Mês: maio 2020

Fôlego Global

Fôlego Global

By admin in Novidades on maio 28, 2020

Texto original de Peter van der Veer para Religious Matters

Tradução de Cecilia Bastos e Thaís Assis

Há mais de dez anos, publiquei um artigo intitulado Global Breathing, que discute a história social das técnicas de respiração em práticas espirituais na Índia e na China – tais como Yoga e Qi Gong. As tradições hindu, taoísta e budista entendem o controle sobre a respiração não apenas como essencial para a vida, mas também para o crescimento espiritual. Tal ideia é compartilhada inclusive por algumas tradições cristãs e islâmicas. O artigo explorou a nacionalização e a globalização dessas técnicas que encontraram audiência muito além da Índia e da China. No momento atual, testemunhamos a globalização de um vírus que ataca nossa habilidade de respirar e nenhuma técnica espiritual está disponível para manter o controle sobre a respiração. É preciso confiar em dispositivos mecânicos para assumir nossa respiração enquanto lutamos contra o vírus.

No auge da crise do Corona: um passo além das máscaras

 

O coronavírus é um ataque ao corpo, tanto o corpo individual quanto o político. Na mídia, a atenção se volta para este último. Nenhum governo do mundo estava preparado para este ataque; pelo contrário, muitos governos locais e nacionais tentaram restringir a circulação de informações sobre o vírus ao invés de, com antecedência, controlar sua disseminação. O principal acusado é evidentemente o governo chinês que revelou ter obtido pouca experiência na epidemia de SARS. Outros governos, notavelmente aqueles dos Estados Unidos, Irã e Brasil, demonstraram ausência de uma administração responsável a seus modos. Ao mesmo tempo, cada um culpa todos os outros pelo despreparo. No imaginário dos cidadãos, a expectativa era que os governos estivessem preparados para enfrentar algo que ameaça a humanidade há gerações. O fracasso foi espantoso, mas ironicamente, obteve altas taxas de aprovação pela gestão de crise. A relação entre ciência e política é um dos aspectos mais importantes desse equívoco. Basta ler a descrição feita por Richard Evans sobre o gerenciamento do surto de cólera em Hamburgo, na segunda metade do século XIX, para se dar conta de que pouco mudou a esse respeito.

Outro aspecto pode ser designado como cultural. Um vírus originário da e propagado pela China parece ter sido considerado como um vírus chinês e um problema exclusivo do país. Por algum motivo, na Holanda e no Reino Unido a difusão da ideia de um vírus chinês esteve ainda vinculada aos efeitos do desenvolvimento da conexão 5G. Terroristas atearam fogo em inúmeras torres de telefonia celular para coibir a disseminação do vírus. É difícil não imaginar se as respostas políticas e científicas teriam sido tão lentas quanto foram caso o vírus tivesse se manifestado inicialmente na Alemanha ou nos Estados Unidos. Apesar das décadas de globalização nas quais o papel da China foi central, o país continua a ser visto com tanto distanciamento que considera-se que as coisas que acontecem por lá não afetam o Ocidente. Em uma escala menor, nota-se algo correlato na reação imediata dada por Singapura – cuja maioria dos cidadãos possui origem chinesa – ao surto na China, acentuada pela negligência quanto aos trabalhadores migrantes do sul da Ásia, que são tratados como se não existissem.

Apesar dos discursos que afirmam a necessidade de demonstrar solidariedade em meio à crise, é evidente que as desigualdades sociais e diferenças raciais estão se tornando mais perceptíveis em escala global. Depois de um período inicial no qual os chineses e outros imigrantes asiáticos vivendo em países ocidentais foram submetidos a difamação por serem considerados portadores da doença, autoridades chinesas passaram a discriminar racialmente africanos que vivem no país. O crescimento da xenofobia contra os estrangeiros na China é vertiginoso. No sul da Ásia, milhões de pobres trabalhadores imigrantes estão condenados a sofrer com os lockdowns, enquanto as estatísticas revelam que, nos Estados Unidos, as populações com ascendência africana ou hispânica morrem em taxas desproporcionais.

A mídia acompanha esses acontecimentos políticos em detalhes e há muita discussão política nas redes sociais. Quero chamar atenção para algo que merece destaque: o corpo individual e a conceituação do corpo nas respostas culturais ao vírus. Passamos a tomar consciência da frequência com que tocamos o rosto e lavamos as mãos. A experiência urbana típica de estar “na cara” (ou diante) do outro também se transforma em um estar longe “da cara” (ou do alcance) do outro[1]. Essas disciplinas do corpo e das emoções que daí são produzidas merecem reflexão. O que mais me impressionou foram dois fenômenos enigmáticos. O primeiro é o uso de máscaras faciais. Enquanto as sociedades do Leste e Sudeste Asiático não demonstram nenhuma objeção a usá-las, as ocidentais apresentam grande resistência. Grande parte do debate nos países ocidentais se pauta por questões aparentemente racionais, como a eficácia das máscaras faciais, seu uso por crianças ou pessoas com deficiência ou sua disponibilidade. Por trás dessas discussões racionais está o incômodo em não mostrar o rosto, a expressão da individualidade. Existe um receio de produzir uma sociedade de massa sem rostos. Há também o medo de perder o controle do próprio corpo, principalmente quando os protocolos são decretados pelas autoridades. A máscara se torna um sinal de obediência coletiva à autoridade externa. Tais sentimentos coletivos já haviam se revelado na oposição patente ao uso do véu muçulmano e a outras formas de recato islâmicas. Mostrar o rosto parece ser um requisito imprescindível para participar de sociedades ocidentais.

 “Use uma máscara”: um pôster do Ministério da Cultura e Política de Informação da Ucrânia

Tais sentimentos não são compartilhados na Ásia oriental. O Japão é, sob muitos aspectos, a principal potência condutora da modernidade asiática. A máscara facial foi amplamente aceita após a gripe espanhola (de fato americana) e, em geral, os japoneses são muito metódicos em sua higiene. Lavar as mãos regularmente e usar luvas são práticas comuns, que fazem parte de um senso cívico de consideração quanto ao outro. Os chineses, por outro lado, não são famosos por seu estilo de vida higiênico. Até recentemente, era bastante comum encontrar vendedores de rua idosos. Após o SARS 1 e 2, os mercados “úmidos” tornaram-se conhecidos por serem terrenos férteis para vírus perigosos. Mesmo assim, as máscaras faciais se tornaram uma norma da vida pública, especialmente com a crescente conscientização dos altos níveis de poluição do ar na China. Isso também se aplica a grandes partes do sudeste asiático. Parece que a prudência ocidental em relação a perder as feições ao usar uma máscara não incomoda as sociedades que sempre foram retratadas em termos de ter ou perder o respeito[2].

A outra resposta corporal à ameaça viral que me impressionou foi a corrida de alemães e holandeses em busca de papel higiênico. Por que o papel higiênico é uma necessidade tão absoluta? Antropologicamente falando, o banheiro é o espaço liminar entre cultura e natureza. Enquanto alguém tiver papel higiênico, ele é digno e poderá enfrentar o vírus que é um lembrete persistente do fato de que fazemos parte da natureza. A vulnerabilidade natural do corpo no banheiro requer práticas que sustentem uma distância civilizada da natureza. Novamente, existem algumas diferenças significativas nas sociedades asiáticas, muitas delas preferem o uso da água e, novamente, os japoneses são os líderes da cultura moderna com seus sistemas sanitários espetaculares. Nos banheiros indianos, por outro lado, há um pequeno recipiente com água. A mão esquerda é usada no banheiro e a mão direita no contato com alimentos. Ao mesmo tempo, pessoas de castas elevadas quase nunca limpam seus banheiros, utilizando o trabalho de pessoas nascidas na casta dos intocáveis para fazer isso. Um aspecto importante da reforma social viabilizada por Gandhi foi promover a limpeza dos banheiros por quem o utiliza. Na China rural, o papel higiênico é raro, enquanto na China urbana os sistemas de esgoto geralmente não são capazes de processar papel higiênico. Somente em Hong Kong houve grande procura por papel higiênico, talvez para mostrar que Hong Kong faz parte da civilização ocidental.

