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Espiritualidade na América Latina: agências globais e políticas públicas de saúde locais

Espiritualidade na América Latina: agências globais e políticas públicas de saúde locais

By admin in Crônicas de pesquisas on setembro 29, 2019

Por Lucas Bolonha

Como resoluções de agências globais de saúde são adotadas na oficialização de políticas públicas de saúde? Em políticas que tensionam a categoria espiritualidade, como é mobilizado o par espiritualidade e saúde? Como o contraste entre a política brasileira de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) e políticas de outros países latino-americanos revela uma parte da rede dessas relações?

Uma vez que meu projeto, incorporado no projeto “Espiritualidade institucionalizada”, repousa nos desdobramentos das questões apresentadas, busco mostrar como a noção de espiritualidade é formulada e contribuir para elucidar a cadeia de atores que fazem a rede de resoluções da Organização Mundial da Saúde (OMS) até políticas públicas de saúde locais possível. Além disso, me atento às requisições de uma análise que evoca América Latina, que implica também em construir um debate que foge daquele norte-atlanticêntrico e coloca a antropologia brasileira em diálogo com uma literatura até então restrita ao seu processo de internacionalização.

Meu problema de pesquisa é então constituído a partir do aumento progressivo que vem ocorrendo desde 1999 em âmbito global de países que oficializam o uso das terapias alternativas/complementares. No contexto latino-americano, o processo de oficialização dessas terapias encontra na constituição de políticas públicas de saúde a mobilização de duas categorias: medicina tradicional (MT) e medicina alternativa e complementar (MAC), e pode-se identificá-las a partir do público que têm acesso a elas.

Enquanto no Brasil as mobilizações realizadas são aquelas da categoria MAC que tem abrangência universal de acesso à população, em outros países do continente as mobilizações foram referentes à categoria MT em que as terapias têm seu público de acesso restrito. Essas políticas públicas encontram legitimidade via global nas resoluções da  Organização Mundial da Saúde, principalmente naquela em que espiritualidade é difundida como uma dimensão da saúde humana. Nesse sentido, entende-se que a categoria espiritualidade é acionada na oficialização das terapias alternativas/complementares, sendo mobilizada de diferentes maneiras para atingir objetivos específicos, seja de interculturalização ou de universalização.

Se reconhecer as políticas públicas de saúde que oficializam as práticas integrativas/complementares no Brasil e o entrelace dessa política com as resoluções da OMS já revela uma ampla parte da cadeia de atores e da mobilização das categorias espiritualidade e saúde, observá-las em contraste com outros países da América Latina aumenta ainda mais este espectro da rede e este modo próprio de articulação do continente. Nesse sentido, busco contribuir para maiores formulações, já que a pesquisa permite o contraste tanto da mobilização da própria categoria, quanto de outros alinhamentos para as mesmas resoluções globais.

Para dar conta dessa análise, tomo como apostas os países que se destacam na elaboração de políticas públicas de saúde no continente latino-americano: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia e Uruguai. Contudo, enfatizo que esses países são tanto uma aposta quanto um ponto de partida. Ou seja, meu interesse não recai especificamente sobre eles, mas os toma como porta de entrada visto que são referência na elaboração políticas de saúde e no acesso a elas, bem como são produtores de modelo para o restante do continente.

Por fim, para fechar esta breve apresentação sobre meu tema de pesquisa, apresento meus procedimentos analíticos, que estão sendo pensados divididos em três movimentos. O primeiro diz respeito à construção do banco de dados de políticas voltadas para a inscrição de MT/MAC em sistemas oficiais de saúde, buscando, quando necessário, documentos ainda não digitalizados. O segundo é o de comparação dessas políticas, em que irei me apropriar da literatura das ciências sociais que diz respeito sobre comparação de políticas, ensejando contribuir para o debate acerca de um continente ainda pouco explorado e de articulação específica. O terceiro e último movimento é a realização de entrevistas com os agentes que participaram da elaboração dessas políticas, para assim obter informações da articulação empregada da categoria espiritualidade, bem como as tensões implicadas na escolha.

Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro

Fé faz bem: a presença da espiritualidade no mercado editorial brasileiro

By admin in Crônicas de pesquisas on setembro 17, 2019

Por Isabela Mayumi

Em junho de 2001, a Revista Veja publicou a matéria “Em busca de Deus”, discorrendo acerca das tentativas dos cientistas de romper as barreiras entre a fé e a ciência. Em fevereiro de 2007, a Revista Galileu publicou “O monge cientista”, focalizando o interesse do 14º Dalai Lama pela ciência como um método complementar ao budismo na busca pela verdade. Anos depois, em novembro de 2013, a revista de curiosidades científicas SuperInteressante publicou “Fé faz bem” e, no mês seguinte, a Revista Saúde É Vital publicou “Fé pode (mesmo) curar”.

