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Mindfulness: Meditação sem marco religioso

Mindfulness: Meditação sem marco religioso

By admin in Publicações on junho 24, 2020

Texto original de Nicolás Viotti para DIVERSA

Tradução por Giovanna Paccillo

Há algumas décadas a meditação, junto a outras técnicas de gestão de si englobadas na sensibilidade do alternativo New Age, vem se somando a recursos mais convencionais para lidar com o sofrimento. Com origem em tradições orientais hinduístas e budistas, a meditação se tornou uma técnica que gera fortes controvérsias sobre sua eficácia clínica, seu status religioso ou secular, e sobre seu impacto na sociedade.

Alguns críticos vêem na meditação uma expansão da religião e da espiritualidade no domínio médico-psicológico. A ameaça da “pseudociência”, sustentam, avançaria como uma sombra e se aproveitaria da credulidade de seus praticantes. Estudos sociais sobre o fenômeno assinalam que a meditação remete a um sem-número de técnicas incertas em versões ocidentalizadas e globalizadas do budismo e do hinduísmo desde pelo menos a década de 1960, mas também que faz parte de um processo de incorporação secular que reivindica estudos científicos de eficácia clínica que são frequentemente usados como critério de legitimação. O mindfulness, marca registrada e comercial do médico Jon Kabat-Zinn, estabeleceu-se como um paradigma da meditação “baseada em evidências”, desprovida de referências religiosas ou espirituais.

Longe da “pseudociência”, o mindfulness encarna a versão adaptada e científica da meditação. Sobre essa base conseguiu sair dos espaços estritamente espirituais e se consolidar em instituições de diversos tipos, tanto privadas quanto governamentais. Isso ocorreu porque, afinal, no espaço público de nossas sociedades a religiosidade segue ocupando um lugar subordinado e periférico. Os usos desses tipos de técnicas em empresas para melhorar o rendimento e transformar a “cultura do trabalho” é prática padrão há décadas. Também existe uma presença crescente no contexto educacional, hospitalar e prisional como formas de gerenciar o estresse e melhorar a convivência e a concentração, além de ser uma tecnologia de manejo de situações de tensão e conflito interinstitucional.

Ainda que, para alguns defensores das técnicas de meditação provenientes dos espaços mais espirituais e muitas vezes declaradamente contraculturais isso possa parecer uma aberração ou uma “traição”, deve-se interpretar isso como uma disputa sobre o sentido da meditação no próprio espaço daqueles que oferecem e se utilizam de seus benefícios. Por ora, da perspectiva de seus seguidores, esses sentidos são diversos e é difícil delimitar fronteiras claras entre o estritamente psicomédico e o espiritual, na medida em que as práticas podem ser encaradas como somente um exercício de concentração e redução do estresse, mas também podem ser um ponto de partida para outras buscas de transformação pessoal.

Outro aspecto controverso é o fenômeno sociocultural: a relação das práticas de meditação com o modo de vida que promovem. Alguns de seus críticos veem práticas de solidariedade com a cultura neoliberal. Para além de sua relação evidente com processos de ampla escala, ainda é necessário entender sua lógica específica, por que possui esse grau de eficiência social e como transforma o individualismo que organiza nossa vida social moderna. A ideia de indivíduo não parece ser definida apenas pelo “mundo interior” e que é preciso sondar para conhecer a si mesmo, como indicado pela psicanálise e outros recursos de auto-investigação, mas a ideia de um indivíduo plano, sem profundidade e em conexão com o ambiente que a meditação promove. 

Não há dúvidas que a ampla difusão dessas práticas acompanham uma transformação das sociedades ocidentais atuais e, eventualmente, modos dominantes de produzir subjetividades. No entanto, eles também tendem a acompanhar movimentos de insatisfação com a sociedade atual. Longe de ser a personificação do mal ou do bem, a meditação é uma linguagem e prática de época. Como, em outro momento, foi a psicanálise, e talvez, muito antes e de modo muito mais abrangente, foi a oração cristã. A promessa de emancipação “aqui e agora” ou a afirmação de um mundo injusto coexistem com cada expiração. O futuro dependerá, então, do que fazemos com ele.

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Nicolás Viotti é sociológo pela Facultad de Ciencias Sociales da UBA, e doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional (UFRJ). Hoje em dia é pesquisador do CONICET e administra aulas de ciências sociais na Universidad de San Martín (UNSAM) e na FLACSO – Argentina. É também parte da RED para el Estudio de la Diversidad Religiosa de Argentina e também editor da Revista Apuntes do CECyP.

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