Autor: Rodrigo Toniol

Israel Imaginária

Israel Imaginária

By Rodrigo Toniol in Novidades on agosto 24, 2020

Divulgamos o curso que será oferecido em 2020/2, no PPGAS/Unicamp.


Universidade Estadual de Campinas

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social

Disciplina de Leituras Dirigidas

Israel Imaginária: política, religião e nacionalismos

Professores

Rodrigo Toniol (Unicamp), Michel Gherman (Ben Gurion/ NIEJ-UFRJ)  e Omar Ribeiro Thomaz (Unicamp)

Período

Os encontros serão quinzenais, sempre na segunda-feira, das 10h às 12h. As atividades terão início no dia 21/09/2020

Dinâmica

O curso é aberto a estudantes do PPGAS/Unicamp e de outras universidades. Para estudantes externos é necessário enviar uma carta de apresentação para o email [email protected] até o dia 16/09

Em cada encontro discutiremos textos selecionados e/ou debateremos com convidados especialistas no tema. As aulas serão majoritariamente em português e ocasionalmente em inglês, dependendo da presença de convidados estrangeiros. 

Proposta

O debate sobre a construção da imagem do judeu na modernidade europeia não é um tema novo. Desde as reflexões propostas por Hannah Arendt até os conceitos de Zygmunt Baumann, que propõe que o judeu funcione como uma espécie de prisma (que contém as cores que o lhe observador impõe) da cultura europeia, são muitos os autores que lidam com noções de um judeu imaginário na história no século XX. Estudos de Nelson Vieira e Bernardo Sorj também discutem a construção da imagem do judeu no contexto específico do Brasil. Entretanto, foi o filósofo Alain Finkielkraut, já em fins do século XX,  que desenvolveu propriamente o conceito de “Judeu Imaginário”.

A proposta de Finkielkraut tem como ponto de partida a percepção de que à direita e à esquerda “o judeu” ocupa um lugar central na identidade social e politica da Europa. Apropriando-se das reflexões de Benedict Anderson, o filósofo sugere que esse “judeu imaginário” está completamente divorciado da experiência histórica do judeu e que sua emergência está atrelada à consolidação de um modelo, seguido por diversos grupos, para demandar políticas específicas de reconhecimento. Finkielkraut também percebe o uso de Israel como espécie de continuação do judeu imaginário. Nesse caso, a “Israel Imaginária”, que tem pouca relação com o Estado de Israel, é o elemento síntetizador de disputas e interesses religiosos, sociais e políticos. 

No Brasil dos 2000, percebemos que a Israel imaginária também funciona como referência politica de diversos grupos que atuam no complexo contexto social do país. Grupos de direita e de esquerda servem-se, cada um a sua maneira, desta perspectiva para intervir em suas respectivas agendas.  Nossa proposta nesse curso é discutir justamente os processos de construção da Israel imaginária no contexto da Política contemporânea brasileira. Grupos diversos têm usado Israel, incorporando inclusive símbolos e marcas de Israel e dos judeus em suas manifestações. 

Neste curso exploraremos essa bibliografia mencionada e outros textos de historiadores, filósofos e cientistas sociais. Como material de apoio também mobilizaremos ensaios e textos publicados na imprensa brasileira. Abordar a Israel imaginária é o caminho a partir do qual exploraremos, a um só tempo, a política contemporânea brasileira e o uso político de Israel como um traço que conecta o Brasil a outras partes do mundo em que esse uso também ocorre. 

 

GT Religião e Sociedade

GT Religião e Sociedade

By Rodrigo Toniol in Novidades on maio 3, 2020

Convidamos a todas e todos pesquisadores da áreas a submeterem trabalhos no GT Religião e Sociedade. Abaixo descrevemos a proposta de retomada deste GT histórico da ANPOCS.