Essa sucessão de publicações em revistas de circulação nacional não são as únicas que trouxeram à tona o eixo temático “saúde-espiritualidade-ciência”, e podem ser compreendidas como desdobramentos de um movimento que vem se consolidando há algumas décadas, explorado nas pesquisas que compõem o projeto “Espiritualidade Institucionalizada”. Das pesquisas médico-científicas até a formulação de políticas públicas voltadas à saúde, perpassando a literatura médica e documentos oficiais, é notável um crescente reconhecimento da associação entre espiritualidade e saúde.

Dialogando com este contexto, minha pesquisa buscará analisar os textos de divulgação científica em revistas e jornais brasileiros que veiculam a espiritualidade como um fator positivo à saúde ao chamado “público leigo”. Essas publicações são dedicadas a, por um lado, difundir as pesquisas médico-científicas que dizem respeito aos benefícios da espiritualidade para a saúde e, por outro, positivar a fé no atual cenário brasileiro. Numa breve análise inicial, há uma certa demanda desses textos, algo que pode ser explicado pelo fato de que cada indivíduo pode constituir sua experiência espiritual ao passo do detrimento da adesão a uma prática religiosa institucionalizada.

Como o consumo por parte desse público pode, de alguma maneira, auxiliar na legitimação dos benefícios da espiritualidade à saúde? Quais são os recursos acionados na elaboração de tais textos, sobretudo no mercado editorial brasileiro? E, ademais, quais são as consequências da formulação da espiritualidade como uma questão de saúde? Qual é o trajeto de uma pesquisa, conduzida em uma universidade, até a produção de sua versão de popularização? Quais são os temas mais recorrentes nessas publicações? Quem e quais instituições estão por trás desse fenômeno de popularização? Como isso tem se estabelecido no mercado editorial brasileiro? É através destes questionamentos que pretendo desenvolver minha pesquisa.

Espiritualidade, ciência e saúde são temas-chave identificáveis em passagens de livros e outras mídias, porém as publicações em revistas e jornais no mercado editorial brasileiro se caracterizam, precisamente, pela sua natureza secular. É necessário que haja um especial cuidado para que essas publicações não se confundam com obras de literatura religiosa, bastante consumidas no Brasil, em que a cena religiosa é marcada pelo crescimento evangélico e por outras expressões de fé, embora a maioria da população seja católica. Assim, é preciso compreendermos os mecanismos de divulgação e transmissão de informações dessas publicações, num arranjo ainda provisório e em construção.

Espiritualidade Política

Espiritualidade Política

By admin in Uncategorized on agosto 30, 2019

No mês de agosto, Rodrigo Toniol, coordenador do projeto de pesquisa “Espiritualidade Institucionalizada”, publicou uma resenha crítica do livro “O Enigma da Revolta”. Disponibilizamos aqui os links para o texto em sua versão em português, publicada no Jornal O Estado de São Paulo, e em castellano, publicada no blog da Red Diversa. Também mencionamos uma entrevista realizada com Toniol sobre o tema, publicada pelo Instituto Humanitas, da Unisinos.

Texto em português – https://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/espiritualidade-politica-e-nossa-imaginacao-de-outros-futuros/

Texto em castellano – http://www.diversidadreligiosa.com.ar/blog/foucault-y-la-espiritualidad-politica/?fbclid=IwAR21SH5s5MQAlci169ZrdLzDzWY6KvVBIdeGVdtoyilhomUXeT53sp5hOGM

Entrevista – http://www.ihu.unisinos.br/592089-espiritualidade-politica-e-a-possibilidade-de-outros-futuros-entrevista-especial-com-rodrigo-toniol

Entre espiritualidade e ciência: debates e disputas

Entre espiritualidade e ciência: debates e disputas

By admin in Uncategorized on agosto 19, 2019

Por Luciana Cavalcanti

O termo “espiritualidade” se revela extremamente amplo e de difícil definição, sendo muitas vezes associado a um distanciamento das pessoas das instituições religiosas, por um lado e, por outro, a uma ênfase na valorização da dimensão subjetiva da experiência do sagrado ou do transcendente. Além disso, esse termo tem se mostrado relevante para a medicina e a ciência em geral, sendo frequentemente mobilizado, em uma tendência mundial de atenção a esse tema pelo viés da saúde e do bem estar. No entanto, o caráter abrangente e pouco delimitado da palavra torna muito complexas as discussões sobre o seu uso no campo da saúde.

