Mês: maio 2019

Pânico sentido:  um olhar sobre a (falta de) respiração no Transtorno de Pânico

Pânico sentido: um olhar sobre a (falta de) respiração no Transtorno de Pânico

By admin in Crônicas de pesquisas on maio 27, 2019

Giovanna Paccillo

Ao olhar para o mapa de distribuição espacial de transtornos mentais pelo globo, divulgado por uma reportagem de um jornal online em julho de 2018, vemos que a predominância dos transtornos de ansiedade se encontra, principalmente, no continente Americano. Em especial, uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2017, aponta o Brasil como o país que contém o maior número de diagnósticos de transtorno de ansiedade do mundo. Levando em conta esse fenômeno tão comum no país, focalizo um aspecto, hoje particular, do que chamamos de ansiedade: o transtorno de pânico, que acomete aproximadamente 3,5% da população brasileira.

O interesse pelo pânico se deve a sua definição e caracterização sintomática. Ele aparece, no DSM-V – o volume mais recente do manual de diagnósticos criado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) -, como um subgrupo do que é amplamente chamado de ansiedade. A especificidade da doença estaria na persistência e na imprevisibilidade dos ataques de pânico, que por sua vez são definidos como “(…) um surto abrupto de medo intenso ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos” e durante o qual ocorrem sintomas como: palpitações, coração acelerado, taquicardia; sudorese; tremores ou abalos; sensações de falta de ar ou sufocamento; sensações de asfixia; sensação de tontura, vertigem ou desmaio; calafrios ou ondas de calor; medo de perder o controle; e medo de morrer.

Ao mesmo tempo, considero que o diagnóstico é apenas uma configuração do transtorno de pânico, sendo possível encontrar outras formas de descrição que o articulam. Aqueles que desenvolvem o transtorno de pânico, não desenvolvem somente um “diagnóstico”, mas um processo novo e real de engajamento com o mundo completamente relacionado a essas sensações imprevisíveis, intensas e abruptas. Assim, o que está em jogo não parece se tratar unicamente da construção de uma doença específica calcada na repetição de sintomas determinantes – apesar de o ser também. Tendo isso em vista, o foco principal da pesquisa que venho desenvolvendo, é pensar as formas como o transtorno de pânico é vivenciado nas práticas cotidianas tanto de pacientes como também de médicos e pesquisadores; e centrando o olhar nos sintomas – mais especificamente a falta de ar, sufocamento e asfixia –, me interesso em saber quais as estratégias que pacientes se utilizam para lidar com tal situação.

O foco na (falta de) respiração tem alguns motivos. O primeiro deles é que, como a definição diagnóstica da doença é sintomática, os sintomas devem ser ponto de partida para um estudo do transtorno. O segundo tem a ver com a recorrência com que ela aparece não só nos relatos das crises, mas também nas estratégias cotidianas de pacientes. Se, por um lado, os outros sintomas são extremamente importantes para a identificação de uma crise e a conformação de um diagnóstico, por outro, a respiração parece ser o meio pelo qual tratamentos e pesquisas são mais facilmente articulados. Não são raros os relatos de pessoas que recorreram a terapias e exercícios específicos como pilates, aromaterapia, yoga, mindfullness, etc., para controlar seus sintomas – envolvendo uma complexa relação entre exercícios, respiração e espiritualidade. E mais: o controle e a técnica da respiração não somente é utilizada em seu tratamento, mas também em pesquisas sobre a doença. O terceiro motivo diz respeito à existência de núcleos de pesquisa dedicados ao tema, como o Laboratório de Pânico e Respiração (LABPR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Esses grupos vêm se dedicando à investigação das relações estabelecidas entre o transtorno de pânico de modo geral, e a respiração em particular.

  Dessa forma, meu foco na respiração tem como aposta a articulação que essa sensação e (por vezes) sintoma tem com as três dimensões relatadas aqui: a clínico-diagnóstica; a fenomênica dos indivíduos; e a da pesquisa científica. Por fim, a escolha da arte que acompanha o texto tem a ver com um projeto de uma artista inglesa chamada Jayne Wilton, que tenciona explorar diferentes maneiras de capturar e tornar visível a respiração humana. A imagem escolhida, Breath etched onto copper plate, faz parte de sua exposição Breathe (2010 – 2014) – resultado de um longo período de pesquisa e colaboração com a equipe e os pacientes dos hospitais Harefield e Royal Brompton, na Inglaterra.

Religião e espiritualidade em diagnósticos psiquiátricos

Religião e espiritualidade em diagnósticos psiquiátricos

By admin in Crônicas de pesquisas on maio 12, 2019

Por Lucas Baccetto

Desde ao menos a década de 1980, discussões em torno da importância de fenômenos religiosos e/ou espirituais para a psiquiatria tornaram-se recorrentes na literatura acadêmica da área. Em especial, chama a atenção o enfoque dado pelos autores em oposição ao que eles entendem como uma histórica e sistemática negligência por parte de sua disciplina em relação a esses temas. Em resposta a isso, uma extensa agenda de investigação foi posta em movimento a partir de diversas frentes e em universidades situadas ao redor de todo o globo. Como as pesquisas de nosso grupo têm apontado, o enunciado “espiritualidade é saúde” vem se tornando uma espécie de “pedra basilar” nas pesquisas das ciências médicas sobre o tema, sendo repetido com pequenas modulações e atuando como referencial para a criação de políticas públicas de saúde no Brasil e em diversos outros países.

Embora a maior parte dos esforços desses pesquisadores esteja direcionada à comprovação dessa máxima terapêutica – que liga um maior fator de espiritualidade a uma melhor condição de saúde –, uma outra dimensão dos estudos médicos sobre religião e espiritualidade tem retido a atenção dos psiquiatras: e quando a religião e/ou a espiritualidade fazem mal à saúde? Aqui, o empenho central dos pesquisadores se dá na disputa pela criação de novas categorias diagnósticas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), um importante guia de diagnósticos de autoria da Associação Americana de Psiquiatria (APA). Para tanto, a categoria antropológica “cultura” tornou-se fundamental na construção das reivindicações feitas por esses psiquiatras, passando a ser mobilizada constantemente junto às propostas de novos diagnósticos sobre os temas.

A quarta edição do DSM, lançada em 1994, foi um momento de inflexão nessa recente história. As discussões em torno de sua elaboração contaram com duras críticas feitas por um conjunto de psiquiatras que vinham apontando para um possível caráter “biologizante” que o manual havia assumido em sua edição anterior. Parte substancial dessas críticas se deram a partir do que se convencionou chamar de “psiquiatria transcultural” e da “nova psiquiatria intercultural”, e diziam respeito à falta de atenção que o manual dava à “cultura”. Junto à inclusão no DSM-IV de algumas das reivindicações desse grupo, dois novos diagnósticos também foram incluídos: “transtorno de transe dissociativo” e “problemas religiosos ou espirituais”.

A partir desse quadro, minha pesquisa está interessada em saber como esse movimento de sensibilização a aspectos “culturais” no DSM foi essencial para a inclusão desses dois diagnósticos. Além disso, importa saber quais os efeitos que acarretam dessa associação entre “cultura” e “religião/espiritualidade”. Qual a relação estabelecida entre esses termos? Estariam a religião e a espiritualidade marcadas como dois casos particulares dentre tantos aspectos daquilo que compõe e varia entre as “culturas”?