Tag: Espiritualidade

Yoga e (neo)hinduísmo: identidades e pertencimentos

Yoga e (neo)hinduísmo: identidades e pertencimentos

By Luciana Alvarez in Eventos on setembro 23, 2021

Por Thaís Assis e Cecilia Bastos

Link do vídeo: https://youtu.be/pqRwa6jXsUw

Neste papo virtual do Festival do Conhecimento da UFRJ, Cecilia Bastos e Thaís Assis apresentaram a pesquisa de campo que realizaram junto a um grupo de estudantes de Vedanta do Rio de Janeiro (Assis 2017; Bastos 2016). As discussões apresentadas buscam compreender as interpretações nativas sobre Vedanta, partindo da concepção de que Vedanta é um meio de autoconhecimento que se distingue das práticas religiosas do hinduísmo e também da noção de religião no geral. Um dos traços que se destaca entre os interlocutores da pesquisa é o fato de não serem meros praticantes de yoga ou pessoas que casualmente meditam, mas formarem um grupo que se reúne semanalmente para estudar as Upanishads (antigos textos sagrados hindus) e para estudar sânscrito.

O perfil predominante é de indivíduos que buscam viver uma vida de yoga, dedicando-se às disciplinas mentais e corporais e se adequando a um estilo de vida contemplativo e de devoção. Isso porque, para os interlocutores, um yogi é alguém que não se deixa levar por um padrão de reação, que tenta segurar os impulsos e desejos em sua mente, aceitando o que a ordem cósmica traz (Bastos 2018). Mas esse estilo de vida exemplar é visto como um ideal a ser alcançado e não totalmente conquistado, pois ninguém ali se considera um sábio que já vive segundo esse modelo ideal de perfeição.

O trabalho de campo evidencia que muitos dizem buscar “experimentar a vida diretamente”, “ter um encontro com o divino” ou “com a natureza” sem influência de crenças e dogmas com os quais não se identificam. Quando os líderes e seguidores de grupos neo-hindus (como o que Bastos e Assis pesquisam) argumentam que não são religiosos, estão relegando a categoria hindu a algo estagnado e estão considerando a religião como algo ritualístico, hierárquico e anti-moderno. Em certa medida, o problema para os vedantinos não é o uso do termo religião em si, mas a ideia de que ser adepto de um grupo religioso exige vínculo exclusivo e duradouro.

As pesquisadoras avaliam que esse argumento é igualmente válido para uma análise da religião, em que as pessoas também buscam encontrar o divino e não querem se submeter a crenças com as quais não se identificam. Para muitas pessoas, parece que a religião, por ser institucionalizada, se encontra vazia de sentido, enquanto que as suas experiências parecem ser autênticas e conferir poder: as pessoas olham suas próprias experiências como superiores ao relato de outros e distinguem as verdades encontradas através da descoberta pessoal como tendo maior relevância do que aquelas distribuídas pelo dogma e pela tradição.

No entanto, quando Bastos e Assis observam o cotidiano dos interlocutores, se dão conta de que isso parece contraditório porque o caminho do dogma e da tradição védica é o fundamento da vida de yoga, vivida de acordo com o dharma. A liberdade de escolha ali é relativa, pois existem requisitos normativos e uma moralidade nas vivências de pessoas engajadas com Vedanta e yoga. As experiências dos devotos partem, sim, de uma escolha voluntária, no entanto, dela decorre uma série de concessões e adequações ao estilo de vida yogi.

Heelas e Woodhead (2005) distinguem espiritualidade de religião em termos de espiritualidade subjetiva, que existe no meio holístico (envolvendo atividades como meditação, yoga e terapias alternativas) e a vida como religião, primeiramente localizada dentro de congregações cristãs: a religião seria caracterizada pela submissão à autoridade, enquanto que a espiritualidade seria uma virada contra a vida vivida em termos de papéis, deveres e obrigações externas e objetivas e voltada para a vida vivida em referência às próprias experiências subjetivas. Muitos buscadores dos novos movimentos religiosos dizem rejeitar a experiência de “regulação externa” buscando a vivência de uma “expressividade” subjetiva e opor religiões organizadas, vistas como restritivas e coercitivas (Altglas 2007) à espiritualidade, entendida como autêntica e livre, uma expressão da busca pelo sagrado (Wuthnow 2003), vista de uma perspectiva holística na qual a inseparabilidade une espírito, mente e corpo, ressaltando o pessoal, íntimo e o aspecto subjetivo da relação entre humano e divino (Giordan 2009); algo “privado” que dá espaço à exploração de subjetividades a partir de suas trajetórias espirituais.

As pesquisas de Bastos e Assis atestam que o fato de ter um japamala (um tipo de terço usado para entoar mantras), fazer orações, cumprir o dharma (fazendo o que é correto) e ter um altar em casa contradiz a questão da espiritualidade como livre de dogmas. As categorias de autonomia e livre-escolha também são conceitos a se relativizar, já que os interlocutores estão submetidos a algumas “autoridades”. Primeiro, eles obedecem o mestre ou guru; segundo, eles estão submetidos à tradição védica, que consiste num guia da vida cotidiana; e terceiro, os mais devotos se submetem ao que a ordem cósmica (ou consciência) traz, no sentido de entender que tudo o que acontece está de acordo com a ordem do universo (Bastos, 2019a,b). Na prática, Bastos e Assis observam que religião e espiritualidade não são vivenciadas de maneiras tão diferentes assim. Apesar de parte dos vedantinos se identificar com a categoria “espiritual, mas não religioso” (ou até com a categoria “sem religião”), inclusive rejeitando qualquer vínculo “religioso”, isso indica que as diferenças podem se relacionar à questão do preconceito de pessoas com o termo religião, pois foi visto o quanto os estilos de vida de pessoas tanto religiosas quanto espiritualizadas têm similaridades.

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Referências bibliográficas

Altglas, Véronique. (2007). The Global Diffusion and Westernization of Neo-Hindu Movements: Siddha Yoga and Sivananda Centres. Religions of South Asia 1(2): 217-237.

Assis, Thaís. (2017). Neo-hinduísmo carioca: um estudo sociológico sobre um grupo de vedanta. Dissertação de Mestrado em Sociologia e Antropologia. PPGSA/Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Bastos, Cecilia. (2016). Em busca de espiritualidade na Índia: os significados de uma moderna peregrinação. Curitiba: Editora Prismas.

Bastos, Cecilia. (2018). Em busca do sentido da vida: a perspectivas de estudantes de Vedanta sobre uma “vida de yoga”. Religião e Sociedade 38(3): 218-238.

Bastos, Cecilia. (2019a). Meditação e yoga nas camadas médias do Rio de Janeiro: análise do campo nos estudos da Bhagavad Gita. Religare 16(2): 659-691.

Bastos, Cecilia. (2019b). Devoção e yoga nas camadas médias do Rio de Janeiro: análise do campo nos estudos da Bhagavad Gita. AntHropológicas 30(1): 281-306.

Giordan, Giuseppe. (2009). The body between religion and spirituality. Social Compass 56 (2): 226-236.

Heelas, Paul; Woodhead, Linda et al. (2005). The spiritual revolution: Why religion is giving way to spirituality. Oxford: Blackwell.

Wuthnow, Robert. (2003). Spirituality and spiritual practice. In: Fenn, The Blackwell companion to sociology of religion. Blackwell Publishing Ltd, p. 306-320.