 

GT Religião e Sociedade 

Rodrigo Toniol (Unicamp)

João Rickli (UFPR)

Resumo: Em 2001, Pierre Sanchis escreveu que ““o campo religioso é cada vez menos o campo das religiões”. A dupla dimensão deste diagnóstico, da insuficiência das instituições em conformar as experiências religiosas e da crise da categoria religião para dar conta dos fenômenos contemporâneos, vocaliza de forma sintética uma tensão que marca boa parte da produção das ciências sociais sobre o tema nas últimas décadas.

 

Resumo expandido

A presença da religião nos debates públicos contemporâneos é fato inegável, amplamente notado e discutido no universo acadêmico. Essa centralidade parece decorrer de uma ambiguidade fundamental. Por um lado, religião tornou-se um princípio chave de mobilização identitária, sendo indispensável para a descrição dos fatos políticos recentes de maior importância da história: o vocabulário articulado na votação pelo impeachment de Dilma Rousseff, a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, a eleição de Jair Messias Bolsonaro no Brasil, o crescimento da ultradireita europeia. Por outro lado, religião é uma categoria analítica fundamental para cientistas sociais, a partir da qual têm elaborado reflexões cada vez mais afinadas sobre sua relação com o Estado, sobre os limites do secularismo e sobre sua capacidade explicativa sobre novas formas de relação com o sagrado. Desde meados de fevereiro de 2020, religião ocupou novamente o centro do debate público, quando as profundas transformações globais em curso devido a um novo tipo de coronavírus foram acompanhadas pela recusa de líderes religiosos em suspenderem atividades coletivas em suas igrejas e pela esperança disseminada de que curas milagrosas fossem operadas em meio à pandemia.
As reações do senso comum ilustrado ao reconhecimento dos componentes religiosos de ações e mobilizações políticas recentes têm variado majoritariamente entre uma certa perplexidade ou preocupação e a simples indignação e repúdio. Assim, o apelo que a noção de religião adquiriu também veio acompanhado por generalizações e reificações bastante frequentes em artigos de opinião, que insistem em generalizações como, “as igrejas evangélicos”, “as igrejas neopentecostais”, “os muçulmanos radicais” ou ainda “os cristãos conservadores”, ora apresentados como os grandes vilões que desafiam a laicidade do Estado e o progresso de pautas emancipatórias e das conquistas dos direitos das minorias, ora como vítimas indefesas de maquinações de lideranças inescrupulosas e manipuladoras.
No universo acadêmico e em seu entorno, as manifestações de autoridades políticas em aberta defesa da ocupação de posições chaves no Estado por atores “terrivelmente religiosos” parecem estimular a produção de reações “terrivelmente superficiais”, vinculadas a opiniões e pré-julgamentos que associam de forma automática a religião ao conservadorismo e a determinadas posições no espectro político. Para a compreensão da complexidade das imbricações entre a religião e as mais variadas arenas políticas e sociais contemporâneas, entretanto, é necessária a produção de pesquisas sistemáticas acerca dos fatos e fenômenos que se articulam com a ideia de religião, em direção a uma reflexão qualificada que permita o avanço do conhecimento acadêmico que permite sólido embasamento empírico para o enfrentamento das questões e dilemas inerentes aos fenômenos religiosos contemporâneos. Destacamos, neste sentido, as contribuições que as pesquisas etnográficas produzidas no âmbito da antropologia da religião têm fornecido para o enriquecimento e aprofundamento dos debates.
Este GT propõe reunir trabalhos baseados em pesquisas qualitativas, sobretudo aquelas de caráter etnográfico, que exploram modos e situações específicos através dos quais a religião se manifesta, influencia ou mesmo transforma formações sociais contemporâneas. Para tanto, fazemos dois movimentos simultâneos, expressos no título e subtítulo do GT.