Finalmente, a resposta corporal mais significativa ao ataque viral é a morte, o fim do corpo. Nesse aspecto, as sociedades asiáticas e ocidentais têm algo em comum. A morte é negada de maneiras variadas, é um tópico evitado, relegado a hospitais e necrotérios. Embora a morte ocorra constantemente, nunca antes houve estatísticas diárias de mortes. Na Holanda, é impressionante o quão secular é a resposta à inevitável mortalidade de pessoas. Há ansiedade, até mesmo medo, especialmente de morrer sozinho sem a presença de familiares e amigos, mas não se encontram respostas religiosas. A morte e o luto pelos mortos costumava ser uma área privilegiada de interesse religioso. Somente o trabalho de campo pode nos ajudar a descobrir como tem sido as respostas na Ásia, mas trabalho de campo é algo que não podemos fazer hoje em dia.

[1] Nota das tradutoras: no texto original, há a oposição entre “being in each other’s face” e “being out of each other’s face”, o que indica um contraste entre coisas que são visíveis ou que as pessoas fazem em público e coisas que encobrem essas expressões ou distanciam os indivíduos.

[2] Nota das tradutoras: no texto original, o autor fez um trocadilho ao escrever “having face” e “losing face”. Na cutura chinesa, a expressão “to lose face” indica a perda da reputação de alguém, no sentido de honra ou moral, por isso, consideramos a palavra respeito adequada para a tradução.

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Peter van der Veer é antropólogo. Diretor do Instituto Max Planck para o Estudo da Diversidade Religiosa e Étnica em Göttingen e professor emérito da Universidade de Utrecht. Seus trabalhos incluem estudos comparativos entre Índia e China.

Tradutoras: Cecilia Bastos é doutora em Ciências Sociais pelo PPCIS da UERJ e pesquisadora em Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ. Thaís Assis é doutoranda em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Possui experiência na área de Sociologia da Religião, privilegiando temas ligados a espiritualidades e terapias holísticas.

 

“E LA NAVE VÁ”: FELLINI, PANDEMIA E A VIDA NUA

“E LA NAVE VÁ”: FELLINI, PANDEMIA E A VIDA NUA

By admin in Novidades on maio 26, 2020

Texto de Isabel Carvalho

Resumo

Este artigo analisa alguns dos efeitos da pandemia do novo Corona Virus para as sociedades capitalistas, tanto do ponto de vista das suas consequências para vida coletiva quanto para a experiências das pessoas. Toma como analogia o último filme de Fellini “E la Nave Vá”, onde um cruzeiro luxuoso é surpreendido durante seu trajeto pelo início da Primeira Guerra Mundial. O artigo dialoga com publicações recentes sobre a pandemia, nas ciências sociais. Desenvolve como argumento central que a epidemia nos confronta com o que Agamben chamou de vida nua: a irrupção da vida biológica, de uma conexão natural desconhecida, que excede todos os cálculos da vida política e se impõem, num tempo curto, como uma fatalidade intransponível. É neste ambiente que somos confrontados diuturnamente com a vida nua, a fragilidade das pessoas e a precariedade da sociedade. A queda dos ativos financeiros e a alta do dólar. A desaceleração da economia caminha lado a lado com as medidas de isolamento social e as projeções de colapso dos serviços de saúde, falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) para os profissionais da saúde e respiradores para os doentes. As medidas de contenção envolvem higiene e distanciamento social. Estradas barradas, cidades fechadas, voos cancelados, comércio suspenso, trabalho em casa e desemprego. Muito da vida pública foi transferida para dentro dos apartamentos. As janelas se transformam em espaços de sociabilidade, palco das manifestações políticas contra o governo e dos aplausos para os profissionais da saúde. O texto interroga sobre que efeitos podemos esperar após a epidemia. Haverá um futuro? Para quem e em que condições? O que se passará em sociedades tão desiguais como o Brasil? Haverá algum aprendizado social proveniente deste período de isolamento, mortes, lutos e medos? O que a vida nua, deste tempo de catástrofe, evocará como respostas?

Texto completo

Anunciada pelos cientistas, antecipada pelo cinema mas ignorada como realidade provável pela maioria dos governos e populações, a pandemia chegou, tornando-se um acontecimento de difícil contestação. Um de seus principais impactos foi abrir um intervalo incomum no tempo ordinário, e lançar, através de uma fenda abrupta, enormes contingentes populacionais numa grande pausa. É como se, de um instante a outro, passássemos a viver numa espécie de lado avesso do mundo, onde os sinais se invertem. O afastamento passou a ser a medida de segurança, o próximo, mesmo íntimo, deve permanecer distante.  O espaço virtual se apresentou como um dos poucos refúgios seguros. O próprio corpo se tornou fonte e objeto de contaminação. Gestos espontâneos de auto contato têm que ser reprogramados. Os espaços públicos se transformaram em zonas de alto risco e o confinamento, obrigatório. As análises políticas e os pronunciamentos à nação deram voz à epidemiologistas, infectologistas, biólogos e matemáticos. Num mundo de grande mobilidade, deslocamentos foram impedidos e muitos ficaram onde estavam. Para diminuir a velocidade do contágio a Terra parou.

Um dos emblemas do início da pandemia foram os navios cruzeiros que, como no último filme de  Feliini, E la Nave Vá[1], se converteram de um dia para outro, de atividade de luxo de uma elite a quem tudo é permitido[2], em embarcações apátridas, vagando em quarentena, impedidas de aportar, enclausurados com seus doentes. Embora o filósofo italiano Giorgio Agamben (2020a e 2020b.), em dois artigos recentes sobre a epidemia na Itália, tenha preferido destacar os aspectos negativos do estado de exceção que permitiu ao governo o controle exacerbado dos corpos e comportamentos dos indivíduos, eu tomaria o conceito de vida nua, proposto em seu ensaio sobre o Homo Sacer (2007), para entender os efeitos, não apenas de exceção mas, sobretudo, excessivos do que estamos vivendo. A pandemia nos confronta com a vida nua: a irrupção da vida biológica, de uma natureza desconhecida e imprevisível que excede todos os cálculos da vida política e se impõe, num tempo curto, como uma fatalidade intransponível. Vivemos a primeira pandemia do século XXI. Uma onda de contágio espalha infecção e produz mortes em progressão geométrica. O vírus é invisível a olho nu e seus propagadores somos cada um de nós, agora convertidos em uma ameaça em potencial para nós mesmos e para todos os outros. Este agente atende pelo nome científico de Covid19.

É neste ambiente que somos confrontados diuturnamente com a vida nua. A fragilidade das pessoas e a precariedade da sociedade. A queda dos ativos financeiros. As reservas do combustível fóssil, que move as economias industrializadas, se acumulam para além da capacidade de estocagem dos países produtores. A desaceleração da economia caminha lado a lado com as medidas de isolamento social. Cresce o colapso dos serviços de saúde, a falta de equipamentos de proteção individual (EPIs) para os profissionais da saúde e respiradores para os doentes. As medidas de contenção envolvem higiene e distanciamento social. Estradas barradas, cidades fechadas, voos cancelados, comércio suspenso, as indústrias de serviços como o turismo e a cultura paralisadas, trabalho em casa, rápido declínio no uso do papel moeda e intensificação de uma economia digital, aceleração do desemprego e da precarização. Muito da vida pública foi transferida para dentro dos apartamentos. As janelas se transformam em espaços de sociabilidade, palco das manifestações políticas contra o governo e dos aplausos para os profissionais da saúde. O evento da Pandemia já foi chamado de um acelerador de futuros (MELO, 2020), tornando realidades, tendências que já estavam latentes. A questão é saber que futuros são estes e quem está incluídos neles.

São Paulo, por exemplo, mostra a sua cara: segregada. Dividida entre uma cidade dos que tem casas e janelas e outra que vive na rua. São Paulo contou a população de rua em 24.344 pessoas, no Censo da População em Situação de Rua, realizado pela Prefeitura Municipal no final de 2019. Uma população que, apesar de sua presença constante em todos os espaços da cidade, é solenemente invizibilizada. Existem, ainda, muitas outras cidades dentro da metrópole paulistana. As periferias e as favelas, por exemplo, onde o isolamento social e os cuidados de higiene têm que ser traduzidos para uma realidade sem saneamento básico, de baixa renda, e de grande aglomeração de pessoas que compartilham espaços precários e muito pequenos. A mesma população de baixa renda é a mais exposta ao vírus. É esta que continua se deslocando todos os dias, para manter seus empregos nos serviços essenciais que continuam funcionando como supermercados, farmácias, hospitais e limpeza urbana. Como sabemos desde os estudos de justiça ambiental, os riscos ambientais não se distribuem igualmente numa sociedade desigual, recaindo sobre os mais pobres, realidade que a Pandemia apenas reitera.

