso em desenhar esses sistemas no papel; talvez seja eu, mas suspeito que eles sejam esquematizados sem de fato serem esquematizáveis (para seu crédito, Davis tentou). O poder de fazer esses sistemas existirem, e então deixá-los colapsar sob o peso de sua impraticabilidade, é o que Davis e Stiles declaram ser em nome do espírito. Cabe a eles chutar o castelo no ar. A mariposa desliza na danificada teia de aranha. Desta vez, demolição realmente funciona.

*Robert Cox tem uma excelente discussão dessa cena em Body and Soul (Nota da autora).

 

Emily Ogden (@ENOgden, www.emilyogden.net) é professora associada de inglês da Universidade da Virgínia e autora de Credulity: A Cultural History of US Mesmerism (Universidade de Chicago Press, 2018). Ela escreveu para o New York Times, Critical Inquiry, Lapham’s Quarterly Online, American Literature, J19, Public Books e Early American Literature. Sua coluna regular aparece em 3 Quarks Daily.


            
O cosmos Moqoit e a astronomia científica

O cosmos Moqoit e a astronomia científica

By admin in Publicações on junho 11, 2020

Texto original de Alejandro López para DIVERSA

Tradução por Laura Andare

A União Astronômica Internacional (UAI) realizou neste ano um concurso no qual cada país deveria nomear um exoplaneta (planetas que giram em torno de uma estrela que não o nosso sol) e a estrela que ele orbita. Para nosso país (Argentina), foram atribuídos o exoplaneta HD 48265b e sua estrela anfitriã. 

Após um longo processo de propostas e votação, foram escolhidos alguns nomes propostos por uma comunidade indígena da região do Chaco. 

É a primeira vez que um nome é proposto internacionalmente para um objeto astronômico que não apenas está no idioma de um povo originário, mas também surgiu de um trabalho realizado com a própria comunidade de falantes desse idioma. E é especialmente importante que tenha acontecido este ano, declarado o Ano Internacional das Línguas Indígenas pela Unesco, iniciativa à qual a UAI aderiu. Para conseguir tal feito, foram realizados esforços especiais para incentivar os membros das comunidades dos povos originários de nosso país a proporem nomes que lhes parecessem significativos a estes objetos, que são visíveis apenas por um telescópio. 

A proposta vencedora vem de uma comunidade do povo Moqoit. Os Moqoit são um povo originário da região do Chaco, cuja língua é relacionada ao Qom e ao Pilagá. Existem mais de 18.000 Moqoit vivendo no Chaco, em Santa Fe, em Corrientes e em Buenos Aires. Originalmente caçadores-coletores que se mudavam sazonalmente por grandes territórios, foram violentamente forçados, no final do século XIX, a se instalarem em pequenos pedaços de terra e a viverem como trabalhadores rurais. Apesar de significativos massacres acontecidos durante a primeira metade do século XX, a enormes pressões para que abandonassem sua língua e costumes, e a grandes desigualdades econômicas e sociais, os Mosqoit conseguiram manter uma cultura viva e criativa. Hoje, vivem em comunidades rurais, bairros urbanos e periurbanos. 

 

Para os Moqoit, o cosmos é moldado pelas várias sociedades humanas e não humanas que o habitam, cujos vínculos são regulados pelo poder. Seres com mais poder têm uma maior diversidade de corpos, podem viajar mais livremente pelo cosmos e têm acesso a maiores recursos. Os humanos precisam se unir a estes seres para tornar a vida possível. O céu é especialmente visto como um espaço particularmente poderoso e fértil. Ligado ao feminino, a abundância na terra depende do céu. É por isso que ele recebe muita atenção, e seus ritmos estão associados aos de plantas, animais e ao clima, o que levou os Moqoit a ter um conhecimento detalhado do céu e dos astros. 

Nas últimas décadas, um número crescente de Moqoit se formou como professores interculturais bilíngues. Estes professores constituem um elo importante entre os jovens, o conhecimento dos antepassados Moqoit e o conhecimento da sociedade não aborígene. Na comunidade “El Pastoril”, uma das comunidades Moqoit mais importantes da província do Chaco, há uma escola secundária com um albergue para estudantes que oferece a primeira carreira terciária bilíngue e intercultural Moqoit, instituição essa cuja gestão é comunitária. 

Neste contexto, jovens professores como Abel Salteño refletem sobre o passado, o presente e o futuro. Salteño, um Moqoit que vive na comunidade “El Pastoril” e é professor bilíngue intercultural Moqoit, trabalha no Centro de Estudio Superior Bilingüe Interculturalde Moqoit (CESBIM) de sua comunidade e em terciários da cidade de Villa Ángela e Coronel Du Graty. Ele leciona, entre outras matérias, a de Cultura e Línguas Originárias e Cosmovisão, em Faculdades bilíngues e não bilíngues. 

Abel propôs para a estrela o nome de Nosaxa, que em Moqoit designa a primavera, entendida como um momento crucial ligado à renovação do ciclo anual. Para o planeta que a orbita, propôs o nome de Naqaỹa, “irmão”, a forma como os Moqoit se referem a alguém entendido como família, na esperança de que assim nos vejamos como próximos aos astros. 

Alejandro López é astrônomo, antropólogo e pesquisador associado da Conicet no Instituto de Ciências Antropológicas da Faculdade de Filosofia e Letras (UBA). Desde 1999, ele estuda as maneiras pelas quais os grupos indígenas do Chaco estão ligados, pensam e constroem idéias sobre o céu.

Tradutora: Laura Andare é Cientista Social formada pela UNICAMP e Arte Educadora. Compõe o NUES e tem desenvolvido pesquisa sobre o processo de institucionalização da Arteterapia no SUS. 

 

Espírito por Peter van der Veer

Espírito por Peter van der Veer

By admin in Publicações on junho 8, 2020

Texto original de Peter van der Veer para The Immanent Frame

Tradução por Laura Andare

Conceitos como “espírito” ou “matéria” ou “corpo” escapam a definições exatas. São produtivos precisamente pela sua indeterminação. Isto possibilita usá-los em contextos amplamente diversos. São mais sugestivos do que precisos. Qual a relação, por exemplo, entre o Espírito Santo, parte da trindade do cristianismo, com o Geist transcendental Hegeliano da história, ou com a variedade de espíritos que são incorporados por pessoas mundo afora? À primeira vista, talvez nenhuma. Mas, por outro lado, Pentecostais falam em línguas quando em possessão espiritual, e parece haver uma noção quase Hegeliana no Cristianismo de que a história é movida por um propósito transcendental. As ricas tradições espirituais e possessões espirituais do Islamismo que encontram sua máxima expressão nos cultos Sufi têm sofrido ataques de movimentos escrituralistas que os veem como antitéticos ao núcleo teológico Islâmico. No entanto, pode-se encontrar por todo o mundo muçulmano uma conexão vibrante entre cura religiosa e controle sobre o mundo espiritual. Quando usamos a palavra inglesa “spirit”, conectamos diferentes universos semânticos contidos na tradição Ocidental, mas também invocamos, de fora do Ocidente, outras tradições e seus debates. 

