Dia: 10 de agosto de 2020

Yoga e meditação no campo terapêutico

Yoga e meditação no campo terapêutico

By admin in Dossiê Yoga e Meditação on agosto 10, 2020

Dossiê Yoga e Meditação 

Por Ana D’Angelo

Traduçaõ por Cecilia Bastos

A difusão transnacional das técnicas de yoga e meditação levou, entre outras adaptações e traduções culturais, a sua apropriação terapêutica para fins de saúde. Para isso, foi necessário um processo prévio de secularização, através do qual sua origem foi apresentada como espiritual mas não religiosa por diferentes intermediários culturais. Por exemplo, antes de sua chegada à Argentina na década de 1980, Indra Devi havia ministrado palestras e aulas na Europa e nos Estados Unidos enfatizando, a pedido expresso de seu mestre Krishnamacharya, que o yoga não era uma religião mas “um método para o desenvolvimento físico, mental e espiritual” (Devi, 2010). O yoga foi interpretado então em termos de bem-estar corporificado que permitia reunir essas dimensões usualmente separadas. A experiência é, portanto, de grande importância na análise das performances de yoga e meditação (Puglisi, 2011; D’Angelo, 2016).

 O desmoronamento da fronteira entre os campos religioso e da saúde responde precisamente ao questionamento dessas dicotomias (Bourdieu, 1988) e à necessidade de considerar a cura como uma unidade (Lock & Schepherd-Huges, 1987; Csordas & Kleinman, 1996). De fato, é observada uma confluência de aspectos terapêuticos e espirituais nos usos históricos e atuais do yoga. Essas técnicas são provavelmente os recursos esotéricos mais adaptados a um amplo campo terapêutico que excede o biomédico. Na Argentina, isso inclui uma diversidade de “culturas terapêuticas” (Papalini, 2014), nas quais os sujeitos realizam um processo de trabalho, desenvolvimento e crescimento pessoal usando diferentes recursos (tanto científicos como esotéricos).

Assistimos a uma psicologização da espiritualidade e a uma espiritualização da psicologia (Altglas, 2014; Viotti, 2014), na qual numerosos psicoterapeutas incorporam exercícios de respiração e meditação em seus tratamentos de maneira mais ou menos sistemática. Outros sugerem que seus pacientes recorram, de maneira complementar, a algum espaço de prática, principalmente para lidar com o estresse e a ansiedade (Sarudiansky & Saizar, 2007). Por outro lado, a psiquiatria adaptou as técnicas de meditação de origem budista (vipassana) como uma alternativa à medicação (Korman & Saizar, 2017; D’Angelo, 2018). Nesse trânsito de pessoas, são produzidas ressignificações e reapropriações que não ficam isentas de tensão, principalmente se puderem ameaçar os saberes e práticas das psicoterapias (Tavares, 2003). Precisamente, o yoga e a meditação foram identificadas como terapias alternativas que atingiram nossas latitudes mediadas por psicólogos gestálticos e humanistas inspirados no movimento Nova Era (Carozzi, 2001). No entanto, o caráter de alternância ou complementaridade das mesmas deve ser procurado nos itinerários terapêuticos das pessoas, mais do que nos usos profissionais (D’Angelo, 2014). 

Essas técnicas são finalmente inseridas no campo psi (mais ou menos interessado no corpo) de uma maneira principalmente pragmática e instrumental. O apelo a estudos de validação científica de eficácia mostra um esforço prolongado para alcançar maior aceitação em termos bio-científicos (Toniol, 2019). Exemplos disso são pesquisas clínicas e de neuroimagem sobre a meditação vipassana, técnicas de meditação transcendental de Maharishi Mahesh Yogi ou o Sudarshan kriya de Ravi Shankar. Este último é promovido precisamente como uma técnica para controle do estresse e ansiedade (Funes, 2012). Assim, as técnicas são recontextualizadas em novos rituais terapêuticos, onde mudam de conteúdo e função para os sujeitos que as praticam sem necessariamente perder o sentido espiritual.

