Dia: 11 de maio de 2021

Algumas considerações da I Reunião Latino-Americana de Estudos da Espiritualidade

Algumas considerações da I Reunião Latino-Americana de Estudos da Espiritualidade

By admin in Eventos, Publicações on maio 11, 2021

Por Florencia Chapini

Nos dias 28 e 29 de abril ocorreu a I Reunião Latino-Americana de Estudos da Espiritualidade em formato virtual, organizada por nosso grupo de pesquisa. O encontro recebeu mais de 200 inscrições e congregou estudantes e pesquisadores de diferentes lugares da América Latina interessados no tema da espiritualidade. O objetivo da reunião foi fazer uma rede de pesquisadores que estivessem investigando sobre o tema da espiritualidade e conhecer os campos de pesquisa que essa palavra tem mobilizado na América Latina. 

Inicialmente pensamos em três eixos que articulam as pesquisas: “Espiritualidade e política”, “Práticas orientalizantes” e “Terapias alternativas”, deixando em aberto a possibilidade de que apareçam “outros”. Nesses “outros”, as e os participantes mostraram muitos caminhos que a espiritualidade vem trilhando, ficando evidente que ela também está atravessada nas pesquisas por temas como saúde, ciência, arte, dissidências sexuais, gênero, colonialidade, feminismo, teologia, teologia negra, intolerância religiosa, território, entre outras.

O encontro virtual reuniu pessoas de diferentes partes do Brasil, do Uruguai, da Argentina, de Cuba, da Itália e de Portugal. Vale a pena destacar, também, que as e os participantes eram de distintas áreas de formação como ciências sociais, antropologia, medicina, psicologia, farmácia, terapias alternativas, teologia, ciências da religião e pedagogia. Participaram inclusive pessoas que não necessariamente pesquisam o tema, mas que são praticantes ou se reconhecem como espiritualizadas, ou mesmo, pertencentes a diferentes religiões.  

A reunião foi dividida em um total de 13 grupos, a dinâmica proposta para o funcionamento se baseou mais em uma conversa relaxada e desestruturada que permitiu trocar perspectivas, contatos e trabalhos deixando de lado as formas clássicas de exposição acadêmica, o que permitiu enriquecer a conversa e, consequentemente, as perspectivas.  

Como foi mencionado, um desafio e uma riqueza que caracterizou a reunião foi o diálogo de diferentes áreas. Assim, a espiritualidade apareceu como uma dimensão positiva da saúde, como uma dimensão de ajuda para passar por situações de sofrimento, como práxis, como disputa narrativa de identidades indígena ou negra, como um diagnóstico psiquiátrico, como uma definição, como categoria, como uma experiência transcendente, como experiência sagrada e corporificada, como uma forma de cuidado, como religiões (católica, espírita, afro-brasileiras, evangélica, entre outras), como muitas outras formas.  

Pareceria que, cada vez mais, a espiritualidade na América Latina tem se convertido não numa realidade, senão em realidades múltiplas. Na linha de Annemarie Mol (2007), podemos ver que, frente à chamada para uma reunião de “estudos de espiritualidade”, apareceram diferentes versões de espiritualidade que entraram em diálogo. Ao invés de dar uma resposta pronta para a  pergunta o que é a espiritualidade, a reunião evidenciou diferentes performances de espiritualidade. Não se trata de, simplesmente, diferentes perspectivas sobre o que é a espiritualidade, senão de diferentes versões da espiritualidade, que produzem diferentes realidades.

A modo de exemplo, vou trazer a intersecção entre espiritualidade e saúde, que é o tema sobre o qual o grupo de pesquisa têm se debruçado nos últimos anos. A espiritualidade foi adicionada na definição de saúde humana da OMS, no ano de 1984, como uma de suas dimensões (TONIOL, 2017); por outro lado, pesquisadores médicos vêm criando metodologias que procuram comprovar que espiritualidade faz bem para a saúde (TONIOL, 2019), incentivando assim, a abordagem desta dimensão na prática clínica como, por exemplo, fazendo anamnese espiritual com o paciente; isto em consequência, demanda a formação de profissionais da saúde que consigam abordá-la. Nesse caso, essas realidades trazem consigo modos e modulações de outros objetos: atas da OMS que recomendam políticas públicas, artigos científicos que comprovam a espiritualidade via números e gráficos, ligas acadêmicas e disciplinas na formação de profissionais de saúde, a crença ou percepção da espiritualidade que o paciente responde na anamnese espiritual; e antropólogas e antropólogos etnografando esses processos seguindo a espiritualidade como categoria, como é o projeto do NUES.  

Apostamos que esse tipo de encontros, que nos deslocam das nossas áreas de formação e promovem interdisciplinaridade, são muito produtivos. Sobretudo para pensar a espiritualidade, realidade(s) que cada vez mais interfere(m) nas nossas vidas cotidianas.

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Agradeço à Luciana Álvarez pela leitura, diálogo e revisão do texto.

Referências:

MOL, Annemarie. 2007. Política ontológica. Algumas ideias e várias perguntas. Em: NUNES, J. e ROQUE, R. (Org.). Objectos impuros: experiências em estudos sociais da ciência. pp.63-75. Porto: Afrontamento.

TONIOL, Rodrigo (2017) Atas do espírito: a Organização Mundial da Saúde e suas formas de instituir a espiritualidade. Em: Anuário Antropológico, Brasília, UnB, 2017, v. 42, n. 2: 267-299

TONIOL, Rodrigo (2019) O que há para ser visto. Instrumentos, metodologias e dispositivos de produção da espiritualidade como fator de saúde. Em: Sociedad y Religión, Vol. 29 N° 52.