Dia: 16 de janeiro de 2019

Religião Material

Religião Material

By Rodrigo Toniol in Novidades, Publicações on janeiro 16, 2019

Em abril deste ano a Unicamp receberá, como pesquisadora visitante, a professora Birgit Meyer. Entre a série de atividades previstas para o período da visita, está o lançamento do livro Como as coisas importam, publicado pela editora da UFRGS. O livro reúne textos traduzidos, inéditos em português, de Meyer, além de uma entrevista e de uma extensa introdução escrita por seus organizadores, Emerson Giumbelli, João Rickli e Rodrigo Toniol. Ao longo dos próximos meses faremos atualizações sobre as atividades que realizaremos com a professora Meyer. Aproveitamos a novidade para compartilhar um roteiro de leituras, que pode ajudar interessados a se engajarem nas discussões realizadas no campo da chamada “Religião Material”.

Uma versão modificada deste texto foi publicada na Newsletter (2017/2) da Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul.


Campo em expansão

O crescimento da literatura das ciências sociais dirigida às materialidades tem contribuído para a consolidação do que já é quase um subcampo disciplinar, com debates próprios, eventos específicos e publicações regulares dedicadas ao tema. É certo que um esforço genealógico das discussões sobre materialidade, objetos e coisas – palavras que na literatura especializada estão longe de serem sinônimos – poderia identificar os atos de fundação desse campo em textos de autores clássicos das ciências sociais. O propósito da compilação bibliográfica que segue, no entanto, não pretende ir tão longe e tampouco pretende cercar a totalidade dessa literatura. Alternativamente, opto por referenciar um conjunto limitado de leituras que pode auxiliar aqueles que estiverem interessados em uma área específica desse debate mais amplo, refiro-me a chamada “material religion”. Portanto, o que segue não é uma lista exaustiva do que há para ser lido, mas sim um guia introdutório, que indica alguns dos textos que são constantemente referidos no campo e, ao mesmo tempo, que servem para situar seu debate. Esse foi o critério de seleção da bibliografia sugerida – apesar disso, como não poderia deixar de ser, não nego o caráter arbitrário e pessoal das leituras indicadas.

O que é a material religion ?

Entre outras sínteses possíveis, reproduzo a definição do que seja material religion presente no número inaugural do periódico homônimo: “Ao nos referirmos a material religion estamos nos referindo a possibilidade de considerar a religião a partir de suas formas materiais e do uso que se faz desses materiais na prática religiosa”. Trata-se, poderíamos dizer, de um movimento que reage ao entendimento da religião e da prática religiosa como fenômenos cognitivos, que ocorreriam inicialmente no plano das ideias e posteriormente se projetariam em representações materiais. O que está em jogo nessa perspectiva, pelo contrário, é o entendimento de que os materiais, seus usos e a forma de experimentá-los são– e não simplesmente refletem – a religião.

De forma mais didática, Birgit Meyer, em um texto intitulado “There is a spirit in that image’: Mass-produced Jesus pictures and Protestant–Pentecostal animation in Ghana”, afirmou: “A abordagem material da religião significa perguntar como a religião ocorre materialmente, o que não deve ser confundido com a pergunta muito menos útil de como a religião é expressa em formas materiais. Os estudos sobre religião material começam com a suposição de que as coisas, seus usos e sua apreciação não são dimensões que se adicionam à religião, mas, pelo contrário, são intrínsecas a ela”. Se, por um lado, é possível argumentar que materiais sempre estiveram no horizonte de reflexões de cientistas sociais da religião, por outro, é inegável que o deslocamento proposto instituiu novidades para o próprio modo de definir religião e – talvez principlamente – também para o modo de pesquisá-la.

Grupos de pesquisa

Por mais que a literatura dedicada ao tema seja majoritariamente anglo-saxônica, temos no Brasil, há algum tempo, movimentos de aproximação com essa perspectiva, seja via cursos em programas de graduação e pós-graduação, seja pela produção de pesquisas ou pela tradução de textos a ela relativa. Sobre o primeiro movimento, de ensino e pesquisa, merece destaque a consolidação do grupo de pesquisa Mares, registrado no CNPq e que reúne pesquisadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul (https://maresantropologia.wordpress.com) e as atividades do Grupo de Pesquisa em Antropologia da Devoção, do Museu Nacional, que sistematicamente tem organizado eventos e promovido debates dirigidos ao tema. Com relação às traduções, destaco a publicação recente de um artigo de Birgit Meyer, publicado na Revista Campos (http://revistas.ufpr.br/campos/article/view/53464) e, naquele mesmo volume, de um texto apresentação da obra da autora, escrito por Carly Machado (http://revistas.ufpr.br/campos/article/view/53445/pdf). Além disso, desde o início de 2017, Emerson Giumbelli, João Rickli e eu, Rodrigo Toniol, temos trabalhado na organização do livro já mencionado, que compilará a tradução de um conjunto de textos de Meyer.

Sites sugeridos

Antes ainda de passar para indicação bibliográfica propriamente dita, indico três sites que podem ser consultados e que dispõem de farto material relativo ao tema:

  1. https://www.religiousmatters.nl/buildings-images-and-objects/
  2. http://mavcor.yale.edu
  3. http://materialreligions.blogspot.nl

Indicação bibliográfica: 

  1. Meyer, Birgit. Mediation and the genesis of presence. Towards a material approach to religion, 2012 – Disponível em: https://www.uu.nl/file/25377/download?token=AudZSc-l
  2. Morgan, David, ed. Religion and Material Culture: The Matter of Belief. London: Routledge, 2009.
  3. ENGELKE, Matthew. “Material Religion”. In: ORSI, Robert A. The Cambridge Companion to Religious Studies. New York: Cambridge University Press, 2012, pp. 209-229.
  4. Morgan, David. The Sacred Gaze. Religious Visual Culture in Theory and Practice. Berkeley: University of California Press, 2005.
  5. MEYER, Birgit. Picturing the Invisible. Visual Culture and the Study of Religion. Method & Theory in the Study of Religion, 27 (4-5), 2015.
  6. Houtman, Dick, and Birgit Meyer, eds. Things:: Religion and the Question of Materiality. Fordham Univ Press, 2012.
  7. Promey, Sally M., ed. Sensational Religion: Sensory Cultures in Material Practice. Yale University Press, 2014.
  8. Bräunlein, Peter J. “Thinking Religion Through Things.” Method & Theory in the Study of Religion 28.4-5 (2016): 365-399.
Espiritualidade e arte – imagens do site

Espiritualidade e arte – imagens do site

By Rodrigo Toniol in Crônicas de pesquisas on janeiro 16, 2019

Não passará desapercebido pelo leitor deste site o uso de obras de arte para ilustra-lo. Invariavelmente, as referências são pinturas modernas, como é o caso da imagem da capa do site, uma obra de Arthur Dove, e a inspiração da qual se originou o logo, dos trabalhos de Kandinsky. Além de razões pragmáticas, a opção por fazê-lo está relacionada com a relação entre a noção de espiritualidade, que tematiza este projeto, e a própria consolidação da modernidade. As imagens aqui mobilizadas refletem essa relação, que no campo da história da arte tem sido evidenciada já há bastante tempo.

Em dezembro de 1911, Waissily Kandinsky publicou o texto Do espiritual na arte, um ensaio capital para os movimentos artísticos do século XX. O artista russo, pioneiro do abstracionismo no Ocidente, exorta nesse livro a capacidade singular da literatura, da música e da pintura de captar e expressar o ser espiritual das coisas. Numa de suas célebres passagens, Kandinsky escreveu: “A forma, mesmo abstrata, geométrica, possui seu próprio som interior, ela é um ser espiritual, dotado de qualidades idênticas as dessa forma. Um triângulo é um ser. Um perfume espiritual que lhe é próprio emana dele” (2000:75).

Na arte abstrata, há uma centralidade atribuída à forma. Esse privilégio da forma, no entanto, não está expresso, como no realismo, pelos traços que buscam reproduzir com perfeição a realidade visível e superficial das coisas. Pelo contrário, a qualidade da forma que interessa aos abstracionistas é aquela velada e, ao mesmo tempo, manifesta, pela superfície. É por isso que, por exemplo, Kandinsky trata do triângulo a partir de sua forma interior (ou de seu perfume espiritual) e não da geometria de sua superfície exterior (as três retas que o compõem). A obra reproduzida acima, Primeira aquarela abstrata, é uma pintura de formas interiores. Tal fidelidade à interioridade da forma também mobilizou o pintor abstrato holandês Piet Mondrian que, quatro anos depois da publicação do ensaio de Kandinsky, afirmou: “para uma abordagem espiritual na arte, é preciso usar menos realidade possível, porque a realidade é oposta ao espiritual” (Fingesten 1961:3).

No início do século XX, o abstracionismo, um dos principais sinais da modernidade ocidental, encarnou o “espiritual” como um de seus elementos centrais. Se esse pode ser um fato inesperado para quem analisa as transformações modernas da vida na Europa do século XIX e XX nos termos da “desmistificação”, para os pesquisadores deste projeto, essa é apenas mais uma das demonstrações de que a espiritualidade não é uma forma marginal de resistência à modernidade secular, mas é parte do próprio projeto moderno, sendo, a emergência do termo, um de seus índices e uma chave fundamental para compreendê-lo.

Não foram poucos os autores que sublinharam a importância da espiritualidade para as ideias e conceitos de alguns dos artistas pioneiros na arte abstrata – além de Kandinsky e Mondrian, outros pintores como Frantisek Kupta e Kazimir Malevich também foram explícitos sobre seus interesses em retratar o ser espiritual das coisas em suas obras (Fingesten 1961; Tuchman et al. 1986).

Tão importante quanto esses textos, é um conjunto crescente de exposições que têm sido montadas em museus de todo mundo e que abordam essa relação. A última delas que merece destaque foi montada em Paris, em 2017, no Musée D´Orsay, em parceria com l’Art Gallery of Ontario de Toronto, intitulada “Au-delà des étoiles. Le paysage mystique de Monet à Kandinsky”.

Antes delas, porém, outras quatro exposições que também exploraram essa relação: 

1 – Van Gogh et la naissance du cloisonisme

2 – Le nord mystique: le paysage symboliste dans la peinture de l´Europe du Nord et de l`Amerique du Nord, 1890-1940

  Ambas organizadas pela L´Art Gallery of Ontario, no Canadá. A primeira em 1981 e a segunda em 1984

3 – Turner, Whistler e Monet: visions impressionnistes

Montada na Tate Gallery, em Londres, entre 2004 e 2005.

4 – De Van Gogh à Kandinsky. Le paysage symboliste en Europe, 1880-1910

Que circulou em diferentes museus e galerias da Europa.

Ao longo dos próximos meses traremos outras referências deste diálogo entre ciências sociais e arte, endereçado às relações entre modernidade e espiritualidade.

 

Referências

FINGESTEN, Peter. (1961), “Spirituality, mysticism and non-objective art”. Art Journal, vol. 21, nº 1: 2-6. 

KANDINSKY, Wassily. (2000),Do espiritual na arte e na pintura em particular. São Paulo: Martins Fontes. 

TUCHMAN, Maurice et al. (1986), The spiritual in art: abstract painting 1890-1985. Los Angeles: Los Angeles County Museum of Art.