Mês: setembro 2020

Situando a pandemia no tempo: astrologia e Covid-19

Situando a pandemia no tempo: astrologia e Covid-19

By admin in Novidades on setembro 29, 2020

Texto de Omri Elisha para Immanent Frame

Tradução de María Luiza Assad

Muitos norte-americanos se voltaram para a astrologia, o estudo das correlações entre padrões celestes e acontecimentos temporais, para dar sentido a tempos tumultuosos. Apesar de relatos sobre astrólogos sendo repreendidos por não terem previsto a Covid-19, há uma elevada demanda por serviços astrológicos. De consultas privadas a previsões de horóscopos através de múltiplas mídias, as pessoas estão ávidas por saber quando a pandemia vai acabar e como ela afetará suas vidas no longo prazo. 

Mas a astrologia ocidental é mais do que o uso de técnicas oraculares para responder a necessidades imediatas e pessoais. É um campo de práticas interpretativas enraizado em afirmações metafísicas a respeito de como arquétipos universais estruturam a passagem do tempo e dão vida às metanarrativas que reconhecemos como história. Para os astrólogos modernos, a pandemia e suas vastas implicações transpessoais e histórico-mundiais são expressões de temáticas recorrentes, cujas repetições trazem provações e transições a serem suportadas e lições existenciais a serem aprendidas. Analisar essa perspectiva cosmológica como uma forma de consciência histórica, em vez de apenas como uma função da superstição ocultista ou da “adivinhação”, é um passo importante em direção a um melhor entendimento sobre como as pessoas que praticam e se envolvem com a astrologia percebem as valências morais do tempo. Isso também destaca modelos de futuridade que não estão vinculados a teleologias estritamente seculares ou religiosas, mas que se encontram em algum lugar entre o fluxo progressivo de um tempo vazio e homogêneo, e uma temporalidade que é policíclica e pré-ordenada, em que tudo que vai, volta. 

Embora poucos astrólogos profissionais tenham previsto especificamente que um coronavírus traria o mundo a uma pausa em 2020 – e os sistemas globais à beira do colapso –, o tempo e a severidade da pandemia não foram uma surpresa para eles. O ano de 2020 era tópico de ansiosa especulação na comunidade astrológica bem antes que a Covid-19 se tornasse uma palavra familiar. A razão era uma incomum série intensa de trânsitos planetários. Isso começou em janeiro, com uma rara “conjunção” entre Plutão, símbolo de morte, poder e mudança inexorável (e ainda um “planeta” em termos astrológicos), e Saturno, o planeta das estruturas, autoridades e fronteiras, no signo zodiacal de Capricórnio. Em dezembro, o ano terminará com um encontro semelhante entre Saturno e Júpiter em Aquário. Astrólogos leram esses e outros desenvolvimentos celestes como indicadores simbólicos de trauma e transformação, um período de acerto de contas terrestre perfeitamente sincronizado aos ritmos do cosmos.

Para explorar a natureza de tais suposições, é de grande ajuda deixar de lado as críticas familiares sobre a astrologia, baseadas em acusações de superstição, pseudociência, ignorância e engano. O que não é tarefa fácil, dada a indignação e suspeita pública de longa data mesmo entre acadêmicos. Nos anos 1950, Theodor Adorno ridicularizou de modo notório a astrologia moderna acusando-a de ser um fetichismo retrógado, que deriva sua autoridade a partir de uma “fachada de pseudo-racionalidade” isenta de engajamento crítico. Adorno abominava colunas de horóscopos, que para ele representavam aquilo de pior que a indústria cultural moderna era capaz. Ele argumentou que, ao reificarem forças estruturais e motivações inconscientes como destino, e ao sugerirem que os processos sociais ligados à raiz dos problemas das pessoas de alguma forma “se resolveriam por si mesmos”, horóscopos promoviam padrões de pensamento autoritários, propícios à ascensão do fascismo, incluindo conformidade, irracionalidade e dependência voluntária de uma onisciência externa. 

Muito da crítica de Adorno às implicações sociopsicológicas da retórica dos horóscopos é tão mobilizadora quanto antipática. Mas a análise, baseada em três meses de conteúdo da coluna de horóscopos do Los Angeles Times, é demasiado restrita empiricamente para dar conta dos diversos usos e expressões do conhecimento astrológico. E, ao se basear de tal forma em imputações de má fé, paranoia, ego fraco e equívoco, seu tratado virtualmente não deixa espaço para qualquer outra conclusão senão a de que, formas culturais como a astrologia e o ocultismo em geral, invariavelmente distorcem as realidades sociais e mediam uma falsa consciência. 

Uma abordagem menos redutora poderia considerar como praticantes contextualizam conceitos e predições através de um espectro mais vasto de gêneros discursivos, para além de horóscopos de “prateleira de supermercado”. À medida que a astrologia ganhou popularidade em anos mais recentes, auxiliada por mídias digitais e sociais como canais no YouTube, podcasts, ensino online, softwares e diversos memes do Instagram, os estilos interpretativos se diversificaram e alguns dos aspectos mais técnicos e elaborados do campo cresceram em visibilidade. Áreas de conhecimento especializado e esotérico são mais acessíveis do que nunca, influenciando e amplificando percepções sociais até mesmo de entusiastas casuais, assim como de concepções populares sobre cosmos, espiritualidade e self.

