Mês: dezembro 2020

Espiritualidade e bem-estar: holismo, integralidade e saúde – Association of Social Anthropologists of the UK

Espiritualidade e bem-estar: holismo, integralidade e saúde – Association of Social Anthropologists of the UK

By admin in Novidades on dezembro 15, 2020

Está aberta a chamada para apresentação de trabalhos na conferência da Association of Social Anthropologists of the UK & Commonwealth (ASA), evento que será realizado online entre os dias 29 de março e 1º de abril de 2021.

O painel “Espiritualidade e bem-estar: holismo, integralidade e saúde” será coordenado pela professora Dra. Cecilia Bastos (Museu Nacional/UFRJ) e pela doutoranda em sociologia Thaís Assis (USP), integrantes do NUES, e contará com a participação do professor Dr. Rodrigo Toniol como debatedor. A proposta é reunir pesquisas dedicadas a compreender as interfaces entre espiritualidade e saúde.

O envio de resumos pode ser feito até dia 28/12 através do link: https://nomadit.co.uk/conference/asa2021/p/9968#

Mais informações em: https://theasa.org/conferences/asa2021/

Spirituality and wellbeing: holism, integrality and health

Short abstract:

How does spirituality contribute to health, wellbeing and quality of life? How have the experiences and practices of therapeutic spiritualities built their legitimacy and defended their effectiveness? What is the role and significance of spirituality for health?

Long abstract:

The panel aims to collect research responsible for developing reflections on the ties between spirituality, wellbeing and health. Considering that the spiritual dimension is part of the multidimensional concept of health, the proposal is to gather recent discussions in the social sciences regarding phenomena and themes such as: holism; alternative and complementary therapeutic practices; mystical-esoteric and New Age traditions of health care; integrality; and therapeutic pluralism. The panel will welcome analyses and descriptions of physical, mental, spiritual or religious experiences and practices that are manifested in the interfaces between medical and therapeutic beliefs and rationalities. The expectation is to gather interpretations on discourses, practices and routines of therapeutic spiritualities that are established in the global scenario as instruments for disease prevention, health promotion, well-being and quality of life.

2020: o balanço possível

2020: o balanço possível

By Rodrigo Toniol in Crônicas de pesquisas on dezembro 12, 2020

Ruminei bastante para escrever este texto. Foram algumas tentativas para “acertar o tom”, mas a mão teimou em deixa-lo entre a confissão das expectativas, as frustrações que 2020 nos trouxe e algo semelhante a uma prestação de contas pública daquilo que nosso pequeno, mas muito potente, coletivo realizou. 

Nosso grupo de pesquisa surgiu em 2019 com o apoio de um robusto financiamento da Fapesp. Em linhas gerais estamos interessados na crescente presença e legitimidade da noção de espiritualidade no campo oficial da saúde. Em uma pesquisa que agrega pesquisadores da graduação ao doutorado, além de professores seniores, estamos às voltas com a tentativa de compreender  como “espiritualidade” tem mobilizado e tem sido mobilizada em políticas de saúde, em pesquisas médicas e em protocolos clínicos. De um lado, o que está em jogo é o interesse em um fenômeno cada vez mais amplo e presente no cotidiano dos espaços de saúde no Brasil e fora dele. De outro, dedicamos nossa atenção a uma categoria tão usual quanto pouco privilegiada em análises críticas das ciências sociais, a espiritualidade.

 Nós nos preparamos bastante para o ano de 2020. Planejávamos a intensificação dos trabalhos de campo, individuais e coletivos. Estávamos animados com o reforço que o grupo teria a partir do ingresso de Lucía Copelotti, vinda do Uruguai, para fazer seu doutorado na temática, de Florencia Chapini, vinda da Argentina, para realizar seu mestrado conosco, de Giorgia Nascimento, que por reconhecimento da qualidade de sua dissertação, passara para o doutorado direto vinculando-se ao grupo e de Juliana Boldrini, também no doutorado.  Entre dezembro de 2019 e março de 2020 eu estive na Holanda como pesquisador visitante na Universidade de Utrecht, recolhendo dados na biblioteca, prevendo trata-los e sistematiza-los ao longo de 2020. Naquele início de ano ainda trabalhamos nos projetos e obtivemos a aprovação ou a renovação de bolsas de iniciação científica de:Ana Foster, Aidan Valentina Fongaro, Greta Garcia, Isabela Mayumi, Manuela Carvalho, Lu Bolonha, Lhays Izidoro, Luiza Luz, Laura Andare, Luciana Cavalcanti.

Em fevereiro, Carlos Alberto Steil, Isabel Carvalho, Ana Paula Rodrigues, Tania Valente, Marina Sena, Rachel Trovarelli, Thaís Assis, Anna Pedra e Cecília Bastos, todos vinculados a outras universidades (USP, UNIFESP, Unirio, UFPB, UENF e UFRJ) formalizaram seu ingresso no grupo. Além de Lucas Baccetto e Giovanna Paccillo, que avançavam para o segundo ano do mestrado trabalhando conosco.

No entanto,  ainda em janeiro, Maria Luiza Assad, doutoranda do grupo, que fazia seu estágio sanduíche na Itália, começou a nos enviar relatos preocupantes da chegada do novo Coronavirus ao país. Pudemos realizar uma única reunião, na primeira semana de março, até que as notícias vindas da Itália se tornassem assustadoramente próximas de nosso cotidiano e a Unicamp suspendesse todas as atividades presenciais. 

Desde então nos mantivemos firmes no compromisso de encontros virtuais quinzenais. Em pouco tempo percebemos que os encontros não eram apenas benéficos para dar suporte às pesquisas em andamento, como também eram uma saída coletiva para enfrentar os tempos bicudos que vivemos. Não fosse por isso, tudo teria sido mais difícil. 

Juntos descobrimos estratégias para a realização de trabalhos de campo no mundo virtual, discutimos textos de nossa autoria enquanto eram escritos e tivemos a presença de pesquisadores de diferentes partes do país dispostos a compartilhar conosco seus resultados e experiências de vida. 

Mantivemos este site ativo, publicando crônicas inéditas, traduções e organizando pequenos dossiês. Mas sobretudo reforçamos neste ano uma lição que já nos era cara: ciência não se faz solitariamente e muito menos sem afeto. 

Sou infinitamente grato ao grupo que temos, sigo esperançoso naqueles que virão e empolgado com a etapa que agora inauguramos, transformando o NUES em um núcleo interinstitucional, distribuído entre UNICAMP e UFRJ.  

Para quem tiver interesse em saber mais sobre o que fizemos nos primeiros 18 meses de pesquisa, convido a baixarem o relatório que preparamos (Clique aqui). Saímos de 2020 com uma sensação muito ambígua, entre a exaustão de um ano doloroso e a confiança de não estarmos sozinhos. Que venham os próximos anos, aqui estaremos.   

Políticas públicas de educação ambiental e emergência climática

Políticas públicas de educação ambiental e emergência climática

By admin in Eventos on dezembro 8, 2020

No último sábado (05 de dezembro), a integrante do NUES e professora do programa de pós-graduação em educação da Unifesp, Isabel Carvalho, participou como mediadora da conferência de encerramento da 3ª mostra ObservaCampos, organizada pela UERGS Hortênsias. O evento, que aconteceu virtualmente entre 06 de novembro e 05 de dezembro de 2020, teve como tema as “ImaginAções em Políticas e Ambiente para um Mundo Pós-Pandêmico” e congregou pesquisadores em conferências, GTs e lives para pensar as questões em torno da problemática socioambiental.

A conferência “Políticas Públicas de Educação Ambiental e Emergência Climática” contou com a fala de Pablo Meira, professor de Educação Ambiental na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, com quem a professora Isabel colaborou anteriormente. A conversa pode ser conferida abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=ZVA-56vlovs 

 

 

 

 

Quem são os católicos com direito de decidir?

Quem são os católicos com direito de decidir?

By admin in Católicas pelo Direito de Decidir on dezembro 3, 2020

Por Lucas Vanni

Na última semana de outubro, o Centro Dom Bosco (CDB), do Rio de Janeiro, ganhou visibilidade na imprensa em função de ter provocado o judiciário a se manifestar quanto ao direito de as “Católicas pelo Direito de Decidir” poderem ou não se identificarem como católicas. Algumas semanas depois, o centro carioca voltou a figurar na imprensa. Pessoas ligadas à entidade foram indiciadas por terem tentado impedir a celebração de uma “missa afro” no dia da Consciência Negra do ano passado. A gravação do ocorrido, divulgada pelo próprio Centro Dom Bosco, retrata três momentos: antes da missa, quando jovens ligados ao CDB, tentam convencer o padre de que aquela celebração não deveria acontecer, pois não estava de acordo com as leis litúrgicas da Igreja Católica; durante a missa, que transcorre, enquanto um grupo permanece de joelhos rezando o rosário silenciosamente; e, ao fim da missa, quando, depois da oração de um ato de desagravo pelas ofensas e sacrilégios que teriam sido cometidos, o grupo é confrontado, na saída do templo, pelos fiéis que participavam da missa.

A ação de grupos católicos conservadores no espaço público não é novidade no Brasil. A Tradição, Família e Propriedade (TFP), associação fundada por Plinio Corrêa de Oliveira, em São Paulo, nos anos 60, notabilizou-se por seu combate ao comunismo, seus estandartes e maneirismos aristocráticos. Apesar da influência que a TFP exerceu, no Brasil e no exterior, na formação de católicos conservadores, ela passou quase desapercebida pelo radar das ciências sociais da religião, mais atentas às grandes movimentações que o catolicismo sofria no Brasil. Depois do Concílio Vaticano II, o que chamava a atenção eram as Comunidades Eclesiais de Base e a influência da Teologia da Libertação na formação do clero e dos fiéis. Além da TFP, no entanto, acontecia no Brasil a confusão envolvendo os Padres de Campos, a formação do grupo Permanência, a instalação de um mosteiro tradicionalista, na serra fluminense, que romperia com a Santa Sé, e, mais recentemente, o surgimento dos Arautos do Evangelho. Tudo isso aponta para o caráter do Brasil como um terreno fértil para um catolicismo de corte conservador.

Se, até o início dos anos 2010, todas essas iniciativas pareciam pontos fora da curva, elementos isolados de uma Igreja que rumava em outro sentido, o panorama tem mudado. Embora não contemos com um estudo estatístico que possa dar uma noção mais precisa do tamanho e da influência do catolicismo conservador no Brasil, alguns sinais indicam para o seu crescimento. As ações do CDB são bastante relevantes, nesse sentido. Além disso, nas redes sociais pululam pequenas editoras que produzem material católico – em geral, comercializado exclusivamente através da internet –, clubes de assinatura de livros católicos, cursos sobre os mais diversos assuntos do catolicismo, lives de missas em latim etc. As redes têm um papel fundamental na formação e aglutinação dos católicos conservadores. Alguns sinais, ainda, são perceptíveis nos detalhes, como nos catálogos das lojas de paramentos litúrgicos. A recuperação de determinadas peças do vestuário dos sacerdotes – como as batinas, os barretes e determinados modelos de casula – são indícios de como essa “conservadorização” se manifesta inclusive na estética católica.

Outra característica dessa “conservadorização” é que se trata de um processo encabeçado majoritariamente por leigos, distanciados da hierarquia eclesiástica. O modelo de grupos de leigos conservadores que se reúnem para rezar e estudar já existe no Brasil há várias décadas. Pedro A. Ribeiro de Oliveira (1985, p. 313) oferece uma descrição das atividades nos círculos das elites intelectuais católicas do início do século passado que se presta a um relato exato do que fazem os grupos contemporâneos: “Leigos começam a ler e estudar a Bíblia, a conhecer Teologia, a discutir a Filosofia Tomista, a participar ativamente da Missa, a recitar orações e cânticos em latim; em suma, começam a ter acesso às crenças e práticas religiosas refinadas, elegantes, bem a gosto de intelectuais”.

