Dia: 12 de dezembro de 2020

2020: o balanço possível

2020: o balanço possível

By Rodrigo Toniol in Crônicas de pesquisas on dezembro 12, 2020

Ruminei bastante para escrever este texto. Foram algumas tentativas para “acertar o tom”, mas a mão teimou em deixa-lo entre a confissão das expectativas, as frustrações que 2020 nos trouxe e algo semelhante a uma prestação de contas pública daquilo que nosso pequeno, mas muito potente, coletivo realizou. 

Nosso grupo de pesquisa surgiu em 2019 com o apoio de um robusto financiamento da Fapesp. Em linhas gerais estamos interessados na crescente presença e legitimidade da noção de espiritualidade no campo oficial da saúde. Em uma pesquisa que agrega pesquisadores da graduação ao doutorado, além de professores seniores, estamos às voltas com a tentativa de compreender  como “espiritualidade” tem mobilizado e tem sido mobilizada em políticas de saúde, em pesquisas médicas e em protocolos clínicos. De um lado, o que está em jogo é o interesse em um fenômeno cada vez mais amplo e presente no cotidiano dos espaços de saúde no Brasil e fora dele. De outro, dedicamos nossa atenção a uma categoria tão usual quanto pouco privilegiada em análises críticas das ciências sociais, a espiritualidade.

 Nós nos preparamos bastante para o ano de 2020. Planejávamos a intensificação dos trabalhos de campo, individuais e coletivos. Estávamos animados com o reforço que o grupo teria a partir do ingresso de Lucía Copelotti, vinda do Uruguai, para fazer seu doutorado na temática, de Florencia Chapini, vinda da Argentina, para realizar seu mestrado conosco, de Giorgia Nascimento, que por reconhecimento da qualidade de sua dissertação, passara para o doutorado direto vinculando-se ao grupo e de Juliana Boldrini, também no doutorado.  Entre dezembro de 2019 e março de 2020 eu estive na Holanda como pesquisador visitante na Universidade de Utrecht, recolhendo dados na biblioteca, prevendo trata-los e sistematiza-los ao longo de 2020. Naquele início de ano ainda trabalhamos nos projetos e obtivemos a aprovação ou a renovação de bolsas de iniciação científica de:Ana Foster, Aidan Valentina Fongaro, Greta Garcia, Isabela Mayumi, Manuela Carvalho, Lu Bolonha, Lhays Izidoro, Luiza Luz, Laura Andare, Luciana Cavalcanti.

Em fevereiro, Carlos Alberto Steil, Isabel Carvalho, Ana Paula Rodrigues, Tania Valente, Marina Sena, Rachel Trovarelli, Thaís Assis, Anna Pedra e Cecília Bastos, todos vinculados a outras universidades (USP, UNIFESP, Unirio, UFPB, UENF e UFRJ) formalizaram seu ingresso no grupo. Além de Lucas Baccetto e Giovanna Paccillo, que avançavam para o segundo ano do mestrado trabalhando conosco.

No entanto,  ainda em janeiro, Maria Luiza Assad, doutoranda do grupo, que fazia seu estágio sanduíche na Itália, começou a nos enviar relatos preocupantes da chegada do novo Coronavirus ao país. Pudemos realizar uma única reunião, na primeira semana de março, até que as notícias vindas da Itália se tornassem assustadoramente próximas de nosso cotidiano e a Unicamp suspendesse todas as atividades presenciais. 

Desde então nos mantivemos firmes no compromisso de encontros virtuais quinzenais. Em pouco tempo percebemos que os encontros não eram apenas benéficos para dar suporte às pesquisas em andamento, como também eram uma saída coletiva para enfrentar os tempos bicudos que vivemos. Não fosse por isso, tudo teria sido mais difícil. 

Juntos descobrimos estratégias para a realização de trabalhos de campo no mundo virtual, discutimos textos de nossa autoria enquanto eram escritos e tivemos a presença de pesquisadores de diferentes partes do país dispostos a compartilhar conosco seus resultados e experiências de vida. 

Mantivemos este site ativo, publicando crônicas inéditas, traduções e organizando pequenos dossiês. Mas sobretudo reforçamos neste ano uma lição que já nos era cara: ciência não se faz solitariamente e muito menos sem afeto. 

Sou infinitamente grato ao grupo que temos, sigo esperançoso naqueles que virão e empolgado com a etapa que agora inauguramos, transformando o NUES em um núcleo interinstitucional, distribuído entre UNICAMP e UFRJ.  

Para quem tiver interesse em saber mais sobre o que fizemos nos primeiros 18 meses de pesquisa, convido a baixarem o relatório que preparamos (Clique aqui). Saímos de 2020 com uma sensação muito ambígua, entre a exaustão de um ano doloroso e a confiança de não estarmos sozinhos. Que venham os próximos anos, aqui estaremos.