Parece que chegamos, pelas mãos de um vírus, ao cenário mais próximo do que há tempos vem sendo anunciado pelos cientistas sociais como a grande crise do capitalismo. Uma crise econômica e ecológica que evidencia uma profunda inflexão das nossas relações com o ambiente face à vulnerabilidade humana diante deste “nano” inimigo. Sua expansão parece ter tido origem num salto de sua origem em animais exóticos, onde é endêmico, para as biotas de hospedeiros humanos, seu território de conquista. O vírus é formado por uma estrutura simples e primitiva, constituída de um único filamento de RNA (ácido ribonucleico), envolvido por uma fina membrana esférica de gordura e proteína, ao ar livre, desidrata, seca e morre. No entanto, seu poder de disseminação e destruição nos organismos humanos, transforma este mínimo ente biológico no principal fator de colapso social do século XXI, só comparável a Primeira Grande Guerra Mundial, a Gripe Espanhola que a sucedeu e a grande depressão dos anos 30 do século XX. Como sugeriu Lilia Schwarcz (2020), a Pandemia pode ser o evento que, para além da cronologia, marca a experiência transição do século XX, um período de apostas nas tecnologias, para o XXI, nos remetendo às incertezas e aos limites dos nossos recursos técnicos e sociais.

Um momento doloroso para viver e raro para pensar. Afinal, como aconselhou o Papa Francisco (2020), não devemos desperdiçar estes dias difíceis.  A grande pausa freou abruptamente o imperativo da rapidez, virtude máxima da produtividade. No rastro desta aterrissagem forçada e turbulenta do nosso modo de vida, emergem, desconcertantes, alguns indícios daquele outro mundo possível que reivindicavam os Fóruns Sociais Mundiais, na virada do milênio. No entanto, neste caso, não se trata da utopia sendo realizada, mas de uma distopia que deixa todas as nossas expectativas em suspensão.

Com o avanço do contágio, os países afetados, cada um a seu tempo, foi parando. As imagens das metrópoles com suas ruas e pontos turísticos completamente vazios, se tornou recorrente. Também se fez notar a melhoria na qualidade do ar, em virtude da drástica redução das emissões de carbono na atmosfera. Os céus de Beijing, Nova Déli, Cidade do México, São Paulo, nunca estiveram tão limpos. Os canais de Veneza, sem o movimento turístico, exibem águas mais límpidas e calmas. A Bahia da Guanabara voltou a ser vista com águas calmas e, aparentemente, mais limpas. Os observatórios astronômicos mediram a diminuição do ruído da crosta terrestre, causado pelas movimentações humanas. Os astrônomos, agora, podem ouvir melhor a voz da Terra e acompanhar seus movimentos através dos ruídos sísmicos.

O centro de São Paulo silenciou e o viaduto Santa Efigênia foi fotografado, absolutamente vazio. Eu ouço da janela, pela primeira vez, os sinos da Igreja do bairro e o violino que a vizinha do prédio da frente, musicista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – OSESP, ensaia todas as tardes. Estas cenas emitem, ao mesmo tempo, sinais reconfortantes e estranhamente ameaçadores. A realidade não é mais a mesma e produz mensagens de duplo vínculo, desconcertando-nos.

Governos, porta-vozes de políticas neoliberais, devem prover saúde e renda para os mais vulneráveis. Depois de pelo menos quatro décadas de neoliberalismo e desinvestimento em sistemas de saúde e seguridade social, o mundo dos negócios clama pela intervenção do Estado. Fala-se em um novo Plano Marshall, renda mínima, solidariedade, políticas distributivas. Neste contexto, muito do que estava abaixo da linha d’água, latente, emerge. Redes de apoio mútuo, atendimento psicológico gratuito para profissionais do Sistema Único de Saúde – SUS, produção solidária, trocas não mercantis, movimentos por códigos abertos, militantes do acesso livre estão trabalhando no sequenciamento genético do vírus e produção de máscaras 3D. Muitas trilhas de compartilhamentos e cooperação têm sido abertas. Pesquisas científicas nunca foram tantas e tão rápidas sobre os múltiplos aspectos do novo vírus.

Por outro lado, analistas mais céticos advertem que não nos iludamos. Para José Luis Fiori (2020), por exemplo, o prognóstico para o Brasil era ruim e só vai piorar, e menciona a guerra por insumos, remédios e EPIs, reiterando a lógica egoísta de sempre. De fato, vimos nos noticiários das últimas semanas como os EUA agiram como piratas globais interceptando inúmeros carregamentos destes produtos, agora preciosos, desviando-os para os EUA, e deixando países como a Alemanha e o Brasil, sem as suas encomendas já realizadas destes bens.

Este raro momento, me faz pensar em Richard Sennett. Depois de ter escrito sobre os impactos sociais e emocionais dos processos de flexibilização do trabalho e precarização dos vínculos no novo capitalismo, ele concluiu que: “a ideia de encontrar uma alternativa não é um projeto utópico, mas algo que precisamos fazer porque esse sistema não funciona” (SENNET, 2012a)[3]. O Covid19, por onde passa, vai expondo, dolorosamente, esta desfuncionalidade do capitalismo, baseado na abstração do mundo financeiro, sem gente dentro, e na insustentabilidade nacional em setores como a produção de medicamentos, a pesquisa em ciência básica, e os serviços públicos de saúde. Todos os dias, como um pesadelo recorrente, contabiliza-se os infectados e os mortos. Os corpos são enterrados sem despedidas, em cerimônias fúnebres de uma hora, com um mínimo de familiares. Filmadas por drones, vemos as enormes valas comuns abertas no Bronx, na periferia de Nova Iorque, recebendo caixas de papelão com as vítimas da Pandemia, que se empilham, manejadas por guindastes. Forças-tarefa com roupas de astronautas e rostos cobertos trabalham para abertura de covas nos cemitérios de São Paulo. Cadáveres que excederam a capacidade do serviço mortuário são deixados na rua, em Guaiaquil, no Equador. A morte na pandemia não é uma morte bela, uma morte heroica, ou uma morte boa, entre os seus. É uma morte pária, sem contorno, tanto para os que se vão quanto para os que ficam[4]. A vida nua, sem retoques, desfigura a realidade e nos lança no deserto do real. Tempos de catástrofes, como nomeou Isabelle Stengers (2015). Tempos de uma nova classe de medo global, como analisou Gustavo Lins Ribeiro, sobre a epidemia:

 

Um temor totalizante, sentido por todos os habitantes de um coletivo, na expectativa de uma enorme quantidade de mortes que potencialmente ou de fato atingirá a todos e acabará o mundo conforme foi conhecido até um determinado momento (…) envolvendo a sensação de fim de mundo, um verdadeiro fato social total, como diria Marcel Mauss, que condensa respostas fisiológicas, biológicas, psicológicas, culturais, políticas, econômicas, sociais e científicas (RIBEIRO, 2020, p. 1).

 

As ilusões de proteção e “imunidade”, que mantinham o sentimento de normalidade cotidiana, vão se tornando cada vez mais difíceis de sustentar. A bolha burguesa e suas apostas na ideologia do aprimoramento individual, da vida saudável, dos cuidados em saúde e autoproteção, está por um fio, cada vez mais fina e esgarçada diante da pandemia, como alertou Fabíola Rhoden (2020).

Parodiando Fellini, nos perguntamos: para onde “la nave vá?”. Que rumos nossa inconsequente embarcação tomará, depois de ter sido atingida pela catástrofe pandêmica?  haverá um futuro? Para quem e em que condições? Como será o novo normal instaurado por um capitalismo de controle e vigilância exacerbados? O que se passará em sociedades tão desiguais como o Brasil? Haverá algum aprendizado social proveniente deste período de isolamento, mortes, lutos e medos? Qual o legado que estes dias difíceis trarão para o cenário de polarização, segregação e exclusão anterior à Pandemia? A recessão econômica, ao que tudo indica, se aprofundará. Já se fala em uma década perdida. O que a vida nua, que irrompeu neste tempo de catástrofe, evocará como respostas? Que marcas e cicatrizes restarão destes tempos? Ou enterraremos estas memórias em rápidas cerimônias, sem ritos e sem luto?

 

[1] Último filme de Frederico Fellini (1983), “E la nave vá”, se passa em 1914. Um Cruzeiro (Glória N.) leva uma exótica elite artística europeia em direção à ilha Erimo, para jogar ao mar as cinzas de uma famosa cantora de ópera, Edmea Tetua. Personagem provavelmente inspirada em Maria Callas, falecida em 1977, cujas cinzas foram espalhadas no mar Egeu. Entre os passageiros desfilam matronas, cantores, palhaços, bufões, artistas de circo, um rinocenonte, e um jornalista, que deve registrar a viagem. Esta espécie de versão felliniana da nau dos loucos segue sua viagem até que o início da Primeira Guerra muda o curso da viagem.  O navio é interceptado por náufragos sérvios que invadem o Cruzeiro, como um tsunami de realidade pobre e miserável submergindo o mundo luxuoso, exótico e delirante de Glória N.

[2] ZIZEK (2020), referindo-se aos cruzeiros e sua ostentação os considerou uma imagem obscena.

[3] Richard Sennett, após mencionar que tinha concluído um ciclo de produções que denunciaram as falhas estruturais do capitalismo, empreendeu, durante as primeiras décadas dos anos 2000, um novo projeto. Desta vez, buscando um tom propositivo, produziu uma trilogia denominada “Homo Faber”. Nestes livros ele se dedicou a pensar as habilidades que precisamos para seguir vivendo Juntos. Esta trilogia teve como seu primeiro livro “O artíficie” (2008), o segundo chamou-se “Juntos: os rituais, os prazeres e a política da cooperação” ( 2012) e o terceiro, “Construir e Habitar (2018).

[4] Sobre ao estatuto da morte na pandemia ver o excelente artigo de Carmen Rial (2020), no Boletim de Ciências Sociais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 

AGAMBEN. Giorgio. In: AGANBEN, Giorgio; ET ALII. A sopa de Wuhan. 1a. ed. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020a.  P 17-20.

AGAMBEN, Giorgio. In: AGANBEN, Giorgio; ET ALII. A sopa de Wuhan. 1a. ed. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020b. P 31-34

AGAMBEN, Giorgio; BURIGO, Henrique. Homo Sacer, o poder soberano e a vida nua I. 2ª. ed. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007.

BERGÓLIO, Francisco. Não desperdice estes dias difíceis. Entrevista concedida à Paolo Rodari, Jornal La Repubblica, 18/03/2020. Tradução disponível em : http://www.ihu.unisinos.br/597240-o-papa-nao-desperdicem-esses-dias-dificeis

FIORI, Jose Luis. Entrevista concedida à Elenora Lucena e Rodolfo Lucena.

Revista Tutameia, 10/04/2020. Disponível em https://tutameia.jor.br/prognostico-e-ruim-e-vai-piorar-diz-fiori/, acessado em 11/04/2020

ZIZEK, Slavoj. in: AGANBEN, Giorgio; ET ALII. A sopa de Wuhan. 1a. ed. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio), 2020. P 21-28.

STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes – resistir à barbárie que se aproxima. São Paulo (SP): Cosac & Naify, 2015.

LINS RIBEIRO, Gustavo. Medo Global. Boletim Ciências Sociais: Cientistas Sociais e o Coronavírus. Boletim Especial n. 5, ANPOCS, 26/03/2020. Disponível em

http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2311-boletim-n-3-as-ciencias-sociais-e-a-saude-coletiva-frente-a-atual-epidemia-de-ignorancia-irresponsabilidade-e-ma-fe-3?idU=1&acm=_268 . Acessado em 12/04/2020.

RIAL, Carmen. Mortes Belas, Mortes Boas, Mortes Malignas e a Covid-19. Boletim de Ciências Sociais: Cientistas Sociais e o Coronavírus. Boletim Especial n. 20, ANPOCS, 14/04/2020. Acessível em: http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2333-boletim-n-20-mortes-belas-mortes-boas-mortes-malignas-e-a-covid-19. Acessado em 14/04/2020.

ROHDEN, Fabíola. As promessas de aprimoramento e o retorno à fatalidade. Boletim de Ciências Sociais: Cientistas Sociais e o Coronavírus. Boletim Especial n. n. 16, ANPOCS, 08/04/2020. Disponível em: http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2328-boletim-n-16-as-promessas-de-aprimoramento-e-o-retorno-a-fatalidade?idU=1&acm=_268. Acessado em 10/04/2020.

SCHWARCZ, Lilia. Entrevista concedida à Camila Brandalise e Andressa Rovani. 100 dias que mudaram o mundo. UOL Universa. 9/04/2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/coronavirus-100-dias-que-mudaram-o-mundo/#tematico-7 Acessado em 20/04/2020.

SENNETT, Richard. O artífice. Rio de Janeiro: Record, 2009.

SENNETT, Richard; Juntos: os rituais, os prazeres e a política da cooperação. Rio de Janeiro: Record, 2012.

SENNETT, Richard. Construir e Habitar: ética para uma cidade aberta. Rio de Janeiro: Record, 2018.

SENNETT, Richard. Juntos agora. Entrevista concedida à Giovanna Bartucci. Jornal Valor, seção Cultura & Estilo, Rio de Janeiro. 24/08/2012b. Disponível em: http://www.valor.com.br/cultura/2801450/juntos-agora. Acessado em 12/04/2020.

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Artigo original em: Castro, Daniel; Dal Seno, Danilo; Pochmann, Marcio (Organizadores). Capitalismo e a Covid-19. Um debate urgente. São Paulo, 2020.

Algumas notas sobre a visualização do corpo pandêmico

Algumas notas sobre a visualização do corpo pandêmico

By admin in Novidades on maio 21, 2020

Texto original de Jeremy Stolow para Religious Matters

Tradução: Giovanna Paccillo

Nos últimos anos, tornou-se comum nos estudos acadêmicos e na cultura popular tratar o corpo humano como uma reunião complexa de forças e interações. Indiscutivelmente, essa visão do corpo pertence a uma sensibilidade maior que desfrutou de uma ascensão notável nos últimos anos (pelo menos no que diz respeito às sociedades ocidentais supostamente seculares), segundo as quais todo o cosmos é entendido como infinitamente plural, em incansável transformação, e infinitamente envolvente e desdobrável. Seja no caso das bilhões de bactérias que habitam nosso trato digestivo ou das mais recentes tecnologias que nos permitem estabelecer nossa presença nos confins do ciberespaço, todos nós passamos a apreciar as várias maneiras pelas quais nossa existência corporeificada nem começa nem termina na superfície de nossas peles. Os processos de inspiração e expiração, ou de ingestão, digestão e excreção, apontam apenas para alguns dos casos mais óbvios em que os limites que supostamente dividem interiores, superfícies e ambientes externos do corpo são de fato porosos e lábeis. E assim, o que, de uma perspectiva muito distante, parece uma entidade única e unitária, invariavelmente, em uma inspeção mais detalhada, compreende uma infinidade de coabitações e interações em rede. O universo, e a vida biológica em particular, como nos é dada a entender, existe em um estado constante de absorção e erupção. Toda coisa sólida não passa de um enxame de forças ocultas. Todo ser vivo irradia. Todas as superfícies vazam, vazam ou sangram.

A atual pandemia global causada pela disseminação do vírus SARS-CoV-2 não apenas corroborou essa sabedoria; ela reformulou nossa compreensão do corpo poroso, plural (e vulnerável) de maneiras notáveis. Atividades diárias, como trafegar em uma rua da cidade ou nos corredores de um supermercado, exigiram que redesenhássemos os limites que separam o privado do espaço público. Adicione dois metros ao seu corpo em movimento e criará não apenas um novo habitat, mas também um novo corpo. Em uma escala macrossocial mais ampla, podemos observar como toda uma nova série de terminologias, preceitos e aparelhos especializados entrou no nosso léxico cotidiano quando se trata de gerenciamento e cuidado de corpos individuais e coletivos: distanciamento físico, o 2- ( ou regra de 1,5-) metros, vetores de transmissão, patógenos em aerossol, mutações genéticas, respiradores, máscaras faciais. A linguagem rarefeita da microbiologia e da epidemiologia agora permeia as reportagens diárias, as previsões econômicas, as decisões de políticas públicas, o humor, a arte e, principalmente, o discurso e a prática religiosa. As então estáveis relações de conhecimento, hábito, técnica e orientação ética que governam nosso cuidado e coordenam nossos corpos, estão sendo conjugadas de forma dramática na esteira da chegada repentina desse vírus. Embora dificilmente única ou sem precedentes, a pandemia atual realmente produziu uma situação estranha, desorientadora e aterrorizante para a vida humana corporeificada, exercida em escala global. Como tal, exige uma reflexão crítica, mesmo com o risco de as análises atuais serem apressadamente compostas, antes que possamos ver até onde esse drama nos levará.

