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Processos de produção e transmissão de significados na construção do ethos yóguico e meditativo

Processos de produção e transmissão de significados na construção do ethos yóguico e meditativo

By admin in Dossiê Yoga e Meditação on julho 21, 2020

Apresentação do Dossiê Yoga e Meditação

Por Cecilia Bastos

Historicamente, o yoga moderno foi “inventado” a partir de uma globalização inicial, sendo tanto “ocidental” quanto neo-hindu (Altglas 2007) em sua bricolagem de elementos da terapia médica, do ascetismo hindu, de um tipo de “ginástica militar” e de um novo estilo de preparação física aliada à respiração (Singleton 2005). Essa diversidade não implica apenas a existência de diferentes tradições e cosmovisões, mas envolve uma relativização na qual a bricolagem faz sentido para o praticante. Um criativo movimento de incorporação de valores e elementos esotéricos se inscreve em diferentes técnicas e rituais que são interpretados a cada prática e pelos usos e sentidos atribuídos pelos praticantes (Capelini 2017).

Em meio a performances e rituais compartilhados, as técnicas corporais yóguicas e meditativas introjetam valores que se constroem em referência ao corpo e à mente. A partir disso, surgem novas configurações da construção corporal que apontam para uma dimensão na qual a subjetividade é ressaltada (Heelas & Woodhead 2005, p. 2-3). Praticantes fazem yoga não só por acreditarem que seja bom para a saúde física e mental (De Michelis 2005, p. 257), mas também por consistir num processo de autotransformação – muitas vezes sublinhado pelo vegetarianismo e pela preocupação com os direitos dos animais e do meio ambiente (Koch 2015). Os mais comprometidos parecem buscar essa mudança e adotar novas atitudes que contribuem na formação de seu “novo” self (Lucia 2018). 

A construção de um ethos yóguico se concretiza nas relações com a comunidade de praticantes, que elaboram suas identidades adotando novos conhecimentos, sistemas de valores, dietas, vestuário e visões de mundo (Bastos 2018). Uma elaboração que passa pelo engajamento não institucionalizado (Assis 2017, p. 95) baseado num processo de sacralização da tradição, dos mestres (Bizerril 2005, p. 92-3) e da própria comunidade de praticantes. Seus novos padrões de fala e comportamento envolvem a criação de um novo estilo de vida e habitus (Bourdieu 1983), que aponta para o que pode ser comparado a uma conversão religiosa, transformando suas subjetividades num processo gradual. 

A transformação do eu muitas vezes leva a um tipo de “devoção” yóguica (Hoffman 2002), um processo contínuo de aceitação de situações e eventos situados numa perspectiva em que cada ação é vista como uma forma de meditação que viabiliza a participação de uma agência mais abrangente (Bastos 2019b). Para muitos, os conceitos de karma e reencarnação oferecem uma maneira de olhar suas trajetórias como parte de um plano maior ou de uma “ordem cósmica”, através da qual a própria pessoa é vista como inerentemente conectada a um universo cósmico ou “mais que humano” (Ganguly 2018, p. 1039). Releituras de suas próprias trajetórias constituem maneiras de se construir identidades, que são significamente recriadas através de interconexões com o guru, com a natureza (Carvalho & Steil 2008) e com outros. Suas escolhas podem ser entendidas como resultantes de um esquema metafísico (Bastos 2019a), no qual narrativas de transformação fazem parte da reconstrução do eu como relacional e conectado. 

Pesquisas junto à praticantes desafiam a noção de que as práticas “orientalizantes” se baseiam num individualismo radical, como sugerido por Suzanne Newcombe (2005) e Colin Campbell  (2013, p. 83) e mostram que tais práticas não levam ao isolamento ou desengajamento, mas aproximam-se dos conceitos de participação, empoderamento (Oh & Sarkisian 2012) e holismo (Toniol 2017; Viotti 2018). A noção de livre-escolha também é colocada em xeque a partir de discursos de pessoas que foram “chamadas” à  Índia (Bastos 2016), a fazer yoga ou a um guru particular (Warrier 2005), ao mesmo tempo em que narrativas de conexão com uma vida prévia ou com o karma transcendem dicotomias analíticas como as de agência e estrutura, indivíduo e sociedade, livre-escolha e determinismo, subjetividade e objetividade (Wood 2010). Ao observar como essas tecnologias de si (Foucault 2004, p. 323-4) tornaram-se populares nos últimos anos, passando a ocupar cada vez mais espaços socioculturais, incluindo escolas, universidades, prisões, hospitais, entre outros, consideramos esse o momento oportuno para pensar essas noções. Abrimos este dossiê, portanto, para uma discussão das “dinâmicas de apropriação” dessas visões de mundo (Saizar 2018, p. 84), bem como dos processos de produção e transmissão de significados inerentes a essas práticas.

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Cecilia Bastos é doutora em Ciências Sociais pelo PPCIS da UERJ e pesquisadora em Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ. Coordenadora do Dossiê “Yoga e Meditação” do NUES. 

 

Referências 

ALTGLAS, Véronique (2007). The Global Diffusion and Westernization of Neo-Hindu Movements: Siddha Yoga and Sivananda Centres. Religions of South Asia 1, n. 2, p. 217–37.

ASSIS, Thaís (2017). Neo-hinduísmo carioca: um estudo sociológico sobre um grupo de vedanta. Dissertação (Mestrado em Antropologia e Sociologia) – Universidade Federal do Rio de Janeiro.

BASTOS, Cecilia (2016). Em busca de espiritualidade na Índia: os significados de uma moderna peregrinação. Curitiba: Editora Prismas.

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