Dia: 28 de maio de 2020

Fôlego Global

Fôlego Global

By admin in Novidades on maio 28, 2020

Texto original de Peter van der Veer para Religious Matters

Tradução de Cecilia Bastos e Thaís Assis

Há mais de dez anos, publiquei um artigo intitulado Global Breathing, que discute a história social das técnicas de respiração em práticas espirituais na Índia e na China – tais como Yoga e Qi Gong. As tradições hindu, taoísta e budista entendem o controle sobre a respiração não apenas como essencial para a vida, mas também para o crescimento espiritual. Tal ideia é compartilhada inclusive por algumas tradições cristãs e islâmicas. O artigo explorou a nacionalização e a globalização dessas técnicas que encontraram audiência muito além da Índia e da China. No momento atual, testemunhamos a globalização de um vírus que ataca nossa habilidade de respirar e nenhuma técnica espiritual está disponível para manter o controle sobre a respiração. É preciso confiar em dispositivos mecânicos para assumir nossa respiração enquanto lutamos contra o vírus.

No auge da crise do Corona: um passo além das máscaras

 

O coronavírus é um ataque ao corpo, tanto o corpo individual quanto o político. Na mídia, a atenção se volta para este último. Nenhum governo do mundo estava preparado para este ataque; pelo contrário, muitos governos locais e nacionais tentaram restringir a circulação de informações sobre o vírus ao invés de, com antecedência, controlar sua disseminação. O principal acusado é evidentemente o governo chinês que revelou ter obtido pouca experiência na epidemia de SARS. Outros governos, notavelmente aqueles dos Estados Unidos, Irã e Brasil, demonstraram ausência de uma administração responsável a seus modos. Ao mesmo tempo, cada um culpa todos os outros pelo despreparo. No imaginário dos cidadãos, a expectativa era que os governos estivessem preparados para enfrentar algo que ameaça a humanidade há gerações. O fracasso foi espantoso, mas ironicamente, obteve altas taxas de aprovação pela gestão de crise. A relação entre ciência e política é um dos aspectos mais importantes desse equívoco. Basta ler a descrição feita por Richard Evans sobre o gerenciamento do surto de cólera em Hamburgo, na segunda metade do século XIX, para se dar conta de que pouco mudou a esse respeito.

Outro aspecto pode ser designado como cultural. Um vírus originário da e propagado pela China parece ter sido considerado como um vírus chinês e um problema exclusivo do país. Por algum motivo, na Holanda e no Reino Unido a difusão da ideia de um vírus chinês esteve ainda vinculada aos efeitos do desenvolvimento da conexão 5G. Terroristas atearam fogo em inúmeras torres de telefonia celular para coibir a disseminação do vírus. É difícil não imaginar se as respostas políticas e científicas teriam sido tão lentas quanto foram caso o vírus tivesse se manifestado inicialmente na Alemanha ou nos Estados Unidos. Apesar das décadas de globalização nas quais o papel da China foi central, o país continua a ser visto com tanto distanciamento que considera-se que as coisas que acontecem por lá não afetam o Ocidente. Em uma escala menor, nota-se algo correlato na reação imediata dada por Singapura – cuja maioria dos cidadãos possui origem chinesa – ao surto na China, acentuada pela negligência quanto aos trabalhadores migrantes do sul da Ásia, que são tratados como se não existissem.

Apesar dos discursos que afirmam a necessidade de demonstrar solidariedade em meio à crise, é evidente que as desigualdades sociais e diferenças raciais estão se tornando mais perceptíveis em escala global. Depois de um período inicial no qual os chineses e outros imigrantes asiáticos vivendo em países ocidentais foram submetidos a difamação por serem considerados portadores da doença, autoridades chinesas passaram a discriminar racialmente africanos que vivem no país. O crescimento da xenofobia contra os estrangeiros na China é vertiginoso. No sul da Ásia, milhões de pobres trabalhadores imigrantes estão condenados a sofrer com os lockdowns, enquanto as estatísticas revelam que, nos Estados Unidos, as populações com ascendência africana ou hispânica morrem em taxas desproporcionais.

A mídia acompanha esses acontecimentos políticos em detalhes e há muita discussão política nas redes sociais. Quero chamar atenção para algo que merece destaque: o corpo individual e a conceituação do corpo nas respostas culturais ao vírus. Passamos a tomar consciência da frequência com que tocamos o rosto e lavamos as mãos. A experiência urbana típica de estar “na cara” (ou diante) do outro também se transforma em um estar longe “da cara” (ou do alcance) do outro[1]. Essas disciplinas do corpo e das emoções que daí são produzidas merecem reflexão. O que mais me impressionou foram dois fenômenos enigmáticos. O primeiro é o uso de máscaras faciais. Enquanto as sociedades do Leste e Sudeste Asiático não demonstram nenhuma objeção a usá-las, as ocidentais apresentam grande resistência. Grande parte do debate nos países ocidentais se pauta por questões aparentemente racionais, como a eficácia das máscaras faciais, seu uso por crianças ou pessoas com deficiência ou sua disponibilidade. Por trás dessas discussões racionais está o incômodo em não mostrar o rosto, a expressão da individualidade. Existe um receio de produzir uma sociedade de massa sem rostos. Há também o medo de perder o controle do próprio corpo, principalmente quando os protocolos são decretados pelas autoridades. A máscara se torna um sinal de obediência coletiva à autoridade externa. Tais sentimentos coletivos já haviam se revelado na oposição patente ao uso do véu muçulmano e a outras formas de recato islâmicas. Mostrar o rosto parece ser um requisito imprescindível para participar de sociedades ocidentais.