Como já é evidente em algumas das outras contribuições para esse dossiê, a reflexão crítica sobre o significado e as consequências da pandemia do coronavírus exige, em primeiro lugar, uma reflexão cuidadosa com relação ao status do conhecimento científico e a posição dos profissionais científicos nesse cenário em rápida evolução. O que essa pandemia pode nos ensinar sobre como o conhecimento científico é formado, comunicado e acionado, e como, por sua vez, essas observações podem desafiar as suposições existentes sobre as distinções entre ciência e não-ciência, de natureza e cultura? Não se trata apenas de uma questão sobre a relação entre o conhecimento autoritativo e “orientado por dados” produzido por profissionais biomédicos e a interpretação vulgar e aplicações práticas desse conhecimento quando ele chega às mãos de não especialistas. Não obstante os esforços dos teóricos da conspiração (que atribuem a culpa das origens do vírus ao avanço dos laboratórios secretos do “Deep State”, ou nas torres de telefonia 5G) ou por políticos embriagados pela ilusão de seus próprios conhecimentos (sintetizado pelas especulações selvagens do presidente Trump dos EUA sobre a etiologia do vírus e seus potenciais remédios), estamos testemunhando em uma escala verdadeiramente maciça um apelo urgente por pronunciamentos científicos cuidadosamente ponderados e credíveis sobre cada aspecto concebível dessa pandemia. Como Pamela Klassen e Janelle Taylor exploram em sua contribuição para esse dossiê, em muitos lugares as ameaças dramaticamente crescentes levadas pelo vírus elevaram os profissionais biomédicos a um novo posto de “santos de branco”, marchando junto com um vasto exército de médicos, enfermeiras e outros trabalhadores essenciais que, como bodhisattvas dos tempos modernos, arriscam heroicamente suas vidas por nós todos os dias. Tais performances de “fé na ciência” podem parecer contra-intuitivos, uma vez que não estão em conformidade com a premissa de que governos populistas são inerentemente hostis ao conhecimento científico profissional como um ‘privilégio da elite’. E continua sendo o caso, tragicamente e sem surpresa, que os esforços para conter a propagação do vírus estejam sendo contestados por manifestantes em muitos países que desrespeitam a autoridade de médicos especialistas e questionam a legitimidade dos bloqueios impostos pelo governo e das regras físicas de distanciamento. No entanto, mesmo nessas expressões de ressentimento e protesto contra a experiência biomédica, o que está em jogo não pode ser adequadamente explicado em termos de posições fixas da ciência ‘pró’ e ‘anti-‘. As respostas à pandemia não demonstram apenas o fato de que a ciência está sempre enredada em outras coisas, como cultura, política, religião ou até mesmo o “popular” (afinal, nunca houve um conhecimento científico “tão puro”). Em vez disso, eles revelam como a pandemia tece ciência e não-ciência de novas maneiras, produzindo uma situação que não pode ser contida dentro dos bem ordenados binários como fato versus valor, ontologia versus ética ou razão pura versus prática.

Por essas razões, sugiro que o Coronavírus pode ser frutiferamente definido como um tipo de objeto fronteira, no sentido definido por Geoffrey Bowker e Susan Leigh Star: “objetos que ao mesmo tempo habitam diversas comunidades de prática e satisfazem os requisitos de informação de cada uma delas” . Como um objeto fronteira, ele oferece uma possibilidade para repensar a relação entre os ditos modos científicos de conhecimento e prática, e outras formas de conhecer e fazer, incluindo àquelas que normalmente localizamos através da categoria “religião”. Em sua contribuição para esse dossiê, Birgit Meyer propõe igualmente que “o pensamento religioso e médico talvez possam compartilhar um profundo terreno comum. Esse terreno comum, que ainda está para ser traçado, poderia servir como um ponto de partida produtivo para nossas tentativas de reconfigurar nosso entendimento do social”. Contribuindo para este apelo a uma investigação mais aprofundada, apresento aqui alguns comentários sobre a figura do corpo que vemos em todos os lugares entrando em foco ao lado da propagação da pandemia, que para os fins desta discussão pode ser chamado de “corpo pandêmico” (Fig. 1).

COVID-19: Facts You Should Know About Coronavirus | Onco.com
Figura 1. Uma representação típica do serviço de saúde pública do corpo humano e seu ambiente respiratório, ilustrando a necessidade da ‘regra dos dois metros’.

O corpo pandêmico é uma criatura bastante expansiva. Ele compreende não só uma coabitação complexa de parasitas e hospedeiros dentro de uma estrutura a qual chamamos de “corpo humano”, mas também o microambiente individual único dentro do qual esse corpo está situado: um espaço aéreo envolvente, preenchido com gotículas aerossolizadas de saliva e transpiração, células mortas da pele , fungos, bactérias, vírus, partículas químicas e outras entidades microscópicas a que os cientistas agora se referem como nosso ‘microbioma‘ ou ‘exposoma‘. Onde quer que se queira traçar a linha que delimita um território chamado ‘indivíduo humano’, parece que não podemos desenredar esse corpo da névoa circundante de atividade microscópica (Fig. 2). A pandemia atual, ao mesmo tempo, aguçou e recalibrou nossa percepção desse território indefinido que liga corpo e meio ambiente. Hoje, estamos todos literalmente vivendo dentro dos contornos dos corpos pandêmicos e aprendendo a operá-los sob a cruel tutela do vírus. Nossas percepções cotidianas de onde uma presença corporal termina e onde outra começa agora são dominadas por um cálculo de risco e ameaça (no entanto, as exigências da coabitação tornam todas essas avaliações ambíguas, na melhor das hipóteses, ponto que é bem sublinhado pela falta de consenso entre regimes políticos sobre o que conta como distanciamento físico seguro, uma vez que esses podem promulgar regulamentos que variam de um a dois ou mais metros). Nossa percepção desse corpo pandêmico também é refletido na multiplicação e circulação generalizada de suas representações visuais, especialmente na forma de infográficos que visam ilustrar os limiares de risco e ameaça colocados por um corpo distante sobre o outro (como apresentado na Figura 1 e os inúmeros anúncios de saúde pública que se assemelham a esta imagem).

Figura 2. Representação visual de um corpo humano cercado por sua nuvem microbiana.

Mas o vírus SARS-Cov-2 não é o progenitor original desse corpo pandêmico. Por um lado, essa não é a primeira pandemia que impôs efeitos disciplinadores aos corpos que coabitam, inculcando grandes populações ao uso habitual de máscaras faciais ou regras físicas de distanciamento. Uma arqueologia mais completa da imagem do corpo pandêmico atenderia a esses precedentes históricos recentes mas também precisaria considerar relatos comparáveis ​​de territorialização corporal, como pode ser encontrado na história do discurso acadêmico sobre sociabilidade humana. A respeito disso, um caso tentador a se pensar, é o das proxemics, a ciência aplicada originalmente elaborada pelo antropólogo Edward T. Hall em seu estudo pioneiro (e deliciosamente intitulado) livro, The Hidden Dimension. Hall argumentou que, apesar de definido, percebido e experienciado de diferentes formas em diferentes culturas, todos os humanos distinguem as relações íntimas, pessoais, sociais e públicas com outros em termos espaciais, o que pode ser retratado como séries de círculos em expansão que designam a ‘distância apropriada’, e cujo cruzamento pode ser percebido para um indivíduo como invasivo (fig. 3). Mas para Hall, esse senso ampliado de si é um produto de nossas percepções psicológicas arraigadas, nossas respostas motoras e nosso condicionamento cultural. Sentir e negociar com a presença corporal de outra pessoa é em grande parte uma habilidade da pessoa de perceber e medir a distância, bem como os códigos culturalmente inscritos que dão sentido a essas percepções. O corpo pandêmico, por outro lado, não pode ser reduzido a diferenças de percepção ou códigos de conduta normativos. Não se trata apenas de redesenhar as linhas concêntricas que separam o espaço íntimo e pessoal do espaço social e público, uma vez que a dança do hospedeiro e do parasita não é exclusivamente uma construção cultural ou psicológica. Cultura e natureza, humanos e não humanos, corpo e meio ambiente são todos conjugados de maneira diferente dentro dos contornos do corpo pandêmico.

Figura 3. Uma representação gráfica da teoria de Hall de zonas proxêmicas.

