Dia: 6 de julho de 2020

Como o capitalismo transformou as mulheres em bruxas

Como o capitalismo transformou as mulheres em bruxas

By admin in Publicações on julho 6, 2020

Sobre Bruxas, Caça às Bruxas e Mulheres, o último livro de Silvia Federici

Texto original de Sady Doyle para In These Times

A obra da feminista e socialista italiana Silvia Federici é leitura obrigatória para compreender as políticas de gênero em 2019. As frases iniciais do seu ensaio de 1975 Salários contra o trabalho doméstico: “Eles dizem que é amor. Nós dizemos que é trabalho não remunerado”, ficarão rondando sua mente e mudarão todo o seu conceito de família. Calibã e a bruxa, seu trabalho titânico de 1998 sobre os julgamentos das bruxas como um recurso ao serviço do capitalismo primitivo, desarmará os seus preconceitos e reestruturará o modo como você enxerga as coisas. 

Federici não é apenas relevante, como se torna mais importante a cada segundo que passa. Ao longo do seu trabalho, ela descreve de que modo o capitalismo afeta e invade a esfera “privada” feminina do trabalho doméstico e reprodutivo não remunerado, examina a intimidade, desvelando todas as suas camadas tóxicas de tinta com chumbo e amianto, até que seus pilares, assentados na exploração, se fazem evidentes. Seu trabalho é essencial para decifrar o momento presente, uma vez que o capitalismo e o patriarcado se entrelaçam para produzir uma descendência cada vez mais grotesca: as agências de adoção depredadoras que obrigam as mulheres a abrir mão de seus bebês; o custo exorbitante do cuidado das crianças que faz com que as mães trabalhadoras solteiras quebrem; indústrias inteiras onde a oportunidade de abusar das mulheres impunemente é usufruída por homens poderosos. E, graças a deus, parece que nos demos conta; a metade das mulheres jovens de esquerda que hoje escrevem, foram influenciadas pelo trabalho de Federici.

O último livro de Federici, Mulheres e caça às bruxas, atualiza e amplia a tese principal de Calibã e a bruxa, no qual argumentava que a “caça às bruxas” era uma forma de alienar as mulheres dos meios de reprodução. Na transição do feudalismo para o capitalismo, argumenta Federici, houve um impulso revolucionário intermediário no sentido do comunismo. Os grupos comunais, com frequência, abraçavam o “amor livre” e o igualitarismo sexual; homens e mulheres solteiros viviam juntos; algumas comunas eram exclusivamente femininas; e a igreja católica, inclusive, somente castigava o aborto com uns poucos anos de penitência.

Para os servos que cultivavam a terra em troca de uma parte dos cultivos, o lar era trabalho e vice-versa; homens e mulheres cultivavam batatas juntos. Entretanto, no capitalismo, os trabalhadores assalariados devem trabalhar fora de casa, o que significa que alguém mais precisa estar em casa fazendo o trabalho doméstico. Então, os papéis de gênero e a subjugação das mulheres se fizeram necessários.

As primeiras elites feudais na Europa rural tomaram as terras públicas, fazendo delas propriedades privadas e controláveis, e o patriarcado enclausurou as mulheres em matrimônios “privativos”, impondo a elas a servidão reprodutiva obrigando-as a parir os filhos dos homens e ao trabalho emocional de cuidar de todas as necessidades desses homens. A gravidez e o parto, antes uma função natural, foram transformados em um trabalho que as mulheres faziam para seus maridos-chefes, isto é, o parto foi transformado em trabalho alienado. As “bruxas”, de acordo com a literatura de caça às bruxas como o Malleus Maleficarum, eram mulheres que mantinham o parto e a gravidez nas mãos das mulheres: parteiras, aborteiras, herboristas que proporcionavam anticoncepcionais. Foram assassinadas para erigir o poder patriarcal e criar a classe operária doméstica subjugada, necessária ao capitalismo. “O corpo é para as mulheres o que a fábrica é para os homens trabalhadores assalariados”, escreve Federici no Calibã, “o principal terreno de sua exploração e resistência”.