Espiritualidade, termo derivado de espírito, é um dos conceitos mais importantes para se entender a modernidade. Ela adquire um novo significado na era da experimentação científica, e no contexto do nacionalismo e do imperialismo então recém emergentes. Viu-se uma grande ascensão do interesse em espíritos e espiritualidade na segunda metade do século XIX. Na década de 1850, na França, Allan Kardec comunicava-se com espíritos através de uma prancheta, uma tábua acoplada a um lápis, que permitia a escrita automática guiada pelos espíritos. Ele escreveu uma série de livros, intitulados coletivamente de “Codificação Espírita”. 

Importantes intelectuais franceses, como Victor Hugo, tornaram-se seguidores entusiasmados do Espiritismo. Em 1878, Madame Helena Blavatsky e  Coronel Henry Olcott, que lutou pelo Exército da União durante a Guerra Civil Americana, fundaram a Sociedade Teosófica (Theosophical Society) em Nova Iorque. Como muitos outros que estiveram naquela guerra, Olcott adquiriu interesse pela comunicação com os espíritos dos mortos. No ano de 1874, em uma viagem para Vermont em visita à família Eddy – conhecidos pelo sucesso na comunicação com espíritos – conheceu Madame Blavatsky, uma russa que afirmava ter visitado o Tibet. Ela seria capaz de se comunicar não só com os espíritos, mas também com os Mestres do Universo, que estavam no Oriente. Blavatsky fez a jogada mestra de associar a comunicação com espíritos e a espiritualidade, tradição ilimitada do misticismo.

A arte abstrata Moderna é uma marca da modernidade. Wassily Kandinsky e Piet Mondrian, grandes pioneiros da arte abstrata do começo do século XX, compreendiam a passagem da representação para a abstração como “espiritual”. Em Über das Geistige in der Kunst (Do Espiritual na Arte), um dos mais influentes textos produzidos por um artista no século XX, Kandinsky refere-se a Blavatsky como grande inspiração. Do mesmo modo, Mondrian foi diretamente inspirado pela leitura de Isis Unveiled (Ísis sem véu), de Blavatsky, em seu uso da forma geométrica. Em 1909, Mondrian se tornou um membro da Sociedade Teosófica. Para ambos, a espiritualidade forneceu uma via de exploração da realidade além dos métodos convencionais da ciência e do materialismo. 

A espiritualidade foi (e ainda é) vista como mais abundante no “Oriente” do que no “Ocidente”, que era tido como materialista e hiper-racional. O Oriente era um lugar de imaginação espiritual, acessível a um público ocidental através da conquista colonial e da tradução de orientalistas. Asiáticos não eram recipientes passivos do processo de orientalização, mas seus promotores ativos. O Indiano Swami Vivekananda, que se tornou famoso por sua performance no Parlamento Mundial de Religiões de Chicago, em 1893, teve imenso sucesso em sua propagação do Yoga como a base científica da espiritualidade Hindu. Seu consorte Bengalês, Rabindranath Tagore, o primeiro asiático a ganhar um prêmio Nobel de Literatura, tentou ir além de fronteiras nacionais ao promover uma espiritualidade Pan-Asiática. Tal empreendimento foi obstado quando intelectuais japoneses qualificaram o pacifismo de Tagore como uma marca de um povo colonizado, contrapondo-o a uma espiritualidade japonesa de tons belicosos. 

A espiritualidade poderia ser entendida como uma alternativa unificadora e universalista às divisões religiosas, raciais e étnicas entre povos, mas também poderia ser construída como característica de uma nação: o espírito da nação. Esta tensão nunca foi, de fato, resolvida. Líderes espirituais como Mahatma Gandhi ou o Dalai Lama, simultaneamente, difundiram uma mensagem universal e lutaram pela independência nacional. O nacionalismo frequentemente combina uma variedade de tradições culturais e religiosas em uma espiritualidade unificadora que caracteriza um povo específico. Em vez das fechadas tradições religiosas, especialmente as institucionalizadas em igrejas, a espiritualidade poderia ser usada para transcender divisões. 

A moderna “invenção” ocidental da espiritualidade teve que se adequar ao rico repertório de tradições do espírito e da possessão espiritual do Oriente. Madame Blavatsky e Coronel Olcott tentaram se alinhar ao Hinduísmo, mas para a India Hindu não se deve comunicar com os espíritos dos mortos, e sim evitá-los e deixá-los em paz. Já na China, isso se altera. As formas mais originárias de escrita, na China, foram escritos espíritas. Este tipo de escrita não pretendia imprimir o discurso humano à escrita, mas sim comunicar com os espíritos. Eles eram signos talismânicos que permitiam ao escritor se comunicar com os poderes ocultos do universo, ou mesmo controlá-los. Cultos de escrita espírita eram uma parte crucial da religião no Sul da China até serem reprimidos pelo Estado Comunista nos anos 50. 

Talvez a definição Victoriana de Edward Tylor, da religião como uma crença em seres espirituais, seja arquetípica da ubiquidade dos espíritos no mundo de nossa imaginação. Espírito pode ser usado como um termo contrastante, em oposição a “matéria” e “corpo”. Mas o espírito é materializado na escrita e incorporado na possessão espiritual, conectando o mundo imanente com o transcendente em uma miríade de formas.

Peter van der Veer é é antropólogo. Diretor do Instituto Max Planck para o Estudo da Diversidade Religiosa e Étnica em Göttingen e professor emérito da Universidade de Utrecht. Seus trabalhos incluem estudos comparativos entre Índia e China.                                                                                                                                                                                                  

Tradutora: Laura Andare é Cientista Social formada pela UNICAMP e Arte Educadora. Compõe o NUES e tem desenvolvido pesquisa sobre o processo de institucionalização  da Arteterapia no SUS. 

Tarô e pandemia

Tarô e pandemia

By admin in Novidades on junho 4, 2020

Texto original de Mariana Ábalos Irazábal para DIVERSA

Tradução: Florencia Chapini

Tarô como ferramenta de bem-estar em tempos de Facebook e coronavírus

Nos tempos atuais, devido ao avanço da pandemia de coronavírus (COVID-19), uma extensa gama de reações está se tornando visível por amplos setores da população que recorrem a diferentes práticas espirituais em resposta ao problema. Essas práticas são abordadas como ferramentas válidas para a busca do bem-estar pessoal em um contexto de crescente crise social. Nesta ocasião, quero compartilhar uma experiência recente que tive a esse respeito.

Mobilizada pela curiosidade, há alguns dias entrei para um grupo no Facebook chamado “Unidos pelo tarô”. Foi criado há três anos, possui mais de 3.500 participantes de diferentes países de língua espanhola e uma dinâmica de cerca de 600 novas publicações mensais continuamente atualizadas através dos comentários dos diferentes membros. Ao contrário de outros grupos de tarô nos quais a interação é gerada principalmente com base na demanda-oferta de leituras de cartões, “Unidos pelo tarô” é apresentado como um grupo de estudo e troca coletiva de conhecimentos, e é por isso que despertou meu interesse.

Em 17 de março, solicitei minha aceitação (é um “grupo privado”) para entrar e foi aprovado em alguns minutos, o que eu percebi como um sinal de que o administrador moderava regularmente o grupo. Mais tarde, essa ideia foi confirmada, vendo diferentes publicações de benvinda aos novos membros quase diariamente. Assim que entrei, fiz uma revisão geral e fiquei surpresa com o número de publicações feitas no mês de março sobre o problema do coronavírus. O número total compreende mais de 10 publicações, que por sua vez têm muitas respostas. Vi posts com menos de 5 comentários, assim também algumas de mais de 100, e eles ainda continuam gerando retornos e engajamento, então o número continua a crescer diariamente. Levando em consideração o conjunto de publicações e comentários, é apresentado um número total mais do que relevante de pessoas interagindo sobre o mesmo assunto, entendido como um problema global.

Analisando os posts dos usuários, identifiquei que a maioria eram de leituras sobre quais são as características da pandemia e sobre quanto tempo a situação de rápida disseminação do vírus se espalhará e as estratégias atuais de isolamento social para mitigá-lo. A lógica mais comum da interação no grupo é que uma pessoa publique fotos de sua tiragem, juntamente com sua interpretação. Abaixo, o restante dos usuários comenta suas opiniões a esse respeito, se eles diferem ou concordam com a leitura ou até respondem com fotos de suas próprias jogadas de tarô na mesma pergunta / tópico. Os baralhos de tarô consistem em 78 cartas divididas em dois grandes grupos – arcanos maior e menor -, portanto, o leque de combinações possíveis de cartas que podem surgir em uma leitura é grande. Além disso, os esquemas usados ​​para baixar as letras ou os métodos de leitura são heterogêneos, com dezenas de formatos. Mesmo assim, poderia haver uma maneira de ler as cartas para cada leitor de tarô, pois eles sustentam que é possível gerar um vínculo único e inigualável entre a pessoa e suas cartas, portanto cada um possa inventar sua própria estrutura de leitura de acordo com seu conforto ou conexão sincera. Adicionado a tudo isso é o fato de que, embora os 78 arcanos sejam geralmente os mesmos, os designs de cartões em termos de cores e figuras são muito diversos entre os baralhos. Este não é um elemento menor, uma vez que algum recurso destacado em um baralho (por exemplo, para onde o olhar do personagem representada é direcionado) não é tão importante em outro, e esses são detalhes que, ao ler, são cuidadosamente observados pelos tarotistas para sua análise.

O que mais chamou minha atenção foi que, apesar do panorama heterogêneo e dinâmico descrito no parágrafo anterior, ao analisar as postagens dos usuários, encontrei mais coincidências do que discordâncias entre si. Quando confrontados com perguntas como “Qual é a situação atual em que estamos vivendo?”, “Quanto tempo durará a pandemia / quarentena”, “Será encontrada uma solução?” Ou apenas tiragens gerais focadas no coronavírus sem uma pergunta específica, a maioria das leituras coincidiam. Com o uso de diferentes baralhos, diferentes rotações e a presença de arcanos muito heterogêneos em cada ocasião, quase todos os intérpretes chegaram a conclusões comuns. Elas envolveram principalmente a concepção do vírus como consequência das ações humanas e seu modo de vida, com base na exploração excessiva do meio ambiente. Por outro lado, também apontaram a qualidade do rápido nível de disseminação que ele apresenta e a dificuldade de sua resolução, pois é um vírus novo. Finalmente, eles concordaram que a cura seria realmente encontrada e o fenômeno não duraria “por muito tempo” – um período de dois ou três meses a mais – até que seja efetivamente controlado pelos países. Há também quem interpretou as leituras de maneira diferente, dizendo que isso será resolvido apenas em 2021 ou, inclusive, alguns leram nas cartas que a vacina já existe e não está sendo usada devido à manipulação comercial entre países. No entanto, esses foram os casos minoritários quantitativamente e não tiveram grande repercussão ou apoio dentro do grupo.

Neste ponto, quero me aprofundar um pouco mais na análise das leituras sobre a duração do “tempo” do coronavírus. Embora houvesse alguns aventureiros que ousaram ditar os meses em que a pandemia chegaria ao fim – e dentro deles, a maioria concordou que será durante o período de abril a junho – eles eram realmente poucos em comparação com o número de total de postagens sobre o coronavírus. Mais pessoas comentaram se uma vacina apareceria ou não, mas sem calcular “quando”. Ao mesmo tempo, muitos mais se limitaram a dar uma característica geral da situação e convidar a refletir sobre ela e a responsabilidade que o ser humano tem, tanto em sua origem quanto em sua resolução. Isso me enviou diretamente para identificar o evento como um exemplo claro do processo de psicologização que o tarô está passando e, além disso, para explicar o novo uso que está sendo feito dele, de acordo com certos aspectos da espiritualidade da New Age. Historicamente, o tarô era valorizado principalmente como uma ferramenta de adivinhação. Nos últimos tempos, essa situação foi gradualmente modificada. Hoje, a prática do tarô como uma ferramenta holística, espiritual e terapêutica – chamada “tarô terapêutico” – é muito mais difundida do que seu uso como uma ferramenta para “clarividência / adivinhação”. Por sua vez, existem outros elementos presentes na prática terapêutica do tarô que podem ser analisados ​​como vinculados ao movimento de espiritualidade da New Age. Por exemplo, o fato mencionado acima de que não é estabelecida uma maneira “única” ou “oficial” de jogar e interpretar cartas, mas que a autonomia de cada pessoa é respeitada, pois é sua “intuição” que os guiará a faça uma leitura correta. Também a concepção do uso terapêutico do tarô como um processo de aprendizagem que será alcançado gradualmente, cada tarotista no seu tempo, a partir do seu desenvolvimento e crescimento espiritual. Finalmente, a noção de que a pessoa e suas cartas estão conectadas entre si e, ao mesmo tempo, ligadas ao “tudo” ao redor, o cosmos, a natureza. Portanto, o tarô ressignificado como uma ferramenta terapêutica – e não mais principalmente como um método de adivinhação – implica entender que, através de uma leitura de cartas, o jogador de tarô mobiliza energias que podem afetar seu ambiente geral em diferentes graus, já que o ser humano está em constante comunhão com o “tudo”.

Apesar das diferentes interpretações, o nível de detalhe proposto e das reuniões / divergências de opinião entre os participantes, identifiquei que havia uma constante em todas as postagens. Essa constante tinha a ver com o apelo à auto-reflexão, conscientizar sobre o impacto das ações humanas e valorizar os entes queridos e as coisas que, devido ao ritmo de vida que se tem, geralmente permanecem em segundo plano (este último incentivado como resultado do isolamento obrigatório como medida preventiva). Apesar dos fios das postagens e comentários começarem com a foto de uma tiragem em busca de informações específicas sobre o coronavírus, sobre como o processo se desenvolverá ou o possível tempo de conclusão, eles acabaram sendo espaços de reflexão coletiva entre os participantes do grupo. Havia também uma expressão aberta de emoções, idéias e desejos sobre o assunto e, ligada a isso, a vida em geral. O resultado visível do discurso expresso em cada comentário é o de um sentimento de bem-estar geral entre os participantes, de apoio mútuo, de contenção coletiva. Essa expressão de uma sensação de bem-estar e positividade ocorreu mesmo quando as postagens leem a pandemia como algo que ainda gerará muitas mortes e conflitos, com os próprios participantes guiando a publicação para um fechamento positivo que criaria um ambiente de conforto e crescimento através da reflexão.

Considero que é um caso muito interessante para explicar a existência de processos contínuos de sacralização da vida cotidiana que, em tempos de crise social como a vivenciada pelo coronavírus, tendem a aumentar e adquirir novas formas. Numa época em que até a confiança depositada – por exemplo – nos governantes se torna um tanto frágil para a população, as diferentes práticas espirituais têm centralidade e legitimidade no cotidiano dos atores, como forma legítima de buscar seu bem-estar pessoal. Ao mesmo tempo, é um caso que serve para visualizar muito claramente os processos de hibridação contemporâneos que estão ocorrendo entre diferentes práticas espirituais e psicoterapias. Nesse caso, os comentários dos participantes do grupo promoveram continuamente a introspecção, compartilhando sentimentos, pensamentos. Tudo isso como uma estratégia reflexiva para o crescimento, baseada no autoconhecimento e na auto-reflexão, um caminho que levaria à melhoria pessoal e ao bem-estar acima mencionado, que por sua vez impactaria positivamente em aqueles que rodeiam a pessoa. Por fim, para os usuários desse grupo, neste momento de forte isolamento social em que a maioria das interações sociais ocorre por meio de redes sócio-digitais, o tarô se torna um grande aliado / amigo com o qual interagir pessoalmente e onde encontrar um pouco de “calma” e contenda no meio do “caos”.

Mariana Abalos Irazábal é Licenciada em Sociología pela Universidad de San Martín(UNSAM / Conicet). Sua tesina foi sobre a construção de identificações pessoais, sociais e colectivas em templos afroumbandistas.

Políticas de espiritualidad: una agenda de investigación/ Políticas de espiritualidade: uma agenda de pesquisa

Políticas de espiritualidad: una agenda de investigación/ Políticas de espiritualidade: uma agenda de pesquisa

By admin in Novidades on junho 2, 2020

El día 22 de mayo, el profesor y coordinador del proyecto “Espiritualidad institucionalizada” Dr. Rodrigo Toniol, realizó la conferencia “Políticas de espiritualidad: una agenda de investigación” organizada por el Instituto de Sociedad y Religión (ISOR) de la Universidad Católica del Uruguay.

Gracias a la invitación del director del ISOR, Nestor Da Costa y con la mediación de Valentina Pereira,  Toniol explica la trayectoria realizada como investigador en el tema y presenta el proyecto que actualmente coordina con las diferentes líneas de investigación que lo componen. Dejamos el video a disposición para quienes tienen interés en el tema y aprovechamos para difundir el proyecto en español.

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No día 22 de maio, o professor e cordenador do projeto ” Espiritualidade Institucionalizada” Dr. Rodrigo Toniol, fez a conferencia “Políticas de espiritualidade: uma agenda de pesquisa” organizada pelo Instituto de Sociedade e Religião (ISOR) da Universidade Católica do Uruguai.

A partir do convite do diretor do ISOR, Nestor Da Costa e com a mediação da Valentina Pereira, Toniol explica a trajetória realizada como pesquisador sobre o assunto e apresenta o projeto que atualmente coordena com as diferentes linhas de pesquisa que o compõem. Disponibilizamos o vídeo para quem tiver interesse no assunto e aproveitamos a oportunidade para divulgar o projeto em espanhol.

 

Seminário Virtual: Reações Religiosas à COVID-19 na América Latina/ Reacciones Religiosas al COVID-19 en América Latina

Seminário Virtual: Reações Religiosas à COVID-19 na América Latina/ Reacciones Religiosas al COVID-19 en América Latina

By admin in Novidades on junho 1, 2020

Convidamos a todos e todas para o seminário: Reações religiosas à COVID-19 na América Latina. O Laboratório de Antropologia da Religião (LAR/UNICAMP) em parceria com a revista Ciências Sociais e Religião imaginaram este evento buscando refletir sobre três dimensões da pandemia:

a) a reinvenção das práticas religiosas decorrente da virtualidade, da mediação tecnológica e do isolamento corporal;

b) os sentidos e moralidades religiosos em torno do novo coronavírus;

c) as controvérsias públicas envolvendo religião e pandemia.

No site do Laboratório de Antropologia da Religião divulgaremos os/as participantes dentro de alguns dias, mas por hora, pedimos para todas as pessoas interessadas reservarem a data (30/06 a 02/07) para acompanhar o evento conosco!

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Invitamos a todos y todas al seminario: Reacciones religiosas a COVID-19 en América Latina. El Laboratorio de Antropología de la Religión (LAR / UNICAMP) en asociación con la revista Ciencias Sociales y Religión imaginó este evento buscando reflexionar sobre tres dimensiones de la pandemia:

a) la reinvención de las prácticas religiosas resultantes de la virtualidad, la mediación tecnológica y el aislamiento corporal;

b) los sentidos religiosos y la moralidad alrededor del nuevo coronavirus;

c) controversias públicas relacionadas con la religión y la pandemia.

¡En la página del Laboratorio de Antropología de la Religión anunciaremos a los/as participantes en unos días, pero por ahora, pedimos a todas las personas interesadas que reserven la fecha (30/06 al 02/07) para seguir el evento con nosotros/as!

A imagem do cartaz é de Gabriel Abrantes/ La imagen del póster es de Gabriel Abrantes.

Fôlego Global

Fôlego Global

By admin in Novidades on maio 28, 2020

Texto original de Peter van der Veer para Religious Matters

Tradução de Cecilia Bastos e Thaís Assis

Há mais de dez anos, publiquei um artigo intitulado Global Breathing, que discute a história social das técnicas de respiração em práticas espirituais na Índia e na China – tais como Yoga e Qi Gong. As tradições hindu, taoísta e budista entendem o controle sobre a respiração não apenas como essencial para a vida, mas também para o crescimento espiritual. Tal ideia é compartilhada inclusive por algumas tradições cristãs e islâmicas. O artigo explorou a nacionalização e a globalização dessas técnicas que encontraram audiência muito além da Índia e da China. No momento atual, testemunhamos a globalização de um vírus que ataca nossa habilidade de respirar e nenhuma técnica espiritual está disponível para manter o controle sobre a respiração. É preciso confiar em dispositivos mecânicos para assumir nossa respiração enquanto lutamos contra o vírus.

No auge da crise do Corona: um passo além das máscaras

 

O coronavírus é um ataque ao corpo, tanto o corpo individual quanto o político. Na mídia, a atenção se volta para este último. Nenhum governo do mundo estava preparado para este ataque; pelo contrário, muitos governos locais e nacionais tentaram restringir a circulação de informações sobre o vírus ao invés de, com antecedência, controlar sua disseminação. O principal acusado é evidentemente o governo chinês que revelou ter obtido pouca experiência na epidemia de SARS. Outros governos, notavelmente aqueles dos Estados Unidos, Irã e Brasil, demonstraram ausência de uma administração responsável a seus modos. Ao mesmo tempo, cada um culpa todos os outros pelo despreparo. No imaginário dos cidadãos, a expectativa era que os governos estivessem preparados para enfrentar algo que ameaça a humanidade há gerações. O fracasso foi espantoso, mas ironicamente, obteve altas taxas de aprovação pela gestão de crise. A relação entre ciência e política é um dos aspectos mais importantes desse equívoco. Basta ler a descrição feita por Richard Evans sobre o gerenciamento do surto de cólera em Hamburgo, na segunda metade do século XIX, para se dar conta de que pouco mudou a esse respeito.

Outro aspecto pode ser designado como cultural. Um vírus originário da e propagado pela China parece ter sido considerado como um vírus chinês e um problema exclusivo do país. Por algum motivo, na Holanda e no Reino Unido a difusão da ideia de um vírus chinês esteve ainda vinculada aos efeitos do desenvolvimento da conexão 5G. Terroristas atearam fogo em inúmeras torres de telefonia celular para coibir a disseminação do vírus. É difícil não imaginar se as respostas políticas e científicas teriam sido tão lentas quanto foram caso o vírus tivesse se manifestado inicialmente na Alemanha ou nos Estados Unidos. Apesar das décadas de globalização nas quais o papel da China foi central, o país continua a ser visto com tanto distanciamento que considera-se que as coisas que acontecem por lá não afetam o Ocidente. Em uma escala menor, nota-se algo correlato na reação imediata dada por Singapura – cuja maioria dos cidadãos possui origem chinesa – ao surto na China, acentuada pela negligência quanto aos trabalhadores migrantes do sul da Ásia, que são tratados como se não existissem.

Apesar dos discursos que afirmam a necessidade de demonstrar solidariedade em meio à crise, é evidente que as desigualdades sociais e diferenças raciais estão se tornando mais perceptíveis em escala global. Depois de um período inicial no qual os chineses e outros imigrantes asiáticos vivendo em países ocidentais foram submetidos a difamação por serem considerados portadores da doença, autoridades chinesas passaram a discriminar racialmente africanos que vivem no país. O crescimento da xenofobia contra os estrangeiros na China é vertiginoso. No sul da Ásia, milhões de pobres trabalhadores imigrantes estão condenados a sofrer com os lockdowns, enquanto as estatísticas revelam que, nos Estados Unidos, as populações com ascendência africana ou hispânica morrem em taxas desproporcionais.

A mídia acompanha esses acontecimentos políticos em detalhes e há muita discussão política nas redes sociais. Quero chamar atenção para algo que merece destaque: o corpo individual e a conceituação do corpo nas respostas culturais ao vírus. Passamos a tomar consciência da frequência com que tocamos o rosto e lavamos as mãos. A experiência urbana típica de estar “na cara” (ou diante) do outro também se transforma em um estar longe “da cara” (ou do alcance) do outro[1]. Essas disciplinas do corpo e das emoções que daí são produzidas merecem reflexão. O que mais me impressionou foram dois fenômenos enigmáticos. O primeiro é o uso de máscaras faciais. Enquanto as sociedades do Leste e Sudeste Asiático não demonstram nenhuma objeção a usá-las, as ocidentais apresentam grande resistência. Grande parte do debate nos países ocidentais se pauta por questões aparentemente racionais, como a eficácia das máscaras faciais, seu uso por crianças ou pessoas com deficiência ou sua disponibilidade. Por trás dessas discussões racionais está o incômodo em não mostrar o rosto, a expressão da individualidade. Existe um receio de produzir uma sociedade de massa sem rostos. Há também o medo de perder o controle do próprio corpo, principalmente quando os protocolos são decretados pelas autoridades. A máscara se torna um sinal de obediência coletiva à autoridade externa. Tais sentimentos coletivos já haviam se revelado na oposição patente ao uso do véu muçulmano e a outras formas de recato islâmicas. Mostrar o rosto parece ser um requisito imprescindível para participar de sociedades ocidentais.

 “Use uma máscara”: um pôster do Ministério da Cultura e Política de Informação da Ucrânia

Tais sentimentos não são compartilhados na Ásia oriental. O Japão é, sob muitos aspectos, a principal potência condutora da modernidade asiática. A máscara facial foi amplamente aceita após a gripe espanhola (de fato americana) e, em geral, os japoneses são muito metódicos em sua higiene. Lavar as mãos regularmente e usar luvas são práticas comuns, que fazem parte de um senso cívico de consideração quanto ao outro. Os chineses, por outro lado, não são famosos por seu estilo de vida higiênico. Até recentemente, era bastante comum encontrar vendedores de rua idosos. Após o SARS 1 e 2, os mercados “úmidos” tornaram-se conhecidos por serem terrenos férteis para vírus perigosos. Mesmo assim, as máscaras faciais se tornaram uma norma da vida pública, especialmente com a crescente conscientização dos altos níveis de poluição do ar na China. Isso também se aplica a grandes partes do sudeste asiático. Parece que a prudência ocidental em relação a perder as feições ao usar uma máscara não incomoda as sociedades que sempre foram retratadas em termos de ter ou perder o respeito[2].

A outra resposta corporal à ameaça viral que me impressionou foi a corrida de alemães e holandeses em busca de papel higiênico. Por que o papel higiênico é uma necessidade tão absoluta? Antropologicamente falando, o banheiro é o espaço liminar entre cultura e natureza. Enquanto alguém tiver papel higiênico, ele é digno e poderá enfrentar o vírus que é um lembrete persistente do fato de que fazemos parte da natureza. A vulnerabilidade natural do corpo no banheiro requer práticas que sustentem uma distância civilizada da natureza. Novamente, existem algumas diferenças significativas nas sociedades asiáticas, muitas delas preferem o uso da água e, novamente, os japoneses são os líderes da cultura moderna com seus sistemas sanitários espetaculares. Nos banheiros indianos, por outro lado, há um pequeno recipiente com água. A mão esquerda é usada no banheiro e a mão direita no contato com alimentos. Ao mesmo tempo, pessoas de castas elevadas quase nunca limpam seus banheiros, utilizando o trabalho de pessoas nascidas na casta dos intocáveis para fazer isso. Um aspecto importante da reforma social viabilizada por Gandhi foi promover a limpeza dos banheiros por quem o utiliza. Na China rural, o papel higiênico é raro, enquanto na China urbana os sistemas de esgoto geralmente não são capazes de processar papel higiênico. Somente em Hong Kong houve grande procura por papel higiênico, talvez para mostrar que Hong Kong faz parte da civilização ocidental.

Finalmente, a resposta corporal mais significativa ao ataque viral é a morte, o fim do corpo. Nesse aspecto, as sociedades asiáticas e ocidentais têm algo em comum. A morte é negada de maneiras variadas, é um tópico evitado, relegado a hospitais e necrotérios. Embora a morte ocorra constantemente, nunca antes houve estatísticas diárias de mortes. Na Holanda, é impressionante o quão secular é a resposta à inevitável mortalidade de pessoas. Há ansiedade, até mesmo medo, especialmente de morrer sozinho sem a presença de familiares e amigos, mas não se encontram respostas religiosas. A morte e o luto pelos mortos costumava ser uma área privilegiada de interesse religioso. Somente o trabalho de campo pode nos ajudar a descobrir como tem sido as respostas na Ásia, mas trabalho de campo é algo que não podemos fazer hoje em dia.

[1] Nota das tradutoras: no texto original, há a oposição entre “being in each other’s face” e “being out of each other’s face”, o que indica um contraste entre coisas que são visíveis ou que as pessoas fazem em público e coisas que encobrem essas expressões ou distanciam os indivíduos.

[2] Nota das tradutoras: no texto original, o autor fez um trocadilho ao escrever “having face” e “losing face”. Na cutura chinesa, a expressão “to lose face” indica a perda da reputação de alguém, no sentido de honra ou moral, por isso, consideramos a palavra respeito adequada para a tradução.

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Peter van der Veer é antropólogo. Diretor do Instituto Max Planck para o Estudo da Diversidade Religiosa e Étnica em Göttingen e professor emérito da Universidade de Utrecht. Seus trabalhos incluem estudos comparativos entre Índia e China.

Tradutoras: Cecilia Bastos é doutora em Ciências Sociais pelo PPCIS da UERJ e pesquisadora em Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ. Thaís Assis é doutoranda em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Possui experiência na área de Sociologia da Religião, privilegiando temas ligados a espiritualidades e terapias holísticas.

 

“E LA NAVE VÁ”: FELLINI, PANDEMIA E A VIDA NUA

“E LA NAVE VÁ”: FELLINI, PANDEMIA E A VIDA NUA

By admin in Novidades on maio 26, 2020

Texto de Isabel Carvalho

Resumo

Este artigo analisa alguns dos efeitos da pandemia do novo Corona Virus para as sociedades capitalistas, tanto do ponto de vista das suas consequências para vida coletiva quanto para a experiências das pessoas. Toma como analogia o último filme de Fellini “E la Nave Vá”, onde um cruzeiro luxuoso é surpreendido durante seu trajeto pelo início da Primeira Guerra Mundial. O artigo dialoga com publicações recentes sobre a pandemia, nas ciências sociais. Desenvolve como argumento central que a epidemia nos confronta com o que Agamben chamou de vida nua: a irrupção da vida biológica, de uma conexão natural desconhecida, que excede todos os cálculos da vida política e se impõem, num tempo curto, como uma fatalidade intransponível. É neste ambiente que somos confrontados diuturnamente com a vida nua, a fragilidade das pessoas e a precariedade da sociedade. A queda dos ativos financeiros e a alta do dólar. A desaceleração da economia caminha lado a lado com as medidas de isolamento social e as projeções de colapso dos serviços de saúde, falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) para os profissionais da saúde e respiradores para os doentes. As medidas de contenção envolvem higiene e distanciamento social. Estradas barradas, cidades fechadas, voos cancelados, comércio suspenso, trabalho em casa e desemprego. Muito da vida pública foi transferida para dentro dos apartamentos. As janelas se transformam em espaços de sociabilidade, palco das manifestações políticas contra o governo e dos aplausos para os profissionais da saúde. O texto interroga sobre que efeitos podemos esperar após a epidemia. Haverá um futuro? Para quem e em que condições? O que se passará em sociedades tão desiguais como o Brasil? Haverá algum aprendizado social proveniente deste período de isolamento, mortes, lutos e medos? O que a vida nua, deste tempo de catástrofe, evocará como respostas?

Texto completo

Anunciada pelos cientistas, antecipada pelo cinema mas ignorada como realidade provável pela maioria dos governos e populações, a pandemia chegou, tornando-se um acontecimento de difícil contestação. Um de seus principais impactos foi abrir um intervalo incomum no tempo ordinário, e lançar, através de uma fenda abrupta, enormes contingentes populacionais numa grande pausa. É como se, de um instante a outro, passássemos a viver numa espécie de lado avesso do mundo, onde os sinais se invertem. O afastamento passou a ser a medida de segurança, o próximo, mesmo íntimo, deve permanecer distante.  O espaço virtual se apresentou como um dos poucos refúgios seguros. O próprio corpo se tornou fonte e objeto de contaminação. Gestos espontâneos de auto contato têm que ser reprogramados. Os espaços públicos se transformaram em zonas de alto risco e o confinamento, obrigatório. As análises políticas e os pronunciamentos à nação deram voz à epidemiologistas, infectologistas, biólogos e matemáticos. Num mundo de grande mobilidade, deslocamentos foram impedidos e muitos ficaram onde estavam. Para diminuir a velocidade do contágio a Terra parou.

Um dos emblemas do início da pandemia foram os navios cruzeiros que, como no último filme de  Feliini, E la Nave Vá[1], se converteram de um dia para outro, de atividade de luxo de uma elite a quem tudo é permitido[2], em embarcações apátridas, vagando em quarentena, impedidas de aportar, enclausurados com seus doentes. Embora o filósofo italiano Giorgio Agamben (2020a e 2020b.), em dois artigos recentes sobre a epidemia na Itália, tenha preferido destacar os aspectos negativos do estado de exceção que permitiu ao governo o controle exacerbado dos corpos e comportamentos dos indivíduos, eu tomaria o conceito de vida nua, proposto em seu ensaio sobre o Homo Sacer (2007), para entender os efeitos, não apenas de exceção mas, sobretudo, excessivos do que estamos vivendo. A pandemia nos confronta com a vida nua: a irrupção da vida biológica, de uma natureza desconhecida e imprevisível que excede todos os cálculos da vida política e se impõe, num tempo curto, como uma fatalidade intransponível. Vivemos a primeira pandemia do século XXI. Uma onda de contágio espalha infecção e produz mortes em progressão geométrica. O vírus é invisível a olho nu e seus propagadores somos cada um de nós, agora convertidos em uma ameaça em potencial para nós mesmos e para todos os outros. Este agente atende pelo nome científico de Covid19.

É neste ambiente que somos confrontados diuturnamente com a vida nua. A fragilidade das pessoas e a precariedade da sociedade. A queda dos ativos financeiros. As reservas do combustível fóssil, que move as economias industrializadas, se acumulam para além da capacidade de estocagem dos países produtores. A desaceleração da economia caminha lado a lado com as medidas de isolamento social. Cresce o colapso dos serviços de saúde, a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) para os profissionais da saúde e respiradores para os doentes. As medidas de contenção envolvem higiene e distanciamento social. Estradas barradas, cidades fechadas, voos cancelados, comércio suspenso, as indústrias de serviços como o turismo e a cultura paralisadas, trabalho em casa, rápido declínio no uso do papel moeda e intensificação de uma economia digital, aceleração do desemprego e da precarização. Muito da vida pública foi transferida para dentro dos apartamentos. As janelas se transformam em espaços de sociabilidade, palco das manifestações políticas contra o governo e dos aplausos para os profissionais da saúde. O evento da Pandemia já foi chamado de um acelerador de futuros (MELO, 2020), tornando realidades, tendências que já estavam latentes. A questão é saber que futuros são estes e quem está incluídos neles.

São Paulo, por exemplo, mostra a sua cara: segregada. Dividida entre uma cidade dos que tem casas e janelas e outra que vive na rua. São Paulo contou a população de rua em 24.344 pessoas, no Censo da População em Situação de Rua, realizado pela Prefeitura Municipal no final de 2019. Uma população que, apesar de sua presença constante em todos os espaços da cidade, é solenemente invizibilizada. Existem, ainda, muitas outras cidades dentro da metrópole paulistana. As periferias e as favelas, por exemplo, onde o isolamento social e os cuidados de higiene têm que ser traduzidos para uma realidade sem saneamento básico, de baixa renda, e de grande aglomeração de pessoas que compartilham espaços precários e muito pequenos. A mesma população de baixa renda é a mais exposta ao vírus. É esta que continua se deslocando todos os dias, para manter seus empregos nos serviços essenciais que continuam funcionando como supermercados, farmácias, hospitais e limpeza urbana. Como sabemos desde os estudos de justiça ambiental, os riscos ambientais não se distribuem igualmente numa sociedade desigual, recaindo sobre os mais pobres, realidade que a Pandemia apenas reitera.

Parece que chegamos, pelas mãos de um vírus, ao cenário mais próximo do que há tempos vem sendo anunciado pelos cientistas sociais como a grande crise do capitalismo. Uma crise econômica e ecológica que evidencia uma profunda inflexão das nossas relações com o ambiente face à vulnerabilidade humana diante deste “nano” inimigo. Sua expansão parece ter tido origem num salto de sua origem em animais exóticos, onde é endêmico, para as biotas de hospedeiros humanos, seu território de conquista. O vírus é formado por uma estrutura simples e primitiva, constituída de um único filamento de RNA (ácido ribonucleico), envolvido por uma fina membrana esférica de gordura e proteína, ao ar livre, desidrata, seca e morre. No entanto, seu poder de disseminação e destruição nos organismos humanos, transforma este mínimo ente biológico no principal fator de colapso social do século XXI, só comparável a Primeira Grande Guerra Mundial, a Gripe Espanhola que a sucedeu e a grande depressão dos anos 30 do século XX. Como sugeriu Lilia Schwarcz (2020), a Pandemia pode ser o evento que, para além da cronologia, marca a experiência transição do século XX, um período de apostas nas tecnologias, para o XXI, nos remetendo às incertezas e aos limites dos nossos recursos técnicos e sociais.

Um momento doloroso para viver e raro para pensar. Afinal, como aconselhou o Papa Francisco (2020), não devemos desperdiçar estes dias difíceis.  A grande pausa freou abruptamente o imperativo da rapidez, virtude máxima da produtividade. No rastro desta aterrissagem forçada e turbulenta do nosso modo de vida, emergem, desconcertantes, alguns indícios daquele outro mundo possível que reivindicavam os Fóruns Sociais Mundiais, na virada do milênio. No entanto, neste caso, não se trata da utopia sendo realizada, mas de uma distopia que deixa todas as nossas expectativas em suspensão.

Com o avanço do contágio, os países afetados, cada um a seu tempo, foi parando. As imagens das metrópoles com suas ruas e pontos turísticos completamente vazios, se tornou recorrente. Também se fez notar a melhoria na qualidade do ar, em virtude da drástica redução das emissões de carbono na atmosfera. Os céus de Beijing, Nova Déli, Cidade do México, São Paulo, nunca estiveram tão limpos. Os canais de Veneza, sem o movimento turístico, exibem águas mais límpidas e calmas. A Bahia da Guanabara voltou a ser vista com águas calmas e, aparentemente, mais limpas. Os observatórios astronômicos mediram a diminuição do ruído da crosta terrestre, causado pelas movimentações humanas. Os astrônomos, agora, podem ouvir melhor a voz da Terra e acompanhar seus movimentos através dos ruídos sísmicos.

O centro de São Paulo silenciou e o viaduto Santa Efigênia foi fotografado, absolutamente vazio. Eu ouço da janela, pela primeira vez, os sinos da Igreja do bairro e o violino que a vizinha do prédio da frente, musicista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – OSESP, ensaia todas as tardes. Estas cenas emitem, ao mesmo tempo, sinais reconfortantes e estranhamente ameaçadores. A realidade não é mais a mesma e produz mensagens de duplo vínculo, desconcertando-nos.

Governos, porta-vozes de políticas neoliberais, devem prover saúde e renda para os mais vulneráveis. Depois de pelo menos quatro décadas de neoliberalismo e desinvestimento em sistemas de saúde e seguridade social, o mundo dos negócios clama pela intervenção do Estado. Fala-se em um novo Plano Marshall, renda mínima, solidariedade, políticas distributivas. Neste contexto, muito do que estava abaixo da linha d’água, latente, emerge. Redes de apoio mútuo, atendimento psicológico gratuito para profissionais do Sistema Único de Saúde – SUS, produção solidária, trocas não mercantis, movimentos por códigos abertos, militantes do acesso livre estão trabalhando no sequenciamento genético do vírus e produção de máscaras 3D. Muitas trilhas de compartilhamentos e cooperação têm sido abertas. Pesquisas científicas nunca foram tantas e tão rápidas sobre os múltiplos aspectos do novo vírus.

Por outro lado, analistas mais céticos advertem que não nos iludamos. Para José Luis Fiori (2020), por exemplo, o prognóstico para o Brasil era ruim e só vai piorar, e menciona a guerra por insumos, remédios e EPIs, reiterando a lógica egoísta de sempre. De fato, vimos nos noticiários das últimas semanas como os EUA agiram como piratas globais interceptando inúmeros carregamentos destes produtos, agora preciosos, desviando-os para os EUA, e deixando países como a Alemanha e o Brasil, sem as suas encomendas já realizadas destes bens.

Este raro momento, me faz pensar em Richard Sennett. Depois de ter escrito sobre os impactos sociais e emocionais dos processos de flexibilização do trabalho e precarização dos vínculos no novo capitalismo, ele concluiu que: “a ideia de encontrar uma alternativa não é um projeto utópico, mas algo que precisamos fazer porque esse sistema não funciona” (SENNET, 2012a)[3]. O Covid19, por onde passa, vai expondo, dolorosamente, esta desfuncionalidade do capitalismo, baseado na abstração do mundo financeiro, sem gente dentro, e na insustentabilidade nacional em setores como a produção de medicamentos, a pesquisa em ciência básica, e os serviços públicos de saúde. Todos os dias, como um pesadelo recorrente, contabiliza-se os infectados e os mortos. Os corpos são enterrados sem despedidas, em cerimônias fúnebres de uma hora, com um mínimo de familiares. Filmadas por drones, vemos as enormes valas comuns abertas no Bronx, na periferia de Nova Iorque, recebendo caixas de papelão com as vítimas da Pandemia, que se empilham, manejadas por guindastes. Forças-tarefa com roupas de astronautas e rostos cobertos trabalham para abertura de covas nos cemitérios de São Paulo. Cadáveres que excederam a capacidade do serviço mortuário são deixados na rua, em Guaiaquil, no Equador. A morte na pandemia não é uma morte bela, uma morte heroica, ou uma morte boa, entre os seus. É uma morte pária, sem contorno, tanto para os que se vão quanto para os que ficam[4]. A vida nua, sem retoques, desfigura a realidade e nos lança no deserto do real. Tempos de catástrofes, como nomeou Isabelle Stengers (2015). Tempos de uma nova classe de medo global, como analisou Gustavo Lins Ribeiro, sobre a epidemia:

 

Um temor totalizante, sentido por todos os habitantes de um coletivo, na expectativa de uma enorme quantidade de mortes que potencialmente ou de fato atingirá a todos e acabará o mundo conforme foi conhecido até um determinado momento (…) envolvendo a sensação de fim de mundo, um verdadeiro fato social total, como diria Marcel Mauss, que condensa respostas fisiológicas, biológicas, psicológicas, culturais, políticas, econômicas, sociais e científicas (RIBEIRO, 2020, p. 1).

 

As ilusões de proteção e “imunidade”, que mantinham o sentimento de normalidade cotidiana, vão se tornando cada vez mais difíceis de sustentar. A bolha burguesa e suas apostas na ideologia do aprimoramento individual, da vida saudável, dos cuidados em saúde e autoproteção, está por um fio, cada vez mais fina e esgarçada diante da pandemia, como alertou Fabíola Rhoden (2020).

Parodiando Fellini, nos perguntamos: para onde “la nave vá?”. Que rumos nossa inconsequente embarcação tomará, depois de ter sido atingida pela catástrofe pandêmica?  haverá um futuro? Para quem e em que condições? Como será o novo normal instaurado por um capitalismo de controle e vigilância exacerbados? O que se passará em sociedades tão desiguais como o Brasil? Haverá algum aprendizado social proveniente deste período de isolamento, mortes, lutos e medos? Qual o legado que estes dias difíceis trarão para o cenário de polarização, segregação e exclusão anterior à Pandemia? A recessão econômica, ao que tudo indica, se aprofundará. Já se fala em uma década perdida. O que a vida nua, que irrompeu neste tempo de catástrofe, evocará como respostas? Que marcas e cicatrizes restarão destes tempos? Ou enterraremos estas memórias em rápidas cerimônias, sem ritos e sem luto?

 

[1] Último filme de Frederico Fellini (1983), “E la nave vá”, se passa em 1914. Um Cruzeiro (Glória N.) leva uma exótica elite artística europeia em direção à ilha Erimo, para jogar ao mar as cinzas de uma famosa cantora de ópera, Edmea Tetua. Personagem provavelmente inspirada em Maria Callas, falecida em 1977, cujas cinzas foram espalhadas no mar Egeu. Entre os passageiros desfilam matronas, cantores, palhaços, bufões, artistas de circo, um rinocenonte, e um jornalista, que deve registrar a viagem. Esta espécie de versão felliniana da nau dos loucos segue sua viagem até que o início da Primeira Guerra muda o curso da viagem.  O navio é interceptado por náufragos sérvios que invadem o Cruzeiro, como um tsunami de realidade pobre e miserável submergindo o mundo luxuoso, exótico e delirante de Glória N.

[2] ZIZEK (2020), referindo-se aos cruzeiros e sua ostentação os considerou uma imagem obscena.

[3] Richard Sennett, após mencionar que tinha concluído um ciclo de produções que denunciaram as falhas estruturais do capitalismo, empreendeu, durante as primeiras décadas dos anos 2000, um novo projeto. Desta vez, buscando um tom propositivo, produziu uma trilogia denominada “Homo Faber”. Nestes livros ele se dedicou a pensar as habilidades que precisamos para seguir vivendo Juntos. Esta trilogia teve como seu primeiro livro “O artíficie” (2008), o segundo chamou-se “Juntos: os rituais, os prazeres e a política da cooperação” ( 2012) e o terceiro, “Construir e Habitar (2018).

[4] Sobre ao estatuto da morte na pandemia ver o excelente artigo de Carmen Rial (2020), no Boletim de Ciências Sociais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

AGAMBEN. Giorgio. In: AGANBEN, Giorgio; ET ALII. A sopa de Wuhan. 1a. ed. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020a.  P 17-20.

AGAMBEN, Giorgio. In: AGANBEN, Giorgio; ET ALII. A sopa de Wuhan. 1a. ed. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020b. P 31-34

AGAMBEN, Giorgio; BURIGO, Henrique. Homo Sacer, o poder soberano e a vida nua I. 2ª. ed. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007.

BERGÓLIO, Francisco. Não desperdice estes dias difíceis. Entrevista concedida à Paolo Rodari, Jornal La Repubblica, 18/03/2020. Tradução disponível em : http://www.ihu.unisinos.br/597240-o-papa-nao-desperdicem-esses-dias-dificeis

FIORI, Jose Luis. Entrevista concedida à Elenora Lucena e Rodolfo Lucena.

Revista Tutameia, 10/04/2020. Disponível em https://tutameia.jor.br/prognostico-e-ruim-e-vai-piorar-diz-fiori/, acessado em 11/04/2020

ZIZEK, Slavoj. in: AGANBEN, Giorgio; ET ALII. A sopa de Wuhan. 1a. ed. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020. P 21-28.

STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes – resistir à barbárie que se aproxima. São Paulo (SP): Cosac & Naify, 2015.

LINS RIBEIRO, Gustavo. Medo Global. Boletim Ciências Sociais: Cientistas Sociais e o Coronavírus. Boletim Especial n. 5, ANPOCS, 26/03/2020. Disponível em

http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2311-boletim-n-3-as-ciencias-sociais-e-a-saude-coletiva-frente-a-atual-epidemia-de-ignorancia-irresponsabilidade-e-ma-fe-3?idU=1&acm=_268 . Acessado em 12/04/2020.

RIAL, Carmen. Mortes Belas, Mortes Boas, Mortes Malignas e a Covid-19. Boletim de Ciências Sociais: Cientistas Sociais e o Coronavírus. Boletim Especial n. 20, ANPOCS, 14/04/2020. Acessível em: http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2333-boletim-n-20-mortes-belas-mortes-boas-mortes-malignas-e-a-covid-19. Acessado em 14/04/2020.

ROHDEN, Fabíola. As promessas de aprimoramento e o retorno à fatalidade. Boletim de Ciências Sociais: Cientistas Sociais e o Coronavírus. Boletim Especial n. n. 16, ANPOCS, 08/04/2020. Disponível em: http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2328-boletim-n-16-as-promessas-de-aprimoramento-e-o-retorno-a-fatalidade?idU=1&acm=_268. Acessado em 10/04/2020.

SCHWARCZ, Lilia. Entrevista concedida à Camila Brandalise e Andressa Rovani. 100 dias que mudaram o mundo. UOL Universa. 9/04/2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/coronavirus-100-dias-que-mudaram-o-mundo/#tematico-7 Acessado em 20/04/2020.

SENNETT, Richard. O artífice. Rio de Janeiro: Record, 2009.

SENNETT, Richard; Juntos: os rituais, os prazeres e a política da cooperação. Rio de Janeiro: Record, 2012.

SENNETT, Richard. Construir e Habitar: ética para uma cidade aberta. Rio de Janeiro: Record, 2018.

SENNETT, Richard. Juntos agora. Entrevista concedida à Giovanna Bartucci. Jornal Valor, seção Cultura & Estilo, Rio de Janeiro. 24/08/2012b. Disponível em: http://www.valor.com.br/cultura/2801450/juntos-agora. Acessado em 12/04/2020.

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Artigo original em: Castro, Daniel; Dal Seno, Danilo; Pochmann, Marcio (Organizadores). Capitalismo e a Covid-19. Um debate urgente. São Paulo, 2020.