Tampouco devemos ficar satisfeitos com a afirmação de que o corpo pandêmico é uma mera “descoberta” da investigação científica, um padrão natural de comportamento interespécies e condições ambientais que simplesmente estão sendo observadas e documentadas por meio de pesquisas em andamento. Embora certamente seja o caso de microbiologistas, virologistas, epidemiologistas e outros gerarem um vasto arquivo de conhecimento novo (e urgentemente necessário!) sobre os contornos e operações do que o que estou chamando aqui de corpo pandêmico, é surpreendente, contudo, que essa visualização preceda e vá ainda além de qualquer coisa que possamos chamar de “adequadamente científica”.

Por um lado, eu diria que as retratações do distanciamento físico e do corpo pandêmico que vemos hoje proliferar, se baseiam em uma iconografia visual que pode ser rastreada através de longas histórias de representação artística do corpo humano como envolto em nuvens, luzes radiantes, ou anéis de fogo, que podem ser encontrados em inúmeras representações de divindades, santos, imperadores adornados com uma auréola, uma coroa radiante, ou envoltos em auréolas ou nimbus. Da mesma forma, na história da ilustração médica, muito antes do advento do microscópio e da descoberta da vida microbiana, pode-se encontrar muitas representações do corpo vivo imerso em um oceano cósmico de caminhos ocultos que conectam o interior e o exterior. Tais visões do corpo são de fato surpreendentemente comuns em atlas anatômicos europeus pré-modernos (onde os corpos são colocados em um banho de vapores e humores, eflúvios e fluidos imponderáveis), bem como repositórios não europeus de conhecimento médico e espiritual, como como na Medicina Tradicional Chinesa ou Ayurveda, onde gráficos de acupuntura, diagramas de chakra e ilustrações relacionadas descrevem o ser vivo como um conjunto de energias sutis, mas vitais, que circulam dentro e além de sua massa física bruta. Outra iteração dessa imagem corporal pode ser encontrada na cultura visual daquele notável movimento médico-social-esotérico conhecido como Mesmerismo, que predominou no final do século XVIII e continua a fornecer suporte intelectual a uma série de práticas às vezes reunidas pelo termo “medicina alternativa” (fig. 4).

Figura 4. “Um jovem segurando a mão no coração, emanando transpiração insensível”. Ilustração do astrólogo e proto-mesmerista oculto, A chave da física e das ciências ocultas de Ebenezer Sibly (1794).

É importante acrescentar que esse tipo de visualização do corpo radiante está longe de ser obsoleto. De fato, continua a proliferar nas arenas contemporâneas da prática que se intersectam, mas que também competem diretamente com as visualizações biomédicas ortodoxas do corpo, como no contexto do chamado mercado da Nova Era de bens e serviços espirituais: uma arena dedicada à conceituação, gerenciamento, cuidado e cura de corpos humanos que, por sua vez, são entendidos como inextricavelmente localizados em uma rede de vibrações etéreas, fluidos imponderáveis, energias, aura e forças celestes de atração e repulsão que dizem governar nosso cosmos (Fig. 5).

Figura 5. Uma representação das múltiplas camadas dos ‘campos de energia sutis’ do corpo vivo, de um manual alternativo de saúde popular, O Corpo Sutil: uma enciclopédia de sua anatomia energética de Cyndi Dale (Boulder, CO: Sounds True, 2009), p.97.

O termo “Nova Era” é freqüentemente usado de maneira pejorativa para se referir a uma forma de pseudo-religião e pseudociência ocidental, predominantemente de classe média, consumista e hiperindividualista: um pastiche de tropos orientalistas ingênuos, apelos superficiais a teorias científicas de energia, matéria e vida, práticas médicas duvidosas e estética kitschy. Este não é o lugar para demonstrar as várias maneiras pelas quais essa caracterização falha em capturar o que realmente está se enraizando nos múltiplos campos de atividade, onde podem ser encontradas as chamadas idéias, práticas e agentes da Nova Era. Mas a facilidade com que muitos comentaristas consideram as representações do corpo da Nova Era meramente pseudocientíficas deve registrar alguma suspeita de nossa parte – entre os estudiosos da religião material. O que realmente devemos fazer dessa confluência marcante entre a imagem do corpo de aura, onipresente, encontrado na cultura visual da Nova Era e na imagem do corpo pandêmico? Seria um realidade e o outro meramente imaginário: uma ‘construção cultural’ que imita grosseiramente o que a ciência ‘verdadeiramente’ revela?

As respostas a essas perguntas devem ser analisadas com cuidado. Por um lado, está longe de ser evidente que as técnicas de observação sancionadas pela biomedicina ortodoxa moderna se saem drasticamente melhor quando se trata de observar nossos ‘verdadeiros’ selfs corporeificados. Como argumentado por um coro de historiadores e antropólogos, a penetração do corpo humano por instrumentos visuais diversos – como nas radiografias, endoscopias, e aparelhos de ressonância magnética – não procede de maneira linear em direção a um quadro cada vez mais completo. Em vez disso, diferentes tecnologias de imagem produzem visualizações divergentes, e por vezes contraditórias, que podem colidir e até mesmo competir umas com as outras. Em todos os casos, instrumentos e procedimentos técnicos sancionados para observar e visualizar o corpo são governados por suposições sobre “o que está ali”, sobre o que uma determinada tecnologia pode capturar, sobre o que conta como uma imagem bem-sucedida, ou como interpretar o poder referencial dessas imagens no que diz respeito às dimensões ocultas ou ilusórias da realidade, quer as chamemos de ‘consciência’, ‘dor’, ‘vitalidade’ ou ‘força espiritual’. Talvez se possa chegar ao ponto de sugerir que todo conhecimento visual sobre corpos em vida é de alguma forma indeterminado, por nenhuma outra razão senão por causa de uma condição fenomenológica fundamental a todas as imagens: toda revelação é sempre apenas uma revelação parcial, e todo ato de mostrar algo implica que outras coisas devem ser escondidas de vista.

Em termos mais gerais, o conhecimento biomédico ocidental moderno da anatomia e fisiologia humana – consolidado pela dissecação de cadáveres, pela observação microscópica e pela intervenção farmacológica – não representa uma chegada vitoriosa a uma imagem “verdadeira” do corpo, senão apenas uma entre sistemas de conhecimento historicamente localizado, cultural, institucional e tecnologicamente contingente. De fato, as ciências biomédicas ocidentais modernas ainda não chegaram a um quadro definitivo ou uma imagem final do dinamismo dos corpos em vida, e talvez nunca cheguem, assim como a ‘saúde’ e a eliminação de doenças do corpo continuam sendo objetivos frustrantemente evasivos: um ponto que a atual pandemia de Covid-19 deixou muito claro, não somente como um problema do conhecimento médico per se mas também em sua promulgação como uma política de saúde pública coerente. Em suma, não é óbvio que o conhecimento biomédico ortodoxo do corpo forneça um contraponto estável às várias representações “não científicas” – ou seja, “culturais” ou, a propósito, “religiosas” – do corpo com o qual aparentemente concorre. Como é de esperar que seja evidente a partir dos exemplos dispersos apresentados no decorrer do texto, as visualizações do corpo pandêmico emergem no contexto de uma iconografia muito maior e mais antiga dos corpos radiantes e esse depósito visual molda tanto as maneiras como os cientistas conceituam seus objetos de estudo, quanto a maneira como eles o comunicam com pessoas de fora.

Ao dizer isso, meu objetivo não é sugerir que construções biomédicas normativas são arbitrárias ou não-confiáveis, nem desejo sugerir que as múltiplas fontes de conhecimento visual produzidas e interpretadas por profissionais da medicina não possam ser concatenadas em uma totalidade única e coerente chamada ‘ o corpo’. No entanto, as chamadas técnicas ‘alternativas’ para gerar conhecimento sobre o corpo – embora frequentemente difamadas como “não científicas”, quando comparadas ao conhecimento produzido sob os auspícios do olhar biomédico ocidental moderno – não são menos (mas também não são mais!) metafóricas. Assim, por exemplo, como argumentado por Projit Mukharji em seu notável livro Doctoring Traditions, não é como se os praticantes da biomedicina não ocidental, como Ayurveda ou Medicina Tradicional Chinesa, de alguma forma deixassem de perceber ou entender as características anatômicas ou fisiológicas do corpo revelado pela ciência ocidental. Em vez disso, eles começam com diferentes ‘metáforas de raiz’ para responder perguntas fundamentais sobre a composição dos corpos e as condições sob as quais diferentes estados corporais podem ser observados. Além disso, a disponibilidade de diferentes metáforas não implica necessariamente que os sistemas médicos que elas engendram são mutuamente exclusivos. Em seu relato da história das interações entre as técnicas terapêuticas e observacionais médicas ayurvédicas e ocidentais, Mukharji ilustra esse ponto demonstrando em detalhes como, ao longo da história do Ayurveda, entendimentos e visualizações concorrentes do corpo, derivados da biomedicina ocidental e das tradições indianas, foram “entrelaçadas” epistemológica e pragmaticamente.

O conhecimento do corpo da Nova Era também é formado como uma espécie de trança, entrelaçada a partir de uma ampla variedade de linhas religiosas, científicas, artísticas, esotéricas e culturais do discurso e da prática. Embora alguns possam ver essa trança como uma corrupção ou contaminação da ‘ciência apropriada’ (ou, de fato, ‘religião apropriada’), também é possível tomá-lo como um terreno criativo e gerador sobre o qual emergem novas possibilidades de imaginar e performar a ciência e a religião. Por um lado, pode acontecer que imagem do corpo e sua aura circundante – tão predominante na cosmologia, na terapia e nas obras de arte infladas pela Nova Era – faça mais do que simplesmente (mal) traduzir vocabulários científicos e conhecimento visual em um popular (registro não científico). Se, na atual corrente de ressonância global de esforços para definir e gerenciar o corpo pandêmico, parece cada vez mais insustentável manter a visão “moderna ocidental” da vida humana como um sistema fechado de órgãos e tecidos, fluidos e bombas, baterias e fios, cabe-nos fazer uma pausa, ainda que brevemente, para considerar as maneiras notáveis ​​em que o discurso e a cultura visual da Nova Era já estão trabalhando, ampliando o raio da vida humana corporeificada e identificando seus múltiplos vetores de auto-expressão, de perigo e de ameaça. (Fig. 6).

Figura 6. “Arcanjo Miguel: proteja-se”. Cartão diário do Oracle Therapy do anjo, por Doreen Virtue.

 

Jeremy Stolow é professor associado em Comunication Studies da Universidade de Concordia, em Montréal, Canadá. Suas pesquisas e aulas tem a ver com a temática de religião e mídia, com um interesse particular nos mundos sobrepostos da religião e da tecnociência. Seu projeto atual de livro, Picturing Aura, trata da história dos esforços para fotografar a aura humana, um empreendimento que atravessa os mundos da ciência, religião, arte, entretenimento, esoterismo e cuidados de saúde alternativos.

Chamado para relatos de sonhos e predições durante a pandemia. Llamado para relatos de sueños y predicciones durante la pandemia.

Chamado para relatos de sonhos e predições durante a pandemia. Llamado para relatos de sueños y predicciones durante la pandemia.

By admin in Novidades, Publicações on maio 17, 2020

Por Maria Luiza Assad

Você teve algum sonho marcante, desde que começou a pandemia? Algo que consegue relacionar (ou não) ao que vem ocorrendo? E, desde março, realizou algum tipo de consulta com cartomancia, tarot, astrologia, búzios ou outra técnica para tentar prever o futuro ou entender o presente nesse momento? Algo na sua relação com sonhos ou essas práticas mudou nesse período?

Esta é uma plataforma para receber relatos de sonhos ou de consultas com uma dessas práticas nesse momento. Ou mesmo aquelas que ainda ocorrerão, até o fim de nossas tentativas de quarentena.

Desde o início da epidemia/pandemia de Covid-19, muitos grupos de pesquisa vêm abrindo espaço para relatos de sonhos e outros aspectos que ajudem a entender o impacto desse momento sobre afetos, imaginação e projetos das pessoas. O espaço que gostaríamos de abrir segue essa linha. Por isso, gostaríamos de abrir esse espaço para convidar a relatar essas experiências. Mesmo que o conteúdo dos sonhos não tenha uma relação explícita com a pandemia. Os relatos serão arquivados pelo grupo e serão analisados para entender o possível impacto do que vem ocorrendo sobre nossas expectativas. Com isso, pretendemos constituir uma espécie de arquivo, mantido em sigilo que nos dê margem a pensar o impacto sobre imaginário, afetos e projetos. Apenas três pesquisadores do grupo terão acesso ao material. E esse será sigiloso desde o início.

Se você tiver uma experiência com práticas divinatórias, pode descrevê-la brevemente aqui. E se quiser descrever ainda mais, pode nos procurar por e-mail ([email protected]) e manifestar seu interesse.

Se tiver algum relato de sonho marcante ou diferente, que consiga ligar ao momento da epidemia, sinta-se convidado para contá-lo para nós. Nos diga a data (aproximada, caso não se lembre) em que ocorreu. Sugerimos que descreva seu (s) sonho (s) da forma mais simples possível, mesmo que seja muito breve, e sem procurar ser poético ou literário. Descreva as imagens, sons ou outros elementos do sonho. Aponte quando foi uma experiência mais vívida. E, se quiser, diga depois algum elemento ao qual ele te remeteu.

Não precisamos de seu nome. E isso contribui para o sigilo do processo. Mas seria interessante apontar sua idade. E você pode nos dizer se gostaria que sua experiência fosse publicada em alguma parte do blog, no futuro, em outra fase. Embora não esteja certo que publicaremos o material coletado aqui, sua preferência deve estar clara desde o início.  E, em caso de dúvida ou mudança de ideia, nos escreva. 

Pode deixar o seu relato fazendo click aqui.

                                                                                              ***

¿Has tenido algún sueño notable desde que comenzó la pandemia? ¿Algo que pueda relacionarse (o no) con lo que viene sucediendo? Y, desde marzo, ¿Has realizado algún tipo de consulta con cartomancia, tarot, astrología, conquillas o cualquier otra técnica para tratar de predecir el futuro o comprender el presente en este momento? ¿Ha cambiado algo en tu relación con los sueños o estas prácticas durante este período?

Esta es una plataforma para recibir informes de sueños o consultas con una de estas prácticas en ese momento. O incluso aquellos que seguirán ocurriendo, hasta el final de nuestros intentos de cuarentena.

Desde el comienzo de la epidemia / pandemia de Covid-19, muchos grupos de investigación han estado abriendo espacio para informes de sueños y otros aspectos que ayudan a comprender el impacto de este momento en los afectos, la imaginación y los proyectos de las personas. El espacio que nos gustaría abrir sigue esta línea. Por lo tanto, nos gustaría invitarte a informar estas experiencias. Incluso, si el contenido de los sueños no está explícitamente relacionado con la pandemia. Los informes serán archivados por el grupo y serán analizados para comprender el posible impacto de lo que está sucediendo en nuestras expectativas. Con esto, pretendemos constituir una especie de archivo, en secreto que nos permita pensar sobre el impacto en lo imaginario, los afectos y los proyectos. Solo tres investigadores del grupo tendrán acceso al material. Y esto se clasificará desde el principio.

Si tenes experiencia con prácticas adivinatorias, podes describirla brevemente aquí. Y si deseas describirlo aún más, podes comunicarte por correo electrónico ([email protected]) y expresar tu interés.

Si tenes un relato de sueño notable o diferente que puede conectar con el momento de la epidemia, no dudes en contárnoslo. Especifica la fecha (aproximada, si no lo recordas) en que ocurrió. Te sugerimos que describas tu (s) sueño (s) de la manera más simple posible, incluso si es muy breve y sin tratar de ser poético o literario. Describí las imágenes, sonidos u otros elementos del sueño. Señala cuándo fue una experiencia más vívida. Y, si queres, podes comentar algún elemento al cual te remitió.

No necesitamos tu nombre. Esto contribuye a la confidencialidad del proceso. Pero sería interesante tener en cuenta tu edad. Por otro lado, necesitamos que nos digas si te gustaría que tu experiencia sea publicada en alguna parte de este blog, en el futuro, en otra etapa. Aunque no es seguro que publicaremos el material recopilado aquí, tu preferencia debe ser clara desde el principio. Y, en caso de duda o cambio de opinión, escribinos.

 Podes dejar tu relato haciendo click aquí.  

GT Religião e Sociedade

GT Religião e Sociedade

By Rodrigo Toniol in Novidades on maio 3, 2020

Convidamos a todas e todos pesquisadores da áreas a submeterem trabalhos no GT Religião e Sociedade. Abaixo descrevemos a proposta de retomada deste GT histórico da ANPOCS.

 

GT Religião e Sociedade 

Rodrigo Toniol (Unicamp)

João Rickli (UFPR)

Resumo: Em 2001, Pierre Sanchis escreveu que ““o campo religioso é cada vez menos o campo das religiões”. A dupla dimensão deste diagnóstico, da insuficiência das instituições em conformar as experiências religiosas e da crise da categoria religião para dar conta dos fenômenos contemporâneos, vocaliza de forma sintética uma tensão que marca boa parte da produção das ciências sociais sobre o tema nas últimas décadas.