A elegância deste argumento, a forma ordenada como une o público e o privado, é emocionante. Têm momentos em que Federici compreende as coisas de uma maneira única. Nessa passagem, explica de que modo a sexualidade, a partir do momento em que foi demonizada “para proteger a coesão da igreja como clã masculino, patriarcal”, passou a ser subjugada no capitalismo: “Uma vez que seu potencial subversivo foi exorcizado e interditado por meio da caça às bruxas, a sexualidade feminina pôde ser recuperada, em um contexto matrimonial e com fins de procriação(…) No capitalismo, o sexo só pode existir como força produtiva a serviço da procriação e da regeneração do trabalhador assalariado/masculino e como meio de pacificação e compensação social pela miséria da existência cotidiana”. 

Dito de outro modo, um homem pode ter relações sexuais com sua esposa para ter um filho e herdeiro, e pode ter relações com uma profissional do sexo para se aliviar, mas é conveniente manter a profissional do sexo criminalizada e a esposa dependente: ambas são trabalhadoras, e ele, como chefe, não deseja que elas comecem com exigências (Ver: A saga Stormy Daniels-Donald Trump, ou a reação de pânico dos homens diante do #MeToo, quando as mulheres, tratadas pelos homens como meros artigos de luxo começaram a reagir e a enfrenta-los).

Os prazeres da leitura de Mulheres e caça às bruxas se produzem em pequenos e rápidos lampejos de iluminação. Federici transita pelo seu famoso argumento ampliando-o, atualizando-o e propondo novos ângulos. Alguns ensaios funcionam melhor do que outros. Sua análise da fofoca e de sua criminalização é excelente; delineia uma história concisa e condenatória sobre como “uma expressão que usualmente aludia a uma amiga próxima se transformou em um termo que significava conversa fútil, maledicente”, e sobre como esse ato que referencia mulheres falando entre si, geralmente de homens, e de uma forma que pode desagradar aos homens, foi castigado com tortura e humilhação pública, como no caso da “scold bridle” [rédea ou freio das rabugentas]. Esse dispositivo de tortura, usado até o inicio do século XIX, era uma máscara com um freio (às vezes com espinhos) que era inserido na boca da mulher e a impedia de mexer sua língua. A fofoca, assim como as bruxas, foi criminalizada por referir às mulheres. Federici é sempre oportuna: as atuais “redes de sussurros”, nas quais as mulheres compartilham as identidades de abusadores e assediadores para se protegerem mutuamente, são interpretadas como fofoca. E tal como demonstra o julgamento do acusado de estupro Stephen Elliott contra Moira Donegan e a lista de “Shitty Media Men”, muitos homens ainda desejam que a fofoca seja julgada nos tribunais. Outras questões analisadas no livro resultam menos convincentes. Federici passa muito tempo analisando a caça às bruxas na África contemporânea no contexto da globalização. Apesar de ter um interesse profundo pela política africana, eu gostaria que ela tivesse passado mais tempo explorando as diferenças entre a Europa medieval e a África atual.

O conceito de “bruxa”, enquanto usuária de magia negra, varia de acordo com as culturas. Um homem de Ghana, uma mulher Navajo e um predicador evangélico branco em Louisiana irão definir a “bruxaria” de maneiras distintas. Com frequência, Federici parece exportar para a África o modelo medieval europeu, no qual as bruxas são mulheres que supostamente ganharam seus poderes ao ter relações sexuais com Satanás e comer bebês, e cuja ameaça estava inerentemente vinculada à “desviada” (por independente) sexualidade feminina – um modelo que parece não encaixar totalmente em outros contextos culturais.

Não duvido de Federici quando afirma que os assassinatos de bruxas na África são motivados pelos mesmos fatores que o pânico medieval: o capitalismo, a influência do cristianismo fundamentalista, a necessidade de apoderar-se da terra pela eliminação de seus proprietários. Contudo, as diferenças importam. Em partes da África Central e Ocidental, o protótipo de bruxa não é o de uma anciã (como na Europa), mas sim uma menina, frequentemente a filha de um pai que se divorciou ou enviuvou recentemente. Existe algo vital acerca de como o capitalismo elimina de forma cruel as crianças que põem à prova os recursos de sua comunidade, e ao considerar a “caça às bruxas” como um fenómeno intercultural homogêneo, perde-se a oportunidade de refletir sobre isso.

Estas são questões menores acerca de um livro que, suspeito, os leitores irão amar. Ao ler Federici, não se trata de concordar com ela em tudo, mas permitir que ela sacuda o pó e as teias de aranha de sua mente, que abra novos caminhos de pensamento e desperte novas curiosidades. Abrir este livro ao acaso tornará possível exatamente isso, como quando Federici explica que as bruxas costumam ser anciãs: “As mulheres velhas já não podem procriar ou prover serviços sexuais e, portanto, representam uma perda na produção de riquezas”; ou vincula as bruxas com outras insurreições históricas: “a representação dos desafios terrenais das mulheres às estruturas de poder como uma conspiração demoníaca é um fenômeno que tem se manifestado uma e outra vez na história até nossos dias” (Mulheres e caça às bruxas foi publicado originalmente apenas algmas umas semanas antes que um sacerdote exorcista católico celebrara uma missa especial para proteger a Brett Kavanaugh, acusado de violência sexual, de um feitiço lançado por algumas bruxas).

Cada frase do livro abrirá as portas para outros trabalhos da autora. Este não é o livro de Federici com o qual devemos concluir a leitura de suas obras, mas o que você deve escolher quando esteja pronto para começar…

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Publicado originalmente em inglés em  In These TimesTradução para o espanhol de Alejandro Frigerio para DIVERSA. Tradução ao português Lucia Copelotti

Imagem destacada: Fotografía de Aisha Maya Bittar para Revista Vómito 

Sady Doyle contribui regularmente com a revista online In These Times. É autora do livro “Trainwreck: The Women we Love to Hate, Mock and Fear… and Why” (Melville House, 2016) e fundadora do blog Tiger Beatdown. Graduou-se no Eugene Lang College em 2005, e tem contribuído com diversos meios norteamericanos. 

 

Terapias controversas

Terapias controversas

By admin in Publicações on julho 6, 2020

Por Luciana Cavalcanti

A pandemia provocada pelo novo coronavírus aqueceu diversos debates e disputas sobre temas relacionados às políticas públicas de saúde e de controle sanitário e o papel do Estado na administração de direitos básicos, como é a saúde. A crise sanitária emergiu, vale lembrar, num contexto de uma estabelecida lógica neoliberal na tomada de decisões políticas e de ascensão da extrema direita em diversos países do mundo. E, nos lugares onde teorias negacionistas surgiram enquanto importantes atores na arena pública, que agora, surpreendentemente ou não, revelam seus frutos, os debates aparecem particularmente acirrados.

Em meio a tudo isso, um tema que nos interessa particularmente são as polêmicas em torno das terapias alternativas e práticas integrativas e complementares (PICs), que se intensificaram junto com as angústias que vão se somando a cada dia e com uma crescente e renovada esperança na ciência. Há diferentes perspectivas com relação ao uso e legitimidade dessas práticas, que parecem ter sido atualizadas com o contexto pandêmico.

Num texto do início de março, “Creencias y epidemias: Complementariedad, mejor que estigmatización”, Gabriela Irrazábal indicava, antes da chegada da pandemia à América Latina, atitudes práticas e informações importantes para o enfrentamento do vírus que se aproximava. Dentre as recomendações, ao constatar a força e importância de distintas crenças para o povo argentino (ela se direciona ao seu contexto, mas o argumento cabe também no Brasil), ela sugeriu que: “Em vez de estigmatizar e tratar essas práticas [orações, assistir a programas religiosos, tratar-se com curandeiros] como ignorantes ou “não científicas”, é conveniente usar os espaços de espiritualidade e religiosidade como mais um canal de informações em saúde e de acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde. Deve-se fomentar a complementaridade terapêutica e não a rejeição e estigmatização de práticas e costumes enraizados na sociedade. A espiritualidade e religiosidade afetam o processo de tomada de decisão na busca pela cura. (…) As pessoas respondem a doenças infecciosas e tomam decisões alinhadas às estruturas interpretativas enraizadas cultural e historicamente. Atitudes, práticas e comportamentos são o produto de lógicas culturais que dão sentido à vida pessoal e à experiência coletiva.” [tradução minha]. Essa mesma noção de complementaridade é um dos argumentos que sustenta a presença das PICs no SUS.

No dia 21 de maio, quando as mortes por covid-19 no Brasil ultrapassaram a marca de 20 mil, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) aprovou uma recomendação sugerindo ao Ministério da Saúde e aos conselhos estaduais e municipais a ampla divulgação de evidências científicas sobre as práticas englobadas pela Política Nacional de PICs, assim como de materiais de comunicação informativos sobre o uso das PICs nesse momento. As terapias, que vão desde yoga até ozonoterapia, aparecem então como cuidados a se ter no horizonte nessa pandemia. 

A aprovação dessa recomendação foi muito criticada por cientistas pela incoerência, já que o mesmo Conselho considerou que não se deve fazer uso da cloroquina para o tratamento da covid-19, já que não há evidências que comprovem sua eficácia e, por outro lado, indícios de que pode piorar o quadro se tornam mais robustos. Essa parcela da comunidade científica aponta que faltam evidências concretas que demonstrem que as PICs – ou pelo menos a maioria delas – façam bem à saúde e, portanto, o consideram o oferecimento delas no sistema público de saúde um mau uso do dinheiro público, um gasto.

A esse lado da polêmica soma-se o Instituto Questão de Ciência, associação que se dedica a promover a ciência e defender o embasamento de políticas públicas em evidências, sendo desde sua criação muito crítico da PNPIC e de tudo aquilo que não seja cientificamente comprovado. O Instituto estende a crítica de incoerência à posição da OMS, que reconhece medicinas tradicionais e terapias alternativas há bastante tempo, mas fez advertências quanto ao uso de métodos “naturais” para o uso de covid-19. Para eles, essa posição ambígua da OMS reflete o cenário que possibilitou a promoção da cloroquina, que veio à tona por causa de uma pesquisa inconsistente e irresponsável, e logo se tornou objeto de disputa política, como sabemos. A aproximação de um comportamento político que nega a gravidade da pandemia, promove um medicamento provavelmente ineficaz e retira a responsabilidade do Estado de cuidar da população, de um lado, com a conquista de espaço na saúde pública e persuasão das terapias alternativas, de outro, passa pela percepção de que o negacionismo de um equipara-se à inconsistência e incompatibilidade científica do outro. Nesse sentido, também revela a identificação de uma irracionalidade comum que deve ser combatida pelo rigor do método científico, defendido pela comunidade de cientistas que a partir dele se orienta. 

Embora exista, nos dois casos, um afastamento do que constitui a produção e validação científica e moderna de conhecimento, não parece tão claro que os dois movimentos se originem do mesmo tipo de raciocínio e modo de encarar o conhecimento. Além disso, a irracionalidade, se é que essa é uma boa palavra, pode ter várias origens e responder a distintos interesses e crenças, alguns mais, outros menos difíceis de explicar.

Frente a essas reações, o CNS divulgou uma nota explicativa dizendo que nunca recomendou o uso das PICs como tratamento para a covid-19, e no mesmo sentido, o ObservaPICS, da Fiocruz, junto com diversos laboratórios e grupos de pesquisa de universidades de todo o país, lançaram uma nota na qual defendem a importância dessas terapias enquanto práticas complementares ao tratamento convencional, que oferecem cuidado e suporte para enfrentar sofrimentos físicos e psicológicos. Além disso, ambas as notas apelam para o combate de fake news, ao dizer que a grande mídia divulgou, equivocadamente, que a recomendação do CNS sugeria as PICs como substituto da cloroquina ou de qualquer outro tratamento da doença.

A disputa de narrativa mostra como a produção e validação coletivas de conhecimento, a disseminação de notícias e informações falsas, o financiamento público de direitos e serviços e a função e alcance do Estado são temas políticos, imbricados e que muitas vezes se confundem, revelando características histórico-políticas que constituem nossa sociedade e também o fato de que demarcações que acreditamos estabelecidas estão, na realidade, em constante movimento. A pandemia apenas tornou mais transparente essa rede.

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Imagem destacada: https://artuk.org/discover/artworks/dux-et-comes-iv-30933/search/actor:wadsworth-edward-alexander-18891949/page/1/view_as/grid 

Referências: