Dia: 5 de agosto de 2020

Yoga e consciência de si como estratégia para a educação socioambiental: o encontro do Escola Permacultural com o Yoga Marginal

Yoga e consciência de si como estratégia para a educação socioambiental: o encontro do Escola Permacultural com o Yoga Marginal

By admin in Dossiê Yoga e Meditação on agosto 5, 2020

Dossiê Yoga e Meditação 

Por Pedro Gabriel Ferraz Gama

Conheci o projeto Escola Permacultural quando buscava, para minha pesquisa de doutorado em Antropologia Social, propostas pedagógicas em instituições escolares com ações pautadas na valorização da experiência de estudantes em torno dos fenômenos da vida, e, mais particularmente, em torno da vida que se produz em relações harmônicas a partir da terra. Os cursos de permacultura e agroecologia[1] oferecidos a estudantes de escolas públicas de ensino médio pelo Instituto Permacultura Lab[2] pareciam ser exatamente o que eu procurava. Mas para minha surpresa o programa previsto para o ano letivo não se restringia a atividades de manejo agroflorestal e gestão de diferentes tipos de resíduos. Práticas voltadas ao conhecimento de si –  como o Yoga e a meditação – e aulas sobre alimentação, questões de gênero e sexualidade ocupavam espaço importante no planejamento dos cursos.

Entendi mais tarde que o modelo de formação oferecido a estudantes refletia a abordagem sistêmica proposta pela permacultura, em que a criação e manutenção de uma cultura de sustentabilidade envolve domínios interdependentes, tão diversos quanto os elencados nas pétalas da flor no diagrama da figura 2, que partem da atenção a necessidades em nível pessoal e local e evoluem em espiral para dimensões coletivas e globais, numa totalidade integrada. Deste ponto de vista, as oficinas de Yoga e Meditação, conduzidas pelo projeto Yoga Marginal[3] como parte dos cursos oferecidos pelo Escola Permacultural, estavam exatamente onde deveriam estar.

Figura 2. Flor da permacultura. Fonte: permacultureprinciples.com

  Enquanto as aulas sobre o cuidado com a terra – como solo e como planeta – chamavam atenção para os problemas implicados na manutenção de hábitos culturais e padrões de produção e consumo predominantes em sociedades industriais modernas – a insustentabilidade e a necessidade de equilíbrio do lado de fora, as aulas de yoga com Tainá Antônio convidavam cada estudante a orientar a atenção e o olhar para dentro de si, seu silêncio, suas forças, seus limites. Era a primeira vez que a maioria delas/es tinha contato com esse tipo de prática. A oportunidade de investigar o corpo em diferentes posturas, de lidar com a vergonha ou com o medo, de experimentar exercícios de meditação e relaxamento cuja instrução consistia em “só se observar” (figura 3) e de dedicar um momento simplesmente para agradecer, “ser grato”, foi muito bem recebida pelas/os estudantes. As únicas reclamações relacionadas às aulas de yoga eram na verdade uma reinvindicação de que as mesmas não estivessem limitadas a um dos módulos dos cursos de permacultura e agroecologia, mas que se estendessem por todo o ano letivo.

Figura 3. Relaxamento ao fim da aula de Yoga. Foto do autor

A proposta de produzir conhecimento sobre o mundo a partir de um olhar para si, para dentro e para a própria experiência contrastava com o formato mais comum de ensino e aprendizagem encontrado entre as disciplinas do currículo escolar obrigatório. Essa atenção e cuidado dedicado a si – a partir do yoga e da meditação, mas também de aulas sobre alimentação e fitoterapia e de conversas e trocas de experiência sobre variados assuntos que se mostrassem relevantes a partir dos encontros – pareceu colaborar para a ampliação entre estudantes de seu leque de outras e outros significantes, também merecedoras/es de atenção, cuidado ou respeito. Entre essas/es estudantes, presenciei alguns relatos sobre o encontro com uma versão de si, um “eu”, que agradava mais e que se preocupava mais com o entorno também, num movimento esperado e estimulado na perspectiva sistêmica da permacultura. Um deles, durante uma das avaliações periódicas das aulas solicitadas por professoras/es, considerou que as mesmas lhe proporcionaram um “desenvolvimento humano muito bom”, e compartilhou com a turma um relato particularmente significativo em relação a esse processo:

“Tem muitas pessoas que falam sobre preservar a floresta, preservar os animais, ajudar eles e etc. Mas como você quer ajudar esse espaço se você não ajuda a sua própria espécie, que é o ser humano? […]. Você tem que ter humanos com a vitalidade boa, com a saúde mental boa, para conseguir não se autodestruir e então proteger a floresta. Porque a gente tem uma sociedade doentia, que sofre muitos transtornos mentais; humanos que se destroem muito. […] A permacultura fala muito sobre humanidade, ela ajuda muito a centrar o nosso humano interior. Ajudando o nosso humano interior a gente consegue se conscientizar, a gente consegue criar empatia com aquele povo do quilombo [Cafundá Astrogilda, visitado pela turma]”. (Estudante da turma de Permacultura, 1º ano do ensino médio, em novembro de 2019).

A associação racional muitas vezes sublinhada em propostas de educação ambiental entre preservação de ecossistemas e o bem-estar da espécie humana ganha, na experiência vivida por essas/es estudantes, contornos mais tangíveis. Entende-se na prática, com essa educação da atenção para dentro e para fora, que o cuidado consigo mostra-se ao mesmo tempo “fundamental para” e “dependente do” cuidado com o entorno e com as demais espécies. As experiências conduzidas com essas turmas, com recursos limitados e em horários proporcionalmente reduzidos da rotina escolar, indicam a potência de contribuição que perspectivas sistêmicas e holistas como a permacultura e o yoga apresentam para uma educação mais harmônica e comprometida com os crescentes desafios socioambientais que se nos impõem. 

 ***

Pedro Gabriel Ferraz Gama é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional – UFRJ. Tem interesse em abordagens sistêmicas sobre a vida, educação e agroecologia. É entusiasta do yoga e da meditação como formas de auto-conhecimento e auto-cultivo. O texto é baseado em pesquisa etnográfica realizada desde maio de 2019, em que acompanha as atividades do projeto Escola Permacultural em duas escolas públicas na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Notas: 

[1] O conceito de “permacultura” foi desenvolvido pelos ecologistas australianos David Holmgren e Bill Mollison na década de 1970 e remete a conhecimentos e práticas voltados para a criação de ambientes capazes de satisfazer as necessidades humanas e ao mesmo tempo de conservar a harmonia e equilíbrio dos sistemas em que se inserem. O nome permacultura é uma referência a “cultura permanente”, pensada em oposição aos sistemas industriais modernos, lineares em seu consumo de recursos e produção de resíduos e, portanto, insustentáveis no longo prazo. O conceito de “agroecologia”, por sua vez, remete a práticas de agricultura sustentável, num movimento de resistência à mecanização do campo operada pela chamada Revolução Verde e valorização de formas tradicionais de cultivo, com atenção a questões sociais, políticas, culturais, ambientais e éticas nele envolvidas.

[2] https://permaculturalab.wordpress.com/

[3] https://www.instagram.com/yogamarginal/

Imagem destacada: Prática de Yoga para os estudantes da turma de Permacultura, no CIEP Raul Ryff, em Paciência. Foto do autor