Blog

As placas que (não) salvam e o nome de Jesus®

As placas que (não) salvam e o nome de Jesus®

By admin in Católicas pelo Direito de Decidir on novembro 18, 2020

Por Clayton Guerreiro

“Placa de igreja não salva ninguém!”. Quem está minimamente acostumado com as igrejas evangélicas brasileiras já deve ter ouvido essa frase algumas vezes. Geralmente quem afirma isso quer mostrar que a salvação das almas independe da denominação que se está frequentando, desde que seja uma igreja evangélica. A afirmação minimiza as fissuras que caracterizam esse campo. Entretanto, ao contrário do que se pretende demonstrar, as placas denominacionais têm sido alvo de diversas disputas ao longo dos anos.

Durante o século XIX, as igrejas protestantes estavam autorizadas a funcionar apenas se seus locais de culto não tivessem aparência de templo e não utilizassem cruzes, garantindo assim a hegemonia católica.

Ao longo do século XX, o nome Assembleia De Deus¹, principal igreja evangélica brasileira, também tem sido alvo de disputas. No interior do país, é comum ver as identificações dos ministérios concorrentes nas placas das igrejas, tais como Madureira, Belém e Santos, além de marcadores de diferença que reclamam antiguidade e legitimidade, como a curiosa expressão “Assembleia de Deus, a pioneira”. Nos últimos anos, surgiram inúmeras igrejas independentes que passaram a utilizar o nome Assembleia de Deus seguido dos mais diversos complementos.

Internamente, há clamores de pastores assembleianos contra essas denominações independentes. Eles reclamam que a Igreja Assembleia de Deus seria uma igreja “clássica” ou “histórica”. Há aqui uma grande ironia: os líderes da denominação batem no peito para dizer que são a maior igreja evangélica do Brasil com base nos mais de 12 milhões de fiéis apontados no Censo do IBGE de 2010. Contudo, desconsideram que boa parte desses números é composto pelos fiéis de milhares de igrejas assembleianas independentes que eles criticam. Pelo menos no censo, o assembleianismo parece ter se tornado maior do que a(s) Assembleia(s) de Deus.

Mais recentemente, a imprensa divulgou uma disputa judicial que envolveu, de um lado, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e, de outro, a Igreja das Nações do Reino de Deus. Enquanto a IURD tem seus símbolos e logotipos espalhados por mais de 100 países ao redor do globo, a segunda é mais uma nova denominação oriunda daquela.

Como noticiado pela imprensa, a disputa está relacionada com a sucessão da IURD, fundada e dirigida pelo Bispo Edir Macedo, 75 anos. Desde o fim dos anos 1970, quando conseguiu desbancar seu cunhado Missionário R.R. Soares (fundador e líder da Igreja Internacional da Graça de Deus) na liderança da igreja, Macedo tem reinado sozinho e move bispos e pastores como peças de tabuleiro. Notícias dão conta de que o próximo líder da IURD será seu genro Bispo Renato Cardoso. Por conta disso, vários bispos importantes caíram no xadrez macediano: João Leite, Alfredo Paulo, Natan Silva, Rogério Formigoni e Romualdo Panceiro, que era o segundo nome na hierarquia iurdiana.

Como geralmente ocorre nas dissenções do campo pentecostal, Panceiro resolveu fundar sua própria denominação, a Igreja das Nações do Reino de Deus. A Teologia da Prosperidade continua a ser pregada na nova igreja, o que pode dar ao fiel a sensação de se tratar de um típico templo iurdiano. A escolha do nome seguiu a estratégia de outras igrejas dissidentes, como mostra a tabela abaixo:

 

Igreja Marcação espacial Complemento 
Universal do Reino de Deus
Internacional da Graça de Deus
Mundial² do Poder de Deus
Das Nações do Reino de Deus

 

Entretanto, para além da semelhança evidente entre os nomes das denominações, Macedo e seus advogados consideram que Panceiro foi mais longe do que os demais concorrentes. Na ação judicial, eles acentuam o uso do nome “Jesus Cristo”, incluindo o formato gráfico, e a semelhança entre os logotipos das igrejas. A IURD utiliza uma pomba (representando o Espírito Santo) dentro de um coração vermelho, enquanto a igreja de Panceiro juntou a pomba e uma cruz. Por conta disso, os advogados da IURD acusam seu ex-bispo de tentar iludir as pessoas e “obter vantagem econômica indevida ao induzir fieis” com o uso de marcas e símbolos que seriam de propriedade da IURD, como o nome da igreja, a pomba e o nome de Jesus Cristo.

https://noticias.gospelmais.com.br/files/2020/05/bispo-romualdo-panceiro-igreja-das-nacoes-do-reino-de-deus.jpg

Imagem: Acesso em 15/11/20.

https://www.dw.com/image/18171505_304.jpg

Imagem: acesso em 15/11/20.

