Mês: setembro 2019

Espiritualidade na América Latina: agências globais e políticas públicas de saúde locais

Espiritualidade na América Latina: agências globais e políticas públicas de saúde locais

By admin in Crônicas de pesquisas on setembro 29, 2019

Por Lucas Bolonha

Como resoluções de agências globais de saúde são adotadas na oficialização de políticas públicas de saúde? Em políticas que tensionam a categoria espiritualidade, como é mobilizado o par espiritualidade e saúde? Como o contraste entre a política brasileira de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) e políticas de outros países latino-americanos revela uma parte da rede dessas relações?

Uma vez que meu projeto, incorporado no projeto “Espiritualidade institucionalizada”, repousa nos desdobramentos das questões apresentadas, busco mostrar como a noção de espiritualidade é formulada e contribuir para elucidar a cadeia de atores que fazem a rede de resoluções da Organização Mundial da Saúde (OMS) até políticas públicas de saúde locais possível. Além disso, me atento às requisições de uma análise que evoca América Latina, que implica também em construir um debate que foge daquele norte-atlanticêntrico e coloca a antropologia brasileira em diálogo com uma literatura até então restrita ao seu processo de internacionalização.

Meu problema de pesquisa é então constituído a partir do aumento progressivo que vem ocorrendo desde 1999 em âmbito global de países que oficializam o uso das terapias alternativas/complementares. No contexto latino-americano, o processo de oficialização dessas terapias encontra na constituição de políticas públicas de saúde a mobilização de duas categorias: medicina tradicional (MT) e medicina alternativa e complementar (MAC), e pode-se identificá-las a partir do público que têm acesso a elas.

Enquanto no Brasil as mobilizações realizadas são aquelas da categoria MAC que tem abrangência universal de acesso à população, em outros países do continente as mobilizações foram referentes à categoria MT em que as terapias têm seu público de acesso restrito. Essas políticas públicas encontram legitimidade via global nas resoluções da  Organização Mundial da Saúde, principalmente naquela em que espiritualidade é difundida como uma dimensão da saúde humana. Nesse sentido, entende-se que a categoria espiritualidade é acionada na oficialização das terapias alternativas/complementares, sendo mobilizada de diferentes maneiras para atingir objetivos específicos, seja de interculturalização ou de universalização.

Se reconhecer as políticas públicas de saúde que oficializam as práticas integrativas/complementares no Brasil e o entrelace dessa política com as resoluções da OMS já revela uma ampla parte da cadeia de atores e da mobilização das categorias espiritualidade e saúde, observá-las em contraste com outros países da América Latina aumenta ainda mais este espectro da rede e este modo próprio de articulação do continente. Nesse sentido, busco contribuir para maiores formulações, já que a pesquisa permite o contraste tanto da mobilização da própria categoria, quanto de outros alinhamentos para as mesmas resoluções globais.

Para dar conta dessa análise, tomo como apostas os países que se destacam na elaboração de políticas públicas de saúde no continente latino-americano: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia e Uruguai. Contudo, enfatizo que esses países são tanto uma aposta quanto um ponto de partida. Ou seja, meu interesse não recai especificamente sobre eles, mas os toma como porta de entrada visto que são referência na elaboração políticas de saúde e no acesso a elas, bem como são produtores de modelo para o restante do continente.

Por fim, para fechar esta breve apresentação sobre meu tema de pesquisa, apresento meus procedimentos analíticos, que estão sendo pensados divididos em três movimentos. O primeiro diz respeito à construção do banco de dados de políticas voltadas para a inscrição de MT/MAC em sistemas oficiais de saúde, buscando, quando necessário, documentos ainda não digitalizados. O segundo é o de comparação dessas políticas, em que irei me apropriar da literatura das ciências sociais que diz respeito sobre comparação de políticas, ensejando contribuir para o debate acerca de um continente ainda pouco explorado e de articulação específica. O terceiro e último movimento é a realização de entrevistas com os agentes que participaram da elaboração dessas políticas, para assim obter informações da articulação empregada da categoria espiritualidade, bem como as tensões implicadas na escolha.

Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro

Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro

By admin in Crônicas de pesquisas on setembro 17, 2019

Por Isabela Mayumi

Em junho de 2001, a Revista Veja publicou a matéria “Em busca de Deus”, discorrendo acerca das tentativas dos cientistas de romper as barreiras entre a fé e a ciência. Em fevereiro de 2007, a Revista Galileu publicou “O monge cientista”, focalizando o interesse do 14º Dalai Lama pela ciência como um método complementar ao budismo na busca pela verdade. Anos depois, em novembro de 2013, a revista de curiosidades científicas SuperInteressante publicou “Fé faz bem” e, no mês seguinte, a Revista Saúde É Vital publicou “Fé pode (mesmo) curar”.

Essa sucessão de publicações em revistas de circulação nacional não são as únicas que trouxeram à tona o eixo temático “saúde-espiritualidade-ciência”, e podem ser compreendidas como desdobramentos de um movimento que vem se consolidando há algumas décadas, explorado nas pesquisas que compõem o projeto “Espiritualidade Institucionalizada”. Das pesquisas médico-científicas até a formulação de políticas públicas voltadas à saúde, perpassando a literatura médica e documentos oficiais, é notável um crescente reconhecimento da associação entre espiritualidade e saúde.

Dialogando com este contexto, minha pesquisa buscará analisar os textos de divulgação científica em revistas e jornais brasileiros que veiculam a espiritualidade como um fator positivo à saúde ao chamado “público leigo”. Essas publicações são dedicadas a, por um lado, difundir as pesquisas médico-científicas que dizem respeito aos benefícios da espiritualidade para a saúde e, por outro, positivar a fé no atual cenário brasileiro. Numa breve análise inicial, há uma certa demanda desses textos, algo que pode ser explicado pelo fato de que cada indivíduo pode constituir sua experiência espiritual ao passo do detrimento da adesão a uma prática religiosa institucionalizada.

Como o consumo por parte desse público pode, de alguma maneira, auxiliar na legitimação dos benefícios da espiritualidade à saúde? Quais são os recursos acionados na elaboração de tais textos, sobretudo no mercado editorial brasileiro? E, ademais, quais são as consequências da formulação da espiritualidade como uma questão de saúde? Qual é o trajeto de uma pesquisa, conduzida em uma universidade, até a produção de sua versão de popularização? Quais são os temas mais recorrentes nessas publicações? Quem e quais instituições estão por trás desse fenômeno de popularização? Como isso tem se estabelecido no mercado editorial brasileiro? É através destes questionamentos que pretendo desenvolver minha pesquisa.

Espiritualidade, ciência e saúde são temas-chave identificáveis em passagens de livros e outras mídias, porém as publicações em revistas e jornais no mercado editorial brasileiro se caracterizam, precisamente, pela sua natureza secular. É necessário que haja um especial cuidado para que essas publicações não se confundam com obras de literatura religiosa, bastante consumidas no Brasil, em que a cena religiosa é marcada pelo crescimento evangélico e por outras expressões de fé, embora a maioria da população seja católica. Assim, é preciso compreendermos os mecanismos de divulgação e transmissão de informações dessas publicações, num arranjo ainda provisório e em construção.