O primeiro destes movimentos busca resgatar o caráter abrangente que historicamente o Grupo de Trabalho “Religião e Sociedade” teve na ANPOCS ao longo das décadas de 1980 e 1990. Paula Montero (1999), em seu texto de balanço de área, publicado no livro O que ler nas ciências Sociais (1970-1995), demonstra como o conjunto dos temas tratados pelo GT Religião e Sociedade naquelas duas décadas do século XX dirigia-se, principalmente, ao catolicismo e à força emergente do protestantismo renovado no Brasil. Para isso, mobilizava-se explicações totalizantes sobre a matriz cultural-bíblico-católica que estaria impressa desde a sociogênese da nação, assim como sobre a ascensão do pentecostalismo nas periferias, cuja explicação também se dava por meio de grandes chaves interpretativas.
As duas décadas seguintes, no entanto, consolidaram tendências que apontavam noutra direção. Os temas relativos à religião foram pulverizados e um certo esgotamento da categoria como forma de circunscrever e traduzir realidades empíricas em objetos de pesquisa parecem ter desmotivado iniciativas de promoção de debates mais sistemáticos em torno desta noção. A percepção deste aparente esgotamento do termo está bem sintetizada no diagnóstico de Pierre Sanchis, que no início do século XX escreveu de forma lapidar: “o campo religioso é cada vez menos o campo das religiões” (2001:17). Nesta ideia, havia duas dimensões principais. A primeira refere-se à crise de legitimidade e reconhecimento do próprio conceito de religião que o tornou inadequado, ainda que necessário, para designar um habitus que se expressa por meio de espiritualidades, filosofias de vida e experiências do sagrado que compõem determinado regime de crer. A segunda remete à crise das instituições religiosas tradicionais que vem paulatinamente perdendo a sua hegemonia como mediadoras da experiência do sagrado e como responsáveis pela reprodução da crença (Steil e Toniol, 2013) .
Estas mudanças, por sua vez, produziram um deslocamento na atenção dos cientistas sociais da religião enquanto produtora de identidades específicas, para o das suas interfaces com outras esferas da vida social. Um deslocamento que implica tanto em um novo vigor aos estudos da religião quanto evidencia a dissolução dos fenômenos religiosos em outras lógicas (Almeida, 2010). Tal deslocamento impõe aos cientistas sociais um esforço reflexivo que dê conta do desencaixe entre a realidade empírica, descrita nas etnografias de práticas, instituições, grupos e experiências religiosas, e os conceitos de religião, secularização, espaço público e política elaborados e definidos a partir de outro contexto social e histórico.
Essa fragmentação do campo empírico e analítico também se refletiu nos GTs da Anpocs. Ao contrário das décadas de 1980 e 1990, nas duas décadas que se seguiram foram poucos os encontros que contemplaram um Grupo de Trabalho de temática ampla, que reunisse debates sobre diferentes tradições religiosas em um único fórum, assim como que mobilizasse especialistas, associados a distintas tradições teóricas, em debates sobre a pertinência da noção de religião.
O que propomos é a retomada de uma arena de debates acerca dos fenômenos religiosos inspirada nestes esforços de síntese do passado, que possa acolher as temáticas específicas que ficaram de certa forma dispersas em iniciativas menos abrangentes em reuniões recentes. O objetivo do GT, ao fazer este movimento de resgate do caráter aglutinador do antigo “Religião e Sociedade”, é propiciar um amplo diálogo entre trabalhos que exploram a religião em diferentes esferas da vida social e contextos etnográficos a partir de enquadramentos teóricos variados e abertos.
Simultaneamente a este movimento que aglutina e recoloca a religião como categoria central, fazemos um outro em direção ao reconhecimento dos desvios e insuficiências inerentes às apostas excessivas nesta tomada da religião como instrumento heurístico de enquadramento dos objetos e de análise teórica. Para tanto, buscamos reunir trabalhos que explorem a religião em seus enredamentos com outras forças sociais e que privilegiem relações e articulações das quais a religião é (mais) um componente e uma possibilidade, e não uma categoria normativa. Com isso, procuramos retomar debates que foram centrais em fóruns anteriores da ANPOCS, apostando naquilo que eles podem nos aportar após décadas de fragmentação empírica e teórico-analítica do campo.


Referências

ALMEIDA, Ronaldo. “Religião em Transição”. In: C. Martins; L. F. D. Duarte (eds.). Horizontes das Ciências Sociais – Antropologia. São Paulo: ANPOCS/Editora Bacarolla, 2010.