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Ana D’Angelo é licenciada em Antropologia Cultural e doutora em Ciências Sociais e Humanas. Atualmente é professora e pesquisadora em antropologia na Universidad Nacional de Mar del Plata, Argentina.

Imagem destacada: foto da autora

Referências:

Altglas, Véronique (2014) From Yoga to Kabbalah. Religious exoticism and the logics of bricolage. New York: Oxford University Press.

Bourdieu, Pierre  (1988) “La disolución de lo religioso”. In  Bourdieu, Pierre. Cosas dichas (pp.102-106). Barcelona: Gedisa.

Carozzi, María J. (2001) Nueva Era y terapias alternativas. Construyendo significados en el discurso y la interacción. Bs. As.: EDUCA.

Csordas, Thomas & Kleinman, Arthur (1996) “The Therapeutic Process”. In: Sargent, Carolyn and Johnson, Thomas (eds.), Medical Anthropology. Contemporary Theory and Method. (pp. 3-21) Revised Edition. New York: Praeger.

D’Angelo, Ana (2014) “Al final todos terminaron viniendo como a terapia. El yoga entre la complementariedad pragmática, el trabajo terapéutico y la reorientación del self”. Dossier Culturas Terapéuticas. Revista Astrolabio. Nueva Epoca. Universidad Nacional de Córdoba.

D’Angelo, Ana (2016) Conciencia en la postura: del dualismo a la reflexividad en la práctica de Yoga. Runa, 37(1), 21-38.

D’Angelo, Ana (2018) “Tecnologías de autorregulación: apropiaciones psi de las técnicas zazen y vipassana de meditación” Ava. Revista de Antropología Universidad Nacional de Misiones. N° 32 pp. 109-129.

De Michelis, Elizabeth (2008) “Modern Yoga: History and forms”. In Singleton y Byrne (comps.) Yoga in the Modern World. Contemporary perspectives. (pp. 17-35) New York: Routledge Hindu Studies Series.

Devi, Indra (2010) Por siempre joven, por siempre sano. Zeta Editora. Bs. As.

Funes, María Eugenia (2012) “Notas sobre el concepto de estrés como clave de interpretación del mundo en el arte de vivir”. Mitológicas, vol. XXVII, 2012, pp. 61-73 Centro Argentino de Etnología Americana Buenos.

Korman, Guido P. & Mercedes Saizar (2017) “La orientalización de la psicoterapia: afinidades (y discontinuidades) entre espiritualidad y terapia cognitiva conductual”. In: Anuario de Investigaciones. Facultad de Psicología – UBA, Vol. XXIII, pp. 33- 41.

Lock, Margaret & Scheper-Hughes, Nancy (1987) “The mindful Body: a prolegomenon to Future Work in Medical Anthropology”. Medical Anthropology Quarterly. New Series, Vol. 1, No. 1, pp. 6-41.

Papalini, Vanina (2014) “Culturas terapéuticas: de la uniformidad a la diversidad”. In: Methaodos, Vol. 2, Nº 2, noviembre, pp. 212-226.

Puglisi, Rodolfo (2011) “La performance del Om en grupos Sai Baba argentinos: un caso de fusión cuerpo-mundo” Revista Sociedad y Religión Nº36, Vol XXI, pp. 9-36.

Sarudiansky, Mercedes y Saizar, Mercedes (2007) “El yoga como terapia complementaria en pacientes con estrés en Buenos Aires (Argentina)” Mitológicas, Vol. XXII, pp. 69-83 Centro Argentino de Etnología Americana. Argentina.

Tavares, Fátima (2003) “Legitimidade Terapêutica no Brasil Contemporâneo: As Terapias Alternativas no Âmbito do Saber Psicológico” PHYSIS: Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 13(2):83-104.

Toniol, Rodrigo (2019) “O que há para ser visto. Instrumentos, metodologias e dispositivos de produção da espiritualidade como fator de saúde”. Sociedad y Religión. Vol.29, No 52. 

Viotti, Nicolás (2014) “Revisando la psicologización de la religiosidad”. Revista Culturas Psi Vol.2, Buenos Aires, septiembre, pp. 8-25.