Como tem sido observado por nosso grupo, nos diversos projetos que compõem a pesquisa “Espiritualidade Institucionalizada”, é marcante a percepção de agentes e instituições da área da saúde (internacionais e nacionais) de que a espiritualidade constitui uma dimensão da saúde humana, sendo que, em geral, essa categoria é mobilizada como um fator positivo para o bem estar.

Complementarmente às pesquisas em andamento do NUES, preocupadas em identificar o crescente uso da categoria nos campos da clínica médica, das políticas públicas e pesquisas científicas na área da saúde no Brasil, que associam a “espiritualidade” como um fator de maior saúde, pretendo olhar para o papel de uma ciência que adota o lugar do ceticismo e contesta os desdobramentos dessa tendência observada.

Para isso, acompanharei a atuação do Instituto Questão de Ciência (IQC), uma instituição de divulgação científica inaugurada no final de 2018, na cidade de São Paulo, e que declara ter como missão lutar para que as políticas públicas do país tenham embasamento científico, combatendo, assim, o desperdício de dinheiro público. Quero atentar-me ao discurso adotado pelo Instituto, tentando identificar os possíveis elementos de um certo cientificismo que é mobilizado para criticar aberta e duramente diversos tipos de terapias alternativas, como a homeopatia e o reiki, colocadas pelo IQC num mesmo grupo junto a diversas outras, sob a denominação de “pseudociências”.

Num rápido percorrido pela revista online do instituto, é possível identificar uma defesa obstinada da importância das evidências e comprovações científicas para as questões de saúde e para a vida pública de uma maneira geral, como forma de tornar as políticas e os investimentos públicos válidos. Terei como foco, portanto, os debates que tomam lugar a partir das contestações que a Ciência com C maiúsculo faz a algumas práticas que, de certa forma, são consequência da ideia de que “espiritualidade faz bem para a saúde”, mas não só, como é o caso de terapias que simplesmente se baseiam em outros sistemas de conhecimento.

Nesse sentido, baseada na perspectiva teórica da controvérsia, pretendo analisar as discussões que se produzem entre o IQC e os diversos agentes envolvidos, tais como os cidadãos que usam esses tratamentos, terapeutas, biólogos, médicos, físicos, jornalistas, a opinião pública, políticos e políticas públicas e, agora, antropólogos. Tais atores se mobilizam em debates sobre a efetividade das terapias alternativas e os seus processos de institucionalização, seja no sistema de saúde ou no apoio a pesquisas. A controvérsia também toca a questão da validade ou da legitimidade desses tratamentos, questionados por um olhar científico, acabando por levar a disputas sobre o que deve orientar o investimento público, sendo, assim, esse tema de interesse social.

Em um contexto político de ataques direcionados à ciência e à educação, assim como de desmonte da máquina pública e de cortes em outras áreas, o papel da divulgação científica mostra-se importante pelo seu caráter informativo, desmistificador e contestador. No entanto, me parece necessário, e é isso que pretendo fazer em minha pesquisa, atentar-se para o lugar dos debates e disputas, intrínsecos a uma realidade que se mostra plural e, muitas vezes, contraditória.

Colóquio Internacional Religião e Corporeidade

Colóquio Internacional Religião e Corporeidade

By admin in Novidades on agosto 6, 2019

Entre os dias 24 e 26 de setembro o PPGAS/Unicamp receberá a visita do Professor Thomas Csordas. A vinda de Csordas é apoiada pela Fapesp, por meio do projeto de pesquisa Espiritualidade Institucionalizada, e também servirá como mote para a realização do Colóquio Internacional Religião e Corporeidade.

O colóquio terá como atividades principais um seminário de oito horas ministrado por Csordas, apresentação e debate de trabalhos e uma mesa redonda final. Veja abaixo o detalhe da programação e as instruções para submissão de proposta de trabalho.

24/09 (manhã/tarde) – Seminário com Thomas Csordas

25/09 (manhã) – Apresentação de trabalhos

26/09 (manhã) – Apresentação de trabalhos

           (tarde) – Mesa redonda de encerramento

Serão selecionados 6 trabalhos para apresentação e debate. Os trabalhos devem ser submetidos em forma de resumos (em português e inglês – até 200 palavras ), enviado para o email: [email protected], até o dia 21 de agosto.

