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A arte abstrata e a espiritualidade de Hilma af Klint

A arte abstrata e a espiritualidade de Hilma af Klint

By admin in Uncategorized on abril 20, 2021

Por Isabela Mayumi e Luciana Cavalcanti

É notável a quantidade de material e informação que se pode encontrar na internet sobre a artista sueca Hilma af Klint (1862-1944). Numa rápida busca pelo nome da artista no google, encontra-se uma enorme variedade de conteúdo produzido nos últimos anos e em várias línguas, como artigos em jornais, notícias das exposições de seus trabalhos, artigos acadêmicos, biografias, textos em blogs, vídeos de blogueires comentando sobre a pintora, assim como tours pelas exposições realizadas com seus quadros em canais de museus. Certamente, esse texto se inclui nessa lista.

Nesse mar de informações sobre Hilma e seu trabalho, chama a atenção a ênfase frequente de que ela foi uma artista à frente de seu tempo consciente disso, assim como a reivindicação de que foi pioneira da arte abstrata ocidental. Em seu testamento, deixou o pedido de que suas obras só fossem expostas ao público 20 anos após sua morte, com a justificativa de que elas não seriam compreendidas antes disso – o que vai de acordo com as rejeições ocorridas enquanto estava viva.

Não cabe aqui reconstruir sua biografia, mas destacar algumas informações interessantes sobre a artista, cuja obra parece ser emblemática da relação entre espiritualidade, ciência e arte que marcou o início dos tempos modernos. Hilma af Klint, que no início de sua trajetória artística fazia paisagens, representações botânicas e vendia retratos e ilustrações, começou a desenvolver seu trabalho abstracionista à medida em que foi se envolvendo com a teosofia e a antroposofia. A título de curiosidade, uma das biografias sobre Hilma foi escrita pela artista plástica brasileira Luciana Pinheiro, que além de estudar a antroposofia há muitos anos, se autodeclara terapeuta biográfica e trabalha com pintura meditativa. Médium, a artista começou a reunir-se em 1896 com outras 4 mulheres em um grupo chamado “The Five” para a realização de sessões espíritas nas quais, além de meditações e leituras, tentavam estabelecer contatos com guias espirituais e praticavam o chamado desenho automático, o que viria a ser uma técnica também utilizada pelos abstracionistas. Segundo algumas fontes, realizou sua primeira série de pinturas abstratas, “Primordial Chaos”, ao longo do ano de 1906, impulsionada pela mensagem que recebera em uma destas sessões de que realizasse pinturas para serem colocadas em um templo.

Cenas do filme “Beyond the visible” (prints das autoras). A legenda da segunda imagem diz, respectivamente, “exalar” e “inalar”

Se Hilma procurou na teosofia, no rosacrucianismo, na antroposofia e nas reuniões com as “The Five” maneiras de entender a realidade e desenvolver seus dons mediúnicos e clarividentes para passar as mensagens espirituais que recebia, também é importante pontuar a importância e o impacto dos avanços científicos do final do século XIX e início do XX em sua produção. Ao longo da vida, a artista acompanhou a descoberta das ondas de rádio, raios-X, a existência do núcleo atômico, mecânica quântica, eletromagnetismo e radioatividade – em suma, a existência de coisas invisíveis a olho nu (isto é, para além do que é visível). Isso abriu portas para que ela pudesse pincelar este “novo” mundo sendo desvendado pela ciência. Cabe dizer que, com o passar dos anos e com o desenvolvimento dos próprios estudos e habilidades, Hilma foi aos poucos tornando-se independente desses conceitos e das técnicas artísticas, desenvolvendo maior autonomia para interpretar e representar as mensagens que recebia em suas telas.

Grupo IV “The ten largest” n.1 – Childhood; e n.10 Old age – 1907

 

Assim, são temas de suas pinturas as descobertas científicas, as fases da vida, a natureza, a evolução e as dualidades, como masculino e feminino, espírito e matéria. Dedicou, por exemplo, uma série aos átomos, e outra para retratar diversas religiões, numa linguagem que sugere uma espécie de “matéria comum”, forte influência da teosofia. Reproduzimos algumas das pinturas dessas séries aqui.

The Atom Series, No. 1;  e No. 8 – 1917

No. 2a, The Mahatmas Present Standing Point; Buddhas Standpoint in the Earthly Life No. 3; e No. 3C, The Mohammedan Standpoint – 1920

 

A busca de Hilma por alcançar compreensões profundas sobre a vida, o mundo e a realidade, sobre o visível e o invisível a partir de uma perspectiva da espiritualidade é uma das coisas que a une aos artistas do movimento abstracionista europeu do início do século XX. Wassily Kandinsky, por exemplo, considerado e autodeclarado precursor da pintura abstrata, publicou o notório ensaio “Do espiritual na arte” em 1912, além de que mantinha contato com a Teosofia e a Antroposofia e da participação em rituais pagãos russos; o pintor checo František Kupka, assim como af Klint, interessou-se pelo tema do ocultismo, era médium e se comunicava com espíritos; e Piet Mondrian foi membro da Sociedade Teosófica Holandesa.

Seus quadros – muitos com grandes dimensões – possuem cores vibrantes, cheios de formas geométricas, florais, espirais, juntamente a, por vezes, letras e palavras criadas, símbolos retirados de diferentes religiões e de outros sistemas de conhecimento. Apesar de haver semelhanças entre suas obras e as dos abstracionistas mais conhecidos, é possível notar, por exemplo, uma presença maior de elementos e representações da natureza, como aves, árvores, folhas e flores. Mas o que distingue Hilma desses nomes talvez seja mais do que a identidade autoral e originalidade indiscutíveis de seus quadros. Devido à sua condição de mulher, construiu sua jornada de maneira solitária e reservada; salvo as influências já mencionadas da teosofia, antroposofia e outros, pouco se sabe acerca de suas influências artísticas. Nesse sentido, ela esteve fora do movimento abstracionista, sem manter diálogo ou contato com pintores e curadores de arte que juntos tiveram, também, a espiritualidade e dissolução do real como tema de suas obras e marcaram o movimento vanguardista do abstracionismo.

Série SUW/UW, Grupo IX/SUW, The Swan, No. 8; e Série SUW/UW, Grupo IX/SUW, The Swan, No. 9 – 1915

 

De um lado, nos parece haver um movimento de “reescrita” da história da arte, de modo a incluir Hilma af Klint como uma, senão a, pioneira do abstracionismo – algo que talvez encontre ressonância na reivindicação de maior reconhecimento a tantas mulheres artistas que foram apagadas de uma história escrita por homens – europeus, é preciso marcar. No documentário “Beyond the visible”, lançado ao final de 2019, não parece ser à toa a forte  presença feminina nas historiadoras da arte que comentam sobre Hilma e seu trabalho. Além disso, a atenção dada ao fato de que ser uma mulher colocou desafios tanto em sua trajetória profissional e artística quanto espiritual põe o tema em destaque.

Por outro, a grande repercussão que a “descoberta” recente de Hilma pareceu ter no mundo ocidental – o que parece coincidir em alguma medida com a previsão de que suas pinturas só seriam compreendidas e apreciadas num momento posterior ao qual ela viveu – revela alguns ecos das reflexões que organizaram o movimento abstracionista no mundo contemporâneo. A elaboração de exposições e as discussões, tanto no mundo da arte quanto no mundo da ciência, sobre a dimensão da vida humana entendida como espiritualidade, não é algo tão recente nem raro. Ao contrário, como temos discutido ao longo da realização da pesquisa Espiritualidade Institucionalizada, é algo que acompanha e constitui o próprio processo de modernização das sociedades ocidentais, com variações e especificidades locais.

Em sua constante pesquisa sobre o visível e o invisível, sobre diversas formas de conhecimento e de crenças, assim como numa tentativa de retratar e comunicar aquilo que lhe era mostrado por guias espirituais, Hilma parece ter sido capaz de sensibilizar a atenção de um grande público que veio a conhecê-la nos últimos anos, assim como de mobilizar uma intensa tentativa de reconstrução desse capítulo da história da arte europeia. Se a modernidade significou o desencantamento do mundo pela compreensão da realidade do ponto de vista científico, na mesma medida ganhou força o tema da espiritualidade e as buscas por descrever e retratar o espiritual. Nas mais de mil pinturas e mais de vinte e cinco mil páginas de anotações, ainda há muito o que ser explorado nessa fascinante e inspiradora figura que por tanto tempo permaneceu desconhecida. A extensa obra de Hilma af Klint aparece como mais um elemento para se refletir sobre a modernidade e os cruzamentos de interesses e práticas humanos. De toda forma, seus desenhos, pinturas e estudos conseguem nos levar a outros lugares que não aquele em que nos encontramos.

Tree of Knowledge, No. 5 (1915); e The Evolution, No. 10 (1908)

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Imagem destacada:

Group V, The Seven-Pointed Star, No. 1 (1908) by Hilma af Klint

Referência Fílmica:

“Beyond the visible – Hilma af Klint”. Direção: Halina Dyrschka. Suécia, 2019 (1h 35m).

 

Espiritualidade e arte – imagens do site

Espiritualidade e arte – imagens do site

By Rodrigo Toniol in Crônicas de pesquisas on janeiro 16, 2019

Não passará desapercebido pelo leitor deste site o uso de obras de arte para ilustra-lo. Invariavelmente, as referências são pinturas modernas, como é o caso da imagem da capa do site, uma obra de Arthur Dove, e a inspiração da qual se originou o logo, dos trabalhos de Kandinsky. Além de razões pragmáticas, a opção por fazê-lo está relacionada com a relação entre a noção de espiritualidade, que tematiza este projeto, e a própria consolidação da modernidade. As imagens aqui mobilizadas refletem essa relação, que no campo da história da arte tem sido evidenciada já há bastante tempo.

Em dezembro de 1911, Waissily Kandinsky publicou o texto Do espiritual na arte, um ensaio capital para os movimentos artísticos do século XX. O artista russo, pioneiro do abstracionismo no Ocidente, exorta nesse livro a capacidade singular da literatura, da música e da pintura de captar e expressar o ser espiritual das coisas. Numa de suas célebres passagens, Kandinsky escreveu: “A forma, mesmo abstrata, geométrica, possui seu próprio som interior, ela é um ser espiritual, dotado de qualidades idênticas as dessa forma. Um triângulo é um ser. Um perfume espiritual que lhe é próprio emana dele” (2000:75).

Na arte abstrata, há uma centralidade atribuída à forma. Esse privilégio da forma, no entanto, não está expresso, como no realismo, pelos traços que buscam reproduzir com perfeição a realidade visível e superficial das coisas. Pelo contrário, a qualidade da forma que interessa aos abstracionistas é aquela velada e, ao mesmo tempo, manifesta, pela superfície. É por isso que, por exemplo, Kandinsky trata do triângulo a partir de sua forma interior (ou de seu perfume espiritual) e não da geometria de sua superfície exterior (as três retas que o compõem). A obra reproduzida acima, Primeira aquarela abstrata, é uma pintura de formas interiores. Tal fidelidade à interioridade da forma também mobilizou o pintor abstrato holandês Piet Mondrian que, quatro anos depois da publicação do ensaio de Kandinsky, afirmou: “para uma abordagem espiritual na arte, é preciso usar menos realidade possível, porque a realidade é oposta ao espiritual” (Fingesten 1961:3).

No início do século XX, o abstracionismo, um dos principais sinais da modernidade ocidental, encarnou o “espiritual” como um de seus elementos centrais. Se esse pode ser um fato inesperado para quem analisa as transformações modernas da vida na Europa do século XIX e XX nos termos da “desmistificação”, para os pesquisadores deste projeto, essa é apenas mais uma das demonstrações de que a espiritualidade não é uma forma marginal de resistência à modernidade secular, mas é parte do próprio projeto moderno, sendo, a emergência do termo, um de seus índices e uma chave fundamental para compreendê-lo.

Não foram poucos os autores que sublinharam a importância da espiritualidade para as ideias e conceitos de alguns dos artistas pioneiros na arte abstrata – além de Kandinsky e Mondrian, outros pintores como Frantisek Kupta e Kazimir Malevich também foram explícitos sobre seus interesses em retratar o ser espiritual das coisas em suas obras (Fingesten 1961; Tuchman et al. 1986).

Tão importante quanto esses textos, é um conjunto crescente de exposições que têm sido montadas em museus de todo mundo e que abordam essa relação. A última delas que merece destaque foi montada em Paris, em 2017, no Musée D´Orsay, em parceria com l’Art Gallery of Ontario de Toronto, intitulada “Au-delà des étoiles. Le paysage mystique de Monet à Kandinsky”.

Antes delas, porém, outras quatro exposições que também exploraram essa relação: 

1 – Van Gogh et la naissance du cloisonisme

2 – Le nord mystique: le paysage symboliste dans la peinture de l´Europe du Nord et de l`Amerique du Nord, 1890-1940

  Ambas organizadas pela L´Art Gallery of Ontario, no Canadá. A primeira em 1981 e a segunda em 1984

3 – Turner, Whistler e Monet: visions impressionnistes

Montada na Tate Gallery, em Londres, entre 2004 e 2005.

4 – De Van Gogh à Kandinsky. Le paysage symboliste en Europe, 1880-1910

Que circulou em diferentes museus e galerias da Europa.

Ao longo dos próximos meses traremos outras referências deste diálogo entre ciências sociais e arte, endereçado às relações entre modernidade e espiritualidade.

 

Referências

FINGESTEN, Peter. (1961), “Spirituality, mysticism and non-objective art”. Art Journal, vol. 21, nº 1: 2-6. 

KANDINSKY, Wassily. (2000),Do espiritual na arte e na pintura em particular. São Paulo: Martins Fontes. 

TUCHMAN, Maurice et al. (1986), The spiritual in art: abstract painting 1890-1985. Los Angeles: Los Angeles County Museum of Art.