Mês: maio 2021

Chamada aberta para o evento “Contemporary Spiritualities, a New Soft Power?”

Chamada aberta para o evento “Contemporary Spiritualities, a New Soft Power?”

By admin in Eventos on maio 18, 2021

Como divulgado há algumas semanas, a International Society for the Sociology of Religion financiará a organização de um evento e criação de uma rede de pesquisadores interessados no tema da espiritualidade. O evento ganhou site próprio, onde é possível conferir o projeto, suas diretrizes e mais informações sobre o evento e seus organizadores.
Também há detalhes sobre a chamada para submissões, que está aberta até 04/06. Destaca-se que haverá apoio financeiro aos participantes do evento, especialmente aos jovens pesquisadores.
Algumas considerações da I Reunião Latino-Americana de Estudos da Espiritualidade

Algumas considerações da I Reunião Latino-Americana de Estudos da Espiritualidade

By admin in Eventos, Publicações on maio 11, 2021

Por Florencia Chapini

Nos dias 28 e 29 de abril ocorreu a I Reunião Latino-Americana de Estudos da Espiritualidade em formato virtual, organizada por nosso grupo de pesquisa. O encontro recebeu mais de 200 inscrições e congregou estudantes e pesquisadores de diferentes lugares da América Latina interessados no tema da espiritualidade. O objetivo da reunião foi fazer uma rede de pesquisadores que estivessem investigando sobre o tema da espiritualidade e conhecer os campos de pesquisa que essa palavra tem mobilizado na América Latina. 

Inicialmente pensamos em três eixos que articulam as pesquisas: “Espiritualidade e política”, “Práticas orientalizantes” e “Terapias alternativas”, deixando em aberto a possibilidade de que apareçam “outros”. Nesses “outros”, as e os participantes mostraram muitos caminhos que a espiritualidade vem trilhando, ficando evidente que ela também está atravessada nas pesquisas por temas como saúde, ciência, arte, dissidências sexuais, gênero, colonialidade, feminismo, teologia, teologia negra, intolerância religiosa, território, entre outras.

O encontro virtual reuniu pessoas de diferentes partes do Brasil, do Uruguai, da Argentina, de Cuba, da Itália e de Portugal. Vale a pena destacar, também, que as e os participantes eram de distintas áreas de formação como ciências sociais, antropologia, medicina, psicologia, farmácia, terapias alternativas, teologia, ciências da religião e pedagogia. Participaram inclusive pessoas que não necessariamente pesquisam o tema, mas que são praticantes ou se reconhecem como espiritualizadas, ou mesmo, pertencentes a diferentes religiões.  

A reunião foi dividida em um total de 13 grupos, a dinâmica proposta para o funcionamento se baseou mais em uma conversa relaxada e desestruturada que permitiu trocar perspectivas, contatos e trabalhos deixando de lado as formas clássicas de exposição acadêmica, o que permitiu enriquecer a conversa e, consequentemente, as perspectivas.  

Como foi mencionado, um desafio e uma riqueza que caracterizou a reunião foi o diálogo de diferentes áreas. Assim, a espiritualidade apareceu como uma dimensão positiva da saúde, como uma dimensão de ajuda para passar por situações de sofrimento, como práxis, como disputa narrativa de identidades indígena ou negra, como um diagnóstico psiquiátrico, como uma definição, como categoria, como uma experiência transcendente, como experiência sagrada e corporificada, como uma forma de cuidado, como religiões (católica, espírita, afro-brasileiras, evangélica, entre outras), como muitas outras formas.  

Pareceria que, cada vez mais, a espiritualidade na América Latina tem se convertido não numa realidade, senão em realidades múltiplas. Na linha de Annemarie Mol (2007), podemos ver que, frente à chamada para uma reunião de “estudos de espiritualidade”, apareceram diferentes versões de espiritualidade que entraram em diálogo. Ao invés de dar uma resposta pronta para a  pergunta o que é a espiritualidade, a reunião evidenciou diferentes performances de espiritualidade. Não se trata de, simplesmente, diferentes perspectivas sobre o que é a espiritualidade, senão de diferentes versões da espiritualidade, que produzem diferentes realidades.