Para mais informações, enviem email para [email protected]

Religious Matters in Public Space

Religious Matters in Public Space

By admin in Novidades on agosto 2, 2019

Em maio deste ano, por ocasião da visita de Birgit Meyer à Unicamp, realizamos uma série de atividades no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. A visita de Meyer estava associada ao lançamento do livro Como as coisas importam. Um abordagem material da religião. Naquela semana, ela também proferiu a aula inaugural do PPGAS, que agora disponibilizamos aqui em forma de vídeo.

 

The State and spiritual/religious healing processes in contemporary societies

The State and spiritual/religious healing processes in contemporary societies

By admin in Novidades on junho 19, 2019

Entre os dias 9 e 12 de Julho ocorrerá, em Barcelona, o Encontro da Sociedade Internacional de Sociologia da Religião. Na ocasião, Thomas Csordas, Olga Odgers Ortiz, Olga Olivas Hernández e Rodrigo Toniol, coordenarão o painel “The State and spiritual/religious healing processes in contemporary societies”, cujo resumo está descrito abaixo. Essa atividade marcará o início de uma aproximação de Thomas Csordas com o Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp e, particularmente, com o grupo do projeto de pesquisa Espiritualidade Institucionalizada, divulgado neste site. Em setembro deste ano, Csordas passará uma temporada conosco. Nas próximas semanas faremos o anúncio do evento que estamos preparando.

Para quem quiser se familizarizar com o pensamento desse autor, recomendamos a leitura desta entrevista recentemente publicada (clique aqui).  

The State and spiritual/religious healing processes in contemporary societies

This thematic session has the aim to discuss the relations between the State, alternative health practitioners, and the users of their services. Unconventional ways of treatment are in some cases
perceived with skepticism and rejected by the State, in some others are seen as complementary forms of treatment and in unique cases are integrated into the official health systems. In the first
case, the purpose is to analyze the mechanisms and statements underlying the disapproval of alternative health practices. In the second one, the objective is to understand the complementary
perspectives on health treatments and their development. In the latter case, the idea is to discuss the State role either referring specific health problems to alternative forms of treatment or integrating them into the official health system. The multiple ways of analyzing this topic include at the micro level, the focus on health services users who combine spiritual, religious and clinical practices, at an intermediary level, the tensions or agreements in between health practitioners, and at the macro level, the State regulation among religious and medical fields in terms of health. Therefore, this session has the goal to provide a setting to discuss anthropological, sociological and political works analyzing the State positions in the face of religious and spiritual healing processes, and its impact in the understanding and caring of health/illness conditions in contemporary societies.

Pânico sentido:  um olhar sobre a (falta de) respiração no Transtorno de Pânico

Pânico sentido: um olhar sobre a (falta de) respiração no Transtorno de Pânico

By admin in Crônicas de pesquisas on maio 27, 2019

Giovanna Paccillo

Ao olhar para o mapa de distribuição espacial de transtornos mentais pelo globo, divulgado por uma reportagem de um jornal online em julho de 2018, vemos que a predominância dos transtornos de ansiedade se encontra, principalmente, no continente Americano. Em especial, uma pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2017, aponta o Brasil como o país que contém o maior número de diagnósticos de transtorno de ansiedade do mundo. Levando em conta esse fenômeno tão comum no país, focalizo um aspecto, hoje particular, do que chamamos de ansiedade: o transtorno de pânico, que acomete aproximadamente 3,5% da população brasileira.

O interesse pelo pânico se deve a sua definição e caracterização sintomática. Ele aparece, no DSM-V – o volume mais recente do manual de diagnósticos criado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) -, como um subgrupo do que é amplamente chamado de ansiedade. A especificidade da doença estaria na persistência e na imprevisibilidade dos ataques de pânico, que por sua vez são definidos como “(…) um surto abrupto de medo intenso ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos” e durante o qual ocorrem sintomas como: palpitações, coração acelerado, taquicardia; sudorese; tremores ou abalos; sensações de falta de ar ou sufocamento; sensações de asfixia; sensação de tontura, vertigem ou desmaio; calafrios ou ondas de calor; medo de perder o controle; e medo de morrer.