É importante, no entanto, salientar a diferença na mudança da postura da hierarquia em relação a esses grupos. O Centro Dom Vital, por exemplo, foi fundado nos anos 20 com o incentivo explícito do Cardeal Leme, então Arcebispo do Rio de Janeiro, e a TFP, apesar de ter sido criada em um momento em que conservadores já questionavam as decisões da CNBB, contava com o apoio de bispos, que a defendiam abertamente de seus detratores. Os grupos contemporâneos, no entanto, tendem a não contar com o apoio dos bispos e de boa parte do clero, enfrentando, por vezes, a sua oposição. Se no vídeo da tentativa de impedimento da “missa afro” é mencionado o apoio do Cardeal Tempesta, o atual Arcebispo, à iniciativa daqueles jovens, esse apoio não foi manifesto pública e abertamente, nem mesmo na ocasião do indiciamento policial deles. Esse distanciamento denota uma espécie de clivagem etária na Igreja Católica brasileira, entendimento esse que é compartilhado entre católicos conservadores: a geração que conduz a Igreja, dos bispos e do alto clero, formada no período imediatamente posterior ao Concílio Vaticano II, é mais progressista que os católicos mais jovens. Estes teriam se aproximado do catolicismo a partir de influências como Olavo de Carvalho, ou mesmo por meio da Renovação Carismática Católica – que Reginaldo Prandi (1997) já prenunciava, nos anos 90, como uma “renovação conservadora” do catolicismo.

Os católicos conservadores, no Brasil, assim como outros conservadores, têm constituído uma frente em uma “guerra cultural”. A questão em torno do nome das “Católicas pela Direito de Decidir” é exemplo disso. Diria que é um exemplo do front extraeclesial dessa guerra, quando são mobilizados o judiciário e a política institucional – representada modelarmente na eleição da deputada federal Chris Tonietto, advogada do CDB –, voltado a pautas morais da sociedade em geral, especialmente as relacionadas aos temas de gênero e sexualidade. A confusão na “missa afro”, entretanto, assume um aspecto mais intraeclesial: o que está em disputa é o modo de celebrar a missa, e as autoridades e normas mobilizadas são unicamente aquelas que se restringem ao ambiente eclesiástico – as leis litúrgicas, o arcebispo, o pároco etc. (E assim permaneceria se a polícia não tivesse sido chamada pelos participantes da missa).

Se a batalha extraeclesial fere a sensibilidade secular de muitos brasileiros, especialmente daqueles que viam nos evangélicos uma ameaça maior à separação entre Estado e religião, a intraeclesial desestabiliza aqueles que tomavam por certa uma “modernização” do catolicismo com o Concílio Vaticano II. Em todo caso, novos atores católicos ingressaram na esfera pública e não estão a fim de passarem desapercebidos.

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Lucas Vanni é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Núcleo de Estudos da Religião (NER) da UFRGS. E-mail: [email protected]

Referências:
Prandi, R. (1997). Um sopro do Espírito: a renovação conservadora do catolicismo carismático. São Paulo: Edusp/Fapesp.

Ribeiro de Oliveira, P. A. (1985). Religião e dominação de classe: gênese, estrutura e função do catolicismo romanizado no Brasil. Petrópolis: Vozes.

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Este texto é parte de uma série de publicações que serão realizadas ao longo desta semana nos sites do NER (UFRGS)LAR (Unicamp), Nues (Unicamp). Todos eles tomam como ponto de partida a decisão envolvendo Católicas pelo Direito de Decidir, que as proibiu de utilizar o termo católicas. Com issso, procuramos ampliar a visibilidade e o debate público sobre o tema, assim como consolidar parcerias institucionais que há bastante tempo aproximam esses grupos de pesquisa.