A modo de exemplo, vou trazer a intersecção entre espiritualidade e saúde, que é o tema sobre o qual o grupo de pesquisa têm se debruçado nos últimos anos. A espiritualidade foi adicionada na definição de saúde humana da OMS, no ano de 1984, como uma de suas dimensões (TONIOL, 2017); por outro lado, pesquisadores médicos vêm criando metodologias que procuram comprovar que espiritualidade faz bem para a saúde (TONIOL, 2019), incentivando assim, a abordagem desta dimensão na prática clínica como, por exemplo, fazendo anamnese espiritual com o paciente; isto em consequência, demanda a formação de profissionais da saúde que consigam abordá-la. Nesse caso, essas realidades trazem consigo modos e modulações de outros objetos: atas da OMS que recomendam políticas públicas, artigos científicos que comprovam a espiritualidade via números e gráficos, ligas acadêmicas e disciplinas na formação de profissionais de saúde, a crença ou percepção da espiritualidade que o paciente responde na anamnese espiritual; e antropólogas e antropólogos etnografando esses processos seguindo a espiritualidade como categoria, como é o projeto do NUES.  

Apostamos que esse tipo de encontros, que nos deslocam das nossas áreas de formação e promovem interdisciplinaridade, são muito produtivos. Sobretudo para pensar a espiritualidade, realidade(s) que cada vez mais interfere(m) nas nossas vidas cotidianas.

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Agradeço à Luciana Álvarez pela leitura, diálogo e revisão do texto.

Referências:

MOL, Annemarie. 2007. Política ontológica. Algumas ideias e várias perguntas. Em: NUNES, J. e ROQUE, R. (Org.). Objectos impuros: experiências em estudos sociais da ciência. pp.63-75. Porto: Afrontamento.

TONIOL, Rodrigo (2017) Atas do espírito: a Organização Mundial da Saúde e suas formas de instituir a espiritualidade. Em: Anuário Antropológico, Brasília, UnB, 2017, v. 42, n. 2: 267-299

TONIOL, Rodrigo (2019) O que há para ser visto. Instrumentos, metodologias e dispositivos de produção da espiritualidade como fator de saúde. Em: Sociedad y Religión, Vol. 29 N° 52.

 

 

Levantamento bibliográfico sobre terapias alternativas

Levantamento bibliográfico sobre terapias alternativas

By admin in Indicações bibliogáficas, Novidades on maio 4, 2021

Por Thaís Assis

A lista de referências bibliográficas apresentada a seguir reúne textos de cientistas sociais brasileiros que pesquisam terapias alternativas, holísticas ou, nos termos da saúde pública, práticas integrativas e complementares (PICs). 

A lista é composta por trabalhos de autores que inauguraram os estudos sobre o tema no Brasil e inclui os textos de Leila Amaral (2000), Silas Guerriero (2003), José Guilherme Magnani (1999; 2000), entre outros, que tiveram grande impacto na área e contribuíram para a legitimação das terapias alternativas como objetos de interesse da sociologia e da antropologia. Em linhas gerais, ao associar as terapias ao arcabouço teórico-conceitual da Nova Era, as pesquisas desses autores deram destaque ao sincretismo, à autonomia individual e à desinstitucionalização das práticas terapêuticas alternativas. Tal tendência analítica se manteve predominante desde o surgimento de estudos sobre o tema na América Latina, na década de 1990, e continua influente nos estudos contemporâneos.  

Além dessa primeira vertente intelectual, reuni a literatura contemporânea que está dedicada a pensar as terapias alternativas além do escopo da Nova Era. Uma das referências é a pesquisa de Fátima Tavares (2012) que investigou a rede terapêutica alternativa no Rio de Janeiro reconhecendo que há certo vínculo com o circuito de Nova Era, sem se limitar a ele. Pesquisas mais recentes feitas por Rodrigo Toniol (2015a; 2016) e pelos demais membros do Núcleo de Estudos em Espiritualidade, Ciência e Saúde (NUES) estão atentas aos desdobramentos do fenômeno que se intensificaram quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde brasileiro reconheceram a legitimidade do uso dessas terapias e instituíram sua oferta como política de saúde pública. 

Essas escolhas se justificam, sobretudo, pelo viés analítico da minha pesquisa atual que enfoca o processo de distanciamento das terapias alternativas e holísticas dos demais conhecimentos, crenças e práticas difundidos junto ao movimento de Nova Era – e o processo de aproximação com as formas biomédicas de cuidado. O objetivo é compreender, através da análise da oferta de práticas integrativas e complementares no Sistema Único de Saúde (SUS), os processos de legitimação e institucionalização das práticas integrativas e complementares como fatores de saúde, bem-estar e qualidade de vida. Por isso, tomei a liberdade de incluir algumas referências de pesquisadores da área de Saúde Pública cujas abordagens e metodologias são relativamente próximas às das ciências sociais. Faço, no entanto, a ressalva de que alguns desses pesquisadores também são atores-chave e atuam publicamente em defesa da oferta das medicinas e terapias alternativas e complementares no SUS. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL, Leila. Carnaval da alma: comunidade, essência e sincretismo na Nova Era. Petrópolis: Vozes, 2000.

ANDRADE, João Tadeu; COSTA, Liduina Farias Almeida. Medicina Complementar no SUS: práticas integrativas sob a luz da Antropologia médica. Saúde e Sociedade, v.19, n.3, p.497-508, 2010.

AURELIANO, Waleska de Araújo. Espiritualidade, Saúde e as Artes de Cura no Contemporâneo: Indefinição de margens e busca de fronteiras em um centro terapêutico espírita no sul do Brasil. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2011.

BARROS, Nelson Filice; SPADACIO, Cristiane; COSTA, Marcelo Viana da. Trabalho interprofissional e as Práticas Integrativas e Complementares no contexto da Atenção Primária à Saúde: potenciais e desafios. Saúde Debate, v. 42, n. 1, p. 163-173, 2018.

BASTOS, Cecilia dos Guimarães. Em busca do sentido da vida: a perspectivas de estudantes de Vedanta sobre uma “vida de yoga”. Religião e Sociedade, v. 38, n. 3, p. 218-238, 2018.

_____________. Meditação e yoga nas camadas médias do Rio de Janeiro: análise do campo nos estudos da Bhagavad Gita. Religare, v. 16, n. 2, p. 659-691, 2019.

CAMURÇA, Marcelo Ayres. Espaços de hibridização, dessubstancialização da identidade religiosa e ideias fora do lugar. Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, v. 5, n. 5, p. 37–65, 2003. 

D’ANDREA, Anthony Albert Fischer. O self perfeito e a nova era: individualismo e reflexividade em religiosidades pós-tradicionais. Edições Loyola: São Paulo, 2000.

GIUMBELLI, Emerson; TONIOL, Rodrigo. What is spirituality for? New relations between religion, health and public spaces. In: BLANES, Ruy; MAPRIL, Jose; GIUMBELLI, Emerson; WILSON, Erik (Orgs). Secularisms in a Postsecular Age? Religiosities and Subjectivities in Comparative Perspective, pp. 147-167, 2017. (versão em português disponível online)

GUERRIERO, Silas. A Diversidade Religiosa no Brasil: A Nebulosa do Esoterismo e da Nova Era. Correlatio, v. 2, n. 3, p. 128-140, 2003.

GUERRIERO, Silas; MENDIA, Fábio; COSTA, Matheus Oliva; BEIN, Carlos; LEITE, Ana Luisa Prosperi. Os componentes constitutivos da Nova Era: a formação de um novo ethos. Rever, São Paulo, v. 16, n. 2, p. 10-30, 2016.

LUZ, Madel T. Cultura Contemporânea e Medicinas Alternativas: Novos Paradigmas em Saúde no Fim do Século XX. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 15, p. 145-176, 2005.

MAGNANI, José Guilherme Cantor. Esotéricos na cidade: novos espaços de encontro, vivência e culto. São Paulo em perspectiva, 9:2, p. 66-72, 1995.

_____________. Mystica Urbe: um estudo antropológico sobre o circuito neo-esotérico na metrópole. São Paulo: Studio Nobel, 1999.