Quando o religioso e o político se encontram: a espiritualidade na mobilização de práticas político-pastorais

Quando o religioso e o político se encontram: a espiritualidade na mobilização de práticas político-pastorais

By admin in Publicações on junho 1, 2021

Por Anna Paula Pedra 

 

Há um mês defendi minha dissertação de mestrado intitulada “Cultivando a espiritualidade: o religioso na prática política dos agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Campos dos Goytacazes/RJ”, no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF, sob orientação do professor Fábio Py.  A banca avaliativa foi composta por Carlos Alberto Steil (UFRGS), Ana Costa (UFF) e Rodrigo Caetano (UENF), cujos comentários colocados se apresentaram enquanto uma grande aula para mim. A pesquisa, que comecei a desenvolver em 2019, procurou discutir sobre o lugar ocupado pelo religioso nos contextos de experiência e ação dos agentes membros da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na cidade de Campos dos Goytacazes, localizada na região Norte-Fluminense do estado do Rio de Janeiro. Procurei identificar quais são os elementos que estão relacionados e inseridos sob a categoria “religião” na prática dos agentes. Nesta busca, a “espiritualidade” se mostrou como o termo mais adequado e utilizado no contexto para designar a prática e experiência do sagrado na CPT. Desta forma, a partir da relação que esses agentes estabelecem com a religião, tanto em suas trajetórias individuais de fé como na luta institucional pela terra, procurei compreender suas práticas políticas pelos direitos sociais da população rural da cidade de Campos.

Para realização da pesquisa foram entrevistados um total de sete agentes, dentre esses, dois são ex-agentes que fizeram parte da equipe CPT/Campos até o ano de 2012. Três dessas entrevistas foram realizadas presencialmente em 2019, as outras quatro foram realizadas remotamente devido ao advento da pandemia em 2020. O trabalho de campo, com o objetivo de acompanhar a rotina de alguns agentes em seus campos de atuação, contou com idas constantes ao Assentamento Zumbi dos Palmares entre setembro de 2019 e fevereiro de 2020. Nesse processo pude constatar que na CPT, o religioso e o político integram um único espaço. Os agentes da pastoral da terra cumprem uma função político-pastoral cotidiana apresentando-se dentro e fora do assentamento como companhia ativa na luta pela Reforma Agrária Popular na região. Para elaboração das atividades, a CPT parte do princípio de ouvir as comunidades e suas demandas. Atualmente as atividades consistem na organização da feirinha da roça (que acontece em diferentes locais ao longo dos anos), nos grupos de saúde para elaboração de produtos fitoterápicos, no trabalho de artesanato com as mulheres dos assentamentos por meio da utilização de produtos locais, e na Escolinha de Agroecologia que tem seu funcionamento no Assentamento Zumbi dos Palmares e na Comunidade Quilombola de Cafuringa.

Uma das propostas da pesquisa foi chamar a atenção para uma forma de cristianismo vivida por esses agentes que inscrevem diferenças e singularidades importantes em meio ao conjunto de conceitos e práticas já estabelecidas nesta religião. Ao partir de uma primeira hipótese de que esses atores pertenciam a alguma vertente do cristianismo – por pressupor que a CPT é uma organização católica, mesmo que ecumênica – fui surpreendida. Atentei-me para a presença e frequência da palavra espiritualidade entre os agentes, e como ela articulava e mobilizava sentidos religiosos e práticas políticas em suas experiências. A criação de uma pastoral popular como a CPT, a autonomia de cada grupo de agentes e o modo como esses pensam e agem nela, faz com que emerja um contexto de experiência singular da religião. A espiritualidade nesse contexto implica a redefinição da prática religiosa e a polissemia do seu significado.

Analisar esse movimento acrescenta mais evidência à crítica de Talal Asad (2010) sobre a impossibilidade de se trabalhar com uma definição universal da religião. Sua obra traz uma contribuição importante, pois nos apresenta mudanças que afetaram a própria natureza da religião a partir da forma que ela é vivida por um indivíduo, nos auxiliando, neste caso, a observar de que forma as agentes da CPT reconhecem sua experiência enquanto religiosa. A partir das narrativas identifica-se que o termo religião já não aparece mais enquanto definidor de uma identidade espiritual ou de ligação com um conjunto de práticas ligadas a um corpo doutrinário estabelecido. Mas se referem à espiritualidade para expressar a “não-definição” e a complexidade de suas experiências com o sagrado. A espiritualidade mobiliza o sentido religioso aberto e íntimo da promoção pela justiça social e pela luta do campo:

Eu fui migrando para a CPT porque eu estava com essa parte da espiritualidade muito trancada em mim. E todas as reuniões e espaços da CPT, a gente trata também essa questão da espiritualidade, de pensar um pouco em Deus. A gente tem a luta, mas também tem a esperança. A gente sabe que tem um Deus que está conosco independente de religião, se vai ser de matriz africana, católica ou evangélica. A gente comunga da mesma fé em um ser superior que vai nos dar forças para enfrentar essa conjuntura (AGENTE 1, 2020).

As entrevistas me trouxeram as seguintes questões: a) A maioria dos agentes da CPT passaram em algum momento de suas trajetórias pela religião institucionalizada, a maioria deles pelo catolicismo. Nesse processo, b) também se desligaram dessas instituições religiosas, seja por conta de críticas teológicas ou políticas. c) Outros ainda passaram em suas experiências por um processo de ressignificação conceitual sobre a religião – não mais vista sob a ótica institucional dogmática – passando a ser vivenciada dentro de uma atitude mais ampla e holística da espiritualidade e sua inserção no cotidiano da luta social. Um dos agentes faz a seguinte afirmação:

Eu gosto de pensar na vivência da espiritualidade da CPT porque a religião em si não é muito a nossa preocupação, é mais a espiritualidade por conta dessa possibilidade da esperança. Aí, quando você cultiva a espiritualidade, parece que você consegue ir para a além das instituições porque as instituições engessam bastante. Em alguns momentos elas atrapalham muito (AGENTE 2, 2020).

Identifico que para esses atores, todo esse processo de repensar ou estruturar o que se entende por espiritualidade esteve intrinsecamente ligado à sua inserção na CPT. A Comissão Pastoral da Terra se constitui em suas experiências como o local de expressão, manutenção e prática dessa espiritualidade não só pela dimensão macroecumênica da CPT, mas porque essa espiritualidade está diretamente vinculada à ação política que adentra num respeito universal da diversidade de crença e sobre o direito humano a terra.

Sendo assim, os agentes que foram entrevistados nesta pesquisa apontaram a presença da espiritualidade enquanto anterior e até mesmo independente da religião, construindo assim uma espiritualidade instituída sobre a diversidade e a legitimidade de expressão de qualquer crença, mesmo sendo parte da ramificação do catolicismo institucional. O papel da mística na CPT, por exemplo, aproxima-se de alguns sentidos muito difundidos na categoria “espiritualidade” na modernidade, como uma experiência do sagrado livre da autoridade e dos espaços institucionais. Mesmo assim, a experiência religiosa destes agentes não se dá numa busca dentro de si, em um movimento de interiorização ou individualidade espiritual, mas na fronteira com o outro, no serviço prestado às comunidades e assentamentos aos quais acompanham. Logo, este é um caso oportuno para se pensar a intersecção entre espiritualidade e o engajamento político, tendo em vista que a espiritualidade para esses agentes se experimenta nas atividades correntes do mundo secular.

Rolemberg (2020) afirma que os agentes da CPT inovam em relação às categorias de pensamento e prática do cristianismo. Não privilegiam um anúncio explícito da palavra bíblica como antes era confeccionado, mas privilegiam um testemunho solidário por meio da ação e do serviço prestado a essas comunidades. Sendo assim, a centralidade da experiência religiosa desses agentes não está em uma relação íntima, solitária e contratual da crença, nem nas celebrações litúrgicas meramente confessionais – embora participem delas – mas na espiritualidade que envolve as questões cotidianas do direito a vida.

Ao propor a relação desta espiritualidade dos agentes da CPT/Campos com a promoção da Reforma Agrária Popular, procurei pensar o estabelecimento de uma noção de espiritualidade que parte de um engajamento político, ou seja, que estabelece uma relação com o espaço público a partir das ações que são promovidas por esses agentes nesta região. Essas ações têm a ver com uma espiritualidade vivida por meio da ação e do serviço na sociedade. Essa prática de inserção na formulação dos problemas públicos muitas vezes produzem imagens seculares, atrelando a pastoral em uma “sinuca de bico”: para os movimentos sociais a CPT é “religiosa” demais; e para a Igreja a CPT é política e secularizada e pouco pastoral. Posto isso, podemos obter uma melhor compreensão do fenômeno religioso em sua dinâmica conceitual, política e histórica, não só para a CPT enquanto organização, mas para a diversidade de atores e agentes que compõem a pastoral da terra. Como se dão as relações com a religião/espiritualidade e sua prática política na busca pelos direitos sociais dos assentados.

Partindo do princípio de Latour (2012) de que as coisas, grupos sociais ou as instituições não estão prontas ou feitas a priori, mas estão se fazendo, minha intenção não se deu na direção de definir o que era a espiritualidade para os agentes da CPT/Campos. A intenção foi trabalhar os processos de formulação e contradições, ou mesmo compreender de que forma a espiritualidade articula e mobiliza politicamente não como categoria, mas como um fenômeno dinâmico que sempre se renova. Posso dizer que os resultados desta pesquisa, longe de encerrar as discussões, apontam para outras indagações no que diz respeito a esse processo. Esses agentes estariam mesmo fazendo uma separação rígida entre espiritualidade e religião ou essa espiritualidade seria uma nova forma de institucionalização? Algumas falas apontam para a permanência desse caráter teológico-institucional, ao afirmarem, por exemplo, que “a CPT é uma igreja viva”, o que pode apontar tensões internas entre os agentes ou a própria Igreja: seria essa uma nova forma de espiritualidade que pluraliza o catolicismo? Em outras palavras, tendo em vista que a CPT segue sendo uma organização vinculada à igreja católica, esses agentes rompem com a instituição, ou há uma reconfiguração institucional a partir do que eles chamam de espiritualidade?

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Referências Bibliográficas:

ASAD, Talal. A construção da religião como uma categoria antropológica. Cadernos de Campo, São Paulo, n. 19, p. 263-284, 2010.

LATOUR, Bruno. Reagregando o Social: uma introdução à teoria Ator-Rede. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba); Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração (Edusc), 2012.

ROLEMBERG, Igor. Onde está o religioso? Mística e Espiritualidade no político, no público e no secular. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 40(3): 49-71, 2020.

Chamada aberta para o evento “Contemporary Spiritualities, a New Soft Power?”

Chamada aberta para o evento “Contemporary Spiritualities, a New Soft Power?”

By admin in Eventos on maio 18, 2021

Como divulgado há algumas semanas, a International Society for the Sociology of Religion financiará a organização de um evento e criação de uma rede de pesquisadores interessados no tema da espiritualidade. O evento ganhou site próprio, onde é possível conferir o projeto, suas diretrizes e mais informações sobre o evento e seus organizadores.
Também há detalhes sobre a chamada para submissões, que está aberta até 04/06. Destaca-se que haverá apoio financeiro aos participantes do evento, especialmente aos jovens pesquisadores.
Algumas considerações da I Reunião Latino-Americana de Estudos da Espiritualidade

Algumas considerações da I Reunião Latino-Americana de Estudos da Espiritualidade

By admin in Eventos, Publicações on maio 11, 2021

Por Florencia Chapini

Nos dias 28 e 29 de abril ocorreu a I Reunião Latino-Americana de Estudos da Espiritualidade em formato virtual, organizada por nosso grupo de pesquisa. O encontro recebeu mais de 200 inscrições e congregou estudantes e pesquisadores de diferentes lugares da América Latina interessados no tema da espiritualidade. O objetivo da reunião foi fazer uma rede de pesquisadores que estivessem investigando sobre o tema da espiritualidade e conhecer os campos de pesquisa que essa palavra tem mobilizado na América Latina. 

Inicialmente pensamos em três eixos que articulam as pesquisas: “Espiritualidade e política”, “Práticas orientalizantes” e “Terapias alternativas”, deixando em aberto a possibilidade de que apareçam “outros”. Nesses “outros”, as e os participantes mostraram muitos caminhos que a espiritualidade vem trilhando, ficando evidente que ela também está atravessada nas pesquisas por temas como saúde, ciência, arte, dissidências sexuais, gênero, colonialidade, feminismo, teologia, teologia negra, intolerância religiosa, território, entre outras.

O encontro virtual reuniu pessoas de diferentes partes do Brasil, do Uruguai, da Argentina, de Cuba, da Itália e de Portugal. Vale a pena destacar, também, que as e os participantes eram de distintas áreas de formação como ciências sociais, antropologia, medicina, psicologia, farmácia, terapias alternativas, teologia, ciências da religião e pedagogia. Participaram inclusive pessoas que não necessariamente pesquisam o tema, mas que são praticantes ou se reconhecem como espiritualizadas, ou mesmo, pertencentes a diferentes religiões.  

A reunião foi dividida em um total de 13 grupos, a dinâmica proposta para o funcionamento se baseou mais em uma conversa relaxada e desestruturada que permitiu trocar perspectivas, contatos e trabalhos deixando de lado as formas clássicas de exposição acadêmica, o que permitiu enriquecer a conversa e, consequentemente, as perspectivas.  

Como foi mencionado, um desafio e uma riqueza que caracterizou a reunião foi o diálogo de diferentes áreas. Assim, a espiritualidade apareceu como uma dimensão positiva da saúde, como uma dimensão de ajuda para passar por situações de sofrimento, como práxis, como disputa narrativa de identidades indígena ou negra, como um diagnóstico psiquiátrico, como uma definição, como categoria, como uma experiência transcendente, como experiência sagrada e corporificada, como uma forma de cuidado, como religiões (católica, espírita, afro-brasileiras, evangélica, entre outras), como muitas outras formas.  

Pareceria que, cada vez mais, a espiritualidade na América Latina tem se convertido não numa realidade, senão em realidades múltiplas. Na linha de Annemarie Mol (2007), podemos ver que, frente à chamada para uma reunião de “estudos de espiritualidade”, apareceram diferentes versões de espiritualidade que entraram em diálogo. Ao invés de dar uma resposta pronta para a  pergunta o que é a espiritualidade, a reunião evidenciou diferentes performances de espiritualidade. Não se trata de, simplesmente, diferentes perspectivas sobre o que é a espiritualidade, senão de diferentes versões da espiritualidade, que produzem diferentes realidades.

A modo de exemplo, vou trazer a intersecção entre espiritualidade e saúde, que é o tema sobre o qual o grupo de pesquisa têm se debruçado nos últimos anos. A espiritualidade foi adicionada na definição de saúde humana da OMS, no ano de 1984, como uma de suas dimensões (TONIOL, 2017); por outro lado, pesquisadores médicos vêm criando metodologias que procuram comprovar que espiritualidade faz bem para a saúde (TONIOL, 2019), incentivando assim, a abordagem desta dimensão na prática clínica como, por exemplo, fazendo anamnese espiritual com o paciente; isto em consequência, demanda a formação de profissionais da saúde que consigam abordá-la. Nesse caso, essas realidades trazem consigo modos e modulações de outros objetos: atas da OMS que recomendam políticas públicas, artigos científicos que comprovam a espiritualidade via números e gráficos, ligas acadêmicas e disciplinas na formação de profissionais de saúde, a crença ou percepção da espiritualidade que o paciente responde na anamnese espiritual; e antropólogas e antropólogos etnografando esses processos seguindo a espiritualidade como categoria, como é o projeto do NUES.  

Apostamos que esse tipo de encontros, que nos deslocam das nossas áreas de formação e promovem interdisciplinaridade, são muito produtivos. Sobretudo para pensar a espiritualidade, realidade(s) que cada vez mais interfere(m) nas nossas vidas cotidianas.

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Agradeço à Luciana Álvarez pela leitura, diálogo e revisão do texto.

Referências:

MOL, Annemarie. 2007. Política ontológica. Algumas ideias e várias perguntas. Em: NUNES, J. e ROQUE, R. (Org.). Objectos impuros: experiências em estudos sociais da ciência. pp.63-75. Porto: Afrontamento.

TONIOL, Rodrigo (2017) Atas do espírito: a Organização Mundial da Saúde e suas formas de instituir a espiritualidade. Em: Anuário Antropológico, Brasília, UnB, 2017, v. 42, n. 2: 267-299

TONIOL, Rodrigo (2019) O que há para ser visto. Instrumentos, metodologias e dispositivos de produção da espiritualidade como fator de saúde. Em: Sociedad y Religión, Vol. 29 N° 52.

 

 

Espiritualidades contemporâneas, um novo soft power? Ativismo espiritual, crise e a demanda por mudança social

By admin in Eventos on abril 27, 2021

Foi aprovado o projeto para realização de um workshop internacional sobre espiritualidade e política. Intitulado “Contemporary Spiritualities, a New Soft Power? Spiritual Activism, Crisis and the Demand Over Societal Change”, o evento é pensado e organizado por Alexandre Grandjean (Universidade de Lausanne), Christophe Monnot (Universidade de Estrasburgo), Géraldine Mossière (Universidade de Montreal), Rodrigo Toniol (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Abaixo reproduzimos o resumo do projeto traduzido:

  1. INTRODUÇÃO 

Ao longo do século 20, as paisagens sócio-religiosas globais passaram por transformações importantes e reconfigurações. Não só a religião foi transformada, mas a espiritualidade assumiu uma nova importância no discurso secular, bem como nas principais tradições religiosas (Ammerman 2013). Acima de tudo, essas novas expressões religiosas muitas vezes se cruzam com preocupações contemporâneas, como o ambientalismo e o perigo climático (ver Bloch 1998, Ivakhiv 2012), emancipação de gênero e difusão de novos papeis de gênero (ver Mahmood 2005, Fedele & Knibbe 2013), mobilidades transnacionais (ver Csordas 2009), questões de saúde global e alternativa (Ver Csordas 2002; Koch & Binder 2013), direitos dos nativos (Ver Johnson & Kraft 2018), nacionalismo (Ver Veer 2009; 2013), etc. Destas numerosas observações, uma série de emaranhados não-exaustivos emergem levantando novas questões: Será que os movimentos contemporâneos de espiritualidade, sob o pretexto de religiosidade individualizada e mais distanciada, também têm implicações políticas? Até que ponto essas transformações religiosas têm demandas públicas e políticas? Como isso foi afetado pela recente crise do covid-19? Como podem essas mudanças gerais – incluindo expressões religiosas, organizações e redes – afetar nossas abordagens teóricas à noção de espiritualidade em si? Como costumam aparecer como fenômenos globais, as especificidades locais são frequentemente negligenciadas. Clot-Garrel & Griera começaram recentemente a fazer este conjunto de questões na Catalunha (2019). No entanto, seus resultados até agora não foram colocados em perspectiva, nem – até onde sabemos – qualquer workshop ou publicação tentou conectar essas múltiplas percepções.

A organização de um Workshop SISR-ISSR sobre este tema permitirá a consolidação de uma forte rede de pesquisa intercontinental de pesquisadores que estudam empiricamente, bem como a confrontação das atuais teorias, sobre movimentos contemporâneos da espiritualidade. Jovens pesquisadores investigando campos tanto no Sul Global quanto no Norte Global serão convidados a participar. Da mesma forma, autores mais experientes serão convidados a discutir seus insights teóricos para benefício mútuo. O resultado do workshop será mais inovador na medida em que a dimensão política das espiritualidades contemporâneas será abordada a partir de três ângulos diferentes (ver 4), isso em confronto com as principais teorias da sociologia das religiões. Além das publicações inovadoras que este workshop irá produzir (ver 5.), o workshop fortemente promove e dá continuidade à orientação do Congresso ISSR de 2019 sobre a “Política da religião e espiritualidade”.

 

  1. NOVIDADE DO WORKSHOP: ESPIRITUALIDADES CONTEMPORÂNEAS E SOFT POWER

Nesta proposta de workshop, queremos abordar novos insights teóricos e empíricos que enfatizem as dimensões sociais e políticas das espiritualidades contemporâneas. Queremos especialmente vincular esta forma ao conceito de “soft power” (Nye 1995) e à ideia de uma era pós-secular (Habermas 2008), particularmente em uma escala global. Considerando que o estudo das “espiritualidades contemporâneas” tem que ser reavaliado à luz de suas reivindicações políticas ou subpolíticas, compromissos e promulgação, desejamos privilegiar estudiosos de cruzamentos geográficos e intergeracionais motivados por observações situadas diversamente em que a espiritualidade está se tornando uma categoria social emergente que importa (Chandler 2008; Huss 2014). A recente crise de covid-19 também pode reconfigurar a ligação entre espiritualidades e política (Foucault 1977). Além de contextos euro-americanos, estudos de caso profundamente informados da América e América do Sul (De la Torres e Zuñiga, 2011), África Ocidental (Louveau 2012) ou Sudeste Asiático (Veer 2013) em conjunto fornecem desafios empíricos e teóricos para o estudo científico das religiões, bem como para um de seu subcampo de crescente importância: espiritualidade (Streib & Hood 2011).

No entanto, esses diferentes casos também apresentam fortes semelhanças, principalmente devido a circulações de referências espirituais e imaginários sociais (Becci, Farahmand & Grandjean, no prelo). Quer os atores sociais pertençam a organizações religiosas estabelecidas ou não, o seu discurso enfatiza as “dimensões internas”, como a busca pela “autenticidade”, “naturalidade” e “autonomia”; o último pode ter sido modificado pelas experiências de confinamento físico e distanciamento social. Largamente vistos como formas narcisistas de religiosidade (Bellah & al. 1985), esses diferentes registros, excessivamente compartilhados, possuem reivindicações implícitas – ou mesmo explícitas – sobre mudanças públicas, políticas e sociais. Por exemplo, enquanto os atores sociais às vezes reivindicam a universalidade de suas preocupações, eles também valorizam sua práticas por seu poder de cura sobre o self, a natureza (a Terra), as relações sociais, a moralidade e a sociedade. Ao fazer isso, eles participam da transmissão ou formulação de pressupostos normativos para o público nas esferas local e global.

Afirmamos que as diferentes formas de espiritualidades contemporâneas, seja se elas explícita ou implicitamente tendem a se engajar em reivindicações de mudanças sociais, fazem parte de uma lógica de “soft power” como entendido por Nye (1995). Também, em diálogo com os esforços contemporâneos para reformular nossas perspectivas analíticas sobre a espiritualidade (Ver Bender & McRoberts 2012), pretendemos investigar os processos através dos quais os usos da categoria de “espiritualidade” assumiram seus valores atuais, como está alinhada com diferentes tipos de ação política, cultural e social, e como ela é articulada em ambientes públicos. Em alguma medida, assumir essa chave analítica é a própria condição para responder ao apelo de Peter van der Veer para “as políticas da espiritualidade” (2009, 2013), que considera a forma como esta categoria produz realidades, representa atores e mobiliza instituições.

 

  1. OS TRÊS EIXOS DA OFICINA 

Nesta proposta de oficina, estamos convencidos de que a espiritualidade está ganhando uma nova dimensão política em nossas sociedades globalizadas. A questão central em torno do workshop é: As espiritualidades contemporâneas sustentam um novo soft power? Este soft power supostamente vem do encontro entre ativismo secular e espiritual ao encontrar um terreno comum quando se trata de apelos sociais, morais e mudanças políticas. Nesse caso, discursos e práticas com estrutura espiritual podem ser usados ​​e combinados com outros registros seculares que se inscrevem nas chamadas agendas conservadoras ou progressistas. Em relação a esta situação de múltiplos encontros, o workshop será estruturado em torno de três eixos que abordam as seguintes subquestões:

 

1) As redes de espiritualidades contemporâneas e nexo de militância: este eixo irá interrogar o que está em jogo quando as redes de atores auto-descrevem situações, práticas e estilos de vida como “espirituais”. Quais são as várias demandas explícitas ou tácitas, tanto individuais quanto coletivas, por mudanças que podem ser cunhadas em várias formas de militância. Com este primeiro eixo, queremos melhor entender de quais amplos grupos de repertório de ação e discurso, bem como imaginários sociais e políticos, participam os movimentos de espiritualidade contemporânea. Ultimamente, essas dimensões obtiveram forte reconhecimento nos domínios públicos: por exemplo, em mobilizações pan-nativas em Standing Rock (Johnson & Kraft 2018), ecofeministas, ecopagãs e círculos de mulheres (Pike 2001, Longman 2018), ou em chamadas de “transição interna” no movimento de Transição mais amplo (Grandjean, Monnot e Becci 2018; Boudinot & LeVasseur 2016). Este eixo também explorará como o vírus do covid-19 fornece novos motivos para crenças e ação social, bem como interrogar amplamente as questões internas de relacionamento de poder em jogo dentro desses movimentos sociais (ver Wood 2009).

 

2) Reivindicações de espiritualidade e engajamento político nas tradições religiosas: Este eixo irá discutir como os crentes religiosos das tradições principais misturam princípios religiosos com práticas espirituais (Howell 2013; Meyer 2007; Rudnyckyj 2009; Woodhead 2011) e como sua ética subjacente se desdobra em um quadro pós-secular. Este eixo irá explorar como os princípios das principais religiões são reinterpretados através de lentes originadas de outras tradições (Ioga cristã) ou de várias ferramentas de autodesenvolvimento (PNL, psicologia popular), assim construindo antropologias específicas do sujeito em relação ao seu social, moral e social meio ambiente (Rose 1989; Prades 2014). Como essas antropologias estimulam ações e discursos sobre valores éticos e bioéticos (reprodução assistida; acesso a cuidados médicos em tempos de pandemia, por exemplo), entendimentos de justiça social, projetos políticos dentro de uma nova era pós-secular que eles contribuem para enquadrar? Além do papel primordial de convertidos e pessoas reafiliadas nessas dinâmicas, o eixo discutirá a semântica da cura e da transformação que regem muitos discursos e ações que se relacionam com espiritualidade e política.

 

3) A instrumentalização da espiritualidade pela política: este último eixo explora os usos políticos da noção de espiritualidade. Embora a prática sociológica de longa data associe espiritualidade às experiências interiores, caráter anti-institucional e relações não mediadas com o sagrado, novas abordagens sobre este tema estão mostrando como a espiritualidade também desempenhou um papel importante em debates políticos (Toniol 2018; Giumbelli e Toniol 2017), bem como na secularização do instituições públicas. Agências globais (como a OMS, UNICEF) e os debates sobre o patrimônio estão cada vez mais enfatizando as “dimensões espirituais” como um argumento persuasivo para definir algumas áreas como Patrimônio Mundial; este último também pode ser usado para gerenciar a crise institucional nacional e internacional desencadeada pela pandemia. Da mesma forma, representações holísticas da saúde levaram a visão da espiritualidade à biomedicina, substituindo assim a nova profissão espiritual pela tradicional capelania religiosa (Becci 2018; Mossière submetido).

 

  1. SAÍDAS 

Além de networking e colaborações intergeracionais e interregionais sobre o conhecimento e projetos provisórios, o workshop também visa fornecer ao público em geral uma publicação que carece fortemente de literatura atual: “As políticas públicas de espiritualidades contemporâneas”. Uma edição especial e temática irá ser proposta para a revista “Política e Religião”. Uma publicação reunindo os textos revisados ​​por pares dos participantes do workshop serão submetidos à Routledge. A longo prazo, este workshop visa formar uma rede de pesquisadores que, sob o rótulo de “pesquisa em espiritualidades e política” continuará se encontrando e colaborando com frequência. O workshop também solicitará um painel específico para próximo congresso SISR em 2023, trazendo as dimensões seminais que os autores elaboraram no publicação que seria publicada naquela época.

5. BIBLIOGRAFIA

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A arte abstrata e a espiritualidade de Hilma af Klint

A arte abstrata e a espiritualidade de Hilma af Klint

By admin in Uncategorized on abril 20, 2021

Por Isabela Mayumi e Luciana Cavalcanti

É notável a quantidade de material e informação que se pode encontrar na internet sobre a artista sueca Hilma af Klint (1862-1944). Numa rápida busca pelo nome da artista no google, encontra-se uma enorme variedade de conteúdo produzido nos últimos anos e em várias línguas, como artigos em jornais, notícias das exposições de seus trabalhos, artigos acadêmicos, biografias, textos em blogs, vídeos de blogueires comentando sobre a pintora, assim como tours pelas exposições realizadas com seus quadros em canais de museus. Certamente, esse texto se inclui nessa lista.

Nesse mar de informações sobre Hilma e seu trabalho, chama a atenção a ênfase frequente de que ela foi uma artista à frente de seu tempo consciente disso, assim como a reivindicação de que foi pioneira da arte abstrata ocidental. Em seu testamento, deixou o pedido de que suas obras só fossem expostas ao público 20 anos após sua morte, com a justificativa de que elas não seriam compreendidas antes disso – o que vai de acordo com as rejeições ocorridas enquanto estava viva.

Não cabe aqui reconstruir sua biografia, mas destacar algumas informações interessantes sobre a artista, cuja obra parece ser emblemática da relação entre espiritualidade, ciência e arte que marcou o início dos tempos modernos. Hilma af Klint, que no início de sua trajetória artística fazia paisagens, representações botânicas e vendia retratos e ilustrações, começou a desenvolver seu trabalho abstracionista à medida em que foi se envolvendo com a teosofia e a antroposofia. A título de curiosidade, uma das biografias sobre Hilma foi escrita pela artista plástica brasileira Luciana Pinheiro, que além de estudar a antroposofia há muitos anos, se autodeclara terapeuta biográfica e trabalha com pintura meditativa. Médium, a artista começou a reunir-se em 1896 com outras 4 mulheres em um grupo chamado “The Five” para a realização de sessões espíritas nas quais, além de meditações e leituras, tentavam estabelecer contatos com guias espirituais e praticavam o chamado desenho automático, o que viria a ser uma técnica também utilizada pelos abstracionistas. Segundo algumas fontes, realizou sua primeira série de pinturas abstratas, “Primordial Chaos”, ao longo do ano de 1906, impulsionada pela mensagem que recebera em uma destas sessões de que realizasse pinturas para serem colocadas em um templo.

Cenas do filme “Beyond the visible” (prints das autoras). A legenda da segunda imagem diz, respectivamente, “exalar” e “inalar”

Se Hilma procurou na teosofia, no rosacrucianismo, na antroposofia e nas reuniões com as “The Five” maneiras de entender a realidade e desenvolver seus dons mediúnicos e clarividentes para passar as mensagens espirituais que recebia, também é importante pontuar a importância e o impacto dos avanços científicos do final do século XIX e início do XX em sua produção. Ao longo da vida, a artista acompanhou a descoberta das ondas de rádio, raios-X, a existência do núcleo atômico, mecânica quântica, eletromagnetismo e radioatividade – em suma, a existência de coisas invisíveis a olho nu (isto é, para além do que é visível). Isso abriu portas para que ela pudesse pincelar este “novo” mundo sendo desvendado pela ciência. Cabe dizer que, com o passar dos anos e com o desenvolvimento dos próprios estudos e habilidades, Hilma foi aos poucos tornando-se independente desses conceitos e das técnicas artísticas, desenvolvendo maior autonomia para interpretar e representar as mensagens que recebia em suas telas.

Grupo IV “The ten largest” n.1 – Childhood; e n.10 Old age – 1907

 

Assim, são temas de suas pinturas as descobertas científicas, as fases da vida, a natureza, a evolução e as dualidades, como masculino e feminino, espírito e matéria. Dedicou, por exemplo, uma série aos átomos, e outra para retratar diversas religiões, numa linguagem que sugere uma espécie de “matéria comum”, forte influência da teosofia. Reproduzimos algumas das pinturas dessas séries aqui.

The Atom Series, No. 1;  e No. 8 – 1917

No. 2a, The Mahatmas Present Standing Point; Buddhas Standpoint in the Earthly Life No. 3; e No. 3C, The Mohammedan Standpoint – 1920

 

A busca de Hilma por alcançar compreensões profundas sobre a vida, o mundo e a realidade, sobre o visível e o invisível a partir de uma perspectiva da espiritualidade é uma das coisas que a une aos artistas do movimento abstracionista europeu do início do século XX. Wassily Kandinsky, por exemplo, considerado e autodeclarado precursor da pintura abstrata, publicou o notório ensaio “Do espiritual na arte” em 1912, além de que mantinha contato com a Teosofia e a Antroposofia e da participação em rituais pagãos russos; o pintor checo František Kupka, assim como af Klint, interessou-se pelo tema do ocultismo, era médium e se comunicava com espíritos; e Piet Mondrian foi membro da Sociedade Teosófica Holandesa.

Seus quadros – muitos com grandes dimensões – possuem cores vibrantes, cheios de formas geométricas, florais, espirais, juntamente a, por vezes, letras e palavras criadas, símbolos retirados de diferentes religiões e de outros sistemas de conhecimento. Apesar de haver semelhanças entre suas obras e as dos abstracionistas mais conhecidos, é possível notar, por exemplo, uma presença maior de elementos e representações da natureza, como aves, árvores, folhas e flores. Mas o que distingue Hilma desses nomes talvez seja mais do que a identidade autoral e originalidade indiscutíveis de seus quadros. Devido à sua condição de mulher, construiu sua jornada de maneira solitária e reservada; salvo as influências já mencionadas da teosofia, antroposofia e outros, pouco se sabe acerca de suas influências artísticas. Nesse sentido, ela esteve fora do movimento abstracionista, sem manter diálogo ou contato com pintores e curadores de arte que juntos tiveram, também, a espiritualidade e dissolução do real como tema de suas obras e marcaram o movimento vanguardista do abstracionismo.

Série SUW/UW, Grupo IX/SUW, The Swan, No. 8; e Série SUW/UW, Grupo IX/SUW, The Swan, No. 9 – 1915

 

De um lado, nos parece haver um movimento de “reescrita” da história da arte, de modo a incluir Hilma af Klint como uma, senão a, pioneira do abstracionismo – algo que talvez encontre ressonância na reivindicação de maior reconhecimento a tantas mulheres artistas que foram apagadas de uma história escrita por homens – europeus, é preciso marcar. No documentário “Beyond the visible”, lançado ao final de 2019, não parece ser à toa a forte  presença feminina nas historiadoras da arte que comentam sobre Hilma e seu trabalho. Além disso, a atenção dada ao fato de que ser uma mulher colocou desafios tanto em sua trajetória profissional e artística quanto espiritual põe o tema em destaque.

Por outro, a grande repercussão que a “descoberta” recente de Hilma pareceu ter no mundo ocidental – o que parece coincidir em alguma medida com a previsão de que suas pinturas só seriam compreendidas e apreciadas num momento posterior ao qual ela viveu – revela alguns ecos das reflexões que organizaram o movimento abstracionista no mundo contemporâneo. A elaboração de exposições e as discussões, tanto no mundo da arte quanto no mundo da ciência, sobre a dimensão da vida humana entendida como espiritualidade, não é algo tão recente nem raro. Ao contrário, como temos discutido ao longo da realização da pesquisa Espiritualidade Institucionalizada, é algo que acompanha e constitui o próprio processo de modernização das sociedades ocidentais, com variações e especificidades locais.

Em sua constante pesquisa sobre o visível e o invisível, sobre diversas formas de conhecimento e de crenças, assim como numa tentativa de retratar e comunicar aquilo que lhe era mostrado por guias espirituais, Hilma parece ter sido capaz de sensibilizar a atenção de um grande público que veio a conhecê-la nos últimos anos, assim como de mobilizar uma intensa tentativa de reconstrução desse capítulo da história da arte europeia. Se a modernidade significou o desencantamento do mundo pela compreensão da realidade do ponto de vista científico, na mesma medida ganhou força o tema da espiritualidade e as buscas por descrever e retratar o espiritual. Nas mais de mil pinturas e mais de vinte e cinco mil páginas de anotações, ainda há muito o que ser explorado nessa fascinante e inspiradora figura que por tanto tempo permaneceu desconhecida. A extensa obra de Hilma af Klint aparece como mais um elemento para se refletir sobre a modernidade e os cruzamentos de interesses e práticas humanos. De toda forma, seus desenhos, pinturas e estudos conseguem nos levar a outros lugares que não aquele em que nos encontramos.

Tree of Knowledge, No. 5 (1915); e The Evolution, No. 10 (1908)

***

Imagem destacada:

Group V, The Seven-Pointed Star, No. 1 (1908) by Hilma af Klint

Referência Fílmica:

“Beyond the visible – Hilma af Klint”. Direção: Halina Dyrschka. Suécia, 2019 (1h 35m).

 

Uma medicalização da religião e da espiritualidade?

Uma medicalização da religião e da espiritualidade?

By admin in Novidades, Publicações on março 30, 2021

Por Lucas Baccetto

Nos últimos dois anos, me dediquei à realização de minha pesquisa de mestrado que tinha como interesse alguns debates realizados por psiquiatras e psicólogos em torno da questão da religião e da espiritualidade. Esse esforço se encerrou recentemente com a cerimônia de defesa de minha dissertação, seu produto final, que contou com a banca avaliativa composta por Carly Machado (UFRRJ) e Emerson Giumbelli (UFRGS), e presidida por Rodrigo Toniol (UFRJ), meu orientador durante esses anos. Como contei neste blog em 2019, a pesquisa se centrou na criação e inclusão em 1994 de duas categorias no principal guia de diagnósticos psiquiátricos dos Estados Unidos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Ambas as categorias, “transtorno de transe dissociativo” e “problema religioso ou espiritual”, introduziam explicitamente o tema das experiências religiosas e espirituais no DSM, algo até então inédito no manual. Optei por dedicar cada capítulo da dissertação a um âmbito particular do debate em questão: enquanto no primeiro capítulo me debruço sobre a concepção do DSM-IV, nos dois capítulos restantes abordo parte da literatura que sustenta cada uma das duas novas categorias diagnósticas, passando pelos estudos sobre dissociação psicológica e pela psicologia transpessoal.

Como dar conta desse processo recente no qual psiquiatras e mesmo alguns psicólogos passam a tomar a religião como um objeto de seu saber e de sua prática de intervenção terapêutica? É tentador pensarmos nesse fenômeno sob a chave da medicalização, incluindo nesse conceito também a participação dos psicólogos. Para o sociólogo Peter Conrad, autor constantemente referenciado no conjunto de trabalhos que articulam esse debate, o conceito de medicalização descreveria “o processo pelo qual problemas não médicos passam a ser definidos e tratados como problemas médicos, frequentemente em termos de doenças ou transtornos” (Conrad, 2007, p.4, tradução minha). Aqui, a inclusão explícita dos temas da religião e da espiritualidade no DSM seria a mais convincente evidência da hipótese da medicalização da religião e da espiritualidade, dado o repetido mantra que situa o manual como “a Bíblia da psiquiatria” estadunidense. O transe, a possessão e outras experiências eminentemente religiosas ou espirituais seriam deslocadas de seu espaço “originário” para o da medicina e dos saberes psi, sob a autoridade dos profissionais dessas disciplinas.

Embora a chave interpretativa da medicalização me pareça plausível para esse caso e para muitos outros fenômenos contemporâneos, gostaria de pontuar alguns mal-entendidos que a irrefletida e rápida aderência a ela pode gerar para a análise. Para tanto, recorro aqui à provocação feita pelo antropólogo Didier Fassin (2011) em um texto escrito para uma coletânea sobre o tema do uso de drogas. Inspirando-se no jogo de sentidos feito por René Magritte em seu famoso quadro A traição das imagens, o antropólogo intitula ironicamente seu texto como Isso não é medicalização, esclarecendo que não busca recusar o argumento segundo o qual há um processo de medicalização da sociedade, mas sim questionar sua suposta obviedade – assim como no caso da imagem do cachimbo na pintura de Magritte. O que tomamos como dado quando aderimos rapidamente à hipótese de que determinado fenômeno foi medicalizado?

A traição das imagens, de René Magritte. Fonte: https://www.wikiart.org/en/rene-magritte/the-treachery-of-images-this-is-not-a-pipe-1948

O caso que Fassin retoma para elaborar suas considerações diz respeito à mudança ocorrida no modo como médicos franceses passaram a lidar com a questão do abuso de consumo de drogas nas últimas décadas do século XX. Segundo o autor, se no começo dos anos 1980 esse fenômeno era compreendido por psiquiatras locais como um problema que deveria ser pensado a partir da necessidade de se afastar as substâncias de seus usuários e de lidar com os efeitos da abstinência provocada, nos anos 1990 a problemática havia se alterado. Com a entrada em cena de especialistas em saúde pública, o que era então uma questão de abstinência se tornou uma de redução de danos, na qual se ofereciam drogas orais alternativas e seringas limpas com a intenção de se evitar possíveis doenças infecciosas, em vez de se tentar afastar os usuários das substâncias em questão.

O exemplo dado por Fassin é interessante exatamente por colocar em questão uma das assunções muitas vezes associada implicitamente à ideia de medicalização, a saber: a de que haveria um processo linear e de significado unívoco, de progressivo e crescente domínio por parte da medicina sobre coisas e pessoas alheias a ela. Esse tipo de assunção produz uma espécie de efeito homogeneizador nos fenômenos agrupados sob a rubrica do conceito, perdendo de vista as particularidades referentes por exemplo ao caso trazido pelo autor. No exemplo em questão, enquanto o consumo de drogas nos anos 1990 se manteve sob a atenção da medicina, a relação estabelecida entre os profissionais da saúde e o fenômeno era distinta da existente na década anterior. Haveria assim uma reconfiguração do problema, ocorrendo o abandono de um paradigma da erradicação do consumo de drogas e de seus usuários para um paradigma de saúde pública, de substituição das substâncias ou dos instrumentos de injeção. Nesse sentido, como sugere Fassin (2011, p.88, tradução minha), “não é que a medicalização tenha ocorrido, mas sim que seu significado se alterou”.

Une Pipe, de Werner Wejp-Olsen
Fonte: https://www.toonpool.com/cartoons/Une%20Pipe_311075

Algo semelhante parece ocorrer com os casos que analisei em minha dissertação. O que me chamou a atenção nesse material desde o princípio de minha pesquisa foi certa posição reativa tomada pelos propositores das categorias diagnósticas quanto à questão da relação entre as experiências religiosas e/ou espirituais e a suposta existência de psicopatologias. Isso porque enquanto a literatura sobre dissociação estabelecia uma abertura para se pensar experiências de transe e de possessão como “culturalmente normais”, a psicologia transpessoal argumentava pelo potencial positivo e transformador que muitos desses fenômenos tinham ao sujeito. Mais do que isso, alguns desses atores eram enfáticos ao criticarem certo passado patologizante que a disciplina mantinha em relação às experiências religiosas e espirituais. No plano internacional, talvez o caso mais exemplar e lembrado sobre essa questão seja o de Jean-Martin Charcot na segunda metade do século XIX, com sua releitura das possessões demoníacas como meras manifestações histéricas.¹ Já em território brasileiro, uma série de trabalhos de autores das ciências sociais e da história já apontaram para como psiquiatras brasileiros se interessaram na primeira metade do século XX pelas religiões afro-brasileiras e pelo espiritismo kardecista, qualificando as práticas possessivas e mediúnicas a elas associadas como patologias mentais.²

Há duas questões que me parecem centrais a respeito da criação e inclusão dessas categorias diagnósticas no DSM e da possível interpretação desse processo como parte da medicalização da sociedade. Por um lado, assim como no caso introduzido por Fassin, encontramos aqui uma situação histórica na qual determinadas experiências religiosas e/ou espirituais já eram de algum modo tomadas como objeto da atenção de médicos psiquiatras e de psicólogos ao menos desde as últimas décadas do século XIX. A esse respeito, em vez da medicalização como um ato inédito de inclusão de certo elemento da sociedade sob a autoridade médica, estamos mais próximos da assertiva de Michel Foucault sobre esse assunto, para quem desde ao menos o século XIX praticamente já não há mais qualquer coisa que de alguma forma não esteja sob o domínio da medicina. Como o próprio filósofo afirma (Foucault, 2010, p.184), “o diabólico é que, cada vez que se quer recorrer a um domínio exterior à medicina, descobre-se que ele já foi medicalizado.”

Por outro lado, se há uma continuidade no interesse de psiquiatras e de psicólogos pelo tema da religião e da espiritualidade, também há descontinuidades nesse fenômeno. Os propositores dessas categorias diagnósticas se dizem cientes da complicada história dos psiquiatras e médicos que tenderam a ignorar ou a patologizar determinadas experiências religiosas ou espirituais. Nesse sentido, ambas as categorias e as literaturas associadas a elas afirmam se deslocar de uma atitude amplamente patologizadora que marcaria em grande medida a história dos saberes psi, permitindo assim que determinadas experiências de transe, possessão e transcendentais fossem encaradas como psicologicamente normais.

É diante dessas dificuldades encontradas na utilização do conceito de medicalização que considero a saída proposta por Fassin (2011) uma solução razoável. Para o autor, é preciso que repensemos o processo de medicalização como uma forma de problematização dentre outras possíveis, isto é, como uma configuração particular em que atores, discursos e práticas concretas instituem a realidade de objetos e sujeitos a partir de um campo de problemas. Esse leve deslocamento da ênfase na medicalização para a problematização permite que nos afastemos das assunções homogeneizadoras e lineares ligadas ao conceito, enfocando em vez disso as formas diferenciais e historicamente situadas de processos em que certas experiências ligadas à religião e à espiritualidade são tomadas como um objeto do discurso de psiquiatras e psicólogos.

Mais importante para o caso do material que analisei em minha dissertação, falar em problematização permite também que demos conta de incluir na análise a atuação de outros conjuntos de atores. Nos debates analisados, antropólogos estadunidenses e suas produções ao longo do século XX foram absolutamente fundamentais na composição dessa nova configuração do problema, sendo constantemente referenciados pelos propositores das categorias e pela literatura a qual elas se baseiam como aqueles profissionais que, por serem especialistas na diferença cultural, são em grande medida responsáveis pela compreensão “normalizada” de muitos fenômenos religiosos considerados até então como anormais por parte dos profissionais da saúde mental. Em lugar do congelamento da análise apenas no território dos psiquiatras, podemos acompanhar como muitas dessas concepções psiquiatrizantes ou psicologizantes sobre as experiências religiosas e espirituais mobilizam, a seu modo, parte de considerações vindas da própria antropologia. Sem recusarmos a constatação do fato de que uma quantidade considerável de elementos da realidade social se encontra sob a autoridade da medicina, podemos assim melhor compreender as formas variadas a partir das quais essa autoridade é exercida e reconfigurada em situações específicas e a partir de alianças com especialistas de outras áreas do saber.

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Notas:

[1] A esse respeito, ver o trabalho de Valéria Portugal Gonçalves e Francisco Ortega (2013), Stefan Andriopoulos (2014) e Roberta Vittoria Grossi (2020).

[2] Os trabalhos de Emerson Giumbelli (1997a; 1997b) e Beatriz Góis Dantas (1988) são bons exemplos de pesquisas que lidaram com essa questão no contexto brasileiro.

Espiritualidade sem religião

Espiritualidade sem religião

By admin in Publicações on março 23, 2021

A finais de janeiro deste ano, Rodrigo Toniol participou de uma conversa no programa Ciência na religião para conversar sobre espiritualidade sem religião através do canal de YouTube Paz e Bem.  

Nessa oportunidade, o pesquisador se dedicou a caracterizar o fenômeno da espiritualidade com suas diferentes nuances e características atuais. Na entrevista, foram abordados temas como a diferenciação entre espiritualidade e religiosidade, características que apresenta a espiritualidade em relação com a religião. Por outro lado, chamou a atenção o debate sobre como está se-vivenciando a espiritualidade e a relação com a população identificada como “sem religião”, mesmo com o ateísmo.

Quem tiver interesse, pode aprofundar mais no vídeo da conversa:

 

Primeira defesa do grupo: religião e espiritualidade em debates recentes dos saberes “psi”

Primeira defesa do grupo: religião e espiritualidade em debates recentes dos saberes “psi”

By admin in Eventos, Uncategorized on março 9, 2021

Na manhã da última quinta-feira de fevereiro, tivemos a oportunidade de reunirmos, ainda que virtualmente, para assistir a primeira defesa de uma pesquisa gestada e desenvolvida no NUES. Trata-se da dissertação de mestrado de Lucas Baccetto, que foi aprovado e agora segue para o doutorado em Antropologia Social na Unicamp. A banca da defesa contou com es professores Dra. Carly Barboza Machado (UFRRJ), Dr. Emerson Alessandro Giumbelli (UFRGS) e Dr. Rodrigo Ferreira Toniol (UNICAMP) como presidente.

Reproduzimos aqui título e resumo da dissertação:

Diagnosticando o sagrado: religião e espiritualidade em debates recentes dos saberes “psi”

Esta dissertação tem como objeto debates recentes realizados por psiquiatras e psicólogos em torno do tema da religião e da espiritualidade. O foco empírico é a criação, em 1994, de duas categorias diagnósticas no principal guia de diagnósticos psiquiátricos nos Estados Unidos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM): “problema religioso ou espiritual” e “transtorno de transe dissociativo”. A análise desenvolvida se centra sobre os modos como os propositores desses dois diagnósticos articulam uma série de categorias psicológicas e antropológicas para conceitualizar as experiências religiosas e espirituais como fenômenos normais ou como psicopatologias, situando suas produções na psicologia transpessoal e nos estudos sobre dissociação psicológica. A partir da leitura de artigos científicos, obras acadêmicas e entrevistas gravadas, busca-se compreender como são produzidos novos e distintos entendimentos psicológicos sobre fenômenos como o transe religioso, a possessão espiritual e a experiência transcendental.

 

I Reunião Latino-americana de Estudos da Espiritualidade. I Reunión Latinoamericana de Estudios de Espiritualidad

I Reunião Latino-americana de Estudos da Espiritualidade. I Reunión Latinoamericana de Estudios de Espiritualidad

By admin in Eventos, Novidades, Uncategorized on março 1, 2021

A I Reunião Latino-americana de Estudos da Espiritualidade tem como objetivo criar um espaço de intercâmbio entre pesquisadores e pesquisadoras de diferentes países da América Latina, interessados e que trabalhem com o tema da espiritualidade. Com intuito de trocar contextos empíricos de pesquisa, abordagens teóricas e metodológicas, essa reunião será realizada de modo virtual e terá o formato de um seminário fechado. Não se trata de um evento acadêmico para apresentação de papers, mas sim uma reunião de trabalho para favorecer o diálogo e intercâmbio entre pesquisadores. Inicialmente indicamos três eixos de debate centrais, todos eles articulados com debates sobre espiritualidade: práticas “orientalizantes”, terapias alternativas/complementares e política.

O evento receberá inscrições de graduandos, pós-graduandos e pesquisadores seniores. Para inscrição, solicitamos o preenchimento do formulário: https://docs.google.com/forms/d/11PXYEb3hfXUJMGaOC1GKPfdgVib22vboOmb3nDB2aNY

Para mais informações pode entrar em contato no seguinte e-mail: [email protected]

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El I Encuentro Latinoamericano de Estudios de Espiritualidad tiene como objetivo crear un espacio de intercambio entre investigadores e investigadoras de diferentes países de América Latina interesados y que trabajen con el tema de la espiritualidad. Con la intención de intercambiar contextos de investigación empírica, enfoques teóricos y metodológicos, este encuentro se celebrará de forma virtual y tendrá el formato de un seminario cerrado. No se trata de un evento académico para la presentación de papers, sino de una reunión de trabajo para promover el diálogo y el intercambio entre investigadores. Inicialmente señalamos tres ejes de debate, todos ellos articulados con los debates sobre la espiritualidad: prácticas “orientalizantes”, terapias alternativas/complementarias y política.

El evento recibirá solicitudes de estudiantes de grado, postgrado e investigadores senior. Para inscribirse, llená el siguiente formulario: https://docs.google.com/forms/d/11PXYEb3hfXUJMGaOC1GKPfdgVib22vboOmb3nDB2aNY

Para más información, podés entrar en contacto con nosotros a través del siguiente correo electrónico: [email protected]