Mês: janeiro 2020

Yoga é religião?

Yoga é religião?

By admin in Crônicas de pesquisas on janeiro 30, 2020

Texto publicado em Estado da Arte, do Estadão.


por Rodrigo Toniol

Afinal, Yoga é uma prática religiosa? Essa é uma pergunta complexa, espinhosa e que ativa debates acalorados entre praticantes e instrutores. Respondê-la de modo definitivo seria abrir mão de disputas e camadas que tornam a pergunta de algum modo interessante. Evitando o campo minado, tomemos como fio condutor o caso do yoga em algumas situações nas quais sua dimensão religiosa emergiu, ainda que na chave da controvérsia.

Em fevereiro de 2011, na região de San Diego, na Califórnia, nove escolas públicas de ensino infantil deram início à um projeto que implementou aulas de yoga para seus estudantes. As aulas integravam um projeto maior de melhora da saúde física dos alunos e havia sido executado graças ao apoio de U$ 500.000 oferecido pela Fundação Jois, que promove yoga em ambientes escolares. Alguns meses após o início das atividades, um grupo de pais abriu processo contra a cidade de San Diego e os diretores das escolas, argumentando que a prática feriria a liberdade religiosa de seus filhos e ainda, que comprometeria os princípios constitucionais relativos à laicidade do Estado. “Se há alguma dimensão religiosa na prática do yoga, seu lugar não pode ser o ensino público. Sempre haverá um componente religioso nessa prática”, argumentou o representante das famílias para a imprensa local durante os debates envolvendo o caso. Como prova do princípio religioso da prática foram apresentados alguns pôsteres com os oitos passos da prática, escritos em sânscrito. Também questionou-se o uso da saudação Namastê no início das aulas e os nomes das posturas ensinadas, que remetiam a reverências a deidades hindus. Nos anos em que o processo correu as aulas continuaram, mas o Namastê foi abolido e as posturas renomeadas com palavras lúdicas, como “telefone”, “molho de maçã” e “dedo do pé”. O imbróglio jurídico durou dois anos. Em sua decisão, a corte reconheceu que yoga tem raízes religiosas, a despeito da raiz na filosofia hindu, mas que sua versão moderna “está ancorada na sociedade secular estadunidense, podendo mesmo ser considerada como um fenômeno cultural americano”. A decisão manteve o estatuto ambíguo da prática, afirmando que nos Estados Unidos, a tradição religiosa do yoga foi convertida como cultura secular e que, portanto, pratica-la não é ato religioso.

No mesmo estado da California, a administração do aeroporto de San Francisco tomou a decisão de não dedicar nenhum espaço para qualquer prática religiosa. Aboliu de sua arquitetura a capela ecumênica, tão comum em aeroportos de todo mundo. No entanto, em um lugar análogo ao que a capela ocuparia, implementou o Yoga room, “um espaço devotado ao relaxamento, auto-reflexão e prática de yoga”, como descreve no site. Se no aeroporto, a sala de yoga ocupa o espaço que já foi da religião, de modo que parece encarnar o papel de seu avatar e, ao mesmo tempo, de sua antítese.

Na América Latina, situações potencialmente controversas envolvendo a prática também têm se consolidado nos últimos anos. Na Argentina, por exemplo, como o antropólogo Nicolás Viotti tem demonstrado, há um número cada vez maior de penitenciárias que implementaram sessões de yoga para os detentos, com a justificativa de que a prática melhora a qualidade de vida e eleva valores como “gratidão, força de vontade, paciência, persistência, responsabilidade, liberdade e paz” entre seus praticantes. A pedagogia da prática passa não somente pelo ensinamento de posturas, como também por aulas teóricas, que envolvem suas bases hindus.

No Brasil, é no Sistema Único de Saúde que a prática encontra respaldo. Desde 2006, por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, o SUS reconhece a legitimidade e promove em alguns de seus hospitais e postos de saúde, terapias alternativas/complementares. A lista de práticas promovidas é extensa, contemplando, por exemplo homeopatia, medicina tradicional chinesa, biodança, dança circular, meditação, reiki, terapia de florais e, desde 2018, yoga.

Se no caso da escola californiana a legitimidade da prática e sua desassociação com a religião passou pela alegação da cultura e nas prisões argentinas a chave acionada é a do bem estar e da educação, no Brasil, o que viabiliza a oferta da yoga por parte de instituições públicas é a possibilidade de apresenta-la como ferramenta de promoção de saúde. 

As primeiras menções ao yoga pela Organização Mundial da Saúde (OMS) ocorreram no fim da década de 1960 e início dos 70. Naquele contexto, sempre era descrita como uma prática de medicina tradicional, colocada ao lado de tantas outras, como a Ayurveda, alguns rituais de cura de grupos indígenas da Amazônia e sistemas de tratamento de comunidades na África. Sempre que associadas à medicina tradicional, essas práticas foram descritas como modelos de cuidados holísticos, atentos, inclusive, à dimensão espiritual da pessoa. Isso mudou a partir da década de 1980, quando, no âmbito da própria OMS, yoga passou a ser descrita como uma técnica terapêutica. E não somente isso, apresentada como uma técnica cuja eficácia não depende do pertencimento cultural a grupos específicos, mas que pode ser comprovada a partir de testes clínicos. A ciência operou como mediadora do processo de “desreligiosização” da prática, permitindo que ela se convertesse, no Ocidente, em uma técnica de saúde.

Comum a todas essas situações está a autonomização da prática do Yoga de um universo simbólico mais amplo, do qual ele mesmo era/é parte integrante. Transformar Yoga em prática, desassociada do hinduísmo não é tarefa simples e nem teve trajetória linear na história recente: explosão do mercado editorial dedicado ao tema, a estetização da prática pela indústria cinematográfica e ainda a oferta cada vez mais ampla de escolas de formação, são alguns ingredientes desse caldo.

Na versão ocidental, yoga é associada à religião quando esse destacamento do sistema mais amplo com o qual já foi associado não funciona. Contudo, se a relação com a religião é usualmente negada, não é incomum que se sustente seu vínculo com outra dimensão mediadora, entre os religioso e o secular: a de espiritualidade. Ao acionar essa noção, as situações envolvendo yoga se associam com movimentos que podemos reconhecer em um conjunto mais amplo de outras práticas como meditação, reiki, mindfulness e uso de florais. Espiritualidade parece ser a forma de saída da religião e, ao mesmo tempo, de manutenção das referências a ela. É essa de duplo vínculo que tornam as respostas à pergunta que intitula este texto invariavelmente ambíguas sem que sejam contraditórias.

A espiritualidade como dimensão da atenção em Cuidados Paliativos

A espiritualidade como dimensão da atenção em Cuidados Paliativos

By admin in Crônicas de pesquisas on janeiro 30, 2020

Por Lucía Copelotti

Entendidos como uma especialidade médica orientada à atenção de pacientes com diagnósticos de enfermidades que ameaçam a continuidade da vida, os Cuidados Paliativos constituem uma forma particular de assistência baseada em princípios que visam o acolhimento, o conforto, o controle da dor, o alívio do sofrimento, mais do que a busca pela cura. Em outros termos, a partir da constituição de equipes de saúde multidisciplinares, essa especialidade clínica busca promover a humanização da morte através da identificação das necessidades e preferências do paciente quanto ao tipo de cuidado e tratamento médico em um processo cujas decisões terapêuticas envolvem a pessoa doente e também seus familiares.  Essa especialidade clínica goza, portanto, de uma natureza ambígua. Por um lado, assim como qualquer outra especialidade médica, é protocolar, segue uma rotina pré-estabelecida de atenção à saúde. Por outro, está baseada nas demandas particulares dos pacientes, o que muitas vezes coloca o próprio protocolo à prova. De alguma maneira, os cuidados paliativos não estão à margem da prática clínica, mas pelo contrário, eles constituem sua franja, a partir do qual a clínica transforma seus protocolos.

Em seus princípios, os Cuidados Paliativos procuram distanciar-se do modelo hegemônico de gestão dos cuidados, pautado em um ideal de assistência altamente tecnológico, racionalizado e impessoal. Nesse contexto, a morte e o morrer passam a ser concebidos como um processo, administrado e gerido pela equipe multiprofissional – constituída por médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outras especialidades – cuja proposta assistencial volta-se à humanização dos cuidados diante da finitude da vida a partir da comunicação aberta; das decisões consensuais e informadas entre paciente, familiares e a equipe médica; da afirmação da morte como um processo natural; e da reivindicação do uso apropriado da tecnologia e da medicalização na promoção do conforto e alivio da dor.

Tais formulações e definições dos cuidados paliativos, característica do conjunto das pesquisas feitas até o momento no Brasil sobre o tema, positivam essa modalidade médica, enfatizam seus benefícios e seu papel disruptivo com relação à biomedicina. Ao fazê-lo, contudo, perdemos de vista as controvérsias que envolvem o tema, não apenas éticas, mas também situações que expõem, por exemplo, as tênues fronteiras entre o secular e o religioso nos hospitais quando surge uma demanda por atenção espiritual, ou ainda, como é o caso desta pesquisa, quando a própria equipe médica hospitalar assume o lugar de atenção ao espírito. Por essa razão, parece relevante perguntar, então, como “religião e espiritualidade” são tratadas pelos agentes do campo da saúde nas rotinas de cuidado a pacientes com diagnósticos de enfermidades que ameaçam a continuidade da vida?

Nesta pesquisa, o meu interesse está centrado na possibilidade de indagar acerca do papel desempenhado por esses agentes de saúde no processo de inclusão da espiritualidade no horizonte assistencial e na produção de formas particulares de conceber, de manipular e administrar o par religião-saúde na prática clínica. Para tanto, o universo de análise desta investigação é, justamente, o processo de institucionalização e legitimação dos cuidados com a dimensão espiritual da saúde no âmbito dos cuidados paliativos.

O deslocamento do foco analítico da esfera religiosa para a esfera da prática clínica não é casual, e busca dar conta das dinâmicas próprias desse fenômeno de institucionalização do par espiritualidade e saúde, marcado, entre outros aspectos, pela ressignificação do perfil dos especialistas responsáveis pela promoção do cuidado e do conforto espiritual em contextos hospitalares. A assistência à espiritualidade da pessoa doente, função tradicionalmente desempenhada por agentes religiosos, vem sendo incorporada cada vez mais por profissionais de diferentes especialidades médicas, e pode ser observada tanto na recorrência da categoria espiritualidade, e sua distinção em relação à religião, nos documentos, guias e manuais orientados à regulação da prática clínica em cuidados paliativos; quanto na proposição de instrumentos de diagnóstico, como escalas e questionários, utilizados para aferir, por exemplo, o nível de desconforto e sofrimento espiritual do paciente.

Assim, diante desse cenário parece pertinente questionar: Como especialistas conjugam a prática biomédica com o cuidado da espiritualidade dos pacientes? Como se constituem os protocolos de atenção à dimensão espiritual da saúde nas rotinas de atendimento em contextos hospitalares? Em que termos é possível estruturar a oferta de cuidados espirituais em instituições oficiais de assistência à saúde? Estas são algumas das questões que mobilizam minha pesquisa e que pretendo responder ao longo da investigação.

Disciplinas sobre saúde e espiritualidade nos cursos de medicina em universidades brasileiras

Disciplinas sobre saúde e espiritualidade nos cursos de medicina em universidades brasileiras

By admin in Crônicas de pesquisas on janeiro 30, 2020

Por Florencia Chapini

Os estudos sobre o vínculo de espiritualidade e saúde cresceram e no caso do Brasil, intensificou-se nos anos 2000, com a consolidação de grupos e fóruns em diferentes universidades e organizações médicas. Esse fortalecimento levou a lecionar disciplinas dedicadas ao tema em cursos de medicina em universidades do Brasil. Onde em alguns casos misturam-se pesquisa e a prática clínica.

No 33° Congresso Brasileiro de Psiquiatria no ano 2015 o tema da espiritualidade esteve pressente em três atividades diferentes, a palestra “Pesquisas em espiritualidade e saúde”, o curso “A espiritualidade na prática clínica” e o “Encontro mundial espiritualidade e saúde mental” (Toniol, 2019). Um dos professores convidados nesse Congresso tem um grupo de estudo que além de oferecer disciplinas onde se trata o tema, tem um atendimento gratuito no Núcleo de estudos em saúde e espiritualidade (Nesme) na Universidade Federal Fluminense.

Por outro lado, na Universidade de São Paulo e na Universidade Juiz de Fora, começam a institucionalizar-se grupos de pesquisas dedicados ao tema, como o Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade da Faculdade de Medicina (ProSer) da USP ou o Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES) vinculado ao Programa de Pós-graduação de Medicina na UFJF. O primeiro desenvolve pesquisa dedicadas as possíveis relações entre espiritualidade e saúde; e o NUPES é um grupo coordenado pelo médico e psiquiatra Alexander Moreria de Almeida, quem também dirige as seções de espiritualidade e psiquiatria da Associação Mundial de Psiquiatria e da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Na Universidade Federal do Ceará a professora Eliane Oliveira é pioneira em o tratamento da relação de medicina e espiritualidade. Segundo o site, a UFC foi a primeira universidade em ditar uma disciplina optativa, a mesma coordenada por Oliveira. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul foi oferecida no ano 2016 pela primeira vez.

O objetivo desta pesquisa é analisar o desenvolvimento das disciplinas dedicadas à relação entre saúde e espiritualidade na graduação de medicina em universidades brasileiras fazendo foco nas mudanças ou novas modalidades na noção de pessoa. Para isso se propõe indagar o contexto de surgimento das disciplinas, a trajetória profissional no tema dos docentes responsáveis, e por fim o recebimento dessas disciplinas dos estudantes. Concebo as disciplinas como processos de aprendizagem que têm particularidades contextuais, mas que institucionalmente apontam para a crescente legitimação do tema da espiritualidade no âmbito da saúde. É ao ensino desse novo segmento médico de atenção à saúde que essa pesquisa se dirige. Ao fazê-lo também avanço sobre um melhor entendimento, a partir das ciências sociais, dos usos da noção de espiritualidade.