_____________. O Brasil da Nova Era. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

MALUF, Sônia Weidner. Os filhos de Aquário no país dos terreiros: novas vivências espirituais no Sul do Brasil. Ciencias Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, v. 5, n. 5, p. 153–171, 2003.

NASCIMENTO, Marilene Cabral do. De panacéia mística a especialidade médica: a acupuntura na visão da imprensa escrita. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 1, p. 99-113, 1998.

OLIVEIRA, Amurabi. A Nova Era com jeitinho brasileiro: o caso do Vale do Amanhecer, Debates do NER, v. 2, n. 20, p. 67-95, 2011. 

RUSSO, Jane. Terapeutas corporais no Rio de Janeiro: relações entre trajetória social e ideário terapêutico. In: ALVES, P.; MINAYO, M. (Orgs.). Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1994.

SOARES, Luiz Eduardo. Religioso por natureza: cultura alternativa e misticismo ecológico no Brasil. In: _____________. O Rigor da Indisciplina. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

STERN, Fábio L.; GUERRIERO, Silas (Orgs.). Terapias holísticas: uma análise do sistema médico na Nova Era. São Paulo: EDUC, 2020. 

STERN, Fábio L. Ressignificação do xamanismo urbano como reflexo do ethos da Nova Era. Diversidade Religiosa, João Pessoa, v.9, n. 1, p. 03-32, 2019. 

TAVARES, Fátima. Alquimistas da Cura: a rede terapêutica alternativa em contextos urbanos. Salvador: UFBA, 2012. 

_____________. O ‘holismo terapêutico’ no âmbito do movimento “nova era” no Rio de Janeiro. In: CAROZZI, María Julia (Org.). A Nova Era no Mercosul. Petrópolis: Vozes, 1999.

_____________. Legitimidade Terapêutica no Brasil Contemporâneo: As Terapias Alternativas no Âmbito do Saber Psicológico. Physis, v. 13, n. 2, p. 83-104, 2003.

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TESSER, Charles Dalcanale. Práticas complementares, racionalidades médicas e promoção da saúde: contribuições poucos exploradas. Cadernos de Saúde Pública, v. 25, n. 8, p. 1732-1742, 2009. 

TESSER, Charles Dalcanale; LUZ, Madel Therezinha. Racionalidades médicas e integralidade. Ciência & Saúde Coletiva, v. 13, n. 1, p. 195-206, 2008.

TESSER, Charles Dalcanale; SOUSA, Islândia Maria Carvalho de; NASCIMENTO, Marilene Cabral do. Práticas Integrativas e Complementares na Atenção Primária à Saúde brasileira. Saúde Debate, v. 42, nº especial, p. 174-188, 2018. 

TESSER, Charles Dalcanale; SOUSA, Islândia Maria Carvalho de. Atenção Primária, Atenção Psicossocial, Práticas Integrativas e Complementares e suas Afinidades Eletivas. Saúde e Sociedade, v.21, n.2, p.336-350, 2012.

THIAGO, Sônia; TESSER, Charles. Percepção de médicos e enfermeiros da Estratégia de Saúde da Família sobre terapias complementares. Revista Saúde Pública, v. 45, n. 2, p. 249-57, 2011.

TONIOL, Rodrigo. Do espírito na saúde: oferta e uso de terapias alternativas/complementares nos serviços de saúde pública no Brasil. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015a. 

_____________. Integralidade, holismo e responsabilidade: etnografia da promoção de terapias alternativas/complementares no SUS. In: FERREIRA, Jaqueline; FLEISCHER, Soraya. Etnografias em serviços de saúde. Rio de Janeiro: Editora Garamond. p. 153- 178, 2014.

_____________. Espiritualidade que faz bem: Pesquisas, políticas públicas e práticas clínicas pela promoção da espiritualidade como saúde. Sociedad y Religión: Sociología, Antropología e Historia de la Religión en el Cono Sur, v. 25, n. 43, p. 110-143, 2015b.

_____________. Cortina de fumaça: terapias alternativas/complementares além da Nova Era. REVER, v. 16, n. 2, p. 31-54, 2016.

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Fonte imagem destacada: https://estudiocontemplo.com.br/o-que-e-meditacao-guiada/