Mês: março 2019

Espiritualidade nas pesquisas médicas

Espiritualidade nas pesquisas médicas

By admin in Crônicas de pesquisas on março 24, 2019

Manuela Carvalho

O tema da espiritualidade vem ganhando destaque nos dias atuais, especialmente na área da saúde, trazendo novas perspectivas e divergências entre pesquisadores e especialistas da área. Nesse período a OMS contribuiu para legitimar o fator espiritual como uma das categorias que compõe a saúde e o bem-estar de todas as pessoas. Na última década houve um aumento significativo das pesquisas acadêmicas envolvendo esse tema, tendo mais de 250 teses e dissertações a esse respeito defendidas em diversas universidades em todas as regiões do Brasil.

A categoria espiritualidade é comumente utilizada de forma a se distanciar da religiosidade, das crenças e dogmas e categorizada como algo subjetivo e intrínseco a todo ser humano, ainda que cada um possa entendê-la à sua maneira. Nesse sentido, essa categoria é estratégica a medida em que pode ser adaptada em diversos contextos e legitimada numa chave universal, além de trazer uma noção de um caráter abrangente, diferentemente das práticas religiosas.

A forma como esse tema surgiu e se consolidou na literatura médica brasileira é a questão da qual pretendo pesquisar me aprofundar em minha iniciação científica. A partir de um mapeamento dessas teses e dissertações, tenho identificado alguns núcleos que se destacam por se constituírem como centros de pesquisa dedicados à espiritualidade (e por vezes a religiosidade) e seus vínculos com saúde e bem-estar. Entre os núcleos temos o ProSer (Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade) da USP e o NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde) da Universidade Federal de Juiz de Fora. Juntamente com as produções acadêmicas de outras universidades, esses dois grupos apresentam com maior frequência temas que consideram o fator espiritual em pacientes em cuidados paliativos ,no campo da gerontologia e entre usuários de drogas.

Sendo assim, pretendo, a partir de agora, me aprofundar nessa enorme bibliografia biomédica que começou a integrar a espiritualidade no atendimento de pacientes terminais. Além disso pretendo traçar os primeiros médicos que começaram a trazer o tema da espiritualidade na saúde, a fim de investigar como esse tema começou a ganhar tanto destaque.

A espiritualidade nas políticas públicas de saúde

A espiritualidade nas políticas públicas de saúde

By admin in Crônicas de pesquisas on março 1, 2019

Ana Beatriz Foster

Graduanda em Ciências Sociais – Unicamp

“Espiritualidade” é um termo que está se destacando cada vez mais, tornando-se foco em várias pesquisas de diversas áreas do conhecimento. O que chama atenção principalmente é a incorporação da categoria por instituições seculares e mobilização em contextos oficiais de atenção à saúde. É justamente esse o foco da pesquisa principal: investigar como e as crescentes formas com a qual a categoria espiritualidade tem sido incorporada e usada no âmbito da saúde no Brasil. Para isso, o interesse empírico está dirigido a três dimensões: como espiritualidade aparece nos usos clínicos; como ela é mobilizada no contexto das pesquisas médicos científicos; e, como ela se apresenta nas políticas públicas de saúde.

Gradativamente, a categoria “espiritualidade” tem sido empregada em documentos oficiais do ministério da saúde, sendo frequentes referências explícitas, em textos de políticas públicas, à “dimensão espiritual da saúde”, aos “valores espirituais” e aos “cuidados com a espiritualidade”. O interesse principal da pesquisa pela qual sou responsável é analisar a presença e os usos da noção de espiritualidade nas políticas públicas de saúde no Brasil. O objetivo principal é mapear o modo como “espiritualidade” tem sido incorporada nessas politicas, explorando suas variações e com isso, apontar as convergências e as tensões que marcam esse processo. Para isso buscarei fazer o levantamento de todas as políticas de saúde promulgadas pelo ministério da saúde, desde a criação do SUS, juntamente com políticas de saúde estaduais e municipais, etapa essa que já iniciei; ademais, será elaborado um banco de dados, em um software de análise qualitativa, com os textos das políticas de saúde selecionadas; a partir das ferramentas de análise disponíveis, buscarei identificar as formas regulares de estabelecimento da categoria espiritualidade nas políticas de saúde. O foco de interesse desta pesquisa são as ocorrências em que conceitos como “espiritualidade”, “religião”, “religiosidade”, “espiritual” aparecem nos textos de políticas públicas de saúde existentes no Brasil.

No momento, a pesquisa está no começo, apenas em seus primeiros passos, sendo possível que, a partir da leitura e das investigações, ela tome rumos pelos quais não imagino agora. Por enquanto, estou levantando as políticas públicas de saúde no Brasil e lendo a literatura necessária e participando de discussões sobre os temas relacionados. Mesmo que pouca coisa fora feita até agora, muitas reflexões me vieram à mente a partir disso. Alinhada com o projeto de pesquisa principal, não parto de uma definição ou entendimento prévio do que seja a espiritualidade, mas como, a partir de cada realidade, a espiritualidade é concebida, desenhada e assim, mobilizada de variadas maneiras. Diante disso, o que posso dizer é que, pelo que observei, a forma com a qual espiritualidade é manuseada nas políticas públicas difere das formas como é empregada em pesquisas médicas e científicas e no campo clínico. A impressão que tenho é que diferentemente do discurso médico, que opera por uma lógica entendimento de uma “dimensão espiritual” como fator de saúde humana, no campo das políticas públicas, a categoria espiritualidade está implicada em uma lógica de “direitos”, sendo uma forma de conciliar o direito de liberdade religiosa dentro dos hospitais com a manutenção de um Estado laico, separado da religião.

Como já dito, estou apenas no início da pesquisa, sendo que com seu aprofundando, ideias, hipóteses, impressões mudem e tomem rumos inimagináveis.