 “Use uma máscara”: um pôster do Ministério da Cultura e Política de Informação da Ucrânia

Tais sentimentos não são compartilhados na Ásia oriental. O Japão é, sob muitos aspectos, a principal potência condutora da modernidade asiática. A máscara facial foi amplamente aceita após a gripe espanhola (de fato americana) e, em geral, os japoneses são muito metódicos em sua higiene. Lavar as mãos regularmente e usar luvas são práticas comuns, que fazem parte de um senso cívico de consideração quanto ao outro. Os chineses, por outro lado, não são famosos por seu estilo de vida higiênico. Até recentemente, era bastante comum encontrar vendedores de rua idosos. Após o SARS 1 e 2, os mercados “úmidos” tornaram-se conhecidos por serem terrenos férteis para vírus perigosos. Mesmo assim, as máscaras faciais se tornaram uma norma da vida pública, especialmente com a crescente conscientização dos altos níveis de poluição do ar na China. Isso também se aplica a grandes partes do sudeste asiático. Parece que a prudência ocidental em relação a perder as feições ao usar uma máscara não incomoda as sociedades que sempre foram retratadas em termos de ter ou perder o respeito[2].

A outra resposta corporal à ameaça viral que me impressionou foi a corrida de alemães e holandeses em busca de papel higiênico. Por que o papel higiênico é uma necessidade tão absoluta? Antropologicamente falando, o banheiro é o espaço liminar entre cultura e natureza. Enquanto alguém tiver papel higiênico, ele é digno e poderá enfrentar o vírus que é um lembrete persistente do fato de que fazemos parte da natureza. A vulnerabilidade natural do corpo no banheiro requer práticas que sustentem uma distância civilizada da natureza. Novamente, existem algumas diferenças significativas nas sociedades asiáticas, muitas delas preferem o uso da água e, novamente, os japoneses são os líderes da cultura moderna com seus sistemas sanitários espetaculares. Nos banheiros indianos, por outro lado, há um pequeno recipiente com água. A mão esquerda é usada no banheiro e a mão direita no contato com alimentos. Ao mesmo tempo, pessoas de castas elevadas quase nunca limpam seus banheiros, utilizando o trabalho de pessoas nascidas na casta dos intocáveis para fazer isso. Um aspecto importante da reforma social viabilizada por Gandhi foi promover a limpeza dos banheiros por quem o utiliza. Na China rural, o papel higiênico é raro, enquanto na China urbana os sistemas de esgoto geralmente não são capazes de processar papel higiênico. Somente em Hong Kong houve grande procura por papel higiênico, talvez para mostrar que Hong Kong faz parte da civilização ocidental.

Finalmente, a resposta corporal mais significativa ao ataque viral é a morte, o fim do corpo. Nesse aspecto, as sociedades asiáticas e ocidentais têm algo em comum. A morte é negada de maneiras variadas, é um tópico evitado, relegado a hospitais e necrotérios. Embora a morte ocorra constantemente, nunca antes houve estatísticas diárias de mortes. Na Holanda, é impressionante o quão secular é a resposta à inevitável mortalidade de pessoas. Há ansiedade, até mesmo medo, especialmente de morrer sozinho sem a presença de familiares e amigos, mas não se encontram respostas religiosas. A morte e o luto pelos mortos costumava ser uma área privilegiada de interesse religioso. Somente o trabalho de campo pode nos ajudar a descobrir como tem sido as respostas na Ásia, mas trabalho de campo é algo que não podemos fazer hoje em dia.

[1] Nota das tradutoras: no texto original, há a oposição entre “being in each other’s face” e “being out of each other’s face”, o que indica um contraste entre coisas que são visíveis ou que as pessoas fazem em público e coisas que encobrem essas expressões ou distanciam os indivíduos.

[2] Nota das tradutoras: no texto original, o autor fez um trocadilho ao escrever “having face” e “losing face”. Na cutura chinesa, a expressão “to lose face” indica a perda da reputação de alguém, no sentido de honra ou moral, por isso, consideramos a palavra respeito adequada para a tradução.

*****

Peter van der Veer é antropólogo. Diretor do Instituto Max Planck para o Estudo da Diversidade Religiosa e Étnica em Göttingen e professor emérito da Universidade de Utrecht. Seus trabalhos incluem estudos comparativos entre Índia e China.

Tradutoras: Cecilia Bastos é doutora em Ciências Sociais pelo PPCIS da UERJ e pesquisadora em Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ. Thaís Assis é doutoranda em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Possui experiência na área de Sociologia da Religião, privilegiando temas ligados a espiritualidades e terapias holísticas.