Dia: 16 de junho de 2020

Espírito por Emily Ogden

Espírito por Emily Ogden

By admin in Publicações on junho 16, 2020

Texto original de Emily Ogden para Immanent Frame

Tradução por Isabela Mayumi

O que quer que espírito seja – e o termo possui muitos significados – você geralmente precisa se livrar de alguns obstáculos para chegar a ele. Esses obstáculos podem ser corpo e paixão, como quando o espírito está pronto, mas a carne é fraca. Eles podem ser algo material, como quando a essência dos chifres de um veado-vermelho se diferencia da galhada de um cervo. Tais obstáculos podem ser os eventos contingentes opostos ao Espírito Absoluto da História, como em “Fenomenologia do Espírito” de Hegel. Quando nos dizem que o avião de Charles Lindbergh é chamado de “O Espírito de São Luís” [Spirit of St. Louis], ou que um desodorante tem cheiro de espírito adolescente, nós deveríamos nos lembrar apenas dos melhores e mais sublimes aspectos dessas coisas. Uma lista bastante parcial do que é tirado de nossos conceitos de adolescência ou de St. Louis deve incluir suor, corpo, gênero, infraestrutura urbana, segregação racial e política – em resumo, tudo o que cheira mal. O espírito do Espírito, se você me permite dizer, é demolição.

O espírito nas experiências de transe dos séculos XVIII e XIX nos EUA não é exceção. Espiritualistas estadunidenses ativos durante a segunda metade do século XIX contatavam o além utilizando uma variedade de técnicas mediúnicas. Os médiuns eram pessoas capazes de transformar os seus corpos em canais de comunicação com o outro mundo. Às vezes os espíritos usavam o corpo do médium para escrever, falar ou fazer gestos; outras vezes eventos peculiares, como barulhos desencarnados ou violões tocando sozinhos, aconteciam exclusivamente na presença do médium. Crucialmente, os médiuns eram canais transparentes: passavam mensagens sem intervir nelas.  A mediunidade estava portanto relacionada com outras formas de experiência, como o despertar Protestante, as visões Shaker e os encontros Quaker, em que o recebimento direto do espírito surgiu como a eliminação de obstáculos institucionais, seja clerical ou textual, seja do individual e do divino. 

Os espíritos transmitiam mensagens e performances de diversos tipos, incluindo notícias de alguém querido ou algum ilustre falecido, pistas de onde algum objeto perdido poderia estar, visões de uma sociedade mais igualitária, e fantasias racistas nas quais os médiuns personificavam povos indígenas, ou seja, brincavam de índio. Entre os vários tipos de comunicação espiritual, um se destacou por tensionar diretamente a reputação anti-hierárquica do espírito. Esse gênero pode ser chamado de organograma vatic [vatic org chart]: imagina-se a “Terra do Verão” [Summerland], o céu espiritualista, como um lugar onde o entrecruzamento de esferas, os círculos e as conexões elétricas são tão difíceis de serem rastreadas quanto as partes de uma instituição complexa. O que pensamos sobre o espiritualismo ter re-inserido a hierarquia no céu, quando esta parecia ser a prática explicitamente projetada para ser eliminada? Em outras palavras, por que a Terra do Verão é tão burocrática?

Tanto Andrew Jackson Davis, que se tornou teólogo não-oficial do espiritualismo, quanto o médium Joseph D. Stiles tinham visões desse tipo. Enquanto que o anti-clericalismo de Davis, em Os Princípios da Natureza [The Principles of Nature], chama o clérigo de o mais “inviável” e “corruptor” das profissões, seu céu é uma hierarquia de seres que habitam amplamente ao menos sete esferas, algumas com sub-esferas, cujo contato é controlado conforme os graus de iluminação. Stiles descreve extensivamente as hierarquias do céu, com níveis, círculos e linhas de conexão liaison, representadas por carga elétrica. Em certa passagem, o espírito de Samoset preside um círculo, presumivelmente mais baixo do que o de Benjamin Franklin. Cada círculo está em uma esfera diferente, e independentemente do nível acontecem trocas elétricas entre os dois círculos, e assim Franklin dá choques em Samoset*. Davis e Stiles visualizaram a dinâmica do poder nos canais oficiais do céu, mesmo quando as práticas espiritualistas da Terra aparentemente desejassem afastar tais formalidades.

Assim, a libertação da burocracia se parecia muito com a burocracia. A libertação parecia a metástase, e não a ausência, de restrição. Isso é muito ruim? É tão ruim quanto parece? O que está em jogo na cópia espiritualista da hierarquia é a questão de sua liberdade: eles acabaram reproduzindo, sintomaticamente e apesar de si mesmos, precisamente o que estavam tentando escapar, simplesmente por que não dá para escapar de nossas condições históricas? Questões desse tipo tornaram-se bastante comuns nas ciências humanas. Visualizar o poder em termos de um discurso circulante que não pode ser localizado em um soberano e que não pode, portanto, ser escapado, os(as) pesquisadores(as) podem sentir como se seus sujeitos – e eles mesmos(as) – fossem pegos, na apropriada expressão de Rita Felski, “em uma teia sem aranha”. 

Portanto, uma vez que a liberdade do sistema está em jogo para os espiritualistas, acho que uma situação afetiva provavelmente está em pauta aos acadêmicos das humanidades dessa área: um afeto que poderíamos chamar de “melancolia foucaultiana”. O estado de melancolia foucaultiana é aquele em que você se indaga com alguma angústia, ou talvez agora com tédio, não há saída para o sistema? Não existe um personagem dessa narrativa que escapa à sátira geral? Não há uma única mariposa que mantém suas asas livres? Não existe um lá fora?

Faz e não faz sentido que o trabalho de Michel Foucault inspire esses estados desagradáveis. Faz sentido pois ele nos oferece o modelo imensamente influente de modernidade, caracterizado pela ascensão da instituição total e pelo poder que nos põe em seus calendários e exames, em vez de nos quebrar na roda de Santa Catarina. Não faz sentido porque Foucault raramente é visto, se é que foi visto, preocupado. Se existe uma melancolia foucaultiana, Foucault não sofreu disso. Ele é um escritor malicioso, satírico e lírico, mas em geral não angustiado. Na verdade, ele parece ter um certo prazer na poiésis de nossas respostas ao poder; seu Carlos Lineu “sonha” em “caligramas botânicos”. Os devaneios de Lineu o afundaram no sistema, não o levaram para fora dele. Então não há liberdade, se você acha que liberdade é encontrar a saída. Mas há poesia. 

Susan Stewart chama de “a liberdade do poeta” a capacidade de construir e destruir. Aqui, a liberdade não é escapar da matrix, mas adotar a posição do arquiteto fantástico em relação à imagem do espelho da matrix. Stewart descreve um garoto que constrói um castelo de areia com “torres, fossos, paredes internas, entalhes talhados pela ponta de uma colher para marcar onde as janelas ficariam”. Com seu trabalho completo, ele de repente destrói o castelo – não com ressentimento, mas com prazer. Stewart comenta: “Sem a liberdade de reversibilidade promovida pelo desfazer… Não podemos dar valor à nossa criação”. Com a destruição, “o garoto parecia devolver o poder da forma de volta a si mesmo”. 

Se pensarmos nesse sentido, o espírito da burocracia da Terra do Verão pode ser afinal um certo tipo de espírito livre. Como uma hierarquia clerical, um castelo – afinal uma fortaleza medieval – é uma tecnologia de poder. O garoto de Stewart reivindica esse poder como dele para usar ou destruir. Ele o torna tão frágil quanto ilimitado. A poíesis frágil também se encontra nas fantasias organizacionais espiritualistas. A fragilidade está no fato de que raramente os organogramas articulam-se entre si. As esferas de Davis são concêntricas ou o quê? Samoset e Franklin estão apenas flutuando em algum lugar? Eu ainda nunca tive sucesso em desenhar esses sistemas no papel; talvez seja eu, mas suspeito que eles sejam esquematizados sem de fato serem esquematizáveis (para seu crédito, Davis tentou). O poder de fazer esses sistemas existirem, e então deixá-los colapsar sob o peso de sua impraticabilidade, é o que Davis e Stiles declaram ser em nome do espírito. Cabe a eles chutar o castelo no ar. A mariposa desliza na danificada teia de aranha. Desta vez, demolição realmente funciona.

*Robert Cox tem uma excelente discussão dessa cena em Body and Soul (Nota da autora).

 

Emily Ogden (@ENOgden, www.emilyogden.net) é professora associada de inglês da Universidade da Virgínia e autora de Credulity: A Cultural History of US Mesmerism (Universidade de Chicago Press, 2018). Ela escreveu para o New York Times, Critical Inquiry, Lapham’s Quarterly Online, American Literature, J19, Public Books e Early American Literature. Sua coluna regular aparece em 3 Quarks Daily.