MONTERO, Paula., “Religiões e dilemas da sociedade brasileira”. In: S. Miceli (org.). O que ler na ciência social brasileira (1970-1995). Vol. II: Sociologia. São Paulo: Sumaré/ANPOCS, 1999.

Sanchis, P. Fiéis & cidadãos: percursos de sincretismo no Brasil. EdUERJ, 2001.

Steil, Carlos Alberto, and Rodrigo Toniol. “A crise do conceito de religião e sua incidência sobre a antropologia.” Religión, cultura y política en las sociedades del siglo XXI. Buenos Aires: Biblos, pp. 137-158, 2013.

Religião Material

Religião Material

By Rodrigo Toniol in Novidades, Publicações on janeiro 16, 2019

Em abril deste ano a Unicamp receberá, como pesquisadora visitante, a professora Birgit Meyer. Entre a série de atividades previstas para o período da visita, está o lançamento do livro Como as coisas importam, publicado pela editora da UFRGS. O livro reúne textos traduzidos, inéditos em português, de Meyer, além de uma entrevista e de uma extensa introdução escrita por seus organizadores, Emerson Giumbelli, João Rickli e Rodrigo Toniol. Ao longo dos próximos meses faremos atualizações sobre as atividades que realizaremos com a professora Meyer. Aproveitamos a novidade para compartilhar um roteiro de leituras, que pode ajudar interessados a se engajarem nas discussões realizadas no campo da chamada “Religião Material”.

Uma versão modificada deste texto foi publicada na Newsletter (2017/2) da Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul.


Campo em expansão

O crescimento da literatura das ciências sociais dirigida às materialidades tem contribuído para a consolidação do que já é quase um subcampo disciplinar, com debates próprios, eventos específicos e publicações regulares dedicadas ao tema. É certo que um esforço genealógico das discussões sobre materialidade, objetos e coisas – palavras que na literatura especializada estão longe de serem sinônimos – poderia identificar os atos de fundação desse campo em textos de autores clássicos das ciências sociais. O propósito da compilação bibliográfica que segue, no entanto, não pretende ir tão longe e tampouco pretende cercar a totalidade dessa literatura. Alternativamente, opto por referenciar um conjunto limitado de leituras que pode auxiliar aqueles que estiverem interessados em uma área específica desse debate mais amplo, refiro-me a chamada “material religion”. Portanto, o que segue não é uma lista exaustiva do que há para ser lido, mas sim um guia introdutório, que indica alguns dos textos que são constantemente referidos no campo e, ao mesmo tempo, que servem para situar seu debate. Esse foi o critério de seleção da bibliografia sugerida – apesar disso, como não poderia deixar de ser, não nego o caráter arbitrário e pessoal das leituras indicadas.

O que é a material religion ?

Entre outras sínteses possíveis, reproduzo a definição do que seja material religion presente no número inaugural do periódico homônimo: “Ao nos referirmos a material religion estamos nos referindo a possibilidade de considerar a religião a partir de suas formas materiais e do uso que se faz desses materiais na prática religiosa”. Trata-se, poderíamos dizer, de um movimento que reage ao entendimento da religião e da prática religiosa como fenômenos cognitivos, que ocorreriam inicialmente no plano das ideias e posteriormente se projetariam em representações materiais. O que está em jogo nessa perspectiva, pelo contrário, é o entendimento de que os materiais, seus usos e a forma de experimentá-los são– e não simplesmente refletem – a religião.

De forma mais didática, Birgit Meyer, em um texto intitulado “There is a spirit in that image’: Mass-produced Jesus pictures and Protestant–Pentecostal animation in Ghana”, afirmou: “A abordagem material da religião significa perguntar como a religião ocorre materialmente, o que não deve ser confundido com a pergunta muito menos útil de como a religião é expressa em formas materiais. Os estudos sobre religião material começam com a suposição de que as coisas, seus usos e sua apreciação não são dimensões que se adicionam à religião, mas, pelo contrário, são intrínsecas a ela”. Se, por um lado, é possível argumentar que materiais sempre estiveram no horizonte de reflexões de cientistas sociais da religião, por outro, é inegável que o deslocamento proposto instituiu novidades para o próprio modo de definir religião e – talvez principlamente – também para o modo de pesquisá-la.

Grupos de pesquisa

Por mais que a literatura dedicada ao tema seja majoritariamente anglo-saxônica, temos no Brasil, há algum tempo, movimentos de aproximação com essa perspectiva, seja via cursos em programas de graduação e pós-graduação, seja pela produção de pesquisas ou pela tradução de textos a ela relativa. Sobre o primeiro movimento, de ensino e pesquisa, merece destaque a consolidação do grupo de pesquisa Mares, registrado no CNPq e que reúne pesquisadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul (https://maresantropologia.wordpress.com) e as atividades do Grupo de Pesquisa em Antropologia da Devoção, do Museu Nacional, que sistematicamente tem organizado eventos e promovido debates dirigidos ao tema. Com relação às traduções, destaco a publicação recente de um artigo de Birgit Meyer, publicado na Revista Campos (http://revistas.ufpr.br/campos/article/view/53464) e, naquele mesmo volume, de um texto apresentação da obra da autora, escrito por Carly Machado (http://revistas.ufpr.br/campos/article/view/53445/pdf). Além disso, desde o início de 2017, Emerson Giumbelli, João Rickli e eu, Rodrigo Toniol, temos trabalhado na organização do livro já mencionado, que compilará a tradução de um conjunto de textos de Meyer.

Sites sugeridos

Antes ainda de passar para indicação bibliográfica propriamente dita, indico três sites que podem ser consultados e que dispõem de farto material relativo ao tema:

  1. https://www.religiousmatters.nl/buildings-images-and-objects/
  2. http://mavcor.yale.edu
  3. http://materialreligions.blogspot.nl

Indicação bibliográfica: 

  1. Meyer, Birgit. Mediation and the genesis of presence. Towards a material approach to religion, 2012 – Disponível em: https://www.uu.nl/file/25377/download?token=AudZSc-l
  2. Morgan, David, ed. Religion and Material Culture: The Matter of Belief. London: Routledge, 2009.
  3. ENGELKE, Matthew. “Material Religion”. In: ORSI, Robert A. The Cambridge Companion to Religious Studies. New York: Cambridge University Press, 2012, pp. 209-229.
  4. Morgan, David. The Sacred Gaze. Religious Visual Culture in Theory and Practice. Berkeley: University of California Press, 2005.
  5. MEYER, Birgit. Picturing the Invisible. Visual Culture and the Study of Religion. Method & Theory in the Study of Religion, 27 (4-5), 2015.
  6. Houtman, Dick, and Birgit Meyer, eds. Things:: Religion and the Question of Materiality. Fordham Univ Press, 2012.
  7. Promey, Sally M., ed. Sensational Religion: Sensory Cultures in Material Practice. Yale University Press, 2014.
  8. Bräunlein, Peter J. “Thinking Religion Through Things.” Method & Theory in the Study of Religion 28.4-5 (2016): 365-399.
Espiritualidade e arte – imagens do site

Espiritualidade e arte – imagens do site

By Rodrigo Toniol in Crônicas de pesquisas on janeiro 16, 2019

Não passará desapercebido pelo leitor deste site o uso de obras de arte para ilustra-lo. Invariavelmente, as referências são pinturas modernas, como é o caso da imagem da capa do site, uma obra de Arthur Dove, e a inspiração da qual se originou o logo, dos trabalhos de Kandinsky. Além de razões pragmáticas, a opção por fazê-lo está relacionada com a relação entre a noção de espiritualidade, que tematiza este projeto, e a própria consolidação da modernidade. As imagens aqui mobilizadas refletem essa relação, que no campo da história da arte tem sido evidenciada já há bastante tempo.

Em dezembro de 1911, Waissily Kandinsky publicou o texto Do espiritual na arte, um ensaio capital para os movimentos artísticos do século XX. O artista russo, pioneiro do abstracionismo no Ocidente, exorta nesse livro a capacidade singular da literatura, da música e da pintura de captar e expressar o ser espiritual das coisas. Numa de suas célebres passagens, Kandinsky escreveu: “A forma, mesmo abstrata, geométrica, possui seu próprio som interior, ela é um ser espiritual, dotado de qualidades idênticas as dessa forma. Um triângulo é um ser. Um perfume espiritual que lhe é próprio emana dele” (2000:75).

Na arte abstrata, há uma centralidade atribuída à forma. Esse privilégio da forma, no entanto, não está expresso, como no realismo, pelos traços que buscam reproduzir com perfeição a realidade visível e superficial das coisas. Pelo contrário, a qualidade da forma que interessa aos abstracionistas é aquela velada e, ao mesmo tempo, manifesta, pela superfície. É por isso que, por exemplo, Kandinsky trata do triângulo a partir de sua forma interior (ou de seu perfume espiritual) e não da geometria de sua superfície exterior (as três retas que o compõem). A obra reproduzida acima, Primeira aquarela abstrata, é uma pintura de formas interiores. Tal fidelidade à interioridade da forma também mobilizou o pintor abstrato holandês Piet Mondrian que, quatro anos depois da publicação do ensaio de Kandinsky, afirmou: “para uma abordagem espiritual na arte, é preciso usar menos realidade possível, porque a realidade é oposta ao espiritual” (Fingesten 1961:3).

No início do século XX, o abstracionismo, um dos principais sinais da modernidade ocidental, encarnou o “espiritual” como um de seus elementos centrais. Se esse pode ser um fato inesperado para quem analisa as transformações modernas da vida na Europa do século XIX e XX nos termos da “desmistificação”, para os pesquisadores deste projeto, essa é apenas mais uma das demonstrações de que a espiritualidade não é uma forma marginal de resistência à modernidade secular, mas é parte do próprio projeto moderno, sendo, a emergência do termo, um de seus índices e uma chave fundamental para compreendê-lo.

Não foram poucos os autores que sublinharam a importância da espiritualidade para as ideias e conceitos de alguns dos artistas pioneiros na arte abstrata – além de Kandinsky e Mondrian, outros pintores como Frantisek Kupta e Kazimir Malevich também foram explícitos sobre seus interesses em retratar o ser espiritual das coisas em suas obras (Fingesten 1961; Tuchman et al. 1986).

Tão importante quanto esses textos, é um conjunto crescente de exposições que têm sido montadas em museus de todo mundo e que abordam essa relação. A última delas que merece destaque foi montada em Paris, em 2017, no Musée D´Orsay, em parceria com l’Art Gallery of Ontario de Toronto, intitulada “Au-delà des étoiles. Le paysage mystique de Monet à Kandinsky”.

Antes delas, porém, outras quatro exposições que também exploraram essa relação: 

1 – Van Gogh et la naissance du cloisonisme

2 – Le nord mystique: le paysage symboliste dans la peinture de l´Europe du Nord et de l`Amerique du Nord, 1890-1940

  Ambas organizadas pela L´Art Gallery of Ontario, no Canadá. A primeira em 1981 e a segunda em 1984

3 – Turner, Whistler e Monet: visions impressionnistes

Montada na Tate Gallery, em Londres, entre 2004 e 2005.

4 – De Van Gogh à Kandinsky. Le paysage symboliste en Europe, 1880-1910

Que circulou em diferentes museus e galerias da Europa.

Ao longo dos próximos meses traremos outras referências deste diálogo entre ciências sociais e arte, endereçado às relações entre modernidade e espiritualidade.

 

Referências

FINGESTEN, Peter. (1961), “Spirituality, mysticism and non-objective art”. Art Journal, vol. 21, nº 1: 2-6. 

KANDINSKY, Wassily. (2000),Do espiritual na arte e na pintura em particular. São Paulo: Martins Fontes. 

TUCHMAN, Maurice et al. (1986), The spiritual in art: abstract painting 1890-1985. Los Angeles: Los Angeles County Museum of Art.