Dia: 20 de agosto de 2020

Formas de visualização da respiração e a pandemia do novo coronavírus

Formas de visualização da respiração e a pandemia do novo coronavírus

By admin in Novidades, Publicações on agosto 20, 2020

Por Giovanna Paccillo

A pandemia do novo coronavírus nos fez atentar para um movimento mais amplo que poderia ser descrito como uma preocupação cada vez maior à respiração. O fenômeno não é novo – a exemplo do projeto Life of Breath, da Universidade de Bristol (UK) que ao menos desde 2015 vem desenvolvendo pesquisas interdisciplinares sobre respiração. Esse movimento pode ser observado tanto empiricamente, no sentido da multiplicação de artigos, colunas e livros abordando a respiração, mas também teoricamente, uma vez que a respiração como metáfora para pensar política, sociedade e o mundo capitalista é algo que também vem sendo pautado. No entanto, vem me chamando a atenção o uso contínuo de imagens em vídeos do fluxo de deslocamento do ar quando pessoas desempenham atividades corriqueiras ou possíveis sintomas da COVID-19 – como a tosse e o espirro. 

Tal interesse é justificado porque, desde o início de 2019, comecei a prestar mais atenção na respiração no contexto da minha própria pesquisa com ansiedade e Transtorno de Pânico. Na mesma época, conheci o Life of Breath e fiquei encantada com as obras de arte de Jayne Wilton. A artista, que havia estampado ao longo de 2016 as capas do periódico científico The Lancet Respiratory Medicine , fazia de seu principal objetivo tornar a respiração visível (fig 1).

Fig 1: Essa obra compõe a exposição Breathe, na qual a respiração de uma série de indivíduos foi capturada em uma superfície de cobre brilhante e, em seguida, gravada para criar um negativo onde a respiração se assentou na placa de cobre.

Suas obras se utilizam dos mais variados materiais e técnicas para capturar tanto o ar exalado quanto o ar inalado. Ao pensar a partir das obras de Jayne Wilton, o projeto Life of Breath começou a refletir sobre os usos de suas técnicas para além da “apreciação estética” (MacNaughton; Carel, 2016, p.306), incorporando-a na prática clínica através da invenção de um novo dispositivo que pretendia auxiliar no tratamento de pacientes com dificuldades respiratórias. Tratava-se de uma mistura de técnicas utilizadas pela artista, e de técnicas de visualização que já faziam parte de um cotidiano científico, agrupadas sob o nome shadowgraph. A ideia é relativamente simples: a pessoa que terá sua respiração observada se posiciona em frente a um espelho côncavo e uma fonte de luz é apontada para o indivíduo e para o espelho. As imagens são obtidas quando a luz refletida do espelho é refratada em diferentes graus à medida que passa do calor da boca para o ar mais frio ao redor, “a imagem resultante se parece com a superfície da lua, ondulando em padrões particulares” (Ibid, p.306 tradução minha).

A adaptação desse dispositivo para o ambiente clínico visava responder a um desejo compartilhado por pesquisadores, médicos e pacientes, de tornar visível e entender a forma que a respiração adquiria pelo ar. Segundo afirmam Carel e MacNaughton, comentários sobre como temperatura, textura e peso do ar afetam a respiração são comuns em pacientes que sentem alguma dificuldade de respirar. Ao torná-la visível na clínica, espera-se que os pacientes entendam e articulem a relação que tem com a respiração de forma mais simples aos médicos. Além disso, promoveria um novo método não invasivo de medição da respiração, no qual poderia se identificar padrões de nuvens em comum entre diferentes condições respiratórias. Apesar de já existir uma tecnologia parecida ao menos desde 1970 (Tang et. al. 2012), seu uso clínico é um indicativo de que esse tipo de imagem poderia ir além. No escopo de interesse do projeto Life of Breath, a imagem poderia servir para diagnósticos individuais e para um processo de entendimento de uma condição pelo paciente em questão.

Figura 2: Shadowgraph. Fonte: artigo de Tang. et. al

Tang et. al. (2012), ao discorrerem sobre o dispositivo científico do shadowgraph afirmam que, ao menos desde os surtos de síndrome respiratória aguda (SARS) em 2003, têm havido um grande interesse no desenvolvimento de métodos para avaliar os riscos de transmissão por aerossol (ou pelo ar) de agentes infecciosos presentes em humanos, como vários outros subtipos de vírus influenza A. No entanto, esses estudos se centraram principalmente em amostragens de ar em ambientes específicos, como dentro de hospitais e outros espaços relacionados ao campo da saúde. Os autores chamaram atenção, portanto, para a importância de examinar a dinâmica dos fluxos de ar em “atividades respiratórias humanas naturais, como respirar, falar, rir, tossir e espirrar, o que proveriam as maiores forças motrizes para expulsão de gotículas de saliva ou muco em aerossóis gerados por humanos”, que podem “transportar uma variedade de agentes infecciosos transmissíveis por vias aéreas” (Ibid, p.2)

A vantagem desse tipo de técnica é não usar nenhum tipo de material irritante ou tóxico, e tampouco uma iluminação muito intensa, como é o caso dos lasers. Seria necessário apenas um espelho côncavo esférico de alta precisão com uma fonte de luz branca (LED). Desse modo, é possível usar voluntários capazes de performar várias atividades respiratórias em frente a um espelho para permitir que padrões realistas de fluxo de ar possam ser visualizados e gravados por um especialista para análise posterior (fig 2). No estudo de Tang. et. al. foram medidos os fluxos de ar de pacientes saudáveis ao tossir normalmente e ao tossir em seus cotovelos, como era recomendado pelo US Centers for Disease Control and Prevention (CDC), da cidade de Atlanta, nos Estados Unidos. Essas imagens não são simplesmente gravadas, sendo posteriormente medidas, tabeladas, transformadas em gráficos e analisadas. A captura da imagem é somente o primeiro passo de uma extensa cadeia de relações que conformam o experimento em questão.

Por que, então, em meio a uma pandemia, essa imagem, que provavelmente compõe uma cadeia meticulosa de relações num contexto de pesquisas científicas que poderão ou não servir a políticas públicas é transmitida em canais de televisão ou em vídeos no youtube em sua “imagem bruta”? A resposta a essa questão parece simples, no sentido de que a mediação entre um observador e uma imagem é menor do que entre um observador e um gráfico que resulta dessa imagem, ou seja, um gráfico muito provavelmente, vai requerer a mediação de um especialista, ou de um material de apoio. O que me parece curioso é como ocorre a transformação dessa imagem científica que se destina a um tipo de público específico, em uma imagem pedagógica que advoga pelo uso das máscaras só que para um público leigo.

Fig. 3: Reprodução de tela do vídeo da vox. Fonte:
https://www.youtube.com/watch?v=gElHX1AIIOY

Um exemplo é o caso da Vox, um canal no youtube de grande alcance e que faz vídeos informativos a respeito dos mais diversos assuntos. Durante a pandemia de COVID-19 ela publicou vídeos sobre o surgimento do vírus, sobre controvérsias em torno de seu tratamento e também sobre a eficácia das máscaras. O vídeo chamado What face mask actually do against coronavírus, publicado em 22 de abril de 2020 assume um tom característico do canal, que se coloca como um mediador entre o que diz a ciência e um público leigo. Logo no início do vídeo, imagens capturadas de um shadowgraph mostravam o fluxo de ar que se deslocava quando a pessoa respirava, tossia, tossia na mão, tossia nos cotovelos, usava uma máscara de poeira, e quando usava uma máscara cirúrgica (fig 3). O vídeo da Vox não é o único a utilizar essa técnica de visualização durante a pandemia. Há outros casos interessantes como o chamado Quão bem funcionam as máscaras  e o Shadowgraph Imaging of Human Exhaled Airflows: An Aid to Aerosol Infection Control, publicado no dia 15 de março de 2020. Esse último mostrava o deslocamento do fluxo de ar em uma respiração normal, em uma respiração pela boca, ao assoviar, ao rir, ao tossir, ao tossir com uma máscara cirúrgica, ao tossir usando uma N95. Em certo momento do vídeo, uma segunda pessoa é colocada, e o deslocamento de ar passa a ser mostrado em relação a dinâmica de conversa das duas pessoas. 