Em certo sentido, a questão acima evoca o artigo em que Rodrigo Toniol discutiu a decisão judicial de proibir mulheres da ONG “Católicas pelo direito de decidir” de se identificarem com o termo “católicas”. Tais disputas têm evidentes contornos ideológicos, visto que os ataques à ONG derivam do posicionamento das católicas que a integram em favor dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e têm origem em uma ação da direita católica.

Ao contrário disso, as disputas entre os pentecostais aparentemente nada têm de ideológicas. Aliás, por coincidência, o próprio Edir Macedo, por razões muito distintas das católicas supracitadas, declarou ser favorável ao aborto (Teixeira, 2012) e é acusado de obrigar pastores a fazerem vasectomia. Segundo ex-pastores, a posição favorece o controle e o deslocamento dos bispos e pastores sob seu comando.

No caso dos pentecostais, estamos falando de lutas pelo “monopólio do exercício legítimo do poder religioso” (Bourdieu, 2011). Isso pode ser notado tanto nas pregações, orações imprecatórias e classificações dos colegas de ministério como “ex-pastores”, “caídos”, “rebeldes”, “desviados” e “malditos” quanto nos apelos às cortes judiciais.

Assim sendo, as placas podem até não salvar, mas continuam sendo objeto de inúmeros conflitos por legitimidade religiosa. Entre produções de diferença e acusações mútuas, bispos e pastores recorrem à justiça para provar que seus interesses não são econômicos, mas em almas perdidas. Com isso, eles pretendem convencer a sociedade que suas placas apenas indicam o caminho para o céu. Se as reclamações procederem, é possível que em um futuro próximo os fiéis tenham que pedir autorização judicial para orar em nome de Jesus e as placas que (não) salvam tenham a inscrição: Jesus®, marca registrada.

***

Clayton Guerreiro é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Integra o Laboratório de Antropologia da Religião/LAR (UNICAMP), o Grupo de Estudos sobre Mediação e Alteridade/GEMA (CEBRAP) e o Religious Matters Project (Utrecht University). Atualmente, desenvolve pesquisa sobre igrejas brasileiras e igrejas africanas independentes em Maputo, Moçambique, com o apoio da Fapesp. Seus principais tópicos de pesquisa são pentecostalismo, estudos africanos, rituais, materialidade e controvérsias públicas.

Notas:

[1] Cabe lembrar que o nome da denominação é proveniente dos Estados Unidos e que o primeiro nome das ADs no Brasil foi Missão da Fé Apostólica. Em 1958, a marca “Assembleia de Deus” foi patenteada pela AD em Porto Alegre (RS), gerando um desconforto com a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Após negociações, a igreja gaúcha a cedeu para a CGADB, em 2004 (Araújo, 2006). Devo essa informação ao historiador Mario Sérgio Santana, responsável pelo blog Memórias das Assembleias de Deus.

[2] Fundada pelo Apóstolo Valdemiro Santiago, ex-bispo da IURD em Moçambique.

Referências bibliográficas 

ARAÚJO, Isael de. História do movimento pentecostal no Brasil: o caminho do pentecostalismo brasileiro até os dias de hoje. Rio de Janeiro, CPAD, 2016.

BOURDIEU, Pierre. Gênese e estrutura do campo religioso. In: BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2011.

TEIXEIRA, Jaqueline Moraes. Da controvérsia às práticas: conjugalidade, corpo e prosperidade como razões pedagógicas na Igreja Universal. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social). São Paulo: USP, 2012.

 

Imagem destacada disponível em: https://i.ytimg.com/vi/vJAw4dGvJ-8/maxresdefault.jpg Acesso em 15/11/20.

***

Este texto é parte de uma série de publicações que serão realizadas ao longo desta semana nos sites do NER (UFRGS)LAR (Unicamp), Nues (Unicamp). Todos eles tomam como ponto de partida a decisão envolvendo Católicas pelo Direito de Decidir, que as proibiu de utilizar o termo católicas. Com issso, procuramos ampliar a visibilidade e o debate público sobre o tema, assim como consolidar parcerias institucionais que há bastante tempo aproximam esses grupos de pesquisa.

Comentário.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *