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Espiritualidades contemporâneas, um novo soft power? Ativismo espiritual, crise e a demanda por mudança social

By admin in Eventos on abril 27, 2021

Foi aprovado o projeto para realização de um workshop internacional sobre espiritualidade e política. Intitulado “Contemporary Spiritualities, a New Soft Power? Spiritual Activism, Crisis and the Demand Over Societal Change”, o evento é pensado e organizado por Alexandre Grandjean (Universidade de Lausanne), Christophe Monnot (Universidade de Estrasburgo), Géraldine Mossière (Universidade de Montreal), Rodrigo Toniol (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Abaixo reproduzimos o resumo do projeto traduzido:

  1. INTRODUÇÃO 

Ao longo do século 20, as paisagens sócio-religiosas globais passaram por transformações importantes e reconfigurações. Não só a religião foi transformada, mas a espiritualidade assumiu uma nova importância no discurso secular, bem como nas principais tradições religiosas (Ammerman 2013). Acima de tudo, essas novas expressões religiosas muitas vezes se cruzam com preocupações contemporâneas, como o ambientalismo e o perigo climático (ver Bloch 1998, Ivakhiv 2012), emancipação de gênero e difusão de novos papeis de gênero (ver Mahmood 2005, Fedele & Knibbe 2013), mobilidades transnacionais (ver Csordas 2009), questões de saúde global e alternativa (Ver Csordas 2002; Koch & Binder 2013), direitos dos nativos (Ver Johnson & Kraft 2018), nacionalismo (Ver Veer 2009; 2013), etc. Destas numerosas observações, uma série de emaranhados não-exaustivos emergem levantando novas questões: Será que os movimentos contemporâneos de espiritualidade, sob o pretexto de religiosidade individualizada e mais distanciada, também têm implicações políticas? Até que ponto essas transformações religiosas têm demandas públicas e políticas? Como isso foi afetado pela recente crise do covid-19? Como podem essas mudanças gerais – incluindo expressões religiosas, organizações e redes – afetar nossas abordagens teóricas à noção de espiritualidade em si? Como costumam aparecer como fenômenos globais, as especificidades locais são frequentemente negligenciadas. Clot-Garrel & Griera começaram recentemente a fazer este conjunto de questões na Catalunha (2019). No entanto, seus resultados até agora não foram colocados em perspectiva, nem – até onde sabemos – qualquer workshop ou publicação tentou conectar essas múltiplas percepções.

A organização de um Workshop SISR-ISSR sobre este tema permitirá a consolidação de uma forte rede de pesquisa intercontinental de pesquisadores que estudam empiricamente, bem como a confrontação das atuais teorias, sobre movimentos contemporâneos da espiritualidade. Jovens pesquisadores investigando campos tanto no Sul Global quanto no Norte Global serão convidados a participar. Da mesma forma, autores mais experientes serão convidados a discutir seus insights teóricos para benefício mútuo. O resultado do workshop será mais inovador na medida em que a dimensão política das espiritualidades contemporâneas será abordada a partir de três ângulos diferentes (ver 4), isso em confronto com as principais teorias da sociologia das religiões. Além das publicações inovadoras que este workshop irá produzir (ver 5.), o workshop fortemente promove e dá continuidade à orientação do Congresso ISSR de 2019 sobre a “Política da religião e espiritualidade”.

 

  1. NOVIDADE DO WORKSHOP: ESPIRITUALIDADES CONTEMPORÂNEAS E SOFT POWER

Nesta proposta de workshop, queremos abordar novos insights teóricos e empíricos que enfatizem as dimensões sociais e políticas das espiritualidades contemporâneas. Queremos especialmente vincular esta forma ao conceito de “soft power” (Nye 1995) e à ideia de uma era pós-secular (Habermas 2008), particularmente em uma escala global. Considerando que o estudo das “espiritualidades contemporâneas” tem que ser reavaliado à luz de suas reivindicações políticas ou subpolíticas, compromissos e promulgação, desejamos privilegiar estudiosos de cruzamentos geográficos e intergeracionais motivados por observações situadas diversamente em que a espiritualidade está se tornando uma categoria social emergente que importa (Chandler 2008; Huss 2014). A recente crise de covid-19 também pode reconfigurar a ligação entre espiritualidades e política (Foucault 1977). Além de contextos euro-americanos, estudos de caso profundamente informados da América e América do Sul (De la Torres e Zuñiga, 2011), África Ocidental (Louveau 2012) ou Sudeste Asiático (Veer 2013) em conjunto fornecem desafios empíricos e teóricos para o estudo científico das religiões, bem como para um de seu subcampo de crescente importância: espiritualidade (Streib & Hood 2011).

No entanto, esses diferentes casos também apresentam fortes semelhanças, principalmente devido a circulações de referências espirituais e imaginários sociais (Becci, Farahmand & Grandjean, no prelo). Quer os atores sociais pertençam a organizações religiosas estabelecidas ou não, o seu discurso enfatiza as “dimensões internas”, como a busca pela “autenticidade”, “naturalidade” e “autonomia”; o último pode ter sido modificado pelas experiências de confinamento físico e distanciamento social. Largamente vistos como formas narcisistas de religiosidade (Bellah & al. 1985), esses diferentes registros, excessivamente compartilhados, possuem reivindicações implícitas – ou mesmo explícitas – sobre mudanças públicas, políticas e sociais. Por exemplo, enquanto os atores sociais às vezes reivindicam a universalidade de suas preocupações, eles também valorizam sua práticas por seu poder de cura sobre o self, a natureza (a Terra), as relações sociais, a moralidade e a sociedade. Ao fazer isso, eles participam da transmissão ou formulação de pressupostos normativos para o público nas esferas local e global.

Afirmamos que as diferentes formas de espiritualidades contemporâneas, seja se elas explícita ou implicitamente tendem a se engajar em reivindicações de mudanças sociais, fazem parte de uma lógica de “soft power” como entendido por Nye (1995). Também, em diálogo com os esforços contemporâneos para reformular nossas perspectivas analíticas sobre a espiritualidade (Ver Bender & McRoberts 2012), pretendemos investigar os processos através dos quais os usos da categoria de “espiritualidade” assumiram seus valores atuais, como está alinhada com diferentes tipos de ação política, cultural e social, e como ela é articulada em ambientes públicos. Em alguma medida, assumir essa chave analítica é a própria condição para responder ao apelo de Peter van der Veer para “as políticas da espiritualidade” (2009, 2013), que considera a forma como esta categoria produz realidades, representa atores e mobiliza instituições.

 

  1. OS TRÊS EIXOS DA OFICINA 

Nesta proposta de oficina, estamos convencidos de que a espiritualidade está ganhando uma nova dimensão política em nossas sociedades globalizadas. A questão central em torno do workshop é: As espiritualidades contemporâneas sustentam um novo soft power? Este soft power supostamente vem do encontro entre ativismo secular e espiritual ao encontrar um terreno comum quando se trata de apelos sociais, morais e mudanças políticas. Nesse caso, discursos e práticas com estrutura espiritual podem ser usados ​​e combinados com outros registros seculares que se inscrevem nas chamadas agendas conservadoras ou progressistas. Em relação a esta situação de múltiplos encontros, o workshop será estruturado em torno de três eixos que abordam as seguintes subquestões:

 

1) As redes de espiritualidades contemporâneas e nexo de militância: este eixo irá interrogar o que está em jogo quando as redes de atores auto-descrevem situações, práticas e estilos de vida como “espirituais”. Quais são as várias demandas explícitas ou tácitas, tanto individuais quanto coletivas, por mudanças que podem ser cunhadas em várias formas de militância. Com este primeiro eixo, queremos melhor entender de quais amplos grupos de repertório de ação e discurso, bem como imaginários sociais e políticos, participam os movimentos de espiritualidade contemporânea. Ultimamente, essas dimensões obtiveram forte reconhecimento nos domínios públicos: por exemplo, em mobilizações pan-nativas em Standing Rock (Johnson & Kraft 2018), ecofeministas, ecopagãs e círculos de mulheres (Pike 2001, Longman 2018), ou em chamadas de “transição interna” no movimento de Transição mais amplo (Grandjean, Monnot e Becci 2018; Boudinot & LeVasseur 2016). Este eixo também explorará como o vírus do covid-19 fornece novos motivos para crenças e ação social, bem como interrogar amplamente as questões internas de relacionamento de poder em jogo dentro desses movimentos sociais (ver Wood 2009).

 

2) Reivindicações de espiritualidade e engajamento político nas tradições religiosas: Este eixo irá discutir como os crentes religiosos das tradições principais misturam princípios religiosos com práticas espirituais (Howell 2013; Meyer 2007; Rudnyckyj 2009; Woodhead 2011) e como sua ética subjacente se desdobra em um quadro pós-secular. Este eixo irá explorar como os princípios das principais religiões são reinterpretados através de lentes originadas de outras tradições (Ioga cristã) ou de várias ferramentas de autodesenvolvimento (PNL, psicologia popular), assim construindo antropologias específicas do sujeito em relação ao seu social, moral e social meio ambiente (Rose 1989; Prades 2014). Como essas antropologias estimulam ações e discursos sobre valores éticos e bioéticos (reprodução assistida; acesso a cuidados médicos em tempos de pandemia, por exemplo), entendimentos de justiça social, projetos políticos dentro de uma nova era pós-secular que eles contribuem para enquadrar? Além do papel primordial de convertidos e pessoas reafiliadas nessas dinâmicas, o eixo discutirá a semântica da cura e da transformação que regem muitos discursos e ações que se relacionam com espiritualidade e política.

 

3) A instrumentalização da espiritualidade pela política: este último eixo explora os usos políticos da noção de espiritualidade. Embora a prática sociológica de longa data associe espiritualidade às experiências interiores, caráter anti-institucional e relações não mediadas com o sagrado, novas abordagens sobre este tema estão mostrando como a espiritualidade também desempenhou um papel importante em debates políticos (Toniol 2018; Giumbelli e Toniol 2017), bem como na secularização do instituições públicas. Agências globais (como a OMS, UNICEF) e os debates sobre o patrimônio estão cada vez mais enfatizando as “dimensões espirituais” como um argumento persuasivo para definir algumas áreas como Patrimônio Mundial; este último também pode ser usado para gerenciar a crise institucional nacional e internacional desencadeada pela pandemia. Da mesma forma, representações holísticas da saúde levaram a visão da espiritualidade à biomedicina, substituindo assim a nova profissão espiritual pela tradicional capelania religiosa (Becci 2018; Mossière submetido).

 

  1. SAÍDAS 

Além de networking e colaborações intergeracionais e interregionais sobre o conhecimento e projetos provisórios, o workshop também visa fornecer ao público em geral uma publicação que carece fortemente de literatura atual: “As políticas públicas de espiritualidades contemporâneas”. Uma edição especial e temática irá ser proposta para a revista “Política e Religião”. Uma publicação reunindo os textos revisados ​​por pares dos participantes do workshop serão submetidos à Routledge. A longo prazo, este workshop visa formar uma rede de pesquisadores que, sob o rótulo de “pesquisa em espiritualidades e política” continuará se encontrando e colaborando com frequência. O workshop também solicitará um painel específico para próximo congresso SISR em 2023, trazendo as dimensões seminais que os autores elaboraram no publicação que seria publicada naquela época.

5. BIBLIOGRAFIA

Ammerman, Nancy T. 2013. “Spiritual But Not Religious? Beyond Binary Choices in the Study of Religion.” Journal for the Scientific Study of Religion 52 (2): 258-278.
Becci, Irene, 2018 ‘‘Religionsvielfalt und Spiritual Care im Spital. in Spitalseelsorge in einer vielfältigen Schweiz’’, in Interreligiöse, rechtliche und praktische Herausforderungen, edited by René Pahud de Mortanges, Hansjörg Schmid, Irene Becci. Zurich: Schulthess, pp. 3-28.
Becci, Irene, Manéli Farahmand and Alexandre Grandjean. Forthcoming. “The (b)earth of a gendered eco-spirituality: Glob- ally connected ethnographies between Mexico and the European Alps”, in Secular Societies, Spiritual Selves?: The Gendered Triangle of Religion, Secularity and Spirituality, edited by Anna Fedele & Kim Knibbe. New York / London : Routledge.
Bellah, Robert, Richard Madsen,William M. Sullivan, Ann Swidler, and Steven Tipton. 1985. Habits of the Heart: Implications for Religion. Berkeley: University of California Press.
Bender, Courtney & Omar McRoberts. 2012. Mapping a Field: Why and How to Study Spirituality. New York: Social Science Research Council, Working Group on Spirituality, Political Engagement, and Public Life.
Bloch, Jon P. 1998. «Alternative Spirituality and Environmental- ism.» Review of Religious Research 40 (1):55-73.
Boudinot, Garrett F., and Todd LeVasseur. 2016. “’Grow the Scorched Ground Green’: Values and Ethics in the Transition Movement.” Journal for the Study of Religion, Nature and Culture 10 (3): 379-404.
Chandler, Siobhan. 2008. “The social ethic of religiously unaffili- ated spirituality”. Religion Compass 2: 240–56.
Clot-Garrel, Anna, and Mar Griera. 2019. «Beyond Narcissism: Towards an Analysis of the Public, Political and Collective Forms of Contemporary Spirituality.» Religions 10 (579).
Csordas, Thomas (ed.). 2009. Transnational transcendence: essays on religion and globalization. Berkeley: University of California Press.
Csordas, Thomas. Body, meaning, healing. New York: Springer, 2002.
Fedele, Anna, and Kim E. Knibbe. 2013. Gender and Power in Contemporary Spirituality: Ethnographic Approaches. New York /London: Routledge.
Foucault, Michel. 1977. Discipline and punish : the birth of the prison. 1st American ed. New York: Pantheon Books.
Giumbelli, Emerson, and Rodrigo Toniol. 2017. “What is spirituality for? New relations between religion, health and public spaces.” in Secularisms in a Postsecular Age?: Religiosities and Subjectivities in Comparative Perspective. edited by Ruy Blanes, José
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Meyer, Brigit. 2007. “Pentecostalism and neo-liberal capitalism: Faith, prosperity and vision in African Pentecostal-Charismatic churches.” Journal for the Study of Religion, 5-28
Mossière, Géraldine. Submitted. « Spiritualité et santé : deux champs pour repenser les études sur le religieux au Québec ?», in Le religieux là où on ne l’attend pas, edited by David Koussens and Jean-Pierre Perreault. Montréal: Presses de l’Université de
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Nye, Joseph S. 1995, Bound to Lead: The Changing Nature of American Power. New York : Basic Books.
Pike, Sarah M. 2001. Earthly Bodies, Magical Selves: Contemporary Pagans and the Search or Community. Berkeley: University of California Press.
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Rose, Nikolas. 1989. Governing the Soul: The Shaping of the Private Self. London: Routledges.
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Woodhead, Linda. 2011, “Spirituality and Christianity: The unfolding of a tangling relationship” in Religion, Spirituality and

 

 

A arte abstrata e a espiritualidade de Hilma af Klint

A arte abstrata e a espiritualidade de Hilma af Klint

By admin in Uncategorized on abril 20, 2021

Por Isabela Mayumi e Luciana Cavalcanti

É notável a quantidade de material e informação que se pode encontrar na internet sobre a artista sueca Hilma af Klint (1862-1944). Numa rápida busca pelo nome da artista no google, encontra-se uma enorme variedade de conteúdo produzido nos últimos anos e em várias línguas, como artigos em jornais, notícias das exposições de seus trabalhos, artigos acadêmicos, biografias, textos em blogs, vídeos de blogueires comentando sobre a pintora, assim como tours pelas exposições realizadas com seus quadros em canais de museus. Certamente, esse texto se inclui nessa lista.

Nesse mar de informações sobre Hilma e seu trabalho, chama a atenção a ênfase frequente de que ela foi uma artista à frente de seu tempo consciente disso, assim como a reivindicação de que foi pioneira da arte abstrata ocidental. Em seu testamento, deixou o pedido de que suas obras só fossem expostas ao público 20 anos após sua morte, com a justificativa de que elas não seriam compreendidas antes disso – o que vai de acordo com as rejeições ocorridas enquanto estava viva.

Não cabe aqui reconstruir sua biografia, mas destacar algumas informações interessantes sobre a artista, cuja obra parece ser emblemática da relação entre espiritualidade, ciência e arte que marcou o início dos tempos modernos. Hilma af Klint, que no início de sua trajetória artística fazia paisagens, representações botânicas e vendia retratos e ilustrações, começou a desenvolver seu trabalho abstracionista à medida em que foi se envolvendo com a teosofia e a antroposofia. A título de curiosidade, uma das biografias sobre Hilma foi escrita pela artista plástica brasileira Luciana Pinheiro, que além de estudar a antroposofia há muitos anos, se autodeclara terapeuta biográfica e trabalha com pintura meditativa. Médium, a artista começou a reunir-se em 1896 com outras 4 mulheres em um grupo chamado “The Five” para a realização de sessões espíritas nas quais, além de meditações e leituras, tentavam estabelecer contatos com guias espirituais e praticavam o chamado desenho automático, o que viria a ser uma técnica também utilizada pelos abstracionistas. Segundo algumas fontes, realizou sua primeira série de pinturas abstratas, “Primordial Chaos”, ao longo do ano de 1906, impulsionada pela mensagem que recebera em uma destas sessões de que realizasse pinturas para serem colocadas em um templo.

Cenas do filme “Beyond the visible” (prints das autoras). A legenda da segunda imagem diz, respectivamente, “exalar” e “inalar”

Se Hilma procurou na teosofia, no rosacrucianismo, na antroposofia e nas reuniões com as “The Five” maneiras de entender a realidade e desenvolver seus dons mediúnicos e clarividentes para passar as mensagens espirituais que recebia, também é importante pontuar a importância e o impacto dos avanços científicos do final do século XIX e início do XX em sua produção. Ao longo da vida, a artista acompanhou a descoberta das ondas de rádio, raios-X, a existência do núcleo atômico, mecânica quântica, eletromagnetismo e radioatividade – em suma, a existência de coisas invisíveis a olho nu (isto é, para além do que é visível). Isso abriu portas para que ela pudesse pincelar este “novo” mundo sendo desvendado pela ciência. Cabe dizer que, com o passar dos anos e com o desenvolvimento dos próprios estudos e habilidades, Hilma foi aos poucos tornando-se independente desses conceitos e das técnicas artísticas, desenvolvendo maior autonomia para interpretar e representar as mensagens que recebia em suas telas.

Grupo IV “The ten largest” n.1 – Childhood; e n.10 Old age – 1907

 

Assim, são temas de suas pinturas as descobertas científicas, as fases da vida, a natureza, a evolução e as dualidades, como masculino e feminino, espírito e matéria. Dedicou, por exemplo, uma série aos átomos, e outra para retratar diversas religiões, numa linguagem que sugere uma espécie de “matéria comum”, forte influência da teosofia. Reproduzimos algumas das pinturas dessas séries aqui.

The Atom Series, No. 1;  e No. 8 – 1917

No. 2a, The Mahatmas Present Standing Point; Buddhas Standpoint in the Earthly Life No. 3; e No. 3C, The Mohammedan Standpoint – 1920

 

A busca de Hilma por alcançar compreensões profundas sobre a vida, o mundo e a realidade, sobre o visível e o invisível a partir de uma perspectiva da espiritualidade é uma das coisas que a une aos artistas do movimento abstracionista europeu do início do século XX. Wassily Kandinsky, por exemplo, considerado e autodeclarado precursor da pintura abstrata, publicou o notório ensaio “Do espiritual na arte” em 1912, além de que mantinha contato com a Teosofia e a Antroposofia e da participação em rituais pagãos russos; o pintor checo František Kupka, assim como af Klint, interessou-se pelo tema do ocultismo, era médium e se comunicava com espíritos; e Piet Mondrian foi membro da Sociedade Teosófica Holandesa.

Seus quadros – muitos com grandes dimensões – possuem cores vibrantes, cheios de formas geométricas, florais, espirais, juntamente a, por vezes, letras e palavras criadas, símbolos retirados de diferentes religiões e de outros sistemas de conhecimento. Apesar de haver semelhanças entre suas obras e as dos abstracionistas mais conhecidos, é possível notar, por exemplo, uma presença maior de elementos e representações da natureza, como aves, árvores, folhas e flores. Mas o que distingue Hilma desses nomes talvez seja mais do que a identidade autoral e originalidade indiscutíveis de seus quadros. Devido à sua condição de mulher, construiu sua jornada de maneira solitária e reservada; salvo as influências já mencionadas da teosofia, antroposofia e outros, pouco se sabe acerca de suas influências artísticas. Nesse sentido, ela esteve fora do movimento abstracionista, sem manter diálogo ou contato com pintores e curadores de arte que juntos tiveram, também, a espiritualidade e dissolução do real como tema de suas obras e marcaram o movimento vanguardista do abstracionismo.

Série SUW/UW, Grupo IX/SUW, The Swan, No. 8; e Série SUW/UW, Grupo IX/SUW, The Swan, No. 9 – 1915

 

De um lado, nos parece haver um movimento de “reescrita” da história da arte, de modo a incluir Hilma af Klint como uma, senão a, pioneira do abstracionismo – algo que talvez encontre ressonância na reivindicação de maior reconhecimento a tantas mulheres artistas que foram apagadas de uma história escrita por homens – europeus, é preciso marcar. No documentário “Beyond the visible”, lançado ao final de 2019, não parece ser à toa a forte  presença feminina nas historiadoras da arte que comentam sobre Hilma e seu trabalho. Além disso, a atenção dada ao fato de que ser uma mulher colocou desafios tanto em sua trajetória profissional e artística quanto espiritual põe o tema em destaque.

Por outro, a grande repercussão que a “descoberta” recente de Hilma pareceu ter no mundo ocidental – o que parece coincidir em alguma medida com a previsão de que suas pinturas só seriam compreendidas e apreciadas num momento posterior ao qual ela viveu – revela alguns ecos das reflexões que organizaram o movimento abstracionista no mundo contemporâneo. A elaboração de exposições e as discussões, tanto no mundo da arte quanto no mundo da ciência, sobre a dimensão da vida humana entendida como espiritualidade, não é algo tão recente nem raro. Ao contrário, como temos discutido ao longo da realização da pesquisa Espiritualidade Institucionalizada, é algo que acompanha e constitui o próprio processo de modernização das sociedades ocidentais, com variações e especificidades locais.

Em sua constante pesquisa sobre o visível e o invisível, sobre diversas formas de conhecimento e de crenças, assim como numa tentativa de retratar e comunicar aquilo que lhe era mostrado por guias espirituais, Hilma parece ter sido capaz de sensibilizar a atenção de um grande público que veio a conhecê-la nos últimos anos, assim como de mobilizar uma intensa tentativa de reconstrução desse capítulo da história da arte europeia. Se a modernidade significou o desencantamento do mundo pela compreensão da realidade do ponto de vista científico, na mesma medida ganhou força o tema da espiritualidade e as buscas por descrever e retratar o espiritual. Nas mais de mil pinturas e mais de vinte e cinco mil páginas de anotações, ainda há muito o que ser explorado nessa fascinante e inspiradora figura que por tanto tempo permaneceu desconhecida. A extensa obra de Hilma af Klint aparece como mais um elemento para se refletir sobre a modernidade e os cruzamentos de interesses e práticas humanos. De toda forma, seus desenhos, pinturas e estudos conseguem nos levar a outros lugares que não aquele em que nos encontramos.

Tree of Knowledge, No. 5 (1915); e The Evolution, No. 10 (1908)

***

Imagem destacada:

Group V, The Seven-Pointed Star, No. 1 (1908) by Hilma af Klint

Referência Fílmica:

“Beyond the visible – Hilma af Klint”. Direção: Halina Dyrschka. Suécia, 2019 (1h 35m).

 

Uma medicalização da religião e da espiritualidade?

Uma medicalização da religião e da espiritualidade?

By admin in Novidades, Publicações on março 30, 2021

Por Lucas Baccetto

Nos últimos dois anos, me dediquei à realização de minha pesquisa de mestrado que tinha como interesse alguns debates realizados por psiquiatras e psicólogos em torno da questão da religião e da espiritualidade. Esse esforço se encerrou recentemente com a cerimônia de defesa de minha dissertação, seu produto final, que contou com a banca avaliativa composta por Carly Machado (UFRRJ) e Emerson Giumbelli (UFRGS), e presidida por Rodrigo Toniol (UFRJ), meu orientador durante esses anos. Como contei neste blog em 2019, a pesquisa se centrou na criação e inclusão em 1994 de duas categorias no principal guia de diagnósticos psiquiátricos dos Estados Unidos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Ambas as categorias, “transtorno de transe dissociativo” e “problema religioso ou espiritual”, introduziam explicitamente o tema das experiências religiosas e espirituais no DSM, algo até então inédito no manual. Optei por dedicar cada capítulo da dissertação a um âmbito particular do debate em questão: enquanto no primeiro capítulo me debruço sobre a concepção do DSM-IV, nos dois capítulos restantes abordo parte da literatura que sustenta cada uma das duas novas categorias diagnósticas, passando pelos estudos sobre dissociação psicológica e pela psicologia transpessoal.

Como dar conta desse processo recente no qual psiquiatras e mesmo alguns psicólogos passam a tomar a religião como um objeto de seu saber e de sua prática de intervenção terapêutica? É tentador pensarmos nesse fenômeno sob a chave da medicalização, incluindo nesse conceito também a participação dos psicólogos. Para o sociólogo Peter Conrad, autor constantemente referenciado no conjunto de trabalhos que articulam esse debate, o conceito de medicalização descreveria “o processo pelo qual problemas não médicos passam a ser definidos e tratados como problemas médicos, frequentemente em termos de doenças ou transtornos” (Conrad, 2007, p.4, tradução minha). Aqui, a inclusão explícita dos temas da religião e da espiritualidade no DSM seria a mais convincente evidência da hipótese da medicalização da religião e da espiritualidade, dado o repetido mantra que situa o manual como “a Bíblia da psiquiatria” estadunidense. O transe, a possessão e outras experiências eminentemente religiosas ou espirituais seriam deslocadas de seu espaço “originário” para o da medicina e dos saberes psi, sob a autoridade dos profissionais dessas disciplinas.

Embora a chave interpretativa da medicalização me pareça plausível para esse caso e para muitos outros fenômenos contemporâneos, gostaria de pontuar alguns mal-entendidos que a irrefletida e rápida aderência a ela pode gerar para a análise. Para tanto, recorro aqui à provocação feita pelo antropólogo Didier Fassin (2011) em um texto escrito para uma coletânea sobre o tema do uso de drogas. Inspirando-se no jogo de sentidos feito por René Magritte em seu famoso quadro A traição das imagens, o antropólogo intitula ironicamente seu texto como Isso não é medicalização, esclarecendo que não busca recusar o argumento segundo o qual há um processo de medicalização da sociedade, mas sim questionar sua suposta obviedade – assim como no caso da imagem do cachimbo na pintura de Magritte. O que tomamos como dado quando aderimos rapidamente à hipótese de que determinado fenômeno foi medicalizado?

A traição das imagens, de René Magritte. Fonte: https://www.wikiart.org/en/rene-magritte/the-treachery-of-images-this-is-not-a-pipe-1948

O caso que Fassin retoma para elaborar suas considerações diz respeito à mudança ocorrida no modo como médicos franceses passaram a lidar com a questão do abuso de consumo de drogas nas últimas décadas do século XX. Segundo o autor, se no começo dos anos 1980 esse fenômeno era compreendido por psiquiatras locais como um problema que deveria ser pensado a partir da necessidade de se afastar as substâncias de seus usuários e de lidar com os efeitos da abstinência provocada, nos anos 1990 a problemática havia se alterado. Com a entrada em cena de especialistas em saúde pública, o que era então uma questão de abstinência se tornou uma de redução de danos, na qual se ofereciam drogas orais alternativas e seringas limpas com a intenção de se evitar possíveis doenças infecciosas, em vez de se tentar afastar os usuários das substâncias em questão.

O exemplo dado por Fassin é interessante exatamente por colocar em questão uma das assunções muitas vezes associada implicitamente à ideia de medicalização, a saber: a de que haveria um processo linear e de significado unívoco, de progressivo e crescente domínio por parte da medicina sobre coisas e pessoas alheias a ela. Esse tipo de assunção produz uma espécie de efeito homogeneizador nos fenômenos agrupados sob a rubrica do conceito, perdendo de vista as particularidades referentes por exemplo ao caso trazido pelo autor. No exemplo em questão, enquanto o consumo de drogas nos anos 1990 se manteve sob a atenção da medicina, a relação estabelecida entre os profissionais da saúde e o fenômeno era distinta da existente na década anterior. Haveria assim uma reconfiguração do problema, ocorrendo o abandono de um paradigma da erradicação do consumo de drogas e de seus usuários para um paradigma de saúde pública, de substituição das substâncias ou dos instrumentos de injeção. Nesse sentido, como sugere Fassin (2011, p.88, tradução minha), “não é que a medicalização tenha ocorrido, mas sim que seu significado se alterou”.

Une Pipe, de Werner Wejp-Olsen
Fonte: https://www.toonpool.com/cartoons/Une%20Pipe_311075

Algo semelhante parece ocorrer com os casos que analisei em minha dissertação. O que me chamou a atenção nesse material desde o princípio de minha pesquisa foi certa posição reativa tomada pelos propositores das categorias diagnósticas quanto à questão da relação entre as experiências religiosas e/ou espirituais e a suposta existência de psicopatologias. Isso porque enquanto a literatura sobre dissociação estabelecia uma abertura para se pensar experiências de transe e de possessão como “culturalmente normais”, a psicologia transpessoal argumentava pelo potencial positivo e transformador que muitos desses fenômenos tinham ao sujeito. Mais do que isso, alguns desses atores eram enfáticos ao criticarem certo passado patologizante que a disciplina mantinha em relação às experiências religiosas e espirituais. No plano internacional, talvez o caso mais exemplar e lembrado sobre essa questão seja o de Jean-Martin Charcot na segunda metade do século XIX, com sua releitura das possessões demoníacas como meras manifestações histéricas.¹ Já em território brasileiro, uma série de trabalhos de autores das ciências sociais e da história já apontaram para como psiquiatras brasileiros se interessaram na primeira metade do século XX pelas religiões afro-brasileiras e pelo espiritismo kardecista, qualificando as práticas possessivas e mediúnicas a elas associadas como patologias mentais.²

Há duas questões que me parecem centrais a respeito da criação e inclusão dessas categorias diagnósticas no DSM e da possível interpretação desse processo como parte da medicalização da sociedade. Por um lado, assim como no caso introduzido por Fassin, encontramos aqui uma situação histórica na qual determinadas experiências religiosas e/ou espirituais já eram de algum modo tomadas como objeto da atenção de médicos psiquiatras e de psicólogos ao menos desde as últimas décadas do século XIX. A esse respeito, em vez da medicalização como um ato inédito de inclusão de certo elemento da sociedade sob a autoridade médica, estamos mais próximos da assertiva de Michel Foucault sobre esse assunto, para quem desde ao menos o século XIX praticamente já não há mais qualquer coisa que de alguma forma não esteja sob o domínio da medicina. Como o próprio filósofo afirma (Foucault, 2010, p.184), “o diabólico é que, cada vez que se quer recorrer a um domínio exterior à medicina, descobre-se que ele já foi medicalizado.”

Por outro lado, se há uma continuidade no interesse de psiquiatras e de psicólogos pelo tema da religião e da espiritualidade, também há descontinuidades nesse fenômeno. Os propositores dessas categorias diagnósticas se dizem cientes da complicada história dos psiquiatras e médicos que tenderam a ignorar ou a patologizar determinadas experiências religiosas ou espirituais. Nesse sentido, ambas as categorias e as literaturas associadas a elas afirmam se deslocar de uma atitude amplamente patologizadora que marcaria em grande medida a história dos saberes psi, permitindo assim que determinadas experiências de transe, possessão e transcendentais fossem encaradas como psicologicamente normais.

É diante dessas dificuldades encontradas na utilização do conceito de medicalização que considero a saída proposta por Fassin (2011) uma solução razoável. Para o autor, é preciso que repensemos o processo de medicalização como uma forma de problematização dentre outras possíveis, isto é, como uma configuração particular em que atores, discursos e práticas concretas instituem a realidade de objetos e sujeitos a partir de um campo de problemas. Esse leve deslocamento da ênfase na medicalização para a problematização permite que nos afastemos das assunções homogeneizadoras e lineares ligadas ao conceito, enfocando em vez disso as formas diferenciais e historicamente situadas de processos em que certas experiências ligadas à religião e à espiritualidade são tomadas como um objeto do discurso de psiquiatras e psicólogos.

Mais importante para o caso do material que analisei em minha dissertação, falar em problematização permite também que demos conta de incluir na análise a atuação de outros conjuntos de atores. Nos debates analisados, antropólogos estadunidenses e suas produções ao longo do século XX foram absolutamente fundamentais na composição dessa nova configuração do problema, sendo constantemente referenciados pelos propositores das categorias e pela literatura a qual elas se baseiam como aqueles profissionais que, por serem especialistas na diferença cultural, são em grande medida responsáveis pela compreensão “normalizada” de muitos fenômenos religiosos considerados até então como anormais por parte dos profissionais da saúde mental. Em lugar do congelamento da análise apenas no território dos psiquiatras, podemos acompanhar como muitas dessas concepções psiquiatrizantes ou psicologizantes sobre as experiências religiosas e espirituais mobilizam, a seu modo, parte de considerações vindas da própria antropologia. Sem recusarmos a constatação do fato de que uma quantidade considerável de elementos da realidade social se encontra sob a autoridade da medicina, podemos assim melhor compreender as formas variadas a partir das quais essa autoridade é exercida e reconfigurada em situações específicas e a partir de alianças com especialistas de outras áreas do saber.

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Referências bibliográficas

ANDRIOPOULOS, Stefan. Possuídos: crimes hipnóticos, ficção corporativa e a invenção do cinema. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014.

CONRAD, Peter. The Medicalization of Society. Baltimore: The John Hopkins University Press, 2007.

DANTAS, Beatriz Góis. Vovó Nagô e Papai Branco: usos e abusos da África no Brasil. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

FASSIN, Didier. This is Not Medicalization. In: HUNT, Geoffrey; MILHET, Maitena; BERGERON, Henri (org.). Drugs and Culture: Knowledge, Consumption and Policy. Farnham: Ashgate Publishing, 2011.

FOUCAULT, Michel. Crise da medicina ou crise da antimedicina. In: Verve, v.18, 2010.

GIUMBELLI, Emerson. O cuidado dos mortos: uma história da condenação e legitimação do espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997a.

______. Heresia, doença, crime ou religião: o Espiritismo no discurso de médicos e cientistas sociais. In: Revista de Antropologia, v.40, n.2, 1997b.

GONÇALVES, Valéria Portugal; ORTEGA, Francisco. Uma nosologia para os fenômenos sobrenaturais e a construção do cérebro ‘possuído’ no século XIX. In: História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.20, n.2, 2013.

GROSSI, Roberta Vittoria. Demonic Possession and Religious Scientific Debate in Nineteenth-Century France. In: GIORDAN, Giuseppe; POSSAMAI, Adam (org.). The Social Scientific Study of Exorcism in Christianity. Cham: Springer, 2020.

Notas:

[1] A esse respeito, ver o trabalho de Valéria Portugal Gonçalves e Francisco Ortega (2013), Stefan Andriopoulos (2014) e Roberta Vittoria Grossi (2020).

[2] Os trabalhos de Emerson Giumbelli (1997a; 1997b) e Beatriz Góis Dantas (1988) são bons exemplos de pesquisas que lidaram com essa questão no contexto brasileiro.

Espiritualidade sem religião

Espiritualidade sem religião

By admin in Publicações on março 23, 2021

A finais de janeiro deste ano, Rodrigo Toniol participou de uma conversa no programa Ciência na religião para conversar sobre espiritualidade sem religião através do canal de YouTube Paz e Bem.  

Nessa oportunidade, o pesquisador se dedicou a caracterizar o fenômeno da espiritualidade com suas diferentes nuances e características atuais. Na entrevista, foram abordados temas como a diferenciação entre espiritualidade e religiosidade, características que apresenta a espiritualidade em relação com a religião. Por outro lado, chamou a atenção o debate sobre como está se-vivenciando a espiritualidade e a relação com a população identificada como “sem religião”, mesmo com o ateísmo.

Quem tiver interesse, pode aprofundar mais no vídeo da conversa:

 

Primeira defesa do grupo: religião e espiritualidade em debates recentes dos saberes “psi”

Primeira defesa do grupo: religião e espiritualidade em debates recentes dos saberes “psi”

By admin in Eventos, Uncategorized on março 9, 2021

Na manhã da última quinta-feira de fevereiro, tivemos a oportunidade de reunirmos, ainda que virtualmente, para assistir a primeira defesa de uma pesquisa gestada e desenvolvida no NUES. Trata-se da dissertação de mestrado de Lucas Baccetto, que foi aprovado e agora segue para o doutorado em Antropologia Social na Unicamp. A banca da defesa contou com es professores Dra. Carly Barboza Machado (UFRRJ), Dr. Emerson Alessandro Giumbelli (UFRGS) e Dr. Rodrigo Ferreira Toniol (UNICAMP) como presidente.

Reproduzimos aqui título e resumo da dissertação:

Diagnosticando o sagrado: religião e espiritualidade em debates recentes dos saberes “psi”

Esta dissertação tem como objeto debates recentes realizados por psiquiatras e psicólogos em torno do tema da religião e da espiritualidade. O foco empírico é a criação, em 1994, de duas categorias diagnósticas no principal guia de diagnósticos psiquiátricos nos Estados Unidos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM): “problema religioso ou espiritual” e “transtorno de transe dissociativo”. A análise desenvolvida se centra sobre os modos como os propositores desses dois diagnósticos articulam uma série de categorias psicológicas e antropológicas para conceitualizar as experiências religiosas e espirituais como fenômenos normais ou como psicopatologias, situando suas produções na psicologia transpessoal e nos estudos sobre dissociação psicológica. A partir da leitura de artigos científicos, obras acadêmicas e entrevistas gravadas, busca-se compreender como são produzidos novos e distintos entendimentos psicológicos sobre fenômenos como o transe religioso, a possessão espiritual e a experiência transcendental.

 

I Reunião Latino-americana de Estudos da Espiritualidade. I Reunión Latinoamericana de Estudios de Espiritualidad

I Reunião Latino-americana de Estudos da Espiritualidade. I Reunión Latinoamericana de Estudios de Espiritualidad

By admin in Eventos, Novidades, Uncategorized on março 1, 2021

A I Reunião Latino-americana de Estudos da Espiritualidade tem como objetivo criar um espaço de intercâmbio entre pesquisadores e pesquisadoras de diferentes países da América Latina, interessados e que trabalhem com o tema da espiritualidade. Com intuito de trocar contextos empíricos de pesquisa, abordagens teóricas e metodológicas, essa reunião será realizada de modo virtual e terá o formato de um seminário fechado. Não se trata de um evento acadêmico para apresentação de papers, mas sim uma reunião de trabalho para favorecer o diálogo e intercâmbio entre pesquisadores. Inicialmente indicamos três eixos de debate centrais, todos eles articulados com debates sobre espiritualidade: práticas “orientalizantes”, terapias alternativas/complementares e política.

O evento receberá inscrições de graduandos, pós-graduandos e pesquisadores seniores. Para inscrição, solicitamos o preenchimento do formulário: https://docs.google.com/forms/d/11PXYEb3hfXUJMGaOC1GKPfdgVib22vboOmb3nDB2aNY

Para mais informações pode entrar em contato no seguinte e-mail: [email protected]

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El I Encuentro Latinoamericano de Estudios de Espiritualidad tiene como objetivo crear un espacio de intercambio entre investigadores e investigadoras de diferentes países de América Latina interesados y que trabajen con el tema de la espiritualidad. Con la intención de intercambiar contextos de investigación empírica, enfoques teóricos y metodológicos, este encuentro se celebrará de forma virtual y tendrá el formato de un seminario cerrado. No se trata de un evento académico para la presentación de papers, sino de una reunión de trabajo para promover el diálogo y el intercambio entre investigadores. Inicialmente señalamos tres ejes de debate, todos ellos articulados con los debates sobre la espiritualidad: prácticas “orientalizantes”, terapias alternativas/complementarias y política.

El evento recibirá solicitudes de estudiantes de grado, postgrado e investigadores senior. Para inscribirse, llená el siguiente formulario: https://docs.google.com/forms/d/11PXYEb3hfXUJMGaOC1GKPfdgVib22vboOmb3nDB2aNY

Para más información, podés entrar en contacto con nosotros a través del siguiente correo electrónico: [email protected]

 

Espiritualidade e bem-estar: holismo, integralidade e saúde – Association of Social Anthropologists of the UK

Espiritualidade e bem-estar: holismo, integralidade e saúde – Association of Social Anthropologists of the UK

By admin in Novidades on dezembro 15, 2020

Está aberta a chamada para apresentação de trabalhos na conferência da Association of Social Anthropologists of the UK & Commonwealth (ASA), evento que será realizado online entre os dias 29 de março e 1º de abril de 2021.

O painel “Espiritualidade e bem-estar: holismo, integralidade e saúde” será coordenado pela professora Dra. Cecilia Bastos (Museu Nacional/UFRJ) e pela doutoranda em sociologia Thaís Assis (USP), integrantes do NUES, e contará com a participação do professor Dr. Rodrigo Toniol como debatedor. A proposta é reunir pesquisas dedicadas a compreender as interfaces entre espiritualidade e saúde.

O envio de resumos pode ser feito até dia 28/12 através do link: https://nomadit.co.uk/conference/asa2021/p/9968#

Mais informações em: https://theasa.org/conferences/asa2021/

Spirituality and wellbeing: holism, integrality and health

Short abstract:

How does spirituality contribute to health, wellbeing and quality of life? How have the experiences and practices of therapeutic spiritualities built their legitimacy and defended their effectiveness? What is the role and significance of spirituality for health?

Long abstract:

The panel aims to collect research responsible for developing reflections on the ties between spirituality, wellbeing and health. Considering that the spiritual dimension is part of the multidimensional concept of health, the proposal is to gather recent discussions in the social sciences regarding phenomena and themes such as: holism; alternative and complementary therapeutic practices; mystical-esoteric and New Age traditions of health care; integrality; and therapeutic pluralism. The panel will welcome analyses and descriptions of physical, mental, spiritual or religious experiences and practices that are manifested in the interfaces between medical and therapeutic beliefs and rationalities. The expectation is to gather interpretations on discourses, practices and routines of therapeutic spiritualities that are established in the global scenario as instruments for disease prevention, health promotion, well-being and quality of life.

Espiritualidade como cura

Espiritualidade como cura

By admin in Publicações on novembro 3, 2020

No mês de setembro, o coordenador do projeto Espiritualidade Institucionalizada, Rodrigo Toniol, fez o Coloquio Fé e Razão- Espiritualidade como cura, organizado pela Extensão Universitária do Centro Universitário Salesiano de São Paulo e também contou com a participação do Coordenador da Misão Institucional, Padre Antonio Ramos.

Na exposição, Toniol apresentou a pesquisa que vem desenvolvendo a partir da sua trajetória e dos andamentos das pesquisas que orienta e fazem parte do grupo do NUES.  O projeto maior, procura indagar os interesses pelos ussos da noção de espiritualidade no campo oficial de saúde, como ela é mobilizada e o que é capaz de mobilizar. 

Deixamos o vídeo do Coloquio aqui, acompanhem esse interessante debate:

Terapias Holísticas e Espiritualidade

Terapias Holísticas e Espiritualidade

By admin in Novidades, Uncategorized on outubro 8, 2020

Durante o Festival do Conhecimento, evento virtual promovido pela UFRJ entre os dias 14 a 24 de julho de 2020, Cecilia Bastos e Thaís Assis, integrantes do NUES, discutiram sobre experiências presentes no universo das espiritualidades e das práticas de autoconhecimento e autocuidado.

 

Com base em suas pesquisas de cunho sócio-antropológico sobre um grupo de vedanta e a respeito da formação e atuação de terapeutas holísticos, Cecilia Bastos aborda como um grupo de praticantes de yoga e meditação entende o conceito “yoga” e o estilo de vida de karmayoga. Além disso, analisa as noções de sofrimento, felicidade e desapego para entender o ideal nativo de “conduzir a vida com equilíbrio”. E Thaís Assis apresenta os princípios e fundamentos das terapias holísticas e também as principais características e mudanças históricas identificadas no âmbito da busca holística por saúde, bem-estar e desenvolvimento espiritual.

 

As duas discutem, a partir disso, o processo de transformação por que passam os praticantes, considerando que os ensinamentos não consistem apenas em percepções mentais, mas são incorporados e vivenciados, influenciando seu ethos e visão de mundo.

O registro do papo virtual pode ser conferido aqui:

 

 

Chamada de artigos – Religião e espiritualidade na América Latina: vida cotidiana para além dos templos

Chamada de artigos – Religião e espiritualidade na América Latina: vida cotidiana para além dos templos

By admin in Novidades on outubro 6, 2020

A revista International Journal of Latin American Religions (JLAR) convida pesquisadores para submeter artigos à sessão temática voltada às práticas espirituais e religiosas da vida cotidiana, no sentido de ressignificações individuais ou elaborações inovadoras de tradições religiosas além das fronteiras institucionais. A revista aceita contribuições teóricas e empíricas para a discussão no âmbito do cotidiano das manifestações religiosas não institucionalizadas na América Latina ou entre latino-americanos em outras partes do mundo.

Essa sessão temática consistirá no primeiro número do volume 5, publicado em junho de 2021, e terá como editores convidados Drs. María Eugenia Funes (CEIL-CONICET, Argentina), Cecilia Bastos (Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brazil) e Sabrina F. Testa (Universidade Federal de Santa Catarina, Brazil).

Prazo para submissão: 31 de dezembro de 2020.

Para mais informação clique aqui

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Call for Papers – Beyond Temples: Religion and Spirituality in Latin American Everyday Life

The International Journal of Latin American Religions (JLAR) invites researchers to submit manuscripts to a thematic session focused on religious and spiritual practices in daily life, in the sense of individual resignifications or innovative elaborations of religious traditions beyond institutional boundaries. The journal welcomes both theoretical and empirical contributions to the discussion on the spectrum of day-to-day, non-institutional religious manifestations in Latin America or among Latin Americans in other parts of the world.

This thematic session will be part of the first issue of volume 5, to be published in June 2021, and will have as guest editors Drs. María Eugenia Funes (CEIL-CONICET, Argentina), Cecilia Bastos (National Museum of the Federal University of Rio de Janeiro, Brazil) and Sabrina F. Testa (Federal University of Santa Catarina, Brazil).

Deadline for submission: December 31, 2020.