Uma dessas áreas é a da “astrologia mundana”: técnicas e princípios específicos aos estudos de ciclos histórico-mundiais. Embora suas aplicações sejam orientadas para o futuro, a astrologia mundana, assim como outras formas de conhecimento antecipatório, lida com amplos quadros temporais. Para prever e especular sobre o futuro, os astrólogos mundanos geralmente buscam maximizar seu conhecimento sobre o passado. Se envolvem com um tipo de trabalho interpretativo que é pautado em expertise no que diz respeito a símbolos e cálculos astronômicos. Esse trabalho também se baseia no delineamento de comparações entre acontecimentos históricos de passados distantes e recentes, já que envolvem as mesmas marcas planetárias e se entende que eles instauram temas arquetípicos semelhantes.

Com a aproximação da recente conjunção Plutão-Saturno, astrólogos olharam para grandes eventos de ciclos sinódicos que tiveram início com sua última conjunção no início dos anos 1980, um tempo de recessão econômica e grande desemprego. Tensões da Guerra Fria, conflito exacerbado no Oriente Médio e o surgimento da crise da AIDS. O ciclo de quase quatro décadas envolveu uma “oposição” entre ambos os planetas, que foi associada aos ataques de 11 de setembro e à guerra contra o Terror empreendida pelos EUA, e um trânsito conhecido como quadratura (de uma distância de 90°) durante a crise econômica de 2008. Como a conjunção em janeiro marcou o culminar desse ciclo e o início de um novo, os astrólogos indicaram que, o que quer que aconteça em 2020, vai ecoar temas arquetípicos de todos aqueles eventos, ainda que sutil e indiretamente, e oferecer indicações sobre o que o novo ciclo nos reserva. Os astrólogos também levantaram ciclos Saturno-Plutão precedentes, como aqueles associados à I Guerra Mundial e à ascensão do Nazismo, além da peste bubônica. Alguns prestaram atenção especial à conjunção de 1518, a última vez que Saturno e Plutão se encontraram em Capricórnio, o que coincidiu com o início da Reforma Protestante, escalada no tráfico de escravos transatlântico e a “praga dançante” de Estrasburgo.

Os grandes fios que ligam essas e outras eras históricas na imaginação astrológica são paradigmáticas assim como sintagmáticas. Alguns astrólogos, como o estudioso-praticante Richard Tarnas, os contextualizam como “ciclos de crises e contrações”, períodos de extrema pressão social e lutas de poder, ascensão e queda de impérios, desastres naturais e intensificadas experiências coletivas de rupturas, abalos, dificuldades, opressão e eventual resolução. Sejam quais forem os desdobramentos finais, as dinâmicas Saturno-Plutão são os proverbiais choques no sistema, indicando mudanças tectônicas, resultando em colapso, renovação e/ou reconfiguração de estruturas e instituições de governo da vida. 

A pandemia do novo Coronavirus, tendo vindo à luz, foi então prontamente interpretada entre os astrólogos como peça central de uma transição liminar de uma época histórico-astrológica para outra. Isolamento e instabilidade prolongados foram (e continuam a ser) construídos como o modo do universo para forçar as sociedades ao redor do mundo a desacelerarem, fazer um balanço de seus valores e recursos, e se prepararem para novas realidades, tanto catastróficas quanto auspiciosas, que estão surgindo no horizonte cósmico. Acadêmicos e críticos geralmente reduzem tais concepções a mecanismos psicológicos como viés de confirmação. Seja como for, o processo do astrólogo de ligar os pontos entre princípios arquetípicos e os acontecimentos reais-mundiais pode revelar o que pessoas que afirmam esses princípios acreditam que a humanidade está prestes a enfrentar e o que pensam que o futuro reserva num grande esquema das coisas.

Existem quase tantas opiniões quanto intérpretes acerca do que virá a seguir. Padrões celestes e paradigmas estão em fluxo constante e a comunidade astrológica é tão variada e contenciosa quanto qualquer campo que produza conhecimento. Como todos os preditores, as perspectivas dos astrólogos mudam e evoluem com os tempos. Na emergência dos protestos que seguiram o assassinato de George Floyd, muito da atenção se deslocou do confinamento pela Covid-19 para questões de justiça racial, igualdade e responsabilidade política, marcas características do idealismo humanitário radical de Aquário, signo da próxima “grande conjunção”. Se a pandemia foi o teste de realidade global, Vidas Negras Importam é o chamado cósmico para a ação. Tais visões são defendidas pela emergente vanguarda de astrólogos mais jovens, muitos dos quais são LGBTQ e  não brancos [1], ávidos por buscar novas integrações de práxis social, esotérica e espiritual.

No geral, porém, a astrologia moderna tende a ser menos sobre arquitetar mudança social e desmantelar estruturas de opressão do que um meio para afirmação, crescimento pessoal e espiritual, e para um aconselhamento prático personalizado. Astrólogos ocidentais encorajam seus leitores a confiarem na sabedoria dos ciclos e na ideia de que as coisas certamente ficarão piores antes de melhorarem, que mudanças de qualquer tipo sempre têm um propósito a longo prazo, devido à providência divina (definida de maneiras diversas). É uma perspectiva que não dispensa a agência humana, e muito raramente assume uma causalidade direta por parte dos corpos celestes, mas por vezes sugere um tipo de fatalismo e ahistoricismo que críticos como Adorno acham tão perturbador.

E, no entanto, é um erro assumir que “consciência cósmica” automaticamente impeça uma consciência histórica. A intenção de levar os discursos astrológicos a sério não diz respeito a avaliar a sua precisão ou presciência, mas reconhecer que são expressões de saber cultural – e mesmo de crítica –, que os praticantes cultivam ativamente para compreender melhor o presente à luz de passados reais e de futuros possíveis. São esforços para historicizar as condições de existência, que nesse momento impelem a cada um de nós a reconhecer o estado precário e volátil do mundo que nós fabricamos, uma situação difícil que não é sem precedentes ou aleatória. 

Quando se trata de previsões mundanas-históricas, astrólogos ocidentais não são alheios à hipérbole. Guerra, tumultos políticos, revoluções em tecnologia ou finanças, e outras mudanças sísmicas na cultura e na consciência estão quase sempre na mesa quando grandes transições planetárias estão envolvidas. Mas a despeito de circunstâncias, ou do quão vagas ou concretas as afirmações possam ser, a divinação astrológica é tão diagnóstica e prescritiva quanto é preditiva. Jamais apenas uma questão de mitigar incerteza, ela é para praticantes e entusiastas uma maneira de classificar momentos no tempo, pondo-os nos seus devidos lugares e contemplando o movimento adiante. Esses não são impulsos alheios às mentes de sujeitos modernos seculares, que narram a história em termos dialéticos e temáticos. Todavia, para os astrólogos, a volição histórica está ligada aos muitos ciclos planetários e celestes, que são usados para decifrar o que o universo está tramando, além de – para parafrasear o compatriota de Adorno, Walter Benjamin – descobrir a diferença entre quando é possível dirigir a locomotiva da história e quando é necessário puxar o freio de emergência.

***

[1] Nota de tradução: no texto original people of color. 

Imagem destacada: da publicação original 

Omri Elisha é professor associado de Antropologia no Queens College e no Centro de Pós-Graduação, CUNY. Ele é o autor de Moral Ambition: Mobilização e Social Outreachachurches in Evangelical Megachurches (University of California Press, 2011). Ele recebeu seu PhD da Universidade de Nova York e foi Bolsista Residente na Escola de Pesquisa Avançada. Sua pesquisa sobre a antropologia do cristianismo cobriu tópicos como o reavivamento evangélico dos EUA, engajamento social, ativismo da mídia, guerra espiritual e performance ritual. Sua pesquisa atual explora questões de cosmologia, profissionalização e especialização entre os astrólogos ocidentais contemporâneos.

Revisão da tradução por Lucas Baccetto

Antropologia em Tempos de Pandemia

Antropologia em Tempos de Pandemia

By admin in Novidades on setembro 24, 2020

Aula Inaugural PPGA UFBA

Para dar começo à segunda mitade do ano 2020, o Programa de Pós- Graduação de Antropologia (PPGA) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), fez uma aula inaugural o dia 11 de setembro com Miriam Pillar Grossi, presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) e Rodrigo Toniol, presidente da Associação de Cientistas Sociais da Religião do Mercosul e coordenador do NUES.

A aula se baseu na iniciativa que desenvolveram os professores mencionados anteriormente, desde o inicio da pandemia: o Boletim Cientistas Sociais e Coronavirus. O boletim contou com o total de quase 150 textos produzidos, não só no Brasil, se não também de paises de América Latina. Essa experiência foi fruto da articulação de cinco associações científicas: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Os boletins contaram com a edição de Bianca Setti, Lucia Copelotti e Luciana Álvarez, as duas últimas integrantes do nosso grupo de pesquisa do NUES.

Para Grossi e Toniol, o boletim foi uma forma de dar visibilidade às pesquisas das ciências sociais que, neste momento, oferecem aportes fundamentais para diagnósticos e planejamento de movimentos de saída da pandemia.  Além disso, foi uma difusão de análises sobre gênero, religião, ensino a distância, ecologia, raça, políticas públicas, autoritarismo político e populações tradicionais, entre muitos outros. O objetivo foi também mostrar que há uma realidade social da pandemia, fundamental para entender os efeitos biológicos do vírus. 

Assista a aula no vídeo a seguir:

 

Crença e negacionismo científico nos tempos da COVID-19

Crença e negacionismo científico nos tempos da COVID-19

By admin in Novidades on setembro 21, 2020

Por Nicolas Viotti para DIVERSA

Tradução por Florencia Chapini 

Além das máscaras, da distância social e dos níveis de pobreza inéditos, a crise da COVID 19 nos deixou um novo cenário: a desconfiança nas certezas científicas. As manifestações no obelisco [1] mostram que grupos de pessoas desconfiam das recomendações médicas, que o Sars-CoV-2 não existe, que existe mas é uma invenção de laboratório, afirmam que existe um plano de Bill Gates e Georges Soros para acabar com o terceiro mundo, que o governo chinês “inventou” a pandemia para impor 5G, que as mortes são falsificadas, exageradas, mal contadas. Nas redes sociais publicações sistemáticas compartilham vídeos de “médicos pela verdade”, fala da “falsa pandemia”, imagens e textos com frases como “não seja cego, eu abri meus olhos” ou “não vamos ser cobaias para a vacina”.

Um público ouve, olha e lê com admiração. Se diz que são perigosos, que são ignorantes, que fazem parte do neoliberalismo, da irracionalidade, que são anti-vacinas, que o mundo foi para o inferno. Também é dito que devemos afirmar os valores da ciência, da racionalidade, que este não é o momento de ser isentos e que tudo isso é culpa do pós-modernismo, do relativismo, da direita paranóica, da esquerda conspiratória.

Como o ceticismo científico chegou tão longe? O que as ciências sociais podem dizer sobre isso, sobretudo a área das ciências sociais preocupada com a diversidade de racionalidades ou o que geralmente se identifica com os estudos sociais de crença?

Antropologia, crenças e diversidade

Falemos desde o início. A ciência moderna foi construída com base em critérios de evidência específicos, nem universais nem definitivos, sem dúvida históricos, mas que estabeleceram mal ou bem as bases de um modelo civilizador que tem oscilado entre duas posições: a da anulação da diferença e a da articulação criativa. A aplanação da diversidade e a afirmação unidimensional do modelo científico é uma possível deriva, que faz da ciência e da tecnologia um modelo unilinear e homogêneo, que anula a possibilidade de proliferação de outros mundos que não são apoiados por seus princípios. Por outro lado, outra deriva, talvez mais subterrânea, tem sido a reivindicação da diversidade de modos de evidência, racionalidade e vida, sua complementaridade e articulação, o que constitui uma vertente emancipatória do projeto moderno.

Esta última posição tem permitido que as racionalidades não científicas sobrevivam e se adaptem às sociedades modernas, mediadas por contextos nacionais específicos, relações complexas entre classes sociais, etnia e gênero. Diversas práticas como o culto aos santos, o curanderismo, o cristianismo pentecostal, a espiritualidade do estilo New Age, as terapias alternativas e as sócio-cosmologias afro e indígena formam um horizonte heterogêneo onde os modos de vida podem ser encontrados onde a relação humana e mais do que humano é central.  Em uma sociedade verdadeiramente democrática, todos esses outros mundos crescem e se reproduzem ao lado e em uma “conexão parcial” com o conhecimento científico, fazendo da multiplicidade, a diversidade e a complementaridade um fato recorrente.

As ciências sociais, e sobretudo a antropologia, têm desempenhado um papel central neste movimento. Armada de ferramentas como a ideia de diversidade, o relativismo cultural e a defesa das minorias, a antropologia foi tanto uma ferramenta de conhecimento dessas “outras racionalidades” quanto uma fábrica epistemológica de argumentos para fazer desse conhecimento a base da ação política pela diferença, a singularidade e minoridade.  Insistamos nisto, não é verdade que o recurso do relativismo como veículo de conhecimento esteja fora das mãos de um relativismo moral e político, mas o oposto é verdadeiro. Ao longo do século XX, muitos dos movimentos pela reivindicação de morais e políticas alternativas foram inspirados por alguma parte desse conhecimento de “alteridade”.

Até aqui é a história dos últimos 150 anos das sociedades ocidentais, onde à sombra dos modelos de homogeneização científica secular, coexistiram – muitas vezes perseguidas, estigmatizadas e ridicularizadas – práticas e modos de vida que não se sustentam na racionalidade da evidência científica oficial. No entanto, o cenário parece estar mudando. Nas últimas décadas, uma zona fundamentalista das sociedades ocidentais reagiu contra os processos de democratização mais geral da vida. A emergência de um processo de re-hierarquização social ocupa uma zona influente das elites econômicas, sociais e culturais como não acontecia há décadas, o que as leva a abandonar boa parte de seu projeto liberal e iluminado de democratização. Um projeto que, embora imperfeito, pelo menos permaneceu ideologicamente e discursivamente um ideal. Os exemplos das eleições democráticas de Trump, Bolsonaro e a exibição pública dos ultra-direitas europeus são apenas uma emergência de um “senso comum” que parece estar se aproximando cada vez mais do polo da afirmação sem vergonha do individualismo mais reacionário. O campo religioso não tem sido alheio a este processo, as chamadas religiões mundiais como o cristianismo católico e protestante, mas também o islamismo e o judaísmo, têm em suas fileiras movimentos fundamentalistas com novas intervenções no espaço público que reivindicam princípios de liberdade e autonomia apenas em uma retórica vitimizante, o que contrasta com as políticas de rejeição de qualquer incorporação de “diferença” que eles realmente apoiam.

Tanto as direitas políticas quanto os fundamentalismos religiosos, mas surpreendentemente também muitos discursos anti-sistema (incluindo práticas alternativas de formas de vida) exibem no espaço público uma desconfiança em relação às instituições que têm uma forte visibilidade. Recuperando a crítica contra-cultural da segunda parte do século XX, as novas posições anti-sistema apontam por direita e por esquerda para políticos e cientistas, que são o alvo por excelência do fracasso da tecno-política contemporânea.

Simultaneamente, o crescimento das mediações tecnológicas e a democratização da informação produziram modos de circulação de dados que des-hierarquizam a autoridade de instituições que até recentemente ainda eram legítimas, tais como a política, a ciência ou mesmo instituições religiosas. Hoje tudo está sendo posto em questão e é difícil fornecer uma base para evidências em um mar de dados que se movem a um tweet por segundo.

Esta implantação não é apenas ideológica, ou seja, não se afirma apenas em sistemas consistentes, mas é acima de tudo um campo de sentidos, de práticas e de critérios alternativos de evidência que se estendem sobre o senso comum. Durante a quarentena da COVID 19, conversas informais, comentários ao passar, postagens, e-mails e chats proliferam ao nosso redor que não são de ativistas convencidos, mas de um espaço social que passa por nós. Uma das mais marcantes é a desconfiança da ciência autorizada, que olha com receio para a OMS, para os médicos que recomendam a ASPO, para o uso de máscaras ou para os laboratórios que trabalham com a vacina. A desconfiança varia. Esses grupos podem suspeitar que o vírus é falso, assumir sua realidade mas afirmar que é exagerado, acusar Bill Gates ou “os políticos” de tudo, alegar que a cloroquina é o remédio e os laboratórios estão mantendo segredo para ganhar dinheiro, ou alegar que os testes de vacina serão um experimento prejudicial para os seres humanos. Tal desconfiança só raramente é inspirada por uma lógica estritamente religiosa, o que não quer dizer que não possa aparecer em algum tipo de ideia apocalíptica sobre a origem da pandemia ou em práticas mágicas sobre cura. A desconfiança na ciência oficial não é a vingança da religião, pelo contrário, é a crise das instituições incluindo a religião.

É possível que a desconfiança da ciência tenha algo a ver com diferentes dobras culturais, uma combinação de antigas racionalidades mágicas, em geral mais minoritárias, ou atualizadas por fenômenos mais massivos como o Pentecostalismo, o catolicismo carismático e, particularmente, os modos de vida holísticos. Da mesma forma, e acima de tudo, posições estritamente seculares, por vezes apenas semelhantes ao holismo contemporâneo, que reivindicam uma “ciência alternativa”, são centrais.

Sem dúvida estas configurações são exacerbadas por uma situação de crise, mas ao contrário da persistência da irracionalidade, as posições que parecem ser mais massivas (aquelas inspiradas por estilos de vida holísticos e aquelas que reivindicam uma “ciência alternativa”) são modos de intervenção que nos dizem algo sobre o secularismo avançado. Afinal, quando se faz uma pequena pesquisa sobre suas razões, há sempre alguma “evidência” de especialistas anti-sistema, “médicos nobres” ou “virologistas rejeitados pela OMS” que revelam a “verdade”, geralmente especialistas que pensam mais no fortalecimento do sistema imunológico do que em patógenos ou no ambiente ecológico de Gaia do que na OMS e em seu “sistema de vacinação indiscriminado”.

Em suas versões mais extremas, o que reúne estas posições, sejam elas religiosas no sentido estrito, holísticas ou estritamente seculares, é assumir teorias conspiratórias sobre agentes externos, planos maquiavélicos e populações enganadas que devem “acordar”, como descrito por exemplo por Luc Boltanski em seu livro Enigmas y Complots. Ao contrário das clássicas racionalidades complementares, que estavam parcialmente ligadas a uma pluralidade de racionalidades simultâneas, este tipo de intervenção faz da rejeição de provas oficiais uma marca de identidade e uma forma de se apresentar no espaço público.

Neste contexto, qual é o lugar das ciências sociais, especialmente aquelas que aderiram a um projeto preocupado com a pluralidade de racionalidades? Culpar-se a si mesmas por estarem associadas à cumplicidade com os novos fundamentalismos epistêmicos? Continuar insistindo cegamente em uma agenda de “boas” racionalidades e fechar os olhos para as derivas neoconservadoras contemporâneas? Renunciar a um princípio de simetria epistemológica geral e ser “críticas” àqueles de quem não gostamos?

Estudos sociais de crença e democracia

As ciências sociais que se preocupam desde o início com modos diferenciais de construção de crenças, alteridade e diversidade possuem ferramentas cruciais para a compreensão deste tipo de processos. Contra a ideia de que as ciências sociais não têm muito a dizer e que os recursos da antropologia são inúteis neste tipo de casos, pois seria apenas um relativismo ingênuo e, em sua pior versão, um relativismo moral perigoso, insistimos que a radicalização da lógica negacionista como uma lógica diferencial à nossa, nos permite reconhecer um processo que de outra forma se liberta para explicações como estupidez, irracionalidade ou fatores externos às próprias pessoas, sua função social, sua replicação de processos gerais como o neoliberalismo. Sem negar que eles podem ter funções específicas e que esses macro fenômenos existem, tentar entender os negacionismos em seus próprios termos deveria nos permitir conceber suas condições de proliferação, de eficácia social e, portanto, agir politicamente de forma menos ingênua e reativa, e mais de acordo com um Outro que deve ser interpelado. Os estudos sociais sobre crenças religiosas realizados por pesquisadores locais desde meados da década de 1980 têm muitas ferramentas para refletir sobre isso. Para quem não entra neste campo, talvez muito especifico, e prefere exemplos menos distantes de seu horizonte cultural secular, os trabalhos de Emilio de Ipola sobre o status de crença, especialmente seu ensaio O Câncer e a Crotoxina en Buenos Aires sobre o movimento de desconfiança na ciência oficial e o apoio ao tratamento alternativo do câncer nos anos 80, ainda são um paradigma que tem sido pouco explorado nas ciências sociais locais.

Entre o negacionismo científico e o cientificismo crescente, que exacerbado pela dureza biológica da pandemia da COVID 19, poderíamos insistir em alguns pontos que podem nos ajudar a insistir no lugar significativo que a abordagem da construção social de crenças tem hoje como um campo específico das ciências sociais.

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que existe um clima que desvaloriza o conhecimento das ciências sociais dedicadas à análise das crenças em todos os níveis, desde o operador de mídia até o tweeter que desacredita nos pesquisadores porque seus temas são “irrelevantes” para o bem comum, como demonstrado pelo questionamento do trabalho de Soledad Quereillhac sobre o esoterismo e o conhecimento científico entre um século e outro, mesmo o pesquisador formado nas ciências duras que não entende por que diabos os sociólogos, antropólogos e historiadores estudam os modos de produção, circulação e uso dos saberes, religiões ou crenças. Também não negligenciaria os próprios cientistas sociais que, diante da pandemia da COVID 19, parecem desconfiar mais do que nunca do clima “relativista” ou “construtivista” de uma série de estudos contemporâneos sobre o status da crença, a eficácia, a evidência e a confiança.

Em segundo lugar, devemos insistir que o relativismo epistemológico não é relativismo político. O exercício da simetria é um exercício cognitivo, não um que implique a simpatia ou a justificação moral do outro, seja ele qual for. A antropologia tem que romper com esta romantização do Outro, que muitas vezes é implícita, e em outros momentos explícita. Nossos compromissos políticos podem se distanciar do relativismo, se eles o fizeram em boa parte da defesa da diversidade, não precisam necessariamente continuar fazendo isso. Talvez possamos ser menos ingênuos nesta relação, mas isto não implica renunciar ao projeto de relativismo cognitivo, que é um veículo de conhecimento e não um compromisso exclusivamente ético com o Outro, como o antropólogo Talal Asad aponta de forma paradigmática para a disciplina em seu famoso ensaio O conceito de tradução cultural na antropologia social britânica. Uma antropologia de crenças, ou talvez de conhecimentos e modos de vida, daqueles de quem não gostamos é necessária, cada vez mais necessária. Talvez neste momento, a necessidade de um olhar próximo, detalhado e sincero sobre os princípios e modos de crença “não-empáticos” abra um novo dilema epistemológico que vem sendo discutido há décadas, mas que adquire agora uma relevância inusitada.

Finalmente, resta apenas mencionar algo em relação ao conceito de crença como um recurso analítico. É bom lembrar que toda a vida social contemporânea é construída sobre a “crença”. Crença no Estado, no dinheiro, no amor. A ideia é muito antiga, pelo menos desde o final do século XIX já se dizia que sem essas crenças não haveria sociedade. Se levarmos as críticas de crença ao máximo, devemos descartar, apenas para começar, todas as religiões, então seguir pelos sistemas de confiança monetária e, finalmente, pela mesma democracia participativa, a liberdade e o indivíduo. Todos esses sistemas são regimes de confiança. É necessário qualificar a crítica ingênua da chamada “pós-verdade” ou das “fake news” como se fossem uma espécie de manipulação de idiotas, pessoas ignorantes ou, como dizem alguns psicólogos e cientistas políticos, pessoas com “preconceitos cognitivos”. Em qualquer caso, a disputa não deveria basear-se apenas em negá-los (mesmo quando muitos deles se baseiam em ações deliberadas de má fé, seus efeitos sociais não podem ser reduzidos a isso), mas em mostrar suas condições de eficácia, e perguntar o que estamos fazendo de errado, que os modelos que esperamos que sejam social e coletivamente acordados como válidos não são. Isto poderia nos levar a justificar a ciência, mas de um lugar menos grandiloquente, mais humilde e cotidiano. Entender o funcionamento dos regimes de confiança, evidência e eficiência que geralmente são chamadas de crenças, depende não só da vida humana, mas também da possibilidade de construirmos outro tipo de sociedade democrática nos próximos anos.

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[1] Nota de tradução: o dia 17 de agosto, em diferentes pontos da Argentina, diferentes setores se manifestaram em contra da quarentena pela pandemia e em contra do governo nacional. 

Nicolas Viotti é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Sociólogo pela Facultad de Ciencias Sociales (Universidad de Buenos Aires) e pesquisador do CONICET.

As imagens são da publicação original

Uma ciência plural é possível?

Uma ciência plural é possível?

By admin in Novidades on setembro 16, 2020

A questão da ética na pesquisa em educação desde uma perspectiva (cosmo)política

O dia 1 de setembro, a professora, pesquisadora e integrante do nosso grupo de pesquisa, Isabel Carvalho, fez uma aula inaugural no Programa de Pós- Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A aula foi intitulada “Uma ciência plural é possível? A questão da ética na pesquisa em educação desde uma perspectiva (cosmo)política”.

Para isso, Carvalho fez um recorrido do contexto mundial e do contexto nacional respeito à pandemia gerada pela COVID-19 onde discursos de negacionismo e descrença da ciência ganharam muita relevância. Tendo em vista isso, convidou aos/às ouvintes a pensar ciência, ética e política a partir de duas autoras: Donna Haraway e Isabelle Stengers. Disponibilizamos aqui o link do vídeo para quem tiver interesse. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A vida e a morte entre gestar e respirar: mortalidade materna por covid-19

A vida e a morte entre gestar e respirar: mortalidade materna por covid-19

By admin in Novidades, Publicações on setembro 15, 2020

Por Giorgia Carolina do Nascimento 

O surgimento de um velho problema

Um novo vírus, de alta letalidade entre humanos, se espalha ao redor do globo e faz com que seus habitantes percebam como respirar é prioritário na manutenção de suas vidas. Nessa realidade em que sabemos não ser ficcional, uma nova organização política e sanitária passa a delinear o que poderia ser entendido como “essencial”.  Serviços como os oferecidos em bares, restaurantes ou salões de beleza não eram considerados “essenciais”, assim como a renovação de receitas de contraceptivo em muitas unidades de saúde; ou também a presença de acompanhante durante o trabalho de parto, tendo a negativa como conduta adotada em hospitais pelo Brasil. O que poderia, assim, ser considerado tão importante e inalienável quanto respirar? 

Tanto em discussões acadêmicas, como em diretrizes municipais ou na ponta dos serviços, profissionais da saúde têm disputado narrativas sobre o que seria considerado um “serviço essencial”. Em decorrência das tensões e mudanças no Ministério da Saúde, que desde o dia 15 de maio conta com um ministro interino, em cada município as unidades têm agido de maneiras diversas no que diz respeito ao atendimento às gestantes, parturientes e puérperas. Isso porquê, apenas seis meses após o surto se iniciar no país, é que passa a existir um protocolo de atuação, com as diretrizes divulgadas no Manual de Recomendações para a Assistência da Gestante e Puérpera em setembro.

Ao observar, assim, um panorama em que os direitos sexuais e reprodutivos passam a ser flexibilizados – bem como ocorre com outros direitos de minorias em contextos de crise – aparece uma elevação no número mortes maternas. Haja vista também que a redução da mortalidade materna foi o único objetivo do milênio a não ser cumprido até 2015, não é de se surpreender que ela apareça como uma das consequências do contexto gerado pela pandemia, catalisadora de desigualdades sociais já existentes.

A “vulnerabilidade” entre corpos que gestam

 Enquanto direito da gestante, o oferecimento de uma assistência pré-natal considerada de qualidade é dever do estado. Contudo, aparece a ela como dever quando em políticas de educação e saúde a figura da mãe é desponta como uma espécie de “parceira” do estado. Meyer (2005) aponta como essa é uma das maneiras com que a biopolítica se faz por meio do controle e vigilância sobre corpos que gestam e parem, sob a égide do controle de natalidade. Ao passo em que esse fenômeno ocorre por meio da responsabilização contemporânea da maternidade, o mesmo estado que atribui deveres tem sido apontado como ineficiente em fornecer suporte para que eles se efetivem. 

A Gestante (Lasar Segall, 1920)

É assim que, neste período de pandemia do novo coronavírus (covid-19), o controle social em saúde tem apontado como uma debilidade nesse suporte tem se traduzido nos exorbitantes índices de mortalidade materna no país. Em uma publicação recente no International Journey of Ginecology and Obstetrics, com base em dados disponíveis pelo sistema SIVEP Gripe do Ministério da Saúde, pesquisadoras apontam que a taxa de mortalidade por covid-19 entre as gestantes brasileiras é de 12,7% (Takemoto et al, 2020). Até junho, em outros países, a taxa encontrada seria 3,5 vezes menor.

O estudo teve grande repercussão nacional e mobilizou A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) a lançar uma nota. Isso porque foi constatado como, dentre as mulheres que faleceram, 22% não foram internadas na UTI e 14% não tiveram suporte ventilatório. Apenas 64% foram entubadas e colocadas em ventilação mecânica.  Além disso, Takemoto et al (2020) ressaltam que falta de assistência, problemas do sistema de saúde, falta de insumos e recursos são todos barreiras de acesso. Ou seja, tais números, que mostram como essas mulheres já chegam em estado agravado no hospital, falam sobre as desigualdades que se escancaram com o contexto da pandemia.

A despeito das dificuldades em se coletar dados, seja pela falta deles, com a subnotificação, ou pelas questões implicadas em trabalhar com dados de baixa qualidade em decorrência de sua diminuta quantidade, ainda é possível por meio deles perceber parte do racismo estrutural sobre o qual se assenta o Brasil. Primeiro porque a baixa qualidade dos dados – devido à sua quantidade diminuída, ilustrando a dificuldade em se colher a informação raça/cor, que deveria constar em todas fichas de saúde, conforme previsto na Política Nacional de Saúde Integral da População Negra – representa um apagamento que, em si, é amostra das iniquidades raciais em saúde. Segundo porque, a despeito dessas implicações, os dados disponíveis também não deixam de corroborar essa realidade. 

Débora Santos et al (2020), quando comparam os índices de mortalidade materna entre mulheres negras e brancas devido ao COVID-19, constatam como a mortalidade entre mulheres negras foi quase duas vezes superior. Isso porque, a despeito de perfis semelhantes, de idade e morbidade, eram hospitalizadas em piores condições – por chegarem em estado mais agravado nos hospitais -, além da maior taxa de admissão na UTI, ventilação mecânica e óbito. Esses dados, ao contrário de apenas números, são representativos de processos que gestantes, parturientes e puérperas, especialmente as entendidas como “vulneráveis”, experienciam de maneira coletiva no país.

A asfixia já estava ali

No campo biomédico, a morte materna configura-se entre aquelas consideradas como “mortes evitáveis”. Tendo em vista que o ciclo gravídico-puerperal não é doença, mas um processo fisiológico, profissionais apontam que na maioria dos casos não haveria nada no campo biomédico, fisiológico, que as justificassem, a não ser a falta de atendimento adequado. Por isso, é considerada como um dos grandes indicadores de má qualidade dos serviços.  No Brasil, disparidades raciais no processo de atenção à gestação e ao parto são reflexo da atenção de pior qualidade recebida pelas mulheres negras (Leal et al, 2017) e mostram como experiências vividas por meio da raça, da classe e do gênero, além de constituírem-se mutuamente, se fazem também por meio da relação com os serviços de saúde.

Apesar de entendidas como “mortes evitáveis”, com o que autores como Almeida (2018) e Mbembe (2018) propõem, por meio de um olhar para a estrutura, busco refletir como esta realidade não expressa aspecto conjuntural e tampouco um fenômeno anormal, mas, ao contrário, a norma.  Dados como os apresentados, revelam algumas das desigualdades estruturantes de países colonizados como o Brasil e conformam suas relações, econômica, política e subjetivamente. Nessa relação, não apenas alguns corpos deixam de serem reconhecidos como sujeitos das políticas pelo estado, como este reuniria o direito de deixar viver uns em detrimento dos outros ou de fazer morrer em detrimento de algo maior, de um bem supostamente coletivo (Mbembe, 2018).

É deste modo que o advento da pandemia catalisa duas faces do parto enquanto evento não apenas biológico, mas político, no Brasil: a da biopolítica, com a responsabilização e o controle da natalidade, mas também a da necropolítica, especialmente com índices de mortalidade materna que assustam às autoridades e que assolam às famílias das vítimas. Especialmente no que se refere ao gerenciamento das populações pobres, negras e periféricas, sob a lógica da biopolítica, nos serviços ofertados à população há um modo de funcionamento que diz respeito à negligência e à precariedade. Ao fazer viver de modo precário, viver passa a ser sobreviver. No entanto, ser gestante no Brasil da pandemia não é apenas experienciar um tipo de atenção e de cuidado, ou da falta dele, em que se deixa morrer lentamente. Ao contrário, o que passa a aparecer é o advento da necropolítica. 

Table for goods. Grada Kilomba/Desobediências poéticas (2017)

A morte materna, em especial de mulheres entendidas como vulneráveis – periféricas, negras e também as indígenas – é expressão de um dos tentáculos desse fenômeno, em que guerra e morte revelam-se não como exceção, mas como parte constitutiva do estado e que se faz e se refaz todos os dias por meio da lógica colonial. As iniquidades raciais em saúde seriam, deste modo, amostra do projeto de política de morte estruturante das relações sobre as quais assenta-se a constituição de países colonizados e profundamente desiguais como o Brasil.

“No final, tudo nos traz de volta ao corpo”

Assim, é entre o par bio-necropolítica que se gesta e se pare precariamente e também se tem a respiração cessada prematuramente na pandemia do terceiro mundo. Pensando nisso, este último bloco tem como subtítulo parte da reflexão a que nos convida Mbembe (2020) em seu texto “O direito universal a respiração”. Nele, o filósofo apresenta a metáfora de que o mundo é um grande corpo que habitamos e, ainda, que as florestas seriam seus pulmões, os quais nos permitiriam a vida. Mas essa Terra, que é mãe, nos faz lembrar de que há ainda um corpo primeiro o qual habitamos antes de passarmos a este mundo. E é a este universo primário para o qual busquei chamar a atenção neste texto.

Este corpo, que não deixa de ser pautado por diferenças – de classe, raça, geração etc – que o inscreve como mais ou menos “vulnerável”, também se constitui pelo universo da saúde sexual e reprodutiva. No que se refere às gestantes indígenas, negras e periféricas, ocorre não apenas uma distribuição desigual da vulnerabilidade, em que se deixa e faz morrer àquela que faz viver,  mas, com isso, uma distribuição desigual do contato com o vírus, mostrando como também existe uma desigualdade colocada em termos de racismo ambiental, em que “respiração plena não é igual. O acesso à respiração segura do ar é um problema político e ético contemporâneo” (Chloe Asker, 2020).

Sem título (Ani Ganzala, 2020)

Especialmente diante da visibilização de pautas como “vidas negras importam”, findo aqui com a seguinte reflexão: Como imaginar e construir futuros em um presente em que este corpo primeiro, que gesta, é parte dos principais alvos desse vírus letal, que asfixia corpos já agonizantes? Mbembe propõe que, ao olhar para a respiração, talvez seja possível valorizar a vida entendendo-se não apenas enquanto espécie humana, mas como parte integrante da bioesfera. Se este for um projeto possível, pois que se comece, então, revertendo a morte do início.

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Imagem destacada: Mascarados, ou quase. (Ani Ganzala, 2020)

Referências:

ASKER, Chloe. (Mc) Mindfulness e as políticas da respiração. NUES, 25 de agosto de 2020. Disponível em: https://nues.com.br/mcmindfulness-e-as-politicas-da-respiracao/

FEBRASGO. Nota oficial de alerta às mortes maternas associadas a covid-19, 2020. Disponível em <https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1067-nota-oficial-de-alerta-as-mortes-maternas-associadas-a-covid-19>. Último acesso 10/09/2020.

LEAL, Maria do Carmo et al. A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil. Cad. Saúde Pública,  Rio de Janeiro ,  v. 33, 2017.   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102311X2017001305004&lng=en&nrm=iso>. Último acesso 11/09/2020. 

MBEMBE, Achille. O direito universal à respiração. Trad. Mariana Pinto dos Santos e Marta Lança, 2020. Disponível em < geledes.org.br/o-direito-universal-a-respiracao>. Último acesso: 10/09/2020. 

SANTOS, Débora de Souza et al. Disproportionate impact of COVID-19 among pregnant and postpartum Black Women in Brazil through structural racism lensClinical Infectious Diseases, 2020. 

SCHWANGERE [A Gestante]. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra1488/schwangere-a-gestante>. Acesso em: 12 de Set. 2020. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

TAKEMOTO, Maira Liberdad Soligo et al. The tragedy of COVID-19 in Brazil. Internationcal Journal of Gynecology Obstetrics, 2020.