Ao mesmo tempo, considero que o diagnóstico é apenas uma configuração do transtorno de pânico, sendo possível encontrar outras formas de descrição que o articulam. Aqueles que desenvolvem o transtorno de pânico, não desenvolvem somente um “diagnóstico”, mas um processo novo e real de engajamento com o mundo completamente relacionado a essas sensações imprevisíveis, intensas e abruptas. Assim, o que está em jogo não parece se tratar unicamente da construção de uma doença específica calcada na repetição de sintomas determinantes – apesar de o ser também. Tendo isso em vista, o foco principal da pesquisa que venho desenvolvendo, é pensar as formas como o transtorno de pânico é vivenciado nas práticas cotidianas tanto de pacientes como também de médicos e pesquisadores; e centrando o olhar nos sintomas – mais especificamente a falta de ar, sufocamento e asfixia –, me interesso em saber quais as estratégias que pacientes se utilizam para lidar com tal situação.

O foco na (falta de) respiração tem alguns motivos. O primeiro deles é que, como a definição diagnóstica da doença é sintomática, os sintomas devem ser ponto de partida para um estudo do transtorno. O segundo tem a ver com a recorrência com que ela aparece não só nos relatos das crises, mas também nas estratégias cotidianas de pacientes. Se, por um lado, os outros sintomas são extremamente importantes para a identificação de uma crise e a conformação de um diagnóstico, por outro, a respiração parece ser o meio pelo qual tratamentos e pesquisas são mais facilmente articulados. Não são raros os relatos de pessoas que recorreram a terapias e exercícios específicos como pilates, aromaterapia, yoga, mindfullness, etc., para controlar seus sintomas – envolvendo uma complexa relação entre exercícios, respiração e espiritualidade. E mais: o controle e a técnica da respiração não somente é utilizada em seu tratamento, mas também em pesquisas sobre a doença. O terceiro motivo diz respeito à existência de núcleos de pesquisa dedicados ao tema, como o Laboratório de Pânico e Respiração (LABPR) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Esses grupos vêm se dedicando à investigação das relações estabelecidas entre o transtorno de pânico de modo geral, e a respiração em particular.

  Dessa forma, meu foco na respiração tem como aposta a articulação que essa sensação e (por vezes) sintoma tem com as três dimensões relatadas aqui: a clínico-diagnóstica; a fenomênica dos indivíduos; e a da pesquisa científica. Por fim, a escolha da arte que acompanha o texto tem a ver com um projeto de uma artista inglesa chamada Jayne Wilton, que tenciona explorar diferentes maneiras de capturar e tornar visível a respiração humana. A imagem escolhida, Breath etched onto copper plate, faz parte de sua exposição Breathe (2010 – 2014) – resultado de um longo período de pesquisa e colaboração com a equipe e os pacientes dos hospitais Harefield e Royal Brompton, na Inglaterra.

Religião e espiritualidade em diagnósticos psiquiátricos

Religião e espiritualidade em diagnósticos psiquiátricos

By admin in Crônicas de pesquisas on maio 12, 2019

Por Lucas Baccetto

Desde ao menos a década de 1980, discussões em torno da importância de fenômenos religiosos e/ou espirituais para a psiquiatria tornaram-se recorrentes na literatura acadêmica da área. Em especial, chama a atenção o enfoque dado pelos autores em oposição ao que eles entendem como uma histórica e sistemática negligência por parte de sua disciplina em relação a esses temas. Em resposta a isso, uma extensa agenda de investigação foi posta em movimento a partir de diversas frentes e em universidades situadas ao redor de todo o globo. Como as pesquisas de nosso grupo têm apontado, o enunciado “espiritualidade é saúde” vem se tornando uma espécie de “pedra basilar” nas pesquisas das ciências médicas sobre o tema, sendo repetido com pequenas modulações e atuando como referencial para a criação de políticas públicas de saúde no Brasil e em diversos outros países.

Embora a maior parte dos esforços desses pesquisadores esteja direcionada à comprovação dessa máxima terapêutica – que liga um maior fator de espiritualidade a uma melhor condição de saúde –, uma outra dimensão dos estudos médicos sobre religião e espiritualidade tem retido a atenção dos psiquiatras: e quando a religião e/ou a espiritualidade fazem mal à saúde? Aqui, o empenho central dos pesquisadores se dá na disputa pela criação de novas categorias diagnósticas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), um importante guia de diagnósticos de autoria da Associação Americana de Psiquiatria (APA). Para tanto, a categoria antropológica “cultura” tornou-se fundamental na construção das reivindicações feitas por esses psiquiatras, passando a ser mobilizada constantemente junto às propostas de novos diagnósticos sobre os temas.