 

Resumo expandido

A presença da religião nos debates públicos contemporâneos é fato inegável, amplamente notado e discutido no universo acadêmico. Essa centralidade parece decorrer de uma ambiguidade fundamental. Por um lado, religião tornou-se um princípio chave de mobilização identitária, sendo indispensável para a descrição dos fatos políticos recentes de maior importância da história: o vocabulário articulado na votação pelo impeachment de Dilma Rousseff, a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, a eleição de Jair Messias Bolsonaro no Brasil, o crescimento da ultradireita europeia. Por outro lado, religião é uma categoria analítica fundamental para cientistas sociais, a partir da qual têm elaborado reflexões cada vez mais afinadas sobre sua relação com o Estado, sobre os limites do secularismo e sobre sua capacidade explicativa sobre novas formas de relação com o sagrado. Desde meados de fevereiro de 2020, religião ocupou novamente o centro do debate público, quando as profundas transformações globais em curso devido a um novo tipo de coronavírus foram acompanhadas pela recusa de líderes religiosos em suspenderem atividades coletivas em suas igrejas e pela esperança disseminada de que curas milagrosas fossem operadas em meio à pandemia.
As reações do senso comum ilustrado ao reconhecimento dos componentes religiosos de ações e mobilizações políticas recentes têm variado majoritariamente entre uma certa perplexidade ou preocupação e a simples indignação e repúdio. Assim, o apelo que a noção de religião adquiriu também veio acompanhado por generalizações e reificações bastante frequentes em artigos de opinião, que insistem em generalizações como, “as igrejas evangélicos”, “as igrejas neopentecostais”, “os muçulmanos radicais” ou ainda “os cristãos conservadores”, ora apresentados como os grandes vilões que desafiam a laicidade do Estado e o progresso de pautas emancipatórias e das conquistas dos direitos das minorias, ora como vítimas indefesas de maquinações de lideranças inescrupulosas e manipuladoras.
No universo acadêmico e em seu entorno, as manifestações de autoridades políticas em aberta defesa da ocupação de posições chaves no Estado por atores “terrivelmente religiosos” parecem estimular a produção de reações “terrivelmente superficiais”, vinculadas a opiniões e pré-julgamentos que associam de forma automática a religião ao conservadorismo e a determinadas posições no espectro político. Para a compreensão da complexidade das imbricações entre a religião e as mais variadas arenas políticas e sociais contemporâneas, entretanto, é necessária a produção de pesquisas sistemáticas acerca dos fatos e fenômenos que se articulam com a ideia de religião, em direção a uma reflexão qualificada que permita o avanço do conhecimento acadêmico que permite sólido embasamento empírico para o enfrentamento das questões e dilemas inerentes aos fenômenos religiosos contemporâneos. Destacamos, neste sentido, as contribuições que as pesquisas etnográficas produzidas no âmbito da antropologia da religião têm fornecido para o enriquecimento e aprofundamento dos debates.
Este GT propõe reunir trabalhos baseados em pesquisas qualitativas, sobretudo aquelas de caráter etnográfico, que exploram modos e situações específicos através dos quais a religião se manifesta, influencia ou mesmo transforma formações sociais contemporâneas. Para tanto, fazemos dois movimentos simultâneos, expressos no título e subtítulo do GT.
O primeiro destes movimentos busca resgatar o caráter abrangente que historicamente o Grupo de Trabalho “Religião e Sociedade” teve na ANPOCS ao longo das décadas de 1980 e 1990. Paula Montero (1999), em seu texto de balanço de área, publicado no livro O que ler nas ciências Sociais (1970-1995), demonstra como o conjunto dos temas tratados pelo GT Religião e Sociedade naquelas duas décadas do século XX dirigia-se, principalmente, ao catolicismo e à força emergente do protestantismo renovado no Brasil. Para isso, mobilizava-se explicações totalizantes sobre a matriz cultural-bíblico-católica que estaria impressa desde a sociogênese da nação, assim como sobre a ascensão do pentecostalismo nas periferias, cuja explicação também se dava por meio de grandes chaves interpretativas.
As duas décadas seguintes, no entanto, consolidaram tendências que apontavam noutra direção. Os temas relativos à religião foram pulverizados e um certo esgotamento da categoria como forma de circunscrever e traduzir realidades empíricas em objetos de pesquisa parecem ter desmotivado iniciativas de promoção de debates mais sistemáticos em torno desta noção. A percepção deste aparente esgotamento do termo está bem sintetizada no diagnóstico de Pierre Sanchis, que no início do século XX escreveu de forma lapidar: “o campo religioso é cada vez menos o campo das religiões” (2001:17). Nesta ideia, havia duas dimensões principais. A primeira refere-se à crise de legitimidade e reconhecimento do próprio conceito de religião que o tornou inadequado, ainda que necessário, para designar um habitus que se expressa por meio de espiritualidades, filosofias de vida e experiências do sagrado que compõem determinado regime de crer. A segunda remete à crise das instituições religiosas tradicionais que vem paulatinamente perdendo a sua hegemonia como mediadoras da experiência do sagrado e como responsáveis pela reprodução da crença (Steil e Toniol, 2013) .
Estas mudanças, por sua vez, produziram um deslocamento na atenção dos cientistas sociais da religião enquanto produtora de identidades específicas, para o das suas interfaces com outras esferas da vida social. Um deslocamento que implica tanto em um novo vigor aos estudos da religião quanto evidencia a dissolução dos fenômenos religiosos em outras lógicas (Almeida, 2010). Tal deslocamento impõe aos cientistas sociais um esforço reflexivo que dê conta do desencaixe entre a realidade empírica, descrita nas etnografias de práticas, instituições, grupos e experiências religiosas, e os conceitos de religião, secularização, espaço público e política elaborados e definidos a partir de outro contexto social e histórico.
Essa fragmentação do campo empírico e analítico também se refletiu nos GTs da Anpocs. Ao contrário das décadas de 1980 e 1990, nas duas décadas que se seguiram foram poucos os encontros que contemplaram um Grupo de Trabalho de temática ampla, que reunisse debates sobre diferentes tradições religiosas em um único fórum, assim como que mobilizasse especialistas, associados a distintas tradições teóricas, em debates sobre a pertinência da noção de religião.
O que propomos é a retomada de uma arena de debates acerca dos fenômenos religiosos inspirada nestes esforços de síntese do passado, que possa acolher as temáticas específicas que ficaram de certa forma dispersas em iniciativas menos abrangentes em reuniões recentes. O objetivo do GT, ao fazer este movimento de resgate do caráter aglutinador do antigo “Religião e Sociedade”, é propiciar um amplo diálogo entre trabalhos que exploram a religião em diferentes esferas da vida social e contextos etnográficos a partir de enquadramentos teóricos variados e abertos.
Simultaneamente a este movimento que aglutina e recoloca a religião como categoria central, fazemos um outro em direção ao reconhecimento dos desvios e insuficiências inerentes às apostas excessivas nesta tomada da religião como instrumento heurístico de enquadramento dos objetos e de análise teórica. Para tanto, buscamos reunir trabalhos que explorem a religião em seus enredamentos com outras forças sociais e que privilegiem relações e articulações das quais a religião é (mais) um componente e uma possibilidade, e não uma categoria normativa. Com isso, procuramos retomar debates que foram centrais em fóruns anteriores da ANPOCS, apostando naquilo que eles podem nos aportar após décadas de fragmentação empírica e teórico-analítica do campo.


Referências

ALMEIDA, Ronaldo. “Religião em Transição”. In: C. Martins; L. F. D. Duarte (eds.). Horizontes das Ciências Sociais – Antropologia. São Paulo: ANPOCS/Editora Bacarolla, 2010.

MONTERO, Paula., “Religiões e dilemas da sociedade brasileira”. In: S. Miceli (org.). O que ler na ciência social brasileira (1970-1995). Vol. II: Sociologia. São Paulo: Sumaré/ANPOCS, 1999.

Sanchis, P. Fiéis & cidadãos: percursos de sincretismo no Brasil. EdUERJ, 2001.

Steil, Carlos Alberto, and Rodrigo Toniol. “A crise do conceito de religião e sua incidência sobre a antropologia.” Religión, cultura y política en las sociedades del siglo XXI. Buenos Aires: Biblos, pp. 137-158, 2013.