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Pânico sentido:  um olhar sobre a (falta de) respiração no Transtorno de Pânico

Pânico sentido: um olhar sobre a (falta de) respiração no Transtorno de Pânico

By admin in Crônicas de pesquisas on maio 27, 2019

Giovanna Paccillo

Ao olhar para o mapa de distribuição espacial de transtornos mentais pelo globo, divulgado por uma reportagem de um jornal online em julho de 2018, vemos que a predominância dos transtornos de ansiedade se encontra, principalmente, no continente Americano. Em especial, uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2017, aponta o Brasil como o país que contém o maior número de diagnósticos de transtorno de ansiedade do mundo. Levando em conta esse fenômeno tão comum no país, focalizo um aspecto, hoje particular, do que chamamos de ansiedade: o transtorno de pânico, que acomete aproximadamente 3,5% da população brasileira.

O interesse pelo pânico se deve a sua definição e caracterização sintomática. Ele aparece, no DSM-V – o volume mais recente do manual de diagnósticos criado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) -, como um subgrupo do que é amplamente chamado de ansiedade. A especificidade da doença estaria na persistência e na imprevisibilidade dos ataques de pânico, que por sua vez são definidos como “(…) um surto abrupto de medo intenso ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos” e durante o qual ocorrem sintomas como: palpitações, coração acelerado, taquicardia; sudorese; tremores ou abalos; sensações de falta de ar ou sufocamento; sensações de asfixia; sensação de tontura, vertigem ou desmaio; calafrios ou ondas de calor; medo de perder o controle; e medo de morrer.

Ao mesmo tempo, considero que o diagnóstico é apenas uma configuração do transtorno de pânico, sendo possível encontrar outras formas de descrição que o articulam. Aqueles que desenvolvem o transtorno de pânico, não desenvolvem somente um “diagnóstico”, mas um processo novo e real de engajamento com o mundo completamente relacionado a essas sensações imprevisíveis, intensas e abruptas. Assim, o que está em jogo não parece se tratar unicamente da construção de uma doença específica calcada na repetição de sintomas determinantes – apesar de o ser também. Tendo isso em vista, o foco principal da pesquisa que venho desenvolvendo, é pensar as formas como o transtorno de pânico é vivenciado nas práticas cotidianas tanto de pacientes como também de médicos e pesquisadores; e centrando o olhar nos sintomas – mais especificamente a falta de ar, sufocamento e asfixia –, me interesso em saber quais as estratégias que pacientes se utilizam para lidar com tal situação.

O foco na (falta de) respiração tem alguns motivos. O primeiro deles é que, como a definição diagnóstica da doença é sintomática, os sintomas devem ser ponto de partida para um estudo do transtorno. O segundo tem a ver com a recorrência com que ela aparece não só nos relatos das crises, mas também nas estratégias cotidianas de pacientes. Se, por um lado, os outros sintomas são extremamente importantes para a identificação de uma crise e a conformação de um diagnóstico, por outro, a respiração parece ser o meio pelo qual tratamentos e pesquisas são mais facilmente articulados. Não são raros os relatos de pessoas que recorreram a terapias e exercícios específicos como pilates, aromaterapia, yoga, mindfullness, etc., para controlar seus sintomas – envolvendo uma complexa relação entre exercícios, respiração e espiritualidade. E mais: o controle e a técnica da respiração não somente é utilizada em seu tratamento, mas também em pesquisas sobre a doença. O terceiro motivo diz respeito à existência de núcleos de pesquisa dedicados ao tema, como o Laboratório de Pânico e Respiração (LABPR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Esses grupos vêm se dedicando à investigação das relações estabelecidas entre o transtorno de pânico de modo geral, e a respiração em particular.

  Dessa forma, meu foco na respiração tem como aposta a articulação que essa sensação e (por vezes) sintoma tem com as três dimensões relatadas aqui: a clínico-diagnóstica; a fenomênica dos indivíduos; e a da pesquisa científica. Por fim, a escolha da arte que acompanha o texto tem a ver com um projeto de uma artista inglesa chamada Jayne Wilton, que tenciona explorar diferentes maneiras de capturar e tornar visível a respiração humana. A imagem escolhida, Breath etched onto copper plate, faz parte de sua exposição Breathe (2010 – 2014) – resultado de um longo período de pesquisa e colaboração com a equipe e os pacientes dos hospitais Harefield e Royal Brompton, na Inglaterra.