A quarta edição do DSM, lançada em 1994, foi um momento de inflexão nessa recente história. As discussões em torno de sua elaboração contaram com duras críticas feitas por um conjunto de psiquiatras que vinham apontando para um possível caráter “biologizante” que o manual havia assumido em sua edição anterior. Parte substancial dessas críticas se deram a partir do que se convencionou chamar de “psiquiatria transcultural” e da “nova psiquiatria intercultural”, e diziam respeito à falta de atenção que o manual dava à “cultura”. Junto à inclusão no DSM-IV de algumas das reivindicações desse grupo, dois novos diagnósticos também foram incluídos: “transtorno de transe dissociativo” e “problemas religiosos ou espirituais”.

A partir desse quadro, minha pesquisa está interessada em saber como esse movimento de sensibilização a aspectos “culturais” no DSM foi essencial para a inclusão desses dois diagnósticos. Além disso, importa saber quais os efeitos que acarretam dessa associação entre “cultura” e “religião/espiritualidade”. Qual a relação estabelecida entre esses termos? Estariam a religião e a espiritualidade marcadas como dois casos particulares dentre tantos aspectos daquilo que compõe e varia entre as “culturas”?

Anamnese espiritual

Anamnese espiritual

By admin in Crônicas de pesquisas on abril 18, 2019

Aidan Valentina Fongaro

Iniciada em janeiro deste ano, esta pesquisa está interessada em acompanhar um elemento específico da intersecção entre espiritualidade e saúde, a Anamnese Espiritual. Constantemente mobilizada por médicos e psiquiatras para avaliar os potenciais efeitos clínico da espiritualidade nas condições dos pacientes, ela é um desdobramento da atenção que a área de saúde vem demonstrando, desde o final do século XX, pela dimensão espiritual do indivíduo. E ao passo que se desenvolveram pesquisas explorando estes possíveis efeitos, aos poucos estão se estruturando protocolos clínicos para capacitação dos profissionais de saúde. Protocolos que visam acessar a espiritualidade de cada paciente e manejá-la de maneira proveitosa para o tratamento de sua saúde.

Anamnese é o nome dado à entrevista realizada pelo médico com seu paciente para que o profissional da saúde possa conhecer um pouco de sua realidade e de sua condição. Assim ele pode apontar um possível diagnóstico e um tratamento adequado. Essa anamnese em especial foi desenhada para que logo nos primeiros contatos já se possa entender, com o consentimento do paciente, como se desenha sua espiritualidade e/ou religiosidade e que impacto essas categorias possuem em sua vida. É a partir dessa primeira entrevista que os profissionais de saúde podem pensar em maneiras de fazer presente a espiritualidade do paciente ao longo de seu tratamento. Isso pode se dar de maneira direta, através de técnicas desenvolvidas e aplicadas pela equipe de saúde ou de maneira indireta, quando se fornece o espaço adequado para que o paciente se trabalhe e se conecte com sua própria espiritualidade e suas questões pessoais.

A cada momento descubro novos materiais bibliográficos a respeito de como e de onde se desenvolve e se estabelece enquanto um protocolo clínico a Anamnese Espiritual. E o processo de me apropriar desse material será perene principalmente porque essa é uma característica de sua produção. Mas conforme me familiarizo com ele consigo desenhar as pistas para uma observação direcionada para analisar os efeitos da presença da Anamnese Espiritual nos hospitais e clínicas.

Existem várias pesquisas apontando efeitos positivos para os pacientes quando proporcionada atenção para sua espiritualidade (sendo a Anamnese Espiritual imprescindível para que isso se dê de maneira apropriada) mas também existem vários testemunhos de enfermeiros e médicos sobre o desconhecimento de técnicas e o despreparo para mobilizar espiritualidade de maneira eficiente.

Espero me deparar, e me preparo para analisar de maneira pertinente, tanto a aplicabilidade da Anamnese Espiritual quanto a possível resistência à sua aplicação. Além disso, que relação é estabelecida entre a instituição de saúde e seus profissionais com seus pacientes e suas diferentes concepções de espiritualidade? Que reação desperta nos profissionais de saúde quando se deparam com certas questões pessoais de cada paciente que até então se mantinham fora dos laudos e das terapias clínicas? Esses são alguns dos primeiros aspectos os quais pretendo analisar no desenrolar da pesquisa. Veremos como isso toma forma.