Esses vídeos tinham como objetivo mostrar como as máscaras interrompem o fluxo de ar provocado pelo nosso corpo ao respirar, andar, tossir, e conversar no nosso cotidiano. A grande característica deles é fornecer uma comparação visual de um movimento sem e com uma máscara, além da comparação entre os diferentes tipos de máscaras. Essas imagens fazem algo de diferente em relação ao que muitas vezes é dito sobre as informações que nos chegam através do noticiário, na qual os especialistas são levados a esses espaços e o convencimento é feito através da figura autoritativa do cientista. Não seria apenas mais um caso clássico de “fé na ciência”, mas naquilo em que nós vemos a partir dos nossos próprios olhos.

Em artigo recente, o antropólogo Jeremy Stolow desenvolve sua noção de corpo pandêmico. Parte de seu argumento é mostrar como nossa percepção das fronteiras corporais (de onde nosso corpo começa e termina) estão sendo constantemente feitas em relação a um cálculo de risco e ameaça. Isso pode ser visto, para o autor, na multiplicação de representações visuais que demonstram o risco que um corpo corre quando colocado em determinada distância de outro. De certa forma, essas imagens da respiração materializam o que falam Juliana Boldrin e Jeremy Stolow, quando apontam para a porosidade de nossos corpos. O que nossos olhos veem ao assistir atentamente aos vídeos é uma nuvem que deixa nossa boca e nos envolve, ondulando e reverberando até tocar outras “superfícies”. Se olharmos para os comentários do vídeo teremos: “Se eu não estava paranoico antes, estou agora!”, “nós deveríamos todos estar usando máscaras”, ou “a distância segura deveria ser maior do que 2 metros”. A persuasão decorrente das imagens não provém somente do experimento visual, mas de sua montagem em sequência e em comparação, e do sentimento de medo e responsabilização que ele parece inculcar na audiência. 

A sequência de imagens ao mostrar como esse fluxo pode ser contido através das máscaras, parece tornar razoável que nós nos responsabilizemos pela delimitação dessa fronteira. Nesse sentido, além de materializarem a dinâmica do vírus, os vídeos nos oferecem uma solução: eles ensinam como podemos nos manter condensados nesse limite. Apesar disso, se olharmos atentamente para as imagens, podemos perceber um fluxo de ar que escapa das pessoas mesmo com as máscaras, mesmo que pouco. Por mais que existam tentativas de delimitar muito bem o espaço e as fronteiras, como aponta o texto de Juliana Boldrin (2020), sempre existe um deslocamento capturado pela câmera que evidencia que todos os nossos movimentos deslocam, de certa forma, o ar que nos envolve, formando uma espécie de “aura” na imagem, e escancarando tragicamente a impossibilidade de controlar todos os fluxos e movimentos – para esse problema, outras medidas teriam de ser tomadas.

A mim parece interessante pensar como essas imagens produzidas da mesma forma adquirem status completamente diferentes, dependendo da cadeia de relações de que fazem parte. Se, num primeiro momento e com a adição de cores e enquadramentos distintos, ela é considerada uma obra de arte, num outro momento ela é um dispositivo clínico de autopercepção e uma ferramenta diagnóstica. Essas imagens que se transformam nos fazem pensar ainda sobre a porosidade dos nossos próprios campos de conhecimento, nos entrecruzamentos entre arte e ciência, ciência e comunicação, alargando ainda mais as possibilidades que a metáfora da respiração nos traz.

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Imagem destacada: MoMa Studio: Breathe With Me da Lygia Clark

Referência Bibliográficas

MACNAUGHTON, Jane; CAREL, Havi. Breathing and Breathlessness in clinic and culture: using critical medical humanities to bridge an epistemic gap. In: WHITEHEAD A, WOODS A, ATKINSON, S, et al. (Eds.). The Edinburgh Companion to the Critical Medical Humanities. Edinburgh University Press, 2016.

TANG et al. Airflow Dynamics of Coughing in Healthy Human Volunteers by Shadowgraph Imaging: An Aid to Aerosol Infection Control. In: LoS ONE 7(4): e34818. doi:10.1371/journal